12 de dezembro de 2010

Meus contos preferidos

Há algum tempo o Diário do Comércio de São Paulo me encomendou o seguinte artigo;

Dez dos melhores contos da literatura
ocidental, escolhidos por um resenhista

Renato Pompeu

Eu poderia dizer que o conto que mais me impressionou, em já mais de seis décadas de leituras contínuas e exaustivas, seria “O alienista”, de Machado de Assis, de 1882. Seria de bom tom um resenhista profissional apontar como o seu preferido o conto mais significativo jamais produzido em português e um dos contos mais significativos jamais produzidos na literatura mundial. Trata-se ao mesmo tempo de uma obra literária e de um ensaio filosófico sobre a impossibilidade de distinguir entre sanidade mental e doença mental.
Mas confesso que “O alienista”, o melhor trabalho, de ficção ou não, jamais publicado no mundo sobre a loucura, e que sempre vai ser, enquanto os seres humanos existirem, de interesse permanente e sempre atual, é a minha segunda preferência em português. A primeira é “O jardineiro Timóteo”, publicado em 1920 no livro “Negrinha”, de Monteiro Lobato, na sua obra para adultos um autor bem menos dotado do que Machado. Porém, embora não a releia há mais de 50 anos, sempre me encanta essa triste e belíssima história de lindas flores caipiras ameaçadas por “flores da cidade”.
Também há mais de 50 anos não releio o conto policial “As mãos do sr. Ottermole”, do inglês Thomas Burke, publicado originalmente em 1929 e filmado por Alfred Hitchcock em 1957. Mas recordo cada detalhe dessa que é uma das mais perfeitas histórias policiais de todos os tempos. Trata-se de uma série de homicídios por estrangulamento, com os cadáveres das vítimas achados em calçadas de ruas de Londres, em que desde o início o autor vai revelando todas as pistas que identificam o criminoso, mas só na penúltima frase, para surpresa mesmo dos leitores mais atentos, é que a identidade do assassino é revelada. Tudo foi rigorosamente calculado pelo autor para levar inevitavelmente ao desenlace final, mas o leitor, da primeira vez que lê o conto, não percebe essa preparação.
Incluo mais contos policiais: qualquer um com o detetive particular belga Hercule Poirot, criação, com suas “pequenas células cinzentas”, da escritora inglesa Agatha Christie, de 1921, ou qualquer um do também detetive particular, de incerta origem europeia-oriental, Nero Wolfe, superobeso que odiava qualquer movimento físico e que resolvia os crimes sem sair da poltrona, criação do escritor americano Rex Stout, de 1934.
Falando em americanos, de 1868 é “A felicidade do acampamento de garimpeiros”, de Bret Harte, sobre um bebê que nasce num acampamento de garimpeiros na Califórnia, filho de uma índia, a única mulher e que servia em todos os sentidos aos violentos e sempre bêbados homens do local, e de pai desconhecido. Ela morre no parto e aquele bando de desordeiros se vê às voltas com a necessidade de educar a criança.
Já “Bola de sebo”, do francês Guy de Maupassant, de 1880, é a mais comovente história sobre prostituição que jamais vi – e desconfio mesmo que se baseia num fato real. A personagem-título, que tem esse apelido por ser encantadoramente gordinha, se vê às voltas com o seguinte problema: deve prestar ou não seus serviços profissionais a um oficial alemão, na França ocupada durante a Guerra Franco-Prussiana? A resposta desmascara a hipocrisia dos chamados bem-pensantes.
De 1747 é “Zadig, ou O destino – história oriental”, do francês Voltaire, muito mais conhecido como filósofo do que como ficcionista. É uma sátira social e política e também uma história policial que se passa na antiga Babilônia.
“O barril de amontillado”, de 1846, do americano Edgar Allan Poe, é a história de uma vingança cruel, metodicamente preparada, narrada de um modo patologicamente frio e sem nenhum sentimento que não o prazer da vingança. Quem pretende se vingar convida seu desafeto, “fazendo as pazes”, para degustar um rum especial.
Deixei para o fim o conto de que mais gosto, “O diabo que queria ser bom”, de um obscuro autor russo de que não lembro o nome. O diabo pede conselhos a um padre sobre como ser bondoso – mas faz trapalhadas, como, aconselhado a ajudar os outros, ajuda um suicida a se afogar. Deixei para o fim porque não lembro quem escreveu.

5 comentários:

Ignácio disse...

Sem nenhum nacionalismo, mas o Brasil sempre foi muito bem servido de contistas, desde João do Rio, passando por Clarice Lispector, chegando ao Ignácio de Loyola Brandão e à Márcia Denser, indo parar em nomes como Marcelo Mirisola. O Edgar Allan Poe é um gênio nesse tipo de literatura.

Monica disse...

O conto policial do Thomas Burke é interessante, mas a “chave“ para a descoberta do mistério é muito baseada em “O Homem Invisível”, de Chesterton, por sua vez, uma releitura do genial “A carta roubada”, de Edgar Allan Poe. Por isso, quem leu a pequena obra-prima de Chesterton, logo descobre o desfecho da história de Burke.
Como mencionei, Chesterton também faz uma releitura de Poe em “O Homem Invisível”. Mas a releitura de Chesterton me parece muito mais inventiva do que aquela que Burke faz de Chesterton (não conto, porque se alguém não leu, estraga a história).
De qualquer forma, quando se fala em conto policial, é impossível fugir da herança poeana. Em “As mãos do sr. Ottermole”, Burke também dialoga com o célebre “O Homem da Multidão”, do norte-americano, um conto com toda a atmosfera do policial, mas sem o crime.

Braz Chediak disse...

Que bom ver uma relação de melhores contos onde os policiais não são esquecidos nem relegados a segundo plano.
A lista, se nos determos, é imensa em todos os gêneros.
Parabéns e grato pela lembrança de velhos contos esquecidos.
BRAZ CHEDIAK

Flavia Costa disse...

Estou a dias tentando achar este conto do diabo que queria ser bom, que li há tempos atrás e tb nao guardei o nome do autor. Alguma dica de onde procurar???

Alessandro disse...

O autor do conto A conversão do diabo ou O diabo que queria ser bom é Leonid Andreiev - literatura russa.