16 de junho de 2013

Irã teria decidido enviar 4 mil soldados à Síria para defender o governo de Assad

Segundo artigo no jornal inglês The Independent on Sunday de 16 de junho, reproduzido em http://www.informationclearinghouse.info/article35298.htm, em inglês, de autoria de Robert Fisk, um dos mais respeitados correspondentes no Oriente Médio, o governo do Irã decidiu enviar 4 mil soldados da Guarda Revolucionária à Síria, para defender o governo de Assad. Fisk assinala também que se criou uma situação particularmente perigosa: pela primeira vez na história, todos os aliados muçulmanos dos Estados Unidos na região são sunitas e todos os adversários dos americanos são xiitas.

Aberto acesso a dados de paraísos fiscais

Em http://offshoreleaks.icij.org/, em inglês, o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos, de sigla em inglês Icij, apresenta um banco de dados interativos com informações sobre investimentos secretos de 100 mil pessoas jurídicas e físicas em dez paraísos fiscais do mundo inteiro, cobrindo o período de 1980 a 2010. O Consórcio explica que o simples fato de existir um investimento desses não significa que seja ilegal ou irregular; apenas esse fato deve servir de ponto de partida para investigações. Participaram das pesquisas 112 jornalistas de 58 países, mas nenhum do Brasil.

15 de junho de 2013

Bilionário chinês ganha na Nicaraguá concessão para construir canal rival ao do Panamá

Segundo nota da agência Associated Press, reproduzida em http://www.newsobserver.com/2013/06/13/2961322/nicaragua-approving-massive-canal.html, em inglês, o bilionário chinês Wang Jing ganhou do governo da Nicarágua concessão para projetar e construir através do país um canal entre os Oceanos Atlântico e Pacífico, para rivalizar com o vizinho Canal do Panamá. Entretanto, a empresa chinesa vai primeiramente fazer um estudo de viabilidade econômica do novo canal e, se o resultado do estudo for negativo, ela não será obrigada a abrir o canal.

14 de junho de 2013

O outro lado do milagre chinês

Resenha para a revista Retrato do Brasil - As maiores migrações da história da humanidade, na China contemporânea - Renato Pompeu - “Areia dispersa”, assim são conhecidos na China os 200 milhões de camponeses desorganizados que, a cada ano, deixam o seu município em busca de melhores condições de vida, o que na esmagadora maioria dos casos não conseguem. Literalmente escorraçados de seus lares e terras de cultivo por causa da estagnação da economia, ou de ações malévolas de autoridades corruptas, que abrem caminho para outorgar terras a grandes empresas, alguns dos mais afortunados conseguem emprego em minas subterrâneas, onde fazem trabalhos extenuantes por menos de um real por dia; outros, na Província de Henan, vendem seu sangue até três vezes por dia para clínicas, hospitais e bancos de sangue. A grande maioria se amontoa em barracos miseráveis na periferia das grandes cidades, fora das vistas da população urbana que está inserida no dinamismo estonteante do chamado milagre econômico chinês. Dos que trabalham nas minas, 3 mil morrem por ano em deslizamentos e soterramentos, a única ocasião em que a grande mídia se dá conta de sua existência. Deles, 130 milhões mudam não somente de município, mas deixam também sua província natal, e centenas de milhares saíram do país, dos quais 55 mil moram, por exemplo, em Moscou, igualmente em barracos miseráveis. A saga dessas migrações em massa, as maiores da história da espécie humana, é relatada no livro “Scattered Sand – The History of China’s Rural Migrants” (“Areia dispersa – a história dos migrantes rurais da China”), lançado em inglês, em agosto último, em Londres e Nova York, pela Verso. A autora, Hsiao-Hung Pai, é uma jornalista nascida em Taiwan em 1968, mas que se radicou na Grã-Bretanha desde 1991. Como ela descende de uma família que fugiu da China Comunista, talvez se pudesse alegar que seu livro é produto de um reacionarismo ressentido. No entanto, o livro foi editado pela Verso, uma editora que publica somente livros de autores esquerdistas, na quase totalidade marxistas. Essa jornalista colabora no jornal progressista inglês “The Guardian”, uma voz dissonante do coro dos contentes do pensamento único neoliberal. Ela é autora de um livro anterior, que resultou no filme “Fantasmas”, de 2006, disponível nas locadoras brasileiras e que relata a vida dos “trabalhadores fantasmas”, isto é, sem registro, nem contrato. Esses 200 milhões de migrantes constituem um terço da população economicamente ativa da China, mas ganham no máximo metade do salário mais baixo entre os trabalhadores regularmente registrados no país. Não têm acesso à saúde pública, ou a qualquer tipo de sistema de saúde, e também seus filhos não têm nenhum acesso à educação. As mineradoras, indústrias e construtoras em que trabalham não os contratam formalmente, não garantem nada em termos de condições de segurança do trabalho, e muitas vezes, a certa altura, deixam de pagar os próprios salários desses trabalhadores não-registrados. Não apenas o confisco de suas terras para serem outorgadas a grandes empresas os leva a abandonar seus municípios, mesmo suas províncias e até o seu país. Um dos grandes problemas é a inexistência de saúde pública no campo. Para pagar os caros serviços médicos privados prestados a eles ou a seus parentes, os camponeses têm de migrar em busca de trabalhos que lhes rendam mais dinheiro do que nos precários serviços que podem encontrar nas suas aldeias originais. Nas cidades, não são considerados cidadãos, pois apenas gozam da cidadania os que contam com registro de residência urbana. Os camponeses, mesmo migrados para as cidades, continuam tendo registro de residência rural, que não garante tantos direitos quanto o registro de residência urbana. Talvez um dos lados piores da situação desses migrantes é que eles não contam com nenhuma simpatia das autoridades ou das classes médias urbanas, que os encaram como gente ignorante e incompetente, incapaz de garantir a sua própria sobrevivência, e que enfeia a paisagem das cidades – isso nos raros casos em que as autoridades ou as pessoas das classes médias tomam conhecimento de sua existência.

13 de junho de 2013

Os livros que Marx lia

Resenha encomendada pela revista Retrato do Brasil - As leituras de Karl Marx - Renato Pompeu - Poucos anos antes de 1840, o mundo perdeu um pouco original e pouco inspirado poeta romântico, para ganhar em pouco tempo um grande jornalista e, a médio prazo, aquele que grande parte dos especialistas considera o maior pensador que a humanidade jamais produziu. Esse mau poeta, esse grande jornalista e esse insigne pensador eram uma pessoa só: Karl Heinrich Marx (1818-1883), filho de um culto judeu alemão adepto do Iluminismo; seu pai era um dos poucos de sua linhagem e sobrenome que não foi rabino, pois se converteu ao luteranismo para poder trabalhar como advogado.. Graças a Napoleão, os judeus da Renânia tinham sido equiparados aos demais cidadãos, mas quando a Prússia retomou a região os judeus renanos, para continuarem emancipados, tiveram de abandonar sua religião, o que o pai fez imediatamente. O menino Karl, porém, só se converteu ao luteranismo aos seis anos de idade, quando seus avós maternos já tinham morrido e sua mãe consentiu afinal em converter-se ao luteranismo. O menino cresceu com uma dúvida na cabeça – afinal não se passa impunemente, em tão tenra idade, de uma ortodoxia para outra – e com muitos livros na mão, a ele proporcionados pelo pai erudito e por um vizinho da idade de seu pai, um barão de antiga estirpe alemã que mais tarde se tornaria seu sogro. O pai o introduziu à leitura dos iluministas franceses e dos poetas e romancistas clássicos alemães. O vizinho nobre o iniciou nas leituras de clássicos gregos e latinos e, principalmente, de Shakespeare, do qual sabia de cor peças inteiras. O menino pegou o gosto pela leitura, e se tornou seguramente o ser humano que mais leu em toda a história. É isso que se depreende da leitura do livro “Karl Marx and World Literature”, do erudito alemão S.S. Prawer (nascido em 1925), que, fugindo ao nazismo, se radicou desde os anos 1930 na Inglaterra, relançado este ano pela editora Verso em Londres e Nova York (o original é de 1976). Note-se que “literatura mundial” foi um conceito, oriundo de Goethe, introduzido por Marx no “Manifesto Comunista”, quando menciona que, em paralelo à mundialização da economia, “das antigas literaturas nacionais surge uma literatura mundial”. E se note também que Prawer se está referindo mais diretamente ao que se chama de literatura criativa ou beletrística, ou seja, a poemas, romances, contos e peças. Se bem que ele cita também obras científicas e filosóficas, o livro se preocupa mais com a maneira pela qual a alta literatura, e até a literatura mais popular, influenciaram Marx e suas descobertas. Um adversário político como o anarquista russo Bakunin reconheceu que “poucos homens leram tanto, e, pode ser acrescentado, leram tão inteligentemente quanto o sr. Marx”. E Prawer é considerado pelos especialistas no assunto, em toda a Europa Ocidental, simplesmente o homem que mais estudou os livros lidos e citados por Marx, dos quais menciona em seu livro perto de 800 autores. Influenciado pela leitura intensa, constante e meticulosa de literatura criativa, até os 19 anos, Marx pretendia ser poeta e escreveu versos como os seguintes: Talvez penses, poeta, que não posso alcançar A batalha em tua alma, a luz dentro de teu peito, As imagens que aspiram a se elevar? Elas brilham, puras como o reino das estrelas; Flamejam, como um dilúvio ardente, Apontam para uma vida mais elevada Em suma, como nota Prawer, nada original em relação ao romantismo alemão da época, mas de qualquer modo os poemas desta fase de Marx respiram intensas leituras de grandes autores alemães, como Schiller, Goethe, e de uma multidão de poetas menores que usavam as mesmas imagens para os mesmos temas; os poemas de Marx evidenciam ainda uma bagagem crítica enriquecida por leituras de Hegel e outros grandes e pequenos conhecedores de estética. Marx, no entanto, se media pelos padrões do dramaturgo grego Ésquilo – de que admirou particularmente as peças sobre o herói Prometeu – e de Goethe; viu aos 19 anos que jamais chegaria a essas alturas como poeta e saiu em busca, como dizem os ingleses, de pastagens mais verdes. Inspirou-se nas leituras dos grandes romances ingleses do século 18, como “A Vida e as Opiniões de Tristram Shandy, Gentilhomem”, de Laurence Sterne – um dos modelos de nosso Machado de Assis nas suas melhores obras - e começou a escrever ficção em prosa – como, porém, seu padrão era o “Dom Quixote”, e Marx não chegou nem perto disso, desistiu do romance e tentou o teatro, novamente sem êxito. A essa altura, embora continuasse lendo até o fim da vida poesia, ficção e teatro, e usando essas leituras em seus textos, ele tentou a filosofia, que, a par de história e direito, era afinal o que ele estudava na universidade, em Bonn e em Berlim. Foi conquistado pelos filósofos realistas gregos antigos Demócrito e Epicuro, sobre os quais escreveu sua tese de doutorado e que julgavam que os deuses, se existiam, não se ocupavam dos destinos dos seres humanos, destinos que eram frutos de escolhas e decisões dos próprios seres humanos. Além disso, os fenômenos da natureza, para Demócrito e Epicuro, se explicavam também por razões meramente naturais e não implicavam intervenções divinas para se efetuarem e também para serem entendidos. Aqui há um ponto particularmente significativo. Marx ficou seduzido pela maneira simples e clara com que Epicuro se ocupou do problema da morte, tão esmagador para praticamente a totalidade das pessoas, sendo um tema central de todas as religiões e de quase todas as filosofias. Epicuro estabeleceu que a morte simplesmente não é um problema, pois, quando existimos, ela não existe; quando ela existe, nós não existimos e não podemos ser afetados por ela. Livre assim do peso da morte, o espírito de Marx se voltou para a vida. E não para a vida individualista das grandes almas de seus primeiros ideais românticos, mas para a vida concreta conceituada por Epicuro, com sua feiura a ser embelezada por feitos como o de Prometeu, castigado pelos deuses por ter dado o fogo aos seres humanos, e assim melhorado a vida destes. Ainda mais agudos se tornaram esse encontro com a vida e esse desejo de, como Prometeu, servir à humanidade, quando, findos os estudos universitários e, querendo casar, Marx afinal resolveu trabalhar e, não tendo sido aprovado como professor universitário, por suas opiniões heterodoxas sobre religião, e tendo verificado, até mesmo pelas reações de sua própria família, e até de sua própria noiva, que não tinha vocação para poeta, ficcionista ou autor de teatro, no exato momento em que filosoficamente Marx dera as costas à morte e se voltou para a vida, ele foi ser jornalista, em 1842, aos 24 anos. Ao deparar com uma notícia em que proprietários de terras se queixavam de que camponeses estavam roubando madeira e lenha de suas árvores, Marx sem dúvida se lembrou de seus próprios arroubos românticos quando se pôs ao lado dos pobres “ladrões”: “Com uma noção nebulosa de vossa excelência pessoal, poeticamente enamorados de vós mesmos, vós ofereceis àqueles que se relacionam convosco o vosso caráter individual contra as vossas leis. Devo confessar que não partilho desta noção romanesca sobre o que é um dono de floresta”. Como mostra esse trecho que escreveu num artigo para a “Gazeta Renana”, ao abandonar o idealismo na filosofia e o individualismo na arte, Marx dera um passo decisivo em favor do ideal prometeico de desafiar os deuses ou os poderosos – principalmente desmascarando as ideias que estes fazem de si próprios –, para servir aos humanos. Enveredando pelo jornalismo crítico, Marx enveredou também pela defesa das maiorias oprimidas contra as minorias opressoras, caminho que o levaria a se tornar sucessivamente um tribuno do povo, um democrata radical, e enfim um comunista, isto é, um partidário de que os bens desta terra fossem de propriedade pública (não estatal; por exemplo, ele era contra o ensino em escolas estatais, pois ensinariam a doutrina encarnada no Estado vigente; era a favor de escolas públicas que fossem controladas não pelo Estado, mas pela sociedade). Seu primeiro artigo, sintomaticamente, foi sobre as leis prussianas a respeito da censura à imprensa, inspirado sem dúvida por uma frase de Voltaire que o pai de Marx repetia incansavelmente para seu filho; “Não concordo com uma só palavra do que dizeis, mas lutarei até a morte pelo vosso direito de dizê-lo”. Evidentemente, o artigo foi censurado na Prússia e acabou sendo publicado, na íntegra, na já então democrática Suíça. Paralelamente à sua carreira jornalística, prematuramente encerrada como carreira profissional de diretor de jornal por sua participação em movimentos políticos radicais, mas continuada até o fim de sua vida como carreira intelectual, por inumeráveis artigos como colaborador em diferentes publicações, principalmente americanas, Marx, já deixados muito longe os sonhos de literatura criativa, voltou-se para a não ficção, escritos filosóficos, estéticos, históricos, políticos e, mais tarde, econômicos. Mas Marx continuou sendo um leitor voraz e a aproveitar tudo que lia para melhorar e ilustrar o que escrevia. Prawer vai mostrando como as leituras de Marx despertaram no espírito do jovem jornalista algumas de suas ideias fundamentais como grande pensador. Por exemplo, a ideia de que os seres humanos não sabem o que realmente fazem, mas se iludem quanto a seus próprios propósitos e quanto ao resultado efetivo de suas ações – ideia que está na origem de seus conceitos de alienação, ideologia e falsa consciência –,, Marx colheu em parte, diz Prawer, de suas leituras de grandes romances e grandes peças de teatro a respeito de quiproquós e de comédias de erros, e de autoenganos, especialmente de personagens que afetavam grande ideia de si mesmos, mas que aos olhos dos espectadores e dos leitores apareciam como grotescos e ridículos. Do mesmo modo, e sempre de acordo com Prawer, a primeira centelha do conceito do fetichismo da mercadoria surgiu no cérebro de Marx durante a leitura de um livro do nobre francês do século 18 Charles Debrosses (também grafado Des Brosses), amigo dos iluministas, que examinou as crenças dos habitantes da África Ocidental segundo as quais certos objetos gozavam de propriedades sobrenaturais, a que Debrosses, a partir da palavra portuguesa “feitiço”, deu o nome de “deuses-fetiches”. Marx transportou o conceito de fetichismo para a mercadoria, ao mostrar que esta, simples resultado do trabalho humano – como os objetos produzidos pelos nativos da África Ocidental – aparecia – e continua aparecendo, talvez hoje mais do que nunca – como encarnando não se sabem quais maravilhas. (Mais tarde o conceito seria utilizado pelos profissionais do psiquismo se referindo ao desejo sexual por objetos não sexuais, como pés ou calcinhas). Nessa época também, impressionado, segundo Prawer, pela extrema desigualdade entre os seres humanos que ia descobrindo como jornalista, Marx passou a se inspirar em suas leituras sobre Diógenes, o filósofo grego antigo que andava pelas ruas e espaços públicos com uma lanterna na mão, alegando que estava à procura de alguém que fosse realmente “um ser humano” tal como era altivamente definido como obra suprema da Criação pelos demais filósofos da época, sem jamais encontrar alguém que se encaixasse em tão perfeita definição. Do mesmo modo, como no samba de Elzo Augusto, José Saccomani e Jorge Martins, imortalizado na voz do cantor Gilberto Alves, Marx saiu procurando “de lanterna na mão” seres humanos, mas não via seres humanos, via exploradores e explorados, pessoas que sabiam ser ferreiros ou criadores de porcos, ou serralheiros, mas não sabiam como ser propriamente seres humanos na plenitude da palavra. Ao contrário do que diz o samba, no entanto, Marx, jamais ficou na situação de “agora, jogar a lanterna fora” Como cada ser humano podia cumprir tudo que promete o seu potencial? Como poderia cada ser humano ser caçador de manhã, pescador à tarde e crítico literário à noite? Encarnando-se como Diógenes, procurando o ser humano plenamente humano, que nunca fosse usado como coisa que faz cobertores, ou que planta milho, ou que lava roupa para outro ser humano, Marx julgou tê-lo encontrado entre os trabalhadores, mas só se fossem liberados – e liberados, justamente, do trabalho, que para Marx, mais do que uma atividade nobre, era uma maldição. Ele estava à procura de seres humanos que tivessem as qualidades positivas dos trabalhadores – a de serem produtivos, mas que não fossem obrigados a produzir o que não queriam para pessoas de que não gostavam. Em seguida, diz Prawer, Marx, ao pôr-se a campo para conseguir, em sua denúncia contra um mundo desumano, a adequada descrição dos burgueses em particular e dos exploradores em geral, e dos sedutores que prometem mundos e fundos aos seres humanos para mais bem manipulá-los, recorreu às descrições de Shylock por Shakespeare – o agiota que exige um pedaço do corpo de um jovem como pagamento de uma dívida – e de Mefistófeles por Goethe, o diabo que compra a alma de um professor em troca de lhe propiciar poder, riqueza e uma vida feliz de eterna juventude. O livro de perto de 500 páginas altamente densas em informações e em conceitos não é passível de ser adequadamente sintetizado no espaço destinado a esse artigo. Basta dizer, para encerrar, que Prawer afirma, na conclusão: “O deleite de Marx com a literatura e sua ansiedade em fazer experiências literárias devem ser vistos como parte de seu empenho em conhecer as melhores coisas que foram pensadas e ditas no mundo.” E, mais adiante: “Quando Marx pensa na literatura, então, ele o faz num amplo contexto econômico, social, histórico. Quando pensa num autor particular, ou num corpo particular de composições literárias, ele o faz em relação a outros autores, outras composições, em muitas línguas.” No mundo já globalizado a partir de meados do século 19, não havia mais lugar, achava Marx, para unilateralismos nacionalistas ou para estreiteza mental, como ele diz no “Manifesto Comunista”. Marx consagrou definitivamente, também no “Manifesto”, o termo “literatura mundial”. A tal ponto que Prawer, com todo seu esforço, não pôde abarcar todo o universo vasculhado por Marx, pois seu livro é basicamente limitado a autores ocidentais, quando Marx leu tudo que estava traduzido das literaturas orientais para línguas ocidentais, e costumava citar, por exemplo, místicos muçulmanos.

12 de junho de 2013

As grandes entrevistas de um judeu português

Resenha para o Diário do Comércio de São Paulo - As grandes entrevistas do último jornalista a falar com Itzhak Rabin - Renato Pompeu - Um dos mais respeitados correspondentes internacionais da atualidade, particularmente entre os atuantes a respeito do conflito entre Israel e os árabes, o jornalista israelense Henrique Cymerman, 52 anos, nascido em Portugal e formado em Ciências Sociais em Tel Aviv, que colabora na BBC de Londres e no jornal “La Vanguardia”, de Barcelona e recebeu a comenda da Ordem do Infante Dom Henrique, a principal condecoração de seu país natal, apresenta no livro “Vozes no centro do mundo – o mais prestigiado correspondente mundial no conflito do Oriente Médio”, editado pela Prime-AlMedina, treze entrevistas com líderes políticos, tanto árabes como de Israel, como o primeiro-ministro israelense Binyamin Netanyahu (o livro grafa Benjamin) e o falecido dirigente palestino Yasser Arafat; onze entrevistas com pessoas importantes sem cargo político, como Omar Osama Bin Laden, filho do terrorista assassinado; sete entrevistas com líderes fundamentalistas islâmicos; duas entrevistas com espiões, o palestino Raed Zakarne, informante do serviço secreto de Israel, e o israelense Mordechai Vanunu, que divulgou segredos nucleares de seu país; oito com personalidades internacionais, como o americano Jimmy Carter e o espanhol Javier Solana Assim, são quatro dezenas de entrevistas que cobrem praticamente todos os aspectos e todas as diferentes posições em torno do conflito entre israelenses e árabes em geral e palestinos em particular, e o livro ainda conta com apresentações do ex-presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso e do atual presidente de Israel Shimon Peres. No espectro político desse conflito, o livro quase esgota o assunto, a não ser por não ter dado voz aos líderes fundamentalistas judaicos, já que deu a suas contrapartidas islamitas. De particular importância para o público brasileiro, cuja esmagadora maioria é a favor de um acordo entre Israel e um futuro Estado Palestino, são a entrevista com o então primeiro-ministro israelense Itzhak Rabin, concedida a 3 de novembro de 1995, na véspera do assassínio de Rabin por um extremista judeu contrário aos acordos de paz que o primeiro-ministro patrocinava, e a entrevista com o filho de Osama Bin Laden. Sobre a entrevista com Rabin, recorda o próprio Cymerman: “Quando se pensa na imagem de Ytzhak Rabin, o tímido major-general que na primeira Intifada em 1987 disse que (os soldados) ‘devem quebrar os ossos’ dos insurgentes palestinos e, seis anos mais tarde, alterou o curso da história na Casa Branca, quando, com grande hesitação, apertou a mão de seu arqui-inimigo, Yasser Arafat, não dá para deixar de perguntar o que teria acontecido se, na noite do dia 4 de novembro de 1995, seu assassino, Yigal Amir, tivesse errado o alvo. Uma das coisas mais difíceis para os israelenses aceitarem é o fato de que Yigal Amir até certo ponto teve sucesso em sua missão de suspender o estabelecimento de um Estado palestino e inflamar a região inteira”. Fato difícil de aceitar até para o próprio Cymerman, já que não foi “até certo ponto”, e sim “completamente”, que Amir conseguiu fechar o caminho para a paz que Rabin estava abrindo. Notadamente, disse Rabin na entrevista: “Devemos continuar cumprindo as obrigações que assumimos na Declaração de Princípios que assinamos em Washington e o Acordo do Cairo, e agora os novos acordos (de Oslo). O objetivo é implementar os acordos internos que permitirão que os palestinos estabeleçam um governo independente e implementar pontos adicionais para que eles possam governar e fazer eleições. Obviamente, nós persistiremos, e o principal obstáculo, talvez o único obstáculo, no caminho da implementação desses acordos é o terror instigado por aqueles que se opõem aos acordos assinados entre a OLP, representando os palestinos, e nós. O terrorismo é promovido por grupos islâmicos extremistas, o Hamas e a Jihad islâmica, grupos que afirmam e declaram especificamente que seu objetivo é frustrar o processo de paz”. No dia seguinte, como vimos, Rabin foi assassinado por um extremista israelense. Quanto a Omar Osama Bin Laden, que afirmou ter visto o pai pela última vez em 2000, portanto vários meses antes dos atentados de 11 de setembro de 2001, ele disse a Cymerman que em janeiro de 2009 enviados do presidente Bush “me disseram que eram da Casa Branca, que me levariam para lá, para me defender, me ajudar e me proteger, com a condição de que eu os ajudasse a encontrar meu pai. Disse-lhes que sentia muito, mas não me comporto dessa maneira. Ele é meu pai e eu sou seu filho e, em geral, um filho quer bem ao pai e o respeita. Ainda que muitas vezes, como pessoa, possa ser contrário às ideias do pai. (...) Como qualquer ser humano e, especialmente um ser humano na minha posição, não apoio a violência, os combates, os ataques e esse tipo de coisa. Apenas se ocorrerem por uma boa razão e com o consentimento dos grandes governos, e se estes estiverem buscando justiça, como ocorre na Líbia. Por exemplo, a ONU possui tropas e as usa em situações específicas para alcançar a paz. Em casos como esse, nesse tipo de circunstância, estou disposto a me envolver.” As mais de 400 páginas do livro de Cymerman são assim: a cada frase, uma revelação importante. Vale a pena ler o livro.

11 de junho de 2013

Erudições de Scorsese

Resenha para o Diário do Comércio de São Paulo - As eruditas conversas de Scorsese com Schickel - Renato Pompeu - Não é por acaso que o livro de entrevistas “Conversas com Scorsese”, lançado no Brasil pela Mostra-Cosac Naify um ano depois de sua publicação nos Estados Unidos, foi escrito pelo documentarista e crítico Richard Schickel, 78 anos, autor também de livros sobre outros grandes nomes do cinema americano, como Walt Disney, Harold Lloyd, Cary Grant, D.W. Griffith, Woody Allen e tantos outros. É que o diretor Martin Scorsese, 69 anos, é bem conhecido por seus filmes que retratam cruamente a brutal violência das ruas americanas. E Schickel, ao lado da famosa crítica Pauline Kael, fez parte de uma nova geração de críticos que nos anos 1960 soube registrar a importância cultural de filmes como “Bonnie e Clyde”, de Arthur Penn, atacados pela crítica moralista da época como extremamente violentos e mesmo estimuladores da brutalidade. Scorsese e Schickel são amigos há quarenta anos. As conversas que o livro registra desde então são, muito mais do que sobre a vida do diretor de “A última tentação de Cristo”, verdadeiros estudos eruditos sobre suas obras como diretor de longas de ficção e, bem menos, como documentarista. Merece algum destaque somente a infância de Scorsese em meio às gangues ítalo-americanas de Nova York, época em que ele sofria de asma e pelo menos por isso não participou de batalhas nas ruas – Scorsese afirma que testemunhou cenas muito mais violentas do que as de seus próprios filmes –, tendo logo se interessado pelo cinema. Os cinco casamentos de Scorsese, o relacionamento com suas filhas, as experiências com drogas e a influência de tudo isso em suas obras, recebem pouco ou mesmo nenhum espaço nas conversas. Estas parecem mais palestras e mesmo conferências, do que conversas mais descontraídas. Mas, além dos fãs específicos de Scorsese, os cinéfilos em geral saem de leitura do livro, ou de cada trecho, muito bem recompensados. Como se poderia esperar de um livro de entrevistas de um diretor a um documentarista, há muitas discussões técnicas, sobre, por exemplo, cortes, iluminação, cores, trilhas sonoras, roteiros. Mas o centro das conversas é a importância cultural de cada filme, entre eles “Caminhos perigosos”, “Alice não mora mais aqui”, “Taxi Driver”, “New York, New York”, “O último concerto de rock”, “Touro indomável”, “A cor do dinheiro”, “A última tentação de Cristo”, “Os bons companheiros”, “A época da inocência”, e tantos outros filmes famosos. A respeito de “Taxi Driver”, filme que transforma um taxista de Nova York num herói solitário, moralista e que faz justiça por suas próprias mãos – ecoando os mais famosos heróis do faroeste – Scorsese afirma: “Em ‘Taxi Driver’, quando Brian De Palma me deu o roteiro, vi nele minhas reações contra o mundo de que eu vinha, e do qual, de certa forma, queria me livrar. Não queria contar de onde eu vinha. O filme tinha uma raiva que eu via em meus avós. Com ‘Taxi Driver’, eu ia detonar com isso, para poder ficar ainda mais livre. Penso que a conexão imediata, quando li, foi com a raiva, a fúria e a solidão – não fazer parte de um grupo. Eu sempre fui marginal. Você cresce num bairro em que ‘homem’, entre aspas, é o sujeito que pode entrar numa sala, dar umas porradas nas pessoas e vencer, como num filme de Schwarzenegger. Mas, por outro lado, eu ouvia meu pai dizer coisas diferentes sobre o que é ser homem; tinha a ver com ser moralmente forte. Vindo disso, não sendo realmente capaz de brigar na rua do jeito que outros meninos brigavam, e tendo de manter tudo dentro de mim, meus sentimentos explodiram na tela com ‘Caminhos perigosos’. Depois, com ‘Taxi Driver’, nós realmente adotamos a ideia de não fazer parte do grupo, não fazer parte de nada”. Ao longo do livro, Scorsese discute seu prolongado e frutífero convívio com Harvey Keitel, Robert De Niro e Leonardo DiCaprio, de que resultaram tantos filmes, e as maiores influências que assimilou, como os diretores John Cassavetes e Roger Corman. Já sobre “A última tentação de Cristo”, filme baseado no romance homônimo do escritor grego Nikos Kazantzakis, em que Cristo é submetido a várias tentações, inclusive a de escapar do sofrimento de ser crucificado, especulando-se que, se Cristo cedesse à tentação, a humanidade não poderia se salvar, o crente Scorsese diz ao ateu Schickel: “Muitas vezes as pessoas pensam: eu vou à igreja no domingo e tudo bem. Sabem que Jesus sofreu, mas não se perguntam de fato para que foi o sofrimento. Fiquei incomodado quando ‘A Última Tentação” foi lançado e as pessoas diziam que era ofensivo à nossa fé. Eu nunca quis ofender a fé de ninguém. Se você tem fé, é uma coisa boa. Se você tem ou não tem fé, pessoalmente, é uma luta constante. Mas existe uma diferença entre fé e desenvolver algum tipo de caminho espiritual, uma grande diferença. Fé, um determinado tipo de fé, é uma coisa perigosa; pode levar ao assassinato”. Talvez uma das lições do livro seja a de que, de assassinato, Scorsese realmente entende.

10 de junho de 2013

As dores e as dores de Lima Barreto

Resenha para a revista Carta Capital - As dores e as dores de Lima Barreto - O livro “Lima Barreto: uma autobiografia literária” é a concretização de uma ideia brilhante de seu organizador, o pesquisador de literatura Antonio Arnoni Prado. São textos escolhidos e montados segundo uma lógica temática e estética, do grande escritor brasileiro Affonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922), imortal autor dos romances “Triste Fim de Policarpo Quaresma” e “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”. Sejam de ficção, de diários íntimos ou de cartas, os textos se leem como se constituíssem uma única obra coerente, em que Lima Barreto conta sua vida tão sofrida de mestiço filho de tipógrafo e que, dotado de alto talento e fecunda erudição, não consegue o status de que com toda a certeza era merecedor entre os intelectuais brasileiros de sua época. Ainda mais discriminado por sofrer de alcoolismo e ter sido internado em hospital psiquiátrico, Lima Barreto, nessa sua “autobiografia”, relata com altivez e sinceridade todos os sofrimentos que passou na vida, em particular por ser mestiço que não aceitava a subalternidade que os brancos exigiam dos não-brancos. Até hoje Lima Barreto não ocupa o lugar que lhe é devido nos cânones literários brasileiros, e este livro dá uma ideia das razões disso. – RENATO POMPEU

9 de junho de 2013

As crônicas de Ivan Angelo

Resenha encomendada pelo Diário do Comércio de São Paulo - As crônicas de Ivan Angelo, pequenas joias de papel - Renato Pompeu - São 48 crônicas publicadas na revista “Veja São Paulo”, a bem conhecida “Vejinha”, mais uma até agora inédita e outra que saiu no jornal “O Tempo”, de Belo Horizonte, mas acima de tudo são 50 obras-primas, verdadeiras estatuetas de sons e significados, esculpidas com mão de quem é mestre e com coração de quem ama a humanidade e o humanismo. Afinal, são crônicas de Ivan Angelo, aos 75 anos um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos, editadas em “Certos homens”, livro lançado esta semana pela Arquipélago, dentro da Coleção Arte da Crônica. Tenha como tema o antigo hábito do footing (na praça principal da cidade, as moças ficavam circulando no centro da praça, num sentido, e os rapazes formavam um anel externo, circulando no sentido oposto, o que possibilitava troca de olhares, acenos e outros gestos e expressões), ou se ponha a discutir por que as roupas das mulheres não têm bolsos, Ivan Angelo resgata as melhores tradições da crônica, um gênero tipicamente brasileiro que teve entre seus cultores grandes nomes como Machado de Assis, romancista como Ivan Angelo, e Carlos Drummond de Andrade, mineiro como Angelo. Aqui devemos notar o que representa a crônica na literatura brasileira, muito longe de ser um gênero menor como nem chega a ser em outras literaturas. No século 19, quando ainda se estava em meio à criação da nação brasileira, num país atrasado, dominado pela escravidão e outras misérias, se tinha como modelo a então jovem modernidade europeia, num continente em que, especialmente na França, a crônica tinha surgido na imprensa como crônica de amenidades, disponibilizadas pelo acelerado desenvolvimento capitalista de então. Eram textos sobre as festas, os casamentos, as fofocas de sociedade, as novidades das Galerias LaFayette, as primeiras lojas de departamentos da história. Ao ser transposto para o Brasil, o novo gênero, mais jornalístico do que literário, criou dificuldades para os escritores nacionais. Como falar amenidades sobre um país que não as tinha, em que imperavam as violências e as brutalidades da escravidão e das sequelas do colonialismo? A solução foi falar amenamente de coisas que não eram amenas, e assim Machado de Assis, por exemplo, falou amenamente do duro trabalho dos operários nas pedreiras do Arsenal de Marinha, João do Rio falou amenamente da violência nas ruas cariocas. Mas o principal, em termos de literatura, foi a criação de uma linguagem própria da crônica, uma estruturação interna que a foi logo diferenciando, de um lado, em relação ao tradicional artigo jornalístico; de outro, em relação ao conto. Com o tempo, mudou o Brasil e mudou a crônica. Na medida em que o Brasil se foi modernizando, em especial a partir dos anos 1950, passaram a existir temas mais amenos na sociedade nacional. Surgiu então a crônica plenamente literária, na pena encantada de Rubem Braga e outros cultores. A essa altura a crônica estava perfeitamente consolidada como gênero tipicamente brasileiro. Nos anos do regime militar, voltou a crônica a tratar amenamente de situações não amenas, como nas obras de Stanislaw Ponte Preta e do próprio Drummond. Nas últimas décadas desde a restauração da democracia, e nos últimos anos de relativa prosperidade econômica, voltaram a predominar os temas amenos – mas neste livro agora lançado Ivan Angelo também tem crônicas que falam agradavelmente de coisas desagradáveis, como as vicissitudes de nossa política tão corrompida e as peripécias da violência tão presente em nosso cotidiano. O mais importante, no entanto, é a nobreza, a perfeição com que Ivan Angelo trata a sua escrita, o gênero crônica e, acima de tudo, os seus leitores e leitoras. Cada crônica sua, seja sobre o homem que anuncia que “precisa ir embora”, seja sobre a figura do carroceiro, é uma pequena joia de papel, lapidada com cuidados de artista minimalista. São obras de arte em miniatura, e é notável como Ivan Angelo consegue criar em cada crônica uma pincelada irretocável de cotidiano, em que ao mesmo tempo não falta nada e nem sobra nada. É uma perfeição ao mesmo tempo de joalheiro e de arquiteto. Mineiro de Barbacena, Ivan Angelo radicou-se em Belo Horizonte, onde se consagrou como jornalista e logo como ficcionista, com os livros “Homem sofrendo no quarto”, de 1959, e “Duas faces”, de 1961, de contos. Desde 1965 mora em São Paulo e se consagrou como romancista com “A festa”, em 1975, e “A casa de vidro”, em 1979. Ganhou mais de uma vez o Prêmio Jabuti e o da Associação Paulista de Críticos de Arte, e foi consagrado pelo Ministério da Cultura entre os autores das 125 obras mais importantes das letras brasileiras. Seus maiores prêmios, no entanto, são o deleite e a reflexão que provoca em seus leitores e leitoras, como nessas crônicas primorosas embrulhadas em papel para presente de Natal.