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31 de dezembro de 2013
Índios, negros e o padre Vieira
Da Carta Capital
-
O padre Vieira,
os índios e os negros
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Até o fim da primeira metade do século 20, todo brasileiro culto tinha na sua estante um exemplar dos “Sermões” do padre Antônio Vieira (1608-1697), jesuíta português radicado no Brasil-Colônia, famoso não só por seus discursos religiosos, mas também pela defesa da liberdade dos índios e por sua atuação política e diplomática em defesa dos interesses da Coroa. Depois, com a perda da importância dos sermões na vida cotidiana dos brasileiros, as obras de Vieira passaram a ser menos editadas. Mas agora, talvez pela entrada na ordem do dia do tema da corrupção, contra a qual, em sua época, Vieira lutou encarniçadamente, surge o precioso volume de mais de 750 páginas “Padre Antônio Vieira Essencial”, pela Penguin-Companhia das Letras, com uma seleção de seus sermões, correspondências e outros textos, organizada pelo consagrado professor de Literatura da USP, Alfredo Bosi. Na verdade, tão importante quanto, por exemplo, o famoso Sermão da Sexagésima, vem a ser a própria introdução de Bosi. Este esclarece como Vieira era um cultor do universalismo cristão segundo o qual todos os seres humanos são filhos de Deus; os índios eram iguais aos brancos, não podendo ser escravizados, e os governantes eram iguais aos governados, não podendo ser corruptos. Entretanto, como atestam os chamados Sermões do Rosário e a própria introdução de Bosi, havia uma peninha nesse universalismo cristão; era a situação dos negros. Estes também, de acordo com Vieira, eram filhos de Deus, mas, sempre segundo Vieira, podiam ser escravizados. Por quê essa discriminação? Bosi descreve como Vieira, para explicar sua incongruência, sai do “universo do entendimento”, para o qual todos os seres humanos nascem iguais em direitos e deveres, para entrar no “universo da fatalidade”, para a qual o miserável destino dos negros fora traçado por estrelas nefastas. Nem Bosi, nem Vieira tocam num ponto crucial: há quem defenda que a Coroa proibiu a escravidão dos índios porque era impossível cobrar taxas sobre os escravos índios, espalhados pela vastidão do território brasileiro, mas era muito mais fácil cobrar taxas sobre escravos negros, pela facilidade de fiscalização nos poucos portos de origem da África e mesmo nos poucos portos de chegada no Brasil. – RENATO POMPEU
19 de agosto de 2012
Ameaça de guerra entre índios e fazendeiros no MS
Está sendo distribuida na Net a seguinte nota
Fazendeiros anunciam 'guerra' contra índios em Mato Grosso do Sul para próxima semana
18/08/2012 11:59Éser Cáceres
Dois grupos de brasileiros se preparam para o confronto armado em Mato Grosso do Sul a partir da próxima semana e cogitam o derramamento de sangue. Ambos culpam o Governo Federal pelo conflito, que tem posse de terras no extremo sul do Estado como principal motivo.
De um lado, índios guarani-kaiowá, com mulheres e crianças, anunciam novas ocupações em fazendas que ficam nas áreas declaradas como terra indígena pela União. Eles garantem que não têm armas de fogo, mas prometem resistir no local.
Do outro, pequenos e médios produtores rurais reclamam dos prejuízos e dizem que estão indignados com a perda do patrimônio. Poucos aceitam falar, mas admitem articulações que já consideram a contratação de homens para uma ‘guerra’.
No último dia 10, os índios iniciaram em Paranhos, a 477 quilômetros de Campo Grande, um protesto contra a demora na demarcação de terras indígenas com o movimento que chamam de ‘retomada’. Eles ocuparam áreas da tekohá (espaço onde se vive, em guarani) Arroyo Corá e houve confronto.
Durante um Aty Guasu, espécie de conselho político de povos indígenas, os guarani-kaiowá decidiram ocupar todas as áreas em Mato Grosso do Sul que estão com a homologação suspensa por uma liminar no STF (Supremo Tribunal Federal).
"Estamos declarando guerra à enrolação. Vai ter mais retomada em Mato Grosso do Sul porque faz anos que aguardamos quietos e nada acontece", diz o líder indígena Eliseu Gonçalves, membro do Aty Guasu.
Em Paranhos, homens armados reagiram e dispararam com armas de fogo contra os indígenas. Segundo eles, um homem identificado como Eduardo Pires, de aproximadamente 50 anos de idade, estaria desaparecido desde então.
A morte de um bebê de nove meses de idade também é considerada pelos guarani-kaiowá como resultado do ataque ao grupo durante a ocupação.
'Grande desgraça'
A fazendeira Vergilina Pereira Lopes, de 83 anos de idade, é proprietária da fazenda Campina, que foi ‘retomada’. Ela nega que tenha havido qualquer tipo de reação com arma de fogo. “Pelo menos da parte dos meus peões tenho certeza que ninguém atirou”, afirma.
A produtora rural registrou queixa na Delegacia de Paranhos e foi para casa de uma filha, aguardar o desfecho da situação.
Sobre o risco de violência, a idosa é ponderada: “Eu sou uma velha e não vou mexer com isso. Mas tem muita gente revoltada demais com essa injustiça. Para isso tudo virar uma grande desgraça tá muito fácil”, analisa.
Em entrevista gravada no último dia 16, a fazendeira diz que a postura das autoridades aumenta a indignação dos produtores.
“Eu sempre trabalhei muito e paguei todos os impostos. Nunca imaginei que um dia seria tirada de lá assim desse jeito, feito cachorro tocado. E revolta porque as autoridades ficam do lado dos índios como se a gente fosse bandido”, reclama.
Outros produtores da região aceitaram falar com a reportagem e relatam que há uma articulação entre fazendeiros ‘se preparando para o pior’. Mas a maioria prefere não se identificar porque ‘a Federal tá encima’.
Eles se referem ao inquérito da Polícia Federal sobre o ataque a índios na área de Guayviry, que recentemente colocou 18 pessoas, entre fazendeiros e até o presidente do Sindicato Rural de Aral Moreira, um município próximo, atrás das grades.
No episódio, o líder indígena Nísio Gomes foi ferido e levado por pistoleiros. O corpo ainda não foi localizado, mas já houve indiciamentos.
'Culpa dos políticos'
“A situação aqui é de desespero e raiva. Estão brincando com a paciência da gente. Nós sempre fomos gente de bem, pagamos os impostos e nunca mexemos com esses bugres, mas estão deixando todo mundo sem alternativa. Vai correr pra onde, se a Polícia, o Governo, tá tudo do lado da bugrada”, questiona o proprietário de uma área nas proximidades de Arroyo Corá.
“Veja se pode essa situação. Inverteram tudo de um jeito, que eu, um trabalhador, que vivo no lombo do cavalo ai lidando com gado, gerando emprego, comida, pagando imposto, não posso nem mostrar a cara pra falar. Estão tratando a gente como bandido, mas eu paguei por essas terras”, desabafa.
Tal qual os índios, os fazendeiros culpam o poder público pela situação: “Se tiver morte, a culpa é desses políticos que enrolam todo mundo no Brasil. Declararam essas terras como área indígena para agradar as ongs, os índios e os brancos que vivem às custas dos índios. Depois, adiaram a decisão lá no STF, sei lá onde, só para agradar os ruralistas, a bancada rural. Os bugres escutam que é deles, vão querer entrar mesmo. A gente tem escritura e pagou pela terra, não vamos querer sair mesmo. Isso aí só pode acabar de um jeito ruim”, diz um produtor que há mais de 30 anos possui área em Paranhos.
‘Lenço Preto’
Entre tantos fazendeiros acuados, que preferem não se envolver publicamente no conflito, um produtor fez questão de receber a reportagem e relatou, em entrevista gravada na última quinta-feira (16), como os ruralistas estão se organizando.
Conhecido como ‘Lenço Preto’, há 35 anos Luis Carlos da Silva Vieira é proprietário de uma área a poucos quilômetros da Fazenda Campina e diz que está convocando os fazendeiros da região para a ‘guerra’. Ele tem gado na área já ‘retomada’.
“Se o Governo quer guerra, vai ter guerra. Se eles podem invadir, então nós também podemos invadir. Não podemos ter medo de índio não. Nós vamos partir pra guerra, e vai ser na semana que vem. Esses índios aí, alguns perigam sobrar. O que não sobrar, nós vamos dar para os porcos comerem”, dispara.
O fazendeiro conta que já houve conversas com outros produtores da região e confirma que o conflito armado já é considerado uma opção. Ele diz que a intenção é aguardarem até a próxima semana, para então agir caso não haja novidades favoráveis.
“A maioria dos fazendeiros está comigo. Arma aqui é só querer. Eu armo esses fazendeiros da fronteira rapidinho, porque o Paraguai fica logo ali, e na guerra não tem bandido”, avisa.
Segundo Lenço Preto, a revolta dos fazendeiros aumentou com a forma como a retomada está acontecendo. “Se viessem numa boa, avisassem a gente, ou se o Governo resolvesse logo, e dissesse que temos de sair mesmo, acho até que a gente podia tirar o gado e aceitar. Mas assim, estão brincando demais com a gente”, diz.
Em Paranhos, produtores rurais contam que já existem fazendeiros maiores desistindo de lutar pela posse da área. Mas afirmam que o sentimento de revolta pode fomentar atos de vingança.
“Tem um fazendeiro conhecido aí da região que falou pra todo mundo aqui: posso até sair, e entregar para os bugres, mas assim que a poeira baixar, eu lavo essa terra de sangue”, relata um dos produtores que falaram com a reportagem.
Vieira confirma que a contratação de pistoleiros paraguaios é uma opção para os produtores rurais reagirem. “Eu acredito que vai ser por aí. A guerra vai começar aí. Eu, como a propriedade lá não é minha... Se é minha, já tinha índio estendido à vontade aqui”, diz apontando para o campo às margens da rodovia.
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28 de abril de 2012
Cotas: pífia cobertura
A decisão do Supremo sobre as cotas na universidade é um acontecimento histórico da maior importância no que se refere ao mais candente problema da sociedade brasileira, a desigualdade entre as etnias. Por isso mesmo, me parece pífia a cobertura da mídia sobre o assunto.
17 de janeiro de 2012
México: 50 índios se matam por fome
Segundo o informativo CMM da Argentina, em http://www.cadenamarianomoreno.com.ar/?p=26684, em castelhano, 50 índios rarámuri, do Estado de Chihuaha, no Norte do México, se suicidaram em dezembro jogando-se do alto de um barranco, por não terem o que comer e, principalmente, por não terem o que dar para seus filhos comerem. Esses índios sofrem pela seca, frio no atual inverno nas montanhas, e pelas ações de criminosos invasores. Não contam com ajuda oficial.
3 de novembro de 2010
Livros recentes
Há alguns meses a revista Caros Amigos publicou o seguinte artigo:
Artes belas e judeus contra o sionismo
As duas obras mais belas do mês são justamente as mais caras. Uma é o luxuoso álbum “Roberto Burle Marx – Uma experiência estética, paisagismo e pintura”, publicado pela Repsol e pela Design e Editora Ltda.. Com belíssimas ilustrações de trabalhos paisagísticos e pictóricos, o livro comemora os cem anos de nascimento de Burle Marx. Tem ensaios de Lélia Coelho Frota e Lauro Cavalcanti. As fotos são de Cesar Barreto e há ainda uma entrevista, por Regina Zappa, com Haruyoshi Ono, que está à frente do Escritório Burle Marx desde a morte do mestre, em 1994, sendo assim seu herdeiro.
A outra obra linda e cara é a coleção de DVDs “Aramis Millarch – 30 anos de jornalismo cultural”, lançada pela Petrobrás, RádioCaos e Homem de Ferro. São entrevistas que o falecido jornalista curitibano fez com nomes importantes das artes brasileiras nos anos
1960, 1970 e 1980, em particular na música, teatro, cinema e design. Afinal, ele conviveu com artistas como João Gilberto, Cartola, o percussionista Airto Moreira, o ator Paulo Goulart, Elis Regina e tantos outros.
Mais acessível, mas igualmente encantadora, é a pesquisa da jornalista e professora Maria Luisa Rinaldi Hupfer, “As Rainhas do Rádio – Símbolos da nascente indústria cultural brasileira”. Tendo como pano de fundo o concurso da Rainha do Rádio, realizado a partir de 1937, a autora retrata a trajetória de cantoras como Linda e Dircinha Batista, Marlene, Dalva de Oliveira, Emilinha Borba, Ângela Maria, Dóris Monteiro. Porém também reconstrói o nascimento da indústria cultural no País, e seu desenvolvimento pelas emissoras de rádio e gravadoras de discos, além de suas ramificações por revistas e jornais. Tudo isso inserido no quadro mais amplo da ditadura varguista, da Segunda Guerra Mundial e do ufanismo do desenvolvimentismo democrático dos anos 1950. A reconstrução histórica é tão evocativa e emocionante que, não só pelo texto, mas particularmente pelas belíssimas ilustrações, lembra o clima do filme “A Era do Rádio”, do diretor e ator Woody Allen.
Também bonito é o livro “O banquete dos deuses – Conversa sobre a origem e a cultura brasileira”, do filósofo, educador, pesquisador e militante indígena Daniel Munduruku, com ilustrações de Mauricio Negro e Luciano Tasso, editado pela Global. A obra inclui os ensaios “Em busca de uma ancestralidade brasileira – À guisa de introdução”, “Quanto custa ser ‘índio’ no Brasil – As imagens dos povos indígenas no inconsciente e nos livros didáticos”, “O banquete dos deuses – Ou como ser alimento da divindade”, “Esta terra tinha dono – Um pouco da pré-história dos povos indígenas”, entre outros. Como se vê, Munduruku (nome de sua etnia) resgata as riquezas da cultura e da sabedoria indígenas.
Igualmente da Global, saíram dois volumes da coleção “Roteiro da poesia brasileira”, dirigida pela escritora Edla van Steen, “Anos 70”, com seleção e prefácio de Afonso Henriques Neto, e “Anos 2000”, seleção e prefácio de Marco Lucchesi. No total, são quinze volumes, que cobrem desde a Colônia e o arcadismo até os dias atuais. Entre os nomes dos anos 1970, estão Olga Savary, Adélia Prado, Cláudio Mello e Souza, Astrid Cabral, Ruy Espinheira Filho, Waly Salomão, Paulo Leminski, Pedro Paulo de Sena Madureira, Chacal, Alex Polari, Ana Cristina Cesar, Régis Bonvicino. Dos anos 2000, Amador Ribeiro Neto, Ana Rusche, Estrela Ruiz Leminsky, Luís Maffei, e tantos outros.
Além de poesia, temos o romance “O planalto e a estepe”, do angolano Pepetela, publicado pela Leya-Texto Editores. É a comovente história, baseada em fatos reais, do amor entre um jovem angolano e uma jovem mongol, que se apaixonaram em Moscou em 1960 e levaram 35 anos para concretizar sua união, depois de combater preconceitos que supostamente não deveriam existir entre militantes comunistas.
Saindo das belas-artes, nos deparamos com problemas espinhosos do mundo contemporâneo, no livro “Judeus contra judeus – A história da oposição judaica ao sionismo”, do historiador judeu russo radicado no Canadá Yakov Rabkin, publicado pela Editora Acatu. Diz o prefácio de Joseph Agassi, professor no Canadá e em Israel: “O autor se propõe a questionar o mito segundo o qual o Estado de Israel protege todos os judeus e constitui também sua pátria-mãe. Com muita razão, o livro demonstra que esse mito é antijudaico (...). Nesse contexto, a questão vital para os judeus é a seguinte: os interesses de Israel coincidem com os interesses dos judeus da Diáspora ou, pelo contrário, entram em conflito com eles?” Em suma, trata-se de uma obra importante não só para os judeus, mas para todos os interessados nos grandes problemas atuais da humanidade.
Artes belas e judeus contra o sionismo
As duas obras mais belas do mês são justamente as mais caras. Uma é o luxuoso álbum “Roberto Burle Marx – Uma experiência estética, paisagismo e pintura”, publicado pela Repsol e pela Design e Editora Ltda.. Com belíssimas ilustrações de trabalhos paisagísticos e pictóricos, o livro comemora os cem anos de nascimento de Burle Marx. Tem ensaios de Lélia Coelho Frota e Lauro Cavalcanti. As fotos são de Cesar Barreto e há ainda uma entrevista, por Regina Zappa, com Haruyoshi Ono, que está à frente do Escritório Burle Marx desde a morte do mestre, em 1994, sendo assim seu herdeiro.
A outra obra linda e cara é a coleção de DVDs “Aramis Millarch – 30 anos de jornalismo cultural”, lançada pela Petrobrás, RádioCaos e Homem de Ferro. São entrevistas que o falecido jornalista curitibano fez com nomes importantes das artes brasileiras nos anos
1960, 1970 e 1980, em particular na música, teatro, cinema e design. Afinal, ele conviveu com artistas como João Gilberto, Cartola, o percussionista Airto Moreira, o ator Paulo Goulart, Elis Regina e tantos outros.
Mais acessível, mas igualmente encantadora, é a pesquisa da jornalista e professora Maria Luisa Rinaldi Hupfer, “As Rainhas do Rádio – Símbolos da nascente indústria cultural brasileira”. Tendo como pano de fundo o concurso da Rainha do Rádio, realizado a partir de 1937, a autora retrata a trajetória de cantoras como Linda e Dircinha Batista, Marlene, Dalva de Oliveira, Emilinha Borba, Ângela Maria, Dóris Monteiro. Porém também reconstrói o nascimento da indústria cultural no País, e seu desenvolvimento pelas emissoras de rádio e gravadoras de discos, além de suas ramificações por revistas e jornais. Tudo isso inserido no quadro mais amplo da ditadura varguista, da Segunda Guerra Mundial e do ufanismo do desenvolvimentismo democrático dos anos 1950. A reconstrução histórica é tão evocativa e emocionante que, não só pelo texto, mas particularmente pelas belíssimas ilustrações, lembra o clima do filme “A Era do Rádio”, do diretor e ator Woody Allen.
Também bonito é o livro “O banquete dos deuses – Conversa sobre a origem e a cultura brasileira”, do filósofo, educador, pesquisador e militante indígena Daniel Munduruku, com ilustrações de Mauricio Negro e Luciano Tasso, editado pela Global. A obra inclui os ensaios “Em busca de uma ancestralidade brasileira – À guisa de introdução”, “Quanto custa ser ‘índio’ no Brasil – As imagens dos povos indígenas no inconsciente e nos livros didáticos”, “O banquete dos deuses – Ou como ser alimento da divindade”, “Esta terra tinha dono – Um pouco da pré-história dos povos indígenas”, entre outros. Como se vê, Munduruku (nome de sua etnia) resgata as riquezas da cultura e da sabedoria indígenas.
Igualmente da Global, saíram dois volumes da coleção “Roteiro da poesia brasileira”, dirigida pela escritora Edla van Steen, “Anos 70”, com seleção e prefácio de Afonso Henriques Neto, e “Anos 2000”, seleção e prefácio de Marco Lucchesi. No total, são quinze volumes, que cobrem desde a Colônia e o arcadismo até os dias atuais. Entre os nomes dos anos 1970, estão Olga Savary, Adélia Prado, Cláudio Mello e Souza, Astrid Cabral, Ruy Espinheira Filho, Waly Salomão, Paulo Leminski, Pedro Paulo de Sena Madureira, Chacal, Alex Polari, Ana Cristina Cesar, Régis Bonvicino. Dos anos 2000, Amador Ribeiro Neto, Ana Rusche, Estrela Ruiz Leminsky, Luís Maffei, e tantos outros.
Além de poesia, temos o romance “O planalto e a estepe”, do angolano Pepetela, publicado pela Leya-Texto Editores. É a comovente história, baseada em fatos reais, do amor entre um jovem angolano e uma jovem mongol, que se apaixonaram em Moscou em 1960 e levaram 35 anos para concretizar sua união, depois de combater preconceitos que supostamente não deveriam existir entre militantes comunistas.
Saindo das belas-artes, nos deparamos com problemas espinhosos do mundo contemporâneo, no livro “Judeus contra judeus – A história da oposição judaica ao sionismo”, do historiador judeu russo radicado no Canadá Yakov Rabkin, publicado pela Editora Acatu. Diz o prefácio de Joseph Agassi, professor no Canadá e em Israel: “O autor se propõe a questionar o mito segundo o qual o Estado de Israel protege todos os judeus e constitui também sua pátria-mãe. Com muita razão, o livro demonstra que esse mito é antijudaico (...). Nesse contexto, a questão vital para os judeus é a seguinte: os interesses de Israel coincidem com os interesses dos judeus da Diáspora ou, pelo contrário, entram em conflito com eles?” Em suma, trata-se de uma obra importante não só para os judeus, mas para todos os interessados nos grandes problemas atuais da humanidade.
5 de maio de 2010
Antropólogo Viveiros de Castro replica à Veja
O jornalista Spensy Pimentel spensy@gmail.com divulgou a réplica do antropólogo Viveiros de Castro à resposta da Veja à sua primeira carta. Eis a réplica:
Aos Editores da revista Veja:
Em resposta à mensagem que enviei à revista Veja no dia 01/05, denunciando a imputação fraudulenta de declarações que me é feita na matéria "A farra da antropologia oportunista", o site Veja.com traz ontem uma resposta com o título "No Brasil, todo mundo é índio, exceto quem não é". Ali, os responsáveis pela revista, ou pela resposta, ou, pelo jeito, por coisa nenhuma, reincidem na manipulação e na mentira; pior, confessam cinicamente que fabricaram a declaração a mim atribuída.
Em minha carta de protesto inicial, sublinhei dois pontos: "(1) que nunca tive qualquer espécie de contato com os responsáveis pela matéria; (2) que não pronunciei em qualquer ocasião, ou publiquei em qualquer veículo, reflexão tão grotesca, no conteúdo como na forma".
Veja contesta estes pontos com os seguintes argumentos:
(1) "Sua primeira afirmação não condiz com a verdade. No início de março, VEJA fez contato com Viveiros de Castro por intermédio da assessoria de imprensa do Museu Nacional do Rio de Janeiro, onde ele trabalha. Por meio da assessoria, Viveiros de Castro recomendou a leitura de um artigo seu intitulado "No Brasil todo mundo é índio, exceto quem não é", que expressaria sua opinião de forma sistematizada e autorizou VEJA a usar o texto na reportagem de uma maneira sintética."
Respondo: é falso. A Assessoria de Imprensa do Museu Nacional telefonou-me, talvez no início de março (não acredito mais em nada do que a Veja afirma), perguntando se receberia repórteres da mal-conceituada revista, a propósito de uma matéria que estariam preparando sobre a situação dos índios no Brasil. Respondi que não pretendia sofrer qualquer espécie de contato com esses profissionais, visto que tenho a revista em baixíssima estima e péssima consideração. Esclareci à Assessoria do Museu que eu tinha diversos textos publicados sobre o assunto, cuja consulta e citação é, portanto, livre, e que assim os repórteres, com o perdão da expressão, que se virassem. Não "recomendei a leitura" de nada em particular; e mesmo que o tivesse feito, não poderia ter "autorizado Veja" a usar o texto, simplesmente porque um autor não tem tal poder sobre trabalhos seus já publicados. Quanto à curiosa noção de que eu autorizei a revista, em particular, a "usar de maneira sintética" esse texto, observo que, além de isso "não condizer com a verdade", certamente não é o caso que esse poder de síntese de que a Veja se acha imbuída inclua a atribuição de sentenças que não só se encontram no texto em questão, como são, ao contrário e justamente, contraditas cabalmente por ele. A matéria de Veja cita, entre aspas, duas frases que formam um argumento único, o qual jamais foi enunciado por mim. Cito, para memória, a atribuição imaginária: "Não basta dizer que é índio para se transformar em um deles. Só é índio quem nasce, cresce e vive num ambiente cultural original" . Com isso, a revista induz maliciosamente o leitor a pensar que (1) a declaração foi dada de viva voz aos repórteres; (2) ela reproduz literalmente algo que disse. Duas grosseiras inverdades.
Veja contesta o segundo ponto com o argumento:
(2) "Também não condiz com a verdade a afirmação feita por Viveiros de Castro no item (2) de sua carta. A frase publicada por VEJA espelha opinião escrita mais de uma vez em seu texto ("Não é qualquer um; e não basta achar ou dizer; só é índio, como eu disse, quem se garante" e "pode-se dizer que ser índio é como aquilo que Lacan dizia sobre ser louco: não o é quem quer. Nem quem simplesmente o diz. Pois só é índio quem se garante")." Ato contínuo, a revista dá o texto na íntegra, repetindo que eu a autorizei a usar o texto "da forma que bem entendesse".
(Veja o link para meu texto: http://pib.socioambiental.org/files/file/PIB_institucional/No_Brasil_todo_mundo_%C3%A9_%C3%ADndio.pdf).
Pela ordem. Em primeiro lugar, essa resposta da revista fez desaparecer, como num passe de mágica, a frase propriamente afirmativa de minha suposta declaração, a saber, a segunda (Só é índio quem nasce, cresce e vive em um ambiente cultural original"), visto que a primeira (Não basta dizer que é índio etc.) permanece uma mera obviedade, se não for completada por um raciocínio substantivo. Ora, o raciocínio substantivo exposto em meu texto está nas antípodas daquele que Veja falsamente me atribui. A afirmação de Veja de que eu a autorizara a "usar" o texto da forma que ela "bem entendesse" parece assim significar, para os responsáveis (ou não) pela revista, que ela poderia fabricar declarações absurdas e depois dizer que "sintetizavam" o texto. Esse arrogamente "da forma que bem entendesse" não pode incluir um fazer-se de desentendido da parte da Veja.
Reitero que a revista fabricou descaradamente a declaração "Só é indio quem nasce, cresce e vive em um ambiente cultural original". Se o leitor tiver o trabalho de ler na íntegra a entrevista reproduzida em Veja.com, verá que eu digo exatamente o contrário, a saber, que é impossível de um ponto de vista antropológico (ou qualquer outro) determinar condições necessárias para alguém (uma pessoa ou uma coletivdade) "ser índio". A frase falsa de Veja põe em minha boca precisamente uma condição necessária, e, ademais, absurda. Em meu texto sustento, ao contrário e positivamente, que é perfeitamente possível especificar diversas condições suficientes para se assumir uma identidade indígena. Talvez os responsáveis pela matéria não conheçam a diferença entre condições necessárias e condições suficientes. Que voltem aos bancos da escola.
A afirmação "só é índio quem nasce, cresce e vive em um ambiente cultural original" é, repito, grotesca. Nenhum antropólogo que se respeite a pronunciaria. Primeiro, porque ela enuncia uma condição impossível (o contrário de uma condição necessária, portanto!) no mundo humano atual; impossível, na verdade, desde que o mundo é mundo. Não existem "ambientes culturais originais"; as culturas estão constantemente em transformação interna e em comunicação externa, e os dois processos são, via de regra, intimamente correlacionados. Não existe instrumento científico capaz de detectar quando uma cultura deixa de ser "original", nem quando um povo deixa de ser indígena. (E quando será que uma cultura começa a ser original? E quando é que um povo começa a ser indígena?). Ninguém vive no ambiente cultural onde nasceu. Em segundo lugar, o "ambiente cultural original" dos índios, admitindo-se que tal entidade exista, foi destruido meticulosamente durante cinco séculos, por epidemias, massacres, escravização, catequese e destruição ambiental. A seguirmos essa linha de raciocínio, não haveria mais índios no Brasil. Talvez seja isso que Veja queria dizer. Em terceiro lugar, a revista parte do pressuposto inteiramente injustificado de que "ser índio" é algo que remete ao passado; algo que só se pode ou continuar (a duras penas) a ser, ou deixar de ser. A idéia de que uma coletividade possa voltar a ser índia é propriamente impensável pelos autores da matéria e seus mentores intelectuais. Mas como eu lembro em minha entrevista original deturpada por Veja, os bárbaros europeus da Idade Média voltaram a ser romanos e gregos ali pelo século XIV -- só que isso se chamou "Renascimento" e não "farra de antropólogos oportunistas". Como diz Marshall Sahlins, o antropólogo de onde tirei a analogia, alguns povos têm toda a sorte do mundo.
E o Brasil, será que temos toda a sorte do mundo? Será que o Brasil algum dia vai se tornar mesmo um grande Estados Unidos, como quer a Veja ? Será que teremos de viver em um ambiente cultural que não é aquele onde nascemos e crescemos? (Eu cresci durante a ditadura; Deus me livre desse ambiente cultural). Será que vamos deixar de ser brasileiros? Aliás, qual era mesmo nosso ambiente cultural original?
Grato mais uma vez pela atenção
Eduardo Viveiros de Castro
antropólogo - UFRJ
Para quem não leu o post de Veja respondendo ao EVC:
http://veja.abril.com.br//noticia/brasil/brasil-todo-mundo-indio-quem-nao-555649.shtml
Aos Editores da revista Veja:
Em resposta à mensagem que enviei à revista Veja no dia 01/05, denunciando a imputação fraudulenta de declarações que me é feita na matéria "A farra da antropologia oportunista", o site Veja.com traz ontem uma resposta com o título "No Brasil, todo mundo é índio, exceto quem não é". Ali, os responsáveis pela revista, ou pela resposta, ou, pelo jeito, por coisa nenhuma, reincidem na manipulação e na mentira; pior, confessam cinicamente que fabricaram a declaração a mim atribuída.
Em minha carta de protesto inicial, sublinhei dois pontos: "(1) que nunca tive qualquer espécie de contato com os responsáveis pela matéria; (2) que não pronunciei em qualquer ocasião, ou publiquei em qualquer veículo, reflexão tão grotesca, no conteúdo como na forma".
Veja contesta estes pontos com os seguintes argumentos:
(1) "Sua primeira afirmação não condiz com a verdade. No início de março, VEJA fez contato com Viveiros de Castro por intermédio da assessoria de imprensa do Museu Nacional do Rio de Janeiro, onde ele trabalha. Por meio da assessoria, Viveiros de Castro recomendou a leitura de um artigo seu intitulado "No Brasil todo mundo é índio, exceto quem não é", que expressaria sua opinião de forma sistematizada e autorizou VEJA a usar o texto na reportagem de uma maneira sintética."
Respondo: é falso. A Assessoria de Imprensa do Museu Nacional telefonou-me, talvez no início de março (não acredito mais em nada do que a Veja afirma), perguntando se receberia repórteres da mal-conceituada revista, a propósito de uma matéria que estariam preparando sobre a situação dos índios no Brasil. Respondi que não pretendia sofrer qualquer espécie de contato com esses profissionais, visto que tenho a revista em baixíssima estima e péssima consideração. Esclareci à Assessoria do Museu que eu tinha diversos textos publicados sobre o assunto, cuja consulta e citação é, portanto, livre, e que assim os repórteres, com o perdão da expressão, que se virassem. Não "recomendei a leitura" de nada em particular; e mesmo que o tivesse feito, não poderia ter "autorizado Veja" a usar o texto, simplesmente porque um autor não tem tal poder sobre trabalhos seus já publicados. Quanto à curiosa noção de que eu autorizei a revista, em particular, a "usar de maneira sintética" esse texto, observo que, além de isso "não condizer com a verdade", certamente não é o caso que esse poder de síntese de que a Veja se acha imbuída inclua a atribuição de sentenças que não só se encontram no texto em questão, como são, ao contrário e justamente, contraditas cabalmente por ele. A matéria de Veja cita, entre aspas, duas frases que formam um argumento único, o qual jamais foi enunciado por mim. Cito, para memória, a atribuição imaginária: "Não basta dizer que é índio para se transformar em um deles. Só é índio quem nasce, cresce e vive num ambiente cultural original" . Com isso, a revista induz maliciosamente o leitor a pensar que (1) a declaração foi dada de viva voz aos repórteres; (2) ela reproduz literalmente algo que disse. Duas grosseiras inverdades.
Veja contesta o segundo ponto com o argumento:
(2) "Também não condiz com a verdade a afirmação feita por Viveiros de Castro no item (2) de sua carta. A frase publicada por VEJA espelha opinião escrita mais de uma vez em seu texto ("Não é qualquer um; e não basta achar ou dizer; só é índio, como eu disse, quem se garante" e "pode-se dizer que ser índio é como aquilo que Lacan dizia sobre ser louco: não o é quem quer. Nem quem simplesmente o diz. Pois só é índio quem se garante")." Ato contínuo, a revista dá o texto na íntegra, repetindo que eu a autorizei a usar o texto "da forma que bem entendesse".
(Veja o link para meu texto: http://pib.socioambiental.org/files/file/PIB_institucional/No_Brasil_todo_mundo_%C3%A9_%C3%ADndio.pdf).
Pela ordem. Em primeiro lugar, essa resposta da revista fez desaparecer, como num passe de mágica, a frase propriamente afirmativa de minha suposta declaração, a saber, a segunda (Só é índio quem nasce, cresce e vive em um ambiente cultural original"), visto que a primeira (Não basta dizer que é índio etc.) permanece uma mera obviedade, se não for completada por um raciocínio substantivo. Ora, o raciocínio substantivo exposto em meu texto está nas antípodas daquele que Veja falsamente me atribui. A afirmação de Veja de que eu a autorizara a "usar" o texto da forma que ela "bem entendesse" parece assim significar, para os responsáveis (ou não) pela revista, que ela poderia fabricar declarações absurdas e depois dizer que "sintetizavam" o texto. Esse arrogamente "da forma que bem entendesse" não pode incluir um fazer-se de desentendido da parte da Veja.
Reitero que a revista fabricou descaradamente a declaração "Só é indio quem nasce, cresce e vive em um ambiente cultural original". Se o leitor tiver o trabalho de ler na íntegra a entrevista reproduzida em Veja.com, verá que eu digo exatamente o contrário, a saber, que é impossível de um ponto de vista antropológico (ou qualquer outro) determinar condições necessárias para alguém (uma pessoa ou uma coletivdade) "ser índio". A frase falsa de Veja põe em minha boca precisamente uma condição necessária, e, ademais, absurda. Em meu texto sustento, ao contrário e positivamente, que é perfeitamente possível especificar diversas condições suficientes para se assumir uma identidade indígena. Talvez os responsáveis pela matéria não conheçam a diferença entre condições necessárias e condições suficientes. Que voltem aos bancos da escola.
A afirmação "só é índio quem nasce, cresce e vive em um ambiente cultural original" é, repito, grotesca. Nenhum antropólogo que se respeite a pronunciaria. Primeiro, porque ela enuncia uma condição impossível (o contrário de uma condição necessária, portanto!) no mundo humano atual; impossível, na verdade, desde que o mundo é mundo. Não existem "ambientes culturais originais"; as culturas estão constantemente em transformação interna e em comunicação externa, e os dois processos são, via de regra, intimamente correlacionados. Não existe instrumento científico capaz de detectar quando uma cultura deixa de ser "original", nem quando um povo deixa de ser indígena. (E quando será que uma cultura começa a ser original? E quando é que um povo começa a ser indígena?). Ninguém vive no ambiente cultural onde nasceu. Em segundo lugar, o "ambiente cultural original" dos índios, admitindo-se que tal entidade exista, foi destruido meticulosamente durante cinco séculos, por epidemias, massacres, escravização, catequese e destruição ambiental. A seguirmos essa linha de raciocínio, não haveria mais índios no Brasil. Talvez seja isso que Veja queria dizer. Em terceiro lugar, a revista parte do pressuposto inteiramente injustificado de que "ser índio" é algo que remete ao passado; algo que só se pode ou continuar (a duras penas) a ser, ou deixar de ser. A idéia de que uma coletividade possa voltar a ser índia é propriamente impensável pelos autores da matéria e seus mentores intelectuais. Mas como eu lembro em minha entrevista original deturpada por Veja, os bárbaros europeus da Idade Média voltaram a ser romanos e gregos ali pelo século XIV -- só que isso se chamou "Renascimento" e não "farra de antropólogos oportunistas". Como diz Marshall Sahlins, o antropólogo de onde tirei a analogia, alguns povos têm toda a sorte do mundo.
E o Brasil, será que temos toda a sorte do mundo? Será que o Brasil algum dia vai se tornar mesmo um grande Estados Unidos, como quer a Veja ? Será que teremos de viver em um ambiente cultural que não é aquele onde nascemos e crescemos? (Eu cresci durante a ditadura; Deus me livre desse ambiente cultural). Será que vamos deixar de ser brasileiros? Aliás, qual era mesmo nosso ambiente cultural original?
Grato mais uma vez pela atenção
Eduardo Viveiros de Castro
antropólogo - UFRJ
Para quem não leu o post de Veja respondendo ao EVC:
http://veja.abril.com.br//noticia/brasil/brasil-todo-mundo-indio-quem-nao-555649.shtml
Outro antropólogo critica a Veja
Em seu blog (ver ao final do texto), o ex-presidente da Funai, antropólogo Márcio Pereira Gomes, distribuiu a seguinte nota:
Mais uma vez a revista VEJA traz em suas páginas matéria cheia de injúrias aos povos indígenas brasileiros.
Não pode passar despercebido ao mais desavisado e ingênuo leitor dessa revista o ranço, o azedume de preconceitos e vícios jornalísticos apresentados sobre a questão indígena brasileira. Porém a factualidade do texto também está comprometida por desvirtuamentos de pesquisa, compreensão e análise que certamente intencionam provocar uma impressão extremamente negativa da questão indígena em nosso país.
Os autores da matéria “A farra da antropologia oportunista”, ao que tudo indica jornalistas jejunos no trato de tais assuntos, parecem perseguir uma linha editorial ou um estilo jornalístico em que a busca de objetividade possível é relegada ao interesse ideológico de denegrir as conquistas dos segmentos mais oprimidos do povo brasileiro e demonstrar o seu favorecimento aos poderosos da nação. Primam por um estilo sardônico, próprio de jornalistas que fazem de seu ofício a defesa inquestionável do status quo social e econômico brasileiro, aludem a supostos fatos a partir de evidências descontextualizadas e apresentam citações sem a mínima preocupação com comprovação.
Falta-lhes sobretudo compreensão histórica da questão indígena brasileira, do papel da antropologia e da condição contemporânea da ascensão dos povos indígenas no Brasil e no mundo. Empatia às causas populares e gestos positivos em relação à ascensão das camadas sociais mais oprimidas da nação são atitudes ausentes nesse tipo de jornalismo.
Ao contrário, estão do lado dos que consideram a nação um quintal a ser usado (e abusado) ao seu bel prazer. Um repertório acanhado, porém virulento, de asserções deslocadas do processo histórico tenciona incutir no leitor uma visão de que os povos indígenas – e também os descendentes de quilombolas – estão aí para surrupiar as riquezas da nação dos destemidos fazendeiros, madeireiros, mineradores e empreiteiros da nação. A continuar esse processo não sobrarão terras nem riquezas naturais para a continuada exploração econômica da nação!
Os antropólogos estariam a serviço de uma espécie de subversão da realidade empírica, afeitos à criação imaginativa de identidades étnicas e dispostos a reverter o processo histórico nacional. Nem os mais afoitos de nós sonham com tamanho poder!
Já os índios e quilombolas estão em marcha guerreira para varrer do país aqueles que dariam sustento e sentido à nação.
É demais.
Apresento aqui o meu repúdio a esse tipo de jornalismo.
Denego-lhe o falso direito jornalístico de atribuir a mim uma frase impronunciada e um sentido desvirtuante daquilo que penso sobre a questão indígena brasileira.
Portanto, conclamo os editores da VEJA a rever sua visão miópica e estigmatizada do processo histórico brasileiro. Fariam bem ao seus leitores se se concentrassem na busca de objetividade jornalística e numa compreensão humanista, científica e hiperdialética da história do nosso país.
Atenciosamente,
Mércio Pereira Gomes, antropólogo, professor da Universidade Federal Fluminense e ex-presidente da Funai
http://merciogomes.blogspot.com/
Mais uma vez a revista VEJA traz em suas páginas matéria cheia de injúrias aos povos indígenas brasileiros.
Não pode passar despercebido ao mais desavisado e ingênuo leitor dessa revista o ranço, o azedume de preconceitos e vícios jornalísticos apresentados sobre a questão indígena brasileira. Porém a factualidade do texto também está comprometida por desvirtuamentos de pesquisa, compreensão e análise que certamente intencionam provocar uma impressão extremamente negativa da questão indígena em nosso país.
Os autores da matéria “A farra da antropologia oportunista”, ao que tudo indica jornalistas jejunos no trato de tais assuntos, parecem perseguir uma linha editorial ou um estilo jornalístico em que a busca de objetividade possível é relegada ao interesse ideológico de denegrir as conquistas dos segmentos mais oprimidos do povo brasileiro e demonstrar o seu favorecimento aos poderosos da nação. Primam por um estilo sardônico, próprio de jornalistas que fazem de seu ofício a defesa inquestionável do status quo social e econômico brasileiro, aludem a supostos fatos a partir de evidências descontextualizadas e apresentam citações sem a mínima preocupação com comprovação.
Falta-lhes sobretudo compreensão histórica da questão indígena brasileira, do papel da antropologia e da condição contemporânea da ascensão dos povos indígenas no Brasil e no mundo. Empatia às causas populares e gestos positivos em relação à ascensão das camadas sociais mais oprimidas da nação são atitudes ausentes nesse tipo de jornalismo.
Ao contrário, estão do lado dos que consideram a nação um quintal a ser usado (e abusado) ao seu bel prazer. Um repertório acanhado, porém virulento, de asserções deslocadas do processo histórico tenciona incutir no leitor uma visão de que os povos indígenas – e também os descendentes de quilombolas – estão aí para surrupiar as riquezas da nação dos destemidos fazendeiros, madeireiros, mineradores e empreiteiros da nação. A continuar esse processo não sobrarão terras nem riquezas naturais para a continuada exploração econômica da nação!
Os antropólogos estariam a serviço de uma espécie de subversão da realidade empírica, afeitos à criação imaginativa de identidades étnicas e dispostos a reverter o processo histórico nacional. Nem os mais afoitos de nós sonham com tamanho poder!
Já os índios e quilombolas estão em marcha guerreira para varrer do país aqueles que dariam sustento e sentido à nação.
É demais.
Apresento aqui o meu repúdio a esse tipo de jornalismo.
Denego-lhe o falso direito jornalístico de atribuir a mim uma frase impronunciada e um sentido desvirtuante daquilo que penso sobre a questão indígena brasileira.
Portanto, conclamo os editores da VEJA a rever sua visão miópica e estigmatizada do processo histórico brasileiro. Fariam bem ao seus leitores se se concentrassem na busca de objetividade jornalística e numa compreensão humanista, científica e hiperdialética da história do nosso país.
Atenciosamente,
Mércio Pereira Gomes, antropólogo, professor da Universidade Federal Fluminense e ex-presidente da Funai
http://merciogomes.blogspot.com/
3 de maio de 2010
Antropólogo desmente declaração à Veja
O jornalista Spensy Pimentel spensy@gmail.com divulgou numa lista de jornalismo investigativo da Net a seguinte carta enviada pelo antropólogo Viveiros de Castro à revista Veja:
Ao Editores da revista Veja:
Na matéria "A farra da antropologia oportunista" (Veja ano 43 nº 18, de 05/05/2010), seus autores colocam em minha boca a seguinte afirmação: "Não basta dizer que é índio para se transformar em um deles. Só é índio quem nasce, cresce e vive num ambiente cultural original" . Gostaria de saber quando e a quem eu disse isso, uma vez que (1) nunca tive qualquer espécie de contato com os responsáveis pela matéria; (2) não pronunciei em qualquer ocasião, ou publiquei em qualquer veículo, reflexão tão grotesca, no conteúdo como na forma. Na verdade, a frase a mim mentirosamente atribuída contradiz o espírito de todas declarações que já tive ocasião de fazer sobre o tema. Assim sendo, cabe perguntar o que mais existiria de "montado" ou de simplesmente inventado na matéria. A qual, se me permitem a opinião, achei repugnante. Grato pela atenção,
Eduardo Viveiros de Castro
Ao Editores da revista Veja:
Na matéria "A farra da antropologia oportunista" (Veja ano 43 nº 18, de 05/05/2010), seus autores colocam em minha boca a seguinte afirmação: "Não basta dizer que é índio para se transformar em um deles. Só é índio quem nasce, cresce e vive num ambiente cultural original" . Gostaria de saber quando e a quem eu disse isso, uma vez que (1) nunca tive qualquer espécie de contato com os responsáveis pela matéria; (2) não pronunciei em qualquer ocasião, ou publiquei em qualquer veículo, reflexão tão grotesca, no conteúdo como na forma. Na verdade, a frase a mim mentirosamente atribuída contradiz o espírito de todas declarações que já tive ocasião de fazer sobre o tema. Assim sendo, cabe perguntar o que mais existiria de "montado" ou de simplesmente inventado na matéria. A qual, se me permitem a opinião, achei repugnante. Grato pela atenção,
Eduardo Viveiros de Castro
11 de fevereiro de 2010
Museu em Itapeva
O jornal Folha do Sul, de Itapeva-SP, informa em http://www.folhadosul.com.br/showNews.php?id=1600&type=5 que a Prefeitura local oficializou o Museu Histórico de Itapeva, fundado em 1977, por particulares, e que contém urnas funerárias indígenas, objetos de tropeiros e outros itens doados pela população. O jornal ainda informa que apenas 20 por cento dos municipios do País dispõem de museus, havendo uma iniciativa do Ministério da Cultura para fomentar o aumento desse número nas cidades menores.
1 de novembro de 2009
Índios do Paraná chegam a acordo e liberam porto de Guaíra
O jornal O Presente, de Marechal Cândido Rondon, Oeste do Paraná, 48 mil habitantes, http://www.opresente.com.br/caderno.php?id=2215&tit=Autoridades%20e%20indígenas%20chegam%20a%20um%20consenso, noticia que os índios da vizinha Guaíra, 29 mil habitantes, que haviam fechado a 29 de outubro o Porto Internacional que faz a ligação de balsas para o Paraguai, para chamar a atenção para as condições de vida precárias na sua aldeia, chegaram a acordo com autoridades municipais, estaduais e federais e liberaram o porto a 31 de outubro. O episódio passou praticamente ignorado pela mídia nacional.
7 de outubro de 2009
Professores indígenas do Pará participam de curso de formação
Nota publicada no Diário do Pará, de Belém, http://www.diariodopara.com.br/noticiafullv2.php?idnot=63576, informa que professores indígenas de todo o Estado estão participando em outubro de um curso de formação, em Belém, Marabá e Altamira. Em Belém, 44 professores Kayapó de todo o Pará estão tendo aulas de filosofia, sociologia, didática de língua Kayapó e outras matérias.
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