23 de fevereiro de 2010

Um tratado sobre fotografia, sem nenhuma foto


Há algum tempo o Diário do Comércio, de São Paulo, me encomendou a seguinte resenha:
Um tratado sobre fotografia, sem nenhuma foto

A não ser pela capa, o livro “A fotografia entre documento e arte contemporânea”, do professor de Estética em Paris André Rouillé, um dos mais completos estudos sobre fotografia jamais escrito no mundo inteiro, lançado no Brasil pela Editora Senac São Paulo, se caracteriza por não ter, entre suas densas e rigorosas análises filosóficas, científicas, históricas e estéticas, a reprodução de nenhuma foto em suas quase 500 páginas.
Trata-se de uma excelente dissertação, quase diríamos uma detalhada dissecação, do que foi, do que veio a ser e do que se tornou a fotografia ao longo dos seus menos de dois séculos de existência. O autor descreve como, não só do ponto de vista histórico, como do ponto de vista lógico, a fotografia evoluiu ao longo do tempo, e ainda hoje evolui continuamente, de “documento” para “arte”. Mas o mais importante talvez seja o fato de que Rouillé distingue entre “a arte dos fotógrafos” e a “fotografia dos artistas”.
Vamos por partes. Inicialmente o autor distingue a fotografia em sua função de “documento” e sua função como “expressão”. Não só historicamente, mas também logicamente, a fotografia começa como documentação de algo. Ela registra um fato, uma pessoa, uma coisa, num determinado instante, num determinado local, e assim serve como documento jornalístico, histórico, científico, doméstico, familiar, policial, de identidade, etc.
No entanto, prossegue Rouillé, a foto como documento não é a coisa documentada. Podemos dizer que, num julgamento num tribunal, uma coisa é a prova fisicamente apresentada, outra coisa é uma sua fotografia. Essa distinção entre a foto como “documento” e a “coisa documentada”, abre caminho, tanto na história como na lógica, para a foto como documento se tornar uma “expressão”, não só da coisa documentada, como de quem a documenta. Isto é, a foto passa de ser uma “reprodução da realidade” para ser uma “visão da realidade”; com tudo que uma “visão” tem de subjetivo, em relação a uma “reprodução”. Com isso, a foto pode passar a uma “visão da desrealidade”. Nesse caso, a fotografia sofreu, e continua sofrendo, na palavra de Rouillé, uma “perda do elo com o mundo”. O próximo passo, evidentemente, histórico e lógico, é ela se transformar em “arte”, longe de sua origem como “documentação”.
A par dessa evolução que poderíamos chamar de “interna”, a fotografia sofreu também um ataque externo que a fez ir perdendo a função de “documento” para ganhar a de “expressão”, a caminho de transformar-se em “arte”. Assim como, de um lado, a fotografia, por sua maior fidelidade factual à coisa documentada, foi substituindo a pintura e o desenho como “registro” familiar, jornalístico, etc., e de outro lado ao mesmo tempo liberou e forçou a pintura e o desenho a encontrarem novas formas de criação, do mesmo modo outros avanços técnicos, como o cinema, o cinema falado e a televisão sonorizada permitiram uma “documentação” de mais perfeita fidelidade factual à coisa documentada, permitindo – e forçando – que a fotografia também, como a pintura e o desenho, passasse igualmente a “expressar o inexpressável”, por sua plena transformação em “arte”.
Aqui se destacam dois passos distintos, tanto histórica como logicamente. Num primeiro passo, o fotógrafo, além de usar os recursos técnicos de sua máquina, passa também a usar os seus recursos artísticos, como a maior ou menor luminosidade, a maior ou menor fidelidade às tonalidades das cores “originais”, a maior ou menor “distorção”, a maior ou menor “arrumação” do objeto, para mais bem “documentar” a coisa em questão. Trata-se da “arte dos fotógrafos”.
O segundo e, até agora, o último passo histórico – mas não o último passo lógico, ainda indefinido – é a “fotografia dos artistas”. Nesse caso, já não se trata de usar recursos artísticos para mais bem documentar alguma coisa em questão, sim de criar arte só arte, arte pela arte. Assim passamos, por exemplo, da foto de formatura, para uma foto que é só um conjunto de luminosidades, volumes e formas, como retrata a capa do livro.

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