Mostrando postagens com marcador Brasil Colônia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Brasil Colônia. Mostrar todas as postagens

8 de outubro de 2011

As bebedeiras no Brasil Colônia

A revista Carta Capital recentemente me encomendou a seguinte resenha:


As bebedeiras

no Brasil-Colônia



Pode ser considerado semelhante aos prazeres da degustação de boas bebidas o prazer gerado pela leitura do livro “Selvagens bebedeiras – Álcool, embriaguez e contatos culturais no Brasil Colônia (séculos XVI-XVII)”, do historiador e antropólogo João Azevedo Fernandes, professor na Universidade Federal da Paraíba. Ele descreve como os índios preferencialmente tomavam cauim – um fermentado feito a partir da mandioca, enquanto os portugueses tomavam preferencialmente vinho, mas depois a maioria das preferências de toda a população, inclusive os escravos negros, passou para a cachaça, inicialmente um subproduto da lavoura de açúcar para exportação. Fernandes não só alinha dados sobre a produção, comércio e consumo de bebidas alcoólicas durante os dois primeiros séculos da Colônia, mas principalmente retraça a importância social e cultural das bebidas alcoólicas nos contatos entre as diferentes populações que estão na origem do povo brasileiro. Conta como o hábito do cauim foi ferozmente combatido pelos europeus, principalmente pelos padres, e como a cachaça servia de moeda no tráfico de escravos na África. Uma grande novidade é que o autor imagina que os índios, os primeiros trabalhadores nas plantações de cana e nos engenhos, também tiveram um papel na invenção da cachaça. Um dos poucos senões da obra é dar a entender que, na Colônia, as bebedeiras eram mais selvagens do que hoje. Uma observação geral: a tese de que o vinho não é adequado para o calor dos trópicos não se sustenta, já que a cachaça, muito mais “quente” do que o vinho, se deu muito bem por aqui  – RENATO POMPEU

24 de setembro de 2011

Álbum sobre a viagem de Martim Afonso de Sousa

O jornal Diário do Comércio, de São Paulo, me encomendou há algum tempo a seguinte resenha:




A preciosa reconstrução da


viagem de Martim Afonso



Renato Pompeu



Um belíssimo álbum, com lindas e informativas ilustrações (mais de cem) do arquiteto e muralista Vallandro Keating, e empolgantes textos do navegante português do século 16, Pero Lopes de Sousa, e do bem conhecido sociólogo e historiador Ricardo Maranhão, é o que nos oferece o livro “Diário de navegação – Pero Lopes e a expedição de Martim Afonso de Sousa (1530-1532)”, publicado pela Editora Terceiro Nome e o Banco Pine.

Trata-se da reconstituição da expedição naval ordenada pelo rei Dom João 3.o de Portugal para reconhecer as costas brasileiras, combater a presença de europeus não-portugueses nas terras recém-descobertas, e instaurar pelo menos uma povoação permanente nas novas terras. No comando da expedição o rei pôs o jovem capitão Martim Afonso de Sousa, que escolheu seu irmão Pero Lopes como encarregado de registrar o diário de bordo. A expedição acabou reconhecendo as costas da América do Sul, desde a Paraíba até o rio da Prata, pela qual subiu até o rio Paraná, e culminou na fundação de São Vicente, no que é hoje o litoral do Estado de São Paulo.

O livro parte do diário de navegação de Pero Lopes, mas Maranhão enriqueceu a narrativa pesquisando em muitas outras fontes, não só portuguesas, a ponto de que, das cerca de 250 páginas da obra, cerca de 20 são ocupadas pela íntegra do diário de bordo. Foi “uma expedição repleta de descobertas, batalhas, encontros e espantos”, diz a apresentação.

Explica a contracapa: “Uma das mais antigas fontes para o conhecimento do Brasil foi produto de uma verdadeira epopeia: a expedição de Martim Afonso e de seu irmão Pero Lopes de Sousa ao Brasil e ao Rio da Prata, de 1530 a 1532. Com suas caravelas, naus e bergantins, eles exploraram nossa costa, guerrearam franceses e deram o primeiro passo para a colonização do país. O leitor que embarcar nessa fascinante jornada ao lado da tripulação comandada pelos irmãos portugueses encontrará combates navais, tribos indígenas, muitas aventuras e maravilhas de nosso litoral, tal como era há quinhentos anos”.

Sobre o diário de Pero Lopes, diz a introdução: “O documento apresenta uma narrativa aparentemente fria, técnica, marcada por observações astronômicas, com muitos números e cálculos de marinharia, típica de um homem que precisa da razão geométrica e matemática para encontrar algum sentido na infinitude do oceano que ele tem a coragem de enfrentar com seus insignificantes barcos de madeira. No entanto, o narrador é também um homem jovem, aventureiro e de imaginário renascentista, e por isso os fatos da vida invadem seu texto, contaminam o seu racionalismo com exclamações de prazer estético, com temores ancestrais diante do mar desconhecido, com manifestações de espanto. Assim, apesar de sua extrema economia de palavras, uma leitura cautelosa de seu diário é altamente reveladora e dá pistas decisivas para a procura de outras fontes que esclareçam em pormenores o que ele conta em frases telegráficas”.

A 31 de janeiro de 1531, uma terça-feira, assim registrou Pero Lopes a apreensão de um navio francês carregado de pau-brasil, nas costas de Pernambuco, transcrevendo-se para a grafia de hoje: “No quarto d’alva vimos terra, que nos demorava a oeste, chegando-nos mais a ela houvemos vista de uma nau, e demos as velas todas, e a fomos demandar: e mandou o capitão I. dois navios na volta do norte, na volta em que a nau ia, e outros dois na volta do sul: a nau como se viu cercada arribou a terra, e meio légua dela surgiu e lançou o batel fora. Como fomos dela um tiro de bombarda se meteu a gente toda ao batel e fugiu para a terra. Mandou o capitão I. a Diogo Leite, capitão da corveta Princesa, que fosse com seu batel após o batel da nau: quando já chegou a terra, era já a gente metida pela terra dentro, e o batel quebrado. Fomos à nau, e nela não achamos mais que um só homem; tinha muita artilharia e pólvora, e estava toda carregada de brasil.”

Numa das poucas vezes que desceu à terra, Pero Lopes, embora sem descrever, se entusiasma com a paisagem brasileira: “A terra é a mais formosa e aprazível que eu jamais cuidei de ver: não havia homem que se fartasse de olhar os campos e a formosura deles. Aqui achei um rio grande; ao longo dele tudo arvoredo o mais formoso que nunca vi”.

Se o diário de Pero Lopes é assim empolgante, mais encantador ainda é o texto geral do livro, que descreve com a linguagem de hoje como era naquela época o território que viria a ser o Brasil.