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22 de novembro de 2013
Marx vai bem, marxismo vai mal
Da Carta Capital
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Marx vai bem,
marxismo vai mal
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A julgar pelo livro “Como mudar o mundo: Marx e o marxismo 1840-2011”, do famoso historiador britânico Eric Hobsbawm, publicado no Brasil pela Companhia das Letras, imediatamente após o lançamento original em inglês, Marx vai muito bem, obrigado, mas o marxismo vai muito mal. Para Hobsbawm, as teses centrais de Marx continuam válidas ainda hoje, mas no século 20 o único marxista digno de nota foi o italiano Antonio Gramsci, os demais, como Lenin e Trotsky, não contam – e no século 21 não há ninguém. Também o leitor sai da leitura do livro sem saber como o mundo pode mudar, pois Hobsbawm só propõe obviedades. Mas, como ele é um historiador, e não um líder político, a obra é um apanhado muito bom sobre como Marx e o marxismo mudaram o mundo durante mais de um século. Nos informamos muito claramente sobre como Marx lidou com a movimentação intelectual e política de sua época. Temos importantes distinções sobre o que muitas vezes se confunde: Hobsbawm observa que uma coisa é o movimento trabalhista, outra coisa é o movimento socialista. Afinal, não é de hoje que o socialismo marxista e as aspirações dos trabalhadores seguem trilhas separadas. – RENATO POMPEU
21 de setembro de 2013
O jovem Marx, ainda atual?
Ca189ideias
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Ideias de Botequim
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O jovem Marx,
ainda atual?
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Renato Pompeu
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Acaba de sair uma nova edição de “A teoria da revolução no Jovem Marx”, do pensador brasileiro radicado na França, Michael Löwy, pela Boitempo. A edição original em francês é de 1970, mas essa edição brasileira foi feita a partir da edição francesa de 1997. Trata-se de uma análise política e filosófica das ideias de Marx quando jovem, mostrando que há uma continuidade dessas ideias durante toda a vida de Marx. Em 1970, o livro reagia aos que, como o filósofo francês Louis Althusser, consideravam que o Marx maduro, ou velho Marx, havia superado em “O capital” suas ideias da juventude. Althusser defendia ainda a tese de que “O capital” era o único texto escrito por Marx que continuava plenamente válido. Löwy procura esclarecer que as teses políticas, como a revolução proletária, e filosóficas, como a emancipação do ser humano, continuam tão válidas quanto a economia política de Marx.
Ainda no horizonte do comunismo, temos a biografia “Entre sem bater – A vida de Apparício Torelly, o Barão de Itararé”, de Cláudio Figueiredo, um relato da vida colorida e tumultuada do humorista que, vereador comunista no Rio a partir de 1946, a um vereador conservador que interrompeu um seu discurso dizendo “O que Vossa Excelência está dizendo me entra por um ouvido e sai pelo outro”, respondeu: “Impossível, Excelência, o som não se propaga no vácuo”. O Barão de Itararé foi a prova viva de quem um esquerdista radical não tem necessariamente de ser austero e mal-humorado.
Também da Boitempo é “Padrão de reprodução do capital – contribuições da teoria marxista da dependência”, em que, analisando a América Latina nos tempos mais recentes, diversos ensaístas, sob a coordenação de Carla Ferreira, Jaime Osorio e Mathias Luce, dão continuidade aos conceitos do falecido pioneiro da teoria da dependência, Ruy Mauro Marini, segundo os quais o imperialismo há muito deixou de ser um fator externo e há muito fincou raízes no próprio cerne dos países latino-americanos.
Do pensador e militante panamenho Nils Castro, temos “As esquerdas latino-americanas em tempos de crise”, pela Fundação Perseu Abramo. É uma discussão mais aprofundada sobre o que morreu e o que continua vivo no pensamento da esquerda depois da derrocada do socialismo real e da ascensão e crise do neoliberalismo.
Em cerca de 450 alentadas páginas, ricamente documentadas e ilustradas, o jornalista Leonencio Nossa faz um dramático e informativo relato das violências repressivas do regime militar em “Mata! O major Curió e as guerrilhas no Araguaia”, lançado pela Companhia das Letras.
Saiu em quarta edição, pela José Olympio, “A obra do artista – uma visão holística do Universo”, em que o Frei Betto, nas palavras do astrofísico Marcelo Gleiser, “demonstra que não existe incompatibilidade entre ciência e espiritualidade. Mais ainda, que a ciência é uma busca essencialmente religiosa, como o disse também Einstein”.
Com seleção e apresentação de Marco Haurélio e xilogravuras de Erivaldo, a Global lançou “Antologia do cordel brasileiro”, com cordéis que abrangem todo o século 20 e chegam aos tempos atuais. Imperdível.
Já “Carlos Gomes, um tema em questão – A ótica modernista e a visão de Mário de Andrade”, de Lutero Rodrigues, publicado pela Editora Unesp, faz um levantamento crítico sobre as principais apreciações feitas ao longo das décadas sobre a vida e a obra desse grande compositor.
Outros lançamentos da Editora Unesp: “A Revolução Sul-Africana – Classe ou raça, revolução social ou libertação nacional”, de Analúcia Danilevicz Pereira, dentro da Coleção Revoluções do Século 20, dirigida pela consagrada historiadora Emília Viotti da Costa – o título já basta para dar uma ideia da abrangência da obra; “O triunfo do fracasso – Rüdiger Bilden, o amigo esquecido de Gilberto Freyre”, de Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke”, que retraça a vida do pesquisador alemão que, na Universidade Columbia, nos Estados Unidos, não só iniciou Freyre nas obras dos grandes pensadores alemães, como também insistiu que o jovem pernambucano se interessasse pelo passado da escravidão no Brasil. Apesar de ter exercido papel crucial na formação do pesquisador brasileiro, Bilden foi depois menosprezado não só pelos historiadores das ciências sociais, como pelo próprio Freyre. Já “As origens do homem explicadas às nossas crianças”, de Pascal Picq, é o que os franceses chamam de “alta vulgarização” a respeito da evolução do ser humano. “A evolução do sexo”, de John Maynard Smith, retraça a evolução biológica da sexualidade, desde os primeiros seres vivos até os seres humanos.
Mas o grande lançamento da Editora Unesp é a “Correspondência 1928-1940”, entre Thomas Adorno e Walter Benjamin. As relações entre os dois nem sempre foram harmoniosas, Benjamin se queixava de que Adorno não abria muito espaço para seus voos teóricos mais ousados, além de reclamar do pouco dinheiro que recebia.
26 de agosto de 2013
Marx contra o socialismo estatal
Artigo encomendado pela revista Caros Amigos - Ca181ideias
Marx contra o socialismo estatal
Renato Pompeu
Finalmente sai em português, pela Boitempo Editorial e em bem cuidada tradução, a partir do original em alemão, de Rubens Enderle, a “Crítica ao Programa de Gotha”, de Karl Marx, texto escrito em 1875. Gotha é uma cidade alemã e nela havia sido realizado, naquele ano, o encontro que oficializou a fusão entre a Associação Geral dos Trabalhadores Alemães, liderada por Ferdinand Lassalle, e o Partido Social-Democrata dos Trabalhadores, liderado por Wilhelm Liebknecht e August Bebel, dois dirigentes bastante próximos de Marx. O programa que saiu dessa reunião favorecia mais as teses de Lassalle e Marx criticou com tal contundência as teses lassallistas que seu texto só foi publicado em 1891, bem depois de sua morte..
No prefácio à edição brasileira, o importante pensador brasileiro radicado na França, Michael Löwy, assinala dois pontos que pouco foram levados em conta pelos marxistas: Marx se insurge contra a visão de Lassalle, de que só o trabalho produz valor – para Marx, a natureza também cria valor, o que indica que para o fundador do comunismo moderno as preocupações ambientais são de importância crucial. A outra crítica aguda que Marx faz a Lassalle é que este estava imerso na “credulidade servil no Estado”. Löwy se refere “às ideias antiestatistas que Marx desenvolveu ao longo de sua vida, desde sua crítica à filosofia do Estado de Hegel, em 1843, até seus escritos sobre a Comuna de Paris, em 1871”. Conclui o prefaciador: “Marx proclama contra os anarquistas a necessidade de certa forma de Estado – a ‘ditadura revolucionária do proletariado’ – durante o período de transformação revolucionária que conduz ao advento da sociedade comunista”. Não foi o que aconteceu nos países em que o marxismo triunfou, ainda que provisoriamente.
Dois livros importantes sobre o conflito entre Israel e os palestinos: um da Civilização Brasileira, “Outro Israel”, do respeitado escritor, político e militante pró-paz israelense, Uri Avnery, bem conhecido de todos que se interessam pelos conflitos no Oriente Médio. Avnery, em seu prefácio, presta uma homenagem ao ex-presidente Lula, por este ter reconhecido a Palestina como Estado soberano. Aos 88 anos, ele publica todos os sábados, na imprensa de Israel, artigos em que comenta os assuntos que estão na ordem do dia. Os textos reunidos no livro foram selecionados e organizados pela consagrada jornalista brasileira radicada em Israel, Guila Flint, correspondente da BBC e que foi correspondente da CBN. A tradução é de Caia Fittipaldi.
O outro é da Editora Record, “Um muro na Palestina”, do jornalista francês René Backmann, colunista da revista “Le Nouvel Observateur” sobre o tristemente célebre muro que Israel construiu na Cisjordânia, não muito alto, 3 metros, mas bastante extenso, 650 quilômetros, e, acima de tudo, bem largo: de 45 metros a 100 metros, incluindo bem no meio um fosso para impedir a passagem de veículos. Mas o livro não é só sobre o muro – e sim sobre as duas nações, Israel e Palestina, que o muro quer manter para sempre hostis entre si. A tradução é de Clóvis Marques.
Já a Boitempo Editorial nos brinda, além de com o clássico antiestatal de Marx, com uma preciosidade: um livro do famoso historiador e ensaísta inglês Perry Anderson, 73 anos, “Espectro: da direita à esquerda no mundo das ideias”. Ex-diretor da conceituada revista “New Left Review”, que se vem empenhando há décadas na divulgação de um marxismo não dogmático, Anderson reúne na nova obra as suas duas facetas principais: a de historiador atento a tudo que assinala a mudança de uma época para outra, e a de ensaísta atento a tudo que há de mais contemporâneo. Seu livro, assim pode ser definido como uma rigorosa história das ideias contemporâneas. Entre outros autores, ele discute o guru dos neoliberais, Friedrich von Hayek; o guru dos neoconservadores americanos, Leo Strauss, mais os progressistas Jürgen Habermas e Norberto Bobbio.
Outro lançamento importante da Boitempo Editorial é “Globalização, Dependência e Neoliberalismo na América Latina”, por Carlos Eduardo Martins. A temática é mais do que bem-vinda: como lidar, na atualidade, com a famosa Teoria da Dependência, e como inserir a América Latina nas Teorias dos Sistemas-Mundos e do Sistema Mundial. Diz a apresentação: “O autor utiliza a teoria de Marx sobre a tendência decrescente da taxa de lucro provocada pela revolução científico-tecnológica, quando ciência e tecnologia entram no processo com meios de acumulação do capital. No entanto, o elemento central que anima sua preocupação teórico-crítica é a utopia da autonomia e da autodeterminação, notadamente nos capítulos em que a América Latina é aprofundada no contexto da globalização, do sistema-mundo e de dentro da ‘carcaça de ferro’ do neoliberalismo e da dependência”.
Também da Boitempo Editorial é outra preciosidade: a estreia em ficção, no livro “Cansaço”, de Luiz Bernardo Pericás, historiador já considerado clássico por sua obra “Os cangaceiros”. As duas histórias podem ser definidas ao mesmo tempo como dramas sertanejos e tragédias gregas.
10 de agosto de 2013
Marx e Engels, racistas?
Resenha encomendada pela revista Caros Amigos -
Ca175ideias
Ideias de Botequim
Marx e Engels,
racistas?
O que teria levado Engels a escrever, num artigo de 1849, que entre todos os povos do Império Austro-Húngaro “há apenas três que foram portadores do progresso, que desempenharam um papel ativo na história e que ainda conservam a sua vitalidade: os alemães, os poloneses e os húngaros. Por essa razão eles agora são revolucionários. A vocação principal de todas as outras raças e povos, grandes e pequenas, é de perecer no holocausto revolucionário”, e a postular, em carta a A.H. Starkenburg, “vemos nas condições econômicas o que, em última instância, condiciona o desenvolvimento. Por si mesma, no entanto, a raça é um fator econômico”? E por que Marx não só achava que a classe operária “germânica” da Alemanha era superior, por exemplo, à classe operária francesa, como também exaltou todas as revoluções que aconteceram no século 19 na Europa, mas não mencionou nenhuma vez a revolução haitiana, em que os escravos negros derrotaram as tropas francesas, acabaram com a escravidão e se instauraram como povo independente? Segundo o livro “O marxismo e a questão racial – Karl Marx e Friedrich Engels frente ao racismo e a escravidão”, do intelectual cubano Carlos Moore, septuagenário que saiu de seu país nos anos 1960 e está radicado na Bahia, depois de ter vivido em vários países das Américas, Europa e África, tendo sido em Cuba acusado de trabalhar para a CIA e condenado por isso, embora tenha lá voltado para se tratar de câncer, nos anos 1990, tudo isso se deve a que Marx e Engels não estiveram alheios às concepções racistas vigentes em sua época entre os “cientistas sociais” europeus.
O livro, com prefácio do professor de Filosofia, formado na PUC de São Paulo, Ricardo Matheus Benedicto – que em recente palestra no Centro Educacional Claretiano, na capital paulista, defendeu a tese de que o que considera falhas de Marx e Engels não devem servir de pretexto para atacar as contribuições fundamentais de ambos – foi lançado no Brasil pela Editora Nandyala e pelo Cenafro-Centro Nacional de Estudos e Políticas de Igualdade na Educação. Moore, que foi acusado também de ligações com o líder direitista angolano Holden Roberto, o que ele nega veementemente, diz lutar contra o racismo em Cuba, país que segundo ele contaria com uma maioria de pretos e mestiços mas que, segundo Benedicto, citando um documento oficial cubano de 2007, conta com apenas 3 por cento de negros entre seus estudantes universitários e em que 68 por cento dos brancos cubanos não aceitam casamentos inter-raciais e 58 por cento deles consideram que os negros são “menos inteligentes” do que os brancos. Meios cubanos, entretanto, defendem a tese de que o racismo desapareceu em Cuba, porque era uma arma do capitalismo para dividir os trabalhadores e, com o fim do capitalismo, perdeu suas bases materiais e deixou de existir.
No Brasil, também há a discussão a respeito do bem disfarçado racismo existente no País. Há intelectuais e militantes, tanto negros como brancos, defendendo teses opostas, segundo as quais a questão racial seria uma mera derivação da questão de classes ou, ao contrário, haveria uma questão racial específica, a ser combatida por si só.
Ainda dentro dessa questão, um dos maiores intelectuais brasileiros, Luiz Gama, filho de uma escrava africana e do seu “dono” português, teve textos seus, organizados pela pesquisadora Lígia Fonseca Ferreira, editados pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, no livro “Com a palavra, Luiz Gama – poemas, artigos, cartas, máximas”. Exemplos: “A escravidão é uma espécie de lepra social: tem sido muitas vezes abolida pelos legisladores e restaurada pela educação sob aspetos diversos”, “A humildade e a escravidão nasceram gêmeas e foram cautamente educadas pelo Catolicismo”. Finalmente, temos os “Cadernos negros – volume 33 – Poemas afro-brasileiros”, editado pelo Quilombhoje. São poemas de 24 autores brasileiros, entre eles Cuti, Elizandra Souza, Flávia Martins e Jairo Pinto.
Outros livros importantes incluem “Porecatu, a guerrilha que os comunistas esqueceram”, do jornalista Marcelo Oikawa, editado pela Expressão Popular. Na passagem dos anos 1940 para 1950, no Norte do Paraná, três mil posseiros, animados pelo chamado Manifesto de Agosto do Partido Comunista, que pregava a luta armada, e pelo exemplo de Mao Zedong na China, se empenharam num conflito armado em que foram derrotados, mas que serviu de inspiração para a instauração de Ligas Camponesas no Paraná e, depois, no Nordeste; seus quadros, vencidos na luta armada, passaram a atuar na construção do sindicalismo rural no Paraná e da fundação da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura, a Contag, em 1963.
Também vale a pena ler “Indignai-vos”, publicado pela Leya, em que o veterano da Resistência francesa contra os nazistas, Stéphane Hessel, protesta contra o que considera traição, pelos governos neoliberais, de todos os ideais de justiça pelos quais os resistentes lutaram tantas décadas atrás. Em vários países, esse livro já vendeu mais de 3 milhões de exemplares. Finalmente, para que não falte a ficção, temos “O País das Mulheres”, Editora Verus, em que a romancista nicaraguense Gioconda Belli descreve um país fictício em que o Partido da Esquerda Erótica toma o poder.
Renato Pompeu é jornalista e escritor.
WWW.renatopompeu.blogspot.com
rrpompeu@uol.com.br
13 de junho de 2013
Os livros que Marx lia
Resenha encomendada pela revista Retrato do Brasil
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As leituras de
Karl Marx
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Renato Pompeu
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Poucos anos antes de 1840, o mundo perdeu um pouco original e pouco inspirado poeta romântico, para ganhar em pouco tempo um grande jornalista e, a médio prazo, aquele que grande parte dos especialistas considera o maior pensador que a humanidade jamais produziu. Esse mau poeta, esse grande jornalista e esse insigne pensador eram uma pessoa só: Karl Heinrich Marx (1818-1883), filho de um culto judeu alemão adepto do Iluminismo; seu pai era um dos poucos de sua linhagem e sobrenome que não foi rabino, pois se converteu ao luteranismo para poder trabalhar como advogado..
Graças a Napoleão, os judeus da Renânia tinham sido equiparados aos demais cidadãos, mas quando a Prússia retomou a região os judeus renanos, para continuarem emancipados, tiveram de abandonar sua religião, o que o pai fez imediatamente. O menino Karl, porém, só se converteu ao luteranismo aos seis anos de idade, quando seus avós maternos já tinham morrido e sua mãe consentiu afinal em converter-se ao luteranismo.
O menino cresceu com uma dúvida na cabeça – afinal não se passa impunemente, em tão tenra idade, de uma ortodoxia para outra – e com muitos livros na mão, a ele proporcionados pelo pai erudito e por um vizinho da idade de seu pai, um barão de antiga estirpe alemã que mais tarde se tornaria seu sogro. O pai o introduziu à leitura dos iluministas franceses e dos poetas e romancistas clássicos alemães. O vizinho nobre o iniciou nas leituras de clássicos gregos e latinos e, principalmente, de Shakespeare, do qual sabia de cor peças inteiras. O menino pegou o gosto pela leitura, e se tornou seguramente o ser humano que mais leu em toda a história.
É isso que se depreende da leitura do livro “Karl Marx and World Literature”, do erudito alemão S.S. Prawer (nascido em 1925), que, fugindo ao nazismo, se radicou desde os anos 1930 na Inglaterra, relançado este ano pela editora Verso em Londres e Nova York (o original é de 1976). Note-se que “literatura mundial” foi um conceito, oriundo de Goethe, introduzido por Marx no “Manifesto Comunista”, quando menciona que, em paralelo à mundialização da economia, “das antigas literaturas nacionais surge uma literatura mundial”. E se note também que Prawer se está referindo mais diretamente ao que se chama de literatura criativa ou beletrística, ou seja, a poemas, romances, contos e peças. Se bem que ele cita também obras científicas e filosóficas, o livro se preocupa mais com a maneira pela qual a alta literatura, e até a literatura mais popular, influenciaram Marx e suas descobertas.
Um adversário político como o anarquista russo Bakunin reconheceu que “poucos homens leram tanto, e, pode ser acrescentado, leram tão inteligentemente quanto o sr. Marx”. E Prawer é considerado pelos especialistas no assunto, em toda a Europa Ocidental, simplesmente o homem que mais estudou os livros lidos e citados por Marx, dos quais menciona em seu livro perto de 800 autores.
Influenciado pela leitura intensa, constante e meticulosa de literatura criativa, até os 19 anos, Marx pretendia ser poeta e escreveu versos como os seguintes:
Talvez penses, poeta, que não posso alcançar
A batalha em tua alma, a luz dentro de teu peito,
As imagens que aspiram a se elevar?
Elas brilham, puras como o reino das estrelas;
Flamejam, como um dilúvio ardente,
Apontam para uma vida mais elevada
Em suma, como nota Prawer, nada original em relação ao romantismo alemão da época, mas de qualquer modo os poemas desta fase de Marx respiram intensas leituras de grandes autores alemães, como Schiller, Goethe, e de uma multidão de poetas menores que usavam as mesmas imagens para os mesmos temas; os poemas de Marx evidenciam ainda uma bagagem crítica enriquecida por leituras de Hegel e outros grandes e pequenos conhecedores de estética. Marx, no entanto, se media pelos padrões do dramaturgo grego Ésquilo – de que admirou particularmente as peças sobre o herói Prometeu – e de Goethe; viu aos 19 anos que jamais chegaria a essas alturas como poeta e saiu em busca, como dizem os ingleses, de pastagens mais verdes. Inspirou-se nas leituras dos grandes romances ingleses do século 18, como “A Vida e as Opiniões de Tristram Shandy, Gentilhomem”, de Laurence Sterne – um dos modelos de nosso Machado de Assis nas suas melhores obras - e começou a escrever ficção em prosa – como, porém, seu padrão era o “Dom Quixote”, e Marx não chegou nem perto disso, desistiu do romance e tentou o teatro, novamente sem êxito.
A essa altura, embora continuasse lendo até o fim da vida poesia, ficção e teatro, e usando essas leituras em seus textos, ele tentou a filosofia, que, a par de história e direito, era afinal o que ele estudava na universidade, em Bonn e em Berlim. Foi conquistado pelos filósofos realistas gregos antigos Demócrito e Epicuro, sobre os quais escreveu sua tese de doutorado e que julgavam que os deuses, se existiam, não se ocupavam dos destinos dos seres humanos, destinos que eram frutos de escolhas e decisões dos próprios seres humanos. Além disso, os fenômenos da natureza, para Demócrito e Epicuro, se explicavam também por razões meramente naturais e não implicavam intervenções divinas para se efetuarem e também para serem entendidos.
Aqui há um ponto particularmente significativo. Marx ficou seduzido pela maneira simples e clara com que Epicuro se ocupou do problema da morte, tão esmagador para praticamente a totalidade das pessoas, sendo um tema central de todas as religiões e de quase todas as filosofias. Epicuro estabeleceu que a morte simplesmente não é um problema, pois, quando existimos, ela não existe; quando ela existe, nós não existimos e não podemos ser afetados por ela. Livre assim do peso da morte, o espírito de Marx se voltou para a vida. E não para a vida individualista das grandes almas de seus primeiros ideais românticos, mas para a vida concreta conceituada por Epicuro, com sua feiura a ser embelezada por feitos como o de Prometeu, castigado pelos deuses por ter dado o fogo aos seres humanos, e assim melhorado a vida destes.
Ainda mais agudos se tornaram esse encontro com a vida e esse desejo de, como Prometeu, servir à humanidade, quando, findos os estudos universitários e, querendo casar, Marx afinal resolveu trabalhar e, não tendo sido aprovado como professor universitário, por suas opiniões heterodoxas sobre religião, e tendo verificado, até mesmo pelas reações de sua própria família, e até de sua própria noiva, que não tinha vocação para poeta, ficcionista ou autor de teatro, no exato momento em que filosoficamente Marx dera as costas à morte e se voltou para a vida, ele foi ser jornalista, em 1842, aos 24 anos.
Ao deparar com uma notícia em que proprietários de terras se queixavam de que camponeses estavam roubando madeira e lenha de suas árvores, Marx sem dúvida se lembrou de seus próprios arroubos românticos quando se pôs ao lado dos pobres “ladrões”: “Com uma noção nebulosa de vossa excelência pessoal, poeticamente enamorados de vós mesmos, vós ofereceis àqueles que se relacionam convosco o vosso caráter individual contra as vossas leis. Devo confessar que não partilho desta noção romanesca sobre o que é um dono de floresta”. Como mostra esse trecho que escreveu num artigo para a “Gazeta Renana”, ao abandonar o idealismo na filosofia e o individualismo na arte, Marx dera um passo decisivo em favor do ideal prometeico de desafiar os deuses ou os poderosos – principalmente desmascarando as ideias que estes fazem de si próprios –, para servir aos humanos.
Enveredando pelo jornalismo crítico, Marx enveredou também pela defesa das maiorias oprimidas contra as minorias opressoras, caminho que o levaria a se tornar sucessivamente um tribuno do povo, um democrata radical, e enfim um comunista, isto é, um partidário de que os bens desta terra fossem de propriedade pública (não estatal; por exemplo, ele era contra o ensino em escolas estatais, pois ensinariam a doutrina encarnada no Estado vigente; era a favor de escolas públicas que fossem controladas não pelo Estado, mas pela sociedade). Seu primeiro artigo, sintomaticamente, foi sobre as leis prussianas a respeito da censura à imprensa, inspirado sem dúvida por uma frase de Voltaire que o pai de Marx repetia incansavelmente para seu filho; “Não concordo com uma só palavra do que dizeis, mas lutarei até a morte pelo vosso direito de dizê-lo”. Evidentemente, o artigo foi censurado na Prússia e acabou sendo publicado, na íntegra, na já então democrática Suíça.
Paralelamente à sua carreira jornalística, prematuramente encerrada como carreira profissional de diretor de jornal por sua participação em movimentos políticos radicais, mas continuada até o fim de sua vida como carreira intelectual, por inumeráveis artigos como colaborador em diferentes publicações, principalmente americanas, Marx, já deixados muito longe os sonhos de literatura criativa, voltou-se para a não ficção, escritos filosóficos, estéticos, históricos, políticos e, mais tarde, econômicos.
Mas Marx continuou sendo um leitor voraz e a aproveitar tudo que lia para melhorar e ilustrar o que escrevia. Prawer vai mostrando como as leituras de Marx despertaram no espírito do jovem jornalista algumas de suas ideias fundamentais como grande pensador. Por exemplo, a ideia de que os seres humanos não sabem o que realmente fazem, mas se iludem quanto a seus próprios propósitos e quanto ao resultado efetivo de suas ações – ideia que está na origem de seus conceitos de alienação, ideologia e falsa consciência –,, Marx colheu em parte, diz Prawer, de suas leituras de grandes romances e grandes peças de teatro a respeito de quiproquós e de comédias de erros, e de autoenganos, especialmente de personagens que afetavam grande ideia de si mesmos, mas que aos olhos dos espectadores e dos leitores apareciam como grotescos e ridículos.
Do mesmo modo, e sempre de acordo com Prawer, a primeira centelha do conceito do fetichismo da mercadoria surgiu no cérebro de Marx durante a leitura de um livro do nobre francês do século 18 Charles Debrosses (também grafado Des Brosses), amigo dos iluministas, que examinou as crenças dos habitantes da África Ocidental segundo as quais certos objetos gozavam de propriedades sobrenaturais, a que Debrosses, a partir da palavra portuguesa “feitiço”, deu o nome de “deuses-fetiches”. Marx transportou o conceito de fetichismo para a mercadoria, ao mostrar que esta, simples resultado do trabalho humano – como os objetos produzidos pelos nativos da África Ocidental – aparecia – e continua aparecendo, talvez hoje mais do que nunca – como encarnando não se sabem quais maravilhas. (Mais tarde o conceito seria utilizado pelos profissionais do psiquismo se referindo ao desejo sexual por objetos não sexuais, como pés ou calcinhas).
Nessa época também, impressionado, segundo Prawer, pela extrema desigualdade entre os seres humanos que ia descobrindo como jornalista, Marx passou a se inspirar em suas leituras sobre Diógenes, o filósofo grego antigo que andava pelas ruas e espaços públicos com uma lanterna na mão, alegando que estava à procura de alguém que fosse realmente “um ser humano” tal como era altivamente definido como obra suprema da Criação pelos demais filósofos da época, sem jamais encontrar alguém que se encaixasse em tão perfeita definição.
Do mesmo modo, como no samba de Elzo Augusto, José Saccomani e Jorge Martins, imortalizado na voz do cantor Gilberto Alves, Marx saiu procurando “de lanterna na mão” seres humanos, mas não via seres humanos, via exploradores e explorados, pessoas que sabiam ser ferreiros ou criadores de porcos, ou serralheiros, mas não sabiam como ser propriamente seres humanos na plenitude da palavra. Ao contrário do que diz o samba, no entanto, Marx, jamais ficou na situação de “agora, jogar a lanterna fora”
Como cada ser humano podia cumprir tudo que promete o seu potencial? Como poderia cada ser humano ser caçador de manhã, pescador à tarde e crítico literário à noite? Encarnando-se como Diógenes, procurando o ser humano plenamente humano, que nunca fosse usado como coisa que faz cobertores, ou que planta milho, ou que lava roupa para outro ser humano, Marx julgou tê-lo encontrado entre os trabalhadores, mas só se fossem liberados – e liberados, justamente, do trabalho, que para Marx, mais do que uma atividade nobre, era uma maldição. Ele estava à procura de seres humanos que tivessem as qualidades positivas dos trabalhadores – a de serem produtivos, mas que não fossem obrigados a produzir o que não queriam para pessoas de que não gostavam.
Em seguida, diz Prawer, Marx, ao pôr-se a campo para conseguir, em sua denúncia contra um mundo desumano, a adequada descrição dos burgueses em particular e dos exploradores em geral, e dos sedutores que prometem mundos e fundos aos seres humanos para mais bem manipulá-los, recorreu às descrições de Shylock por Shakespeare – o agiota que exige um pedaço do corpo de um jovem como pagamento de uma dívida – e de Mefistófeles por Goethe, o diabo que compra a alma de um professor em troca de lhe propiciar poder, riqueza e uma vida feliz de eterna juventude.
O livro de perto de 500 páginas altamente densas em informações e em conceitos não é passível de ser adequadamente sintetizado no espaço destinado a esse artigo. Basta dizer, para encerrar, que Prawer afirma, na conclusão: “O deleite de Marx com a literatura e sua ansiedade em fazer experiências literárias devem ser vistos como parte de seu empenho em conhecer as melhores coisas que foram pensadas e ditas no mundo.”
E, mais adiante: “Quando Marx pensa na literatura, então, ele o faz num amplo contexto econômico, social, histórico. Quando pensa num autor particular, ou num corpo particular de composições literárias, ele o faz em relação a outros autores, outras composições, em muitas línguas.” No mundo já globalizado a partir de meados do século 19, não havia mais lugar, achava Marx, para unilateralismos nacionalistas ou para estreiteza mental, como ele diz no “Manifesto Comunista”. Marx consagrou definitivamente, também no “Manifesto”, o termo “literatura mundial”. A tal ponto que Prawer, com todo seu esforço, não pôde abarcar todo o universo vasculhado por Marx, pois seu livro é basicamente limitado a autores ocidentais, quando Marx leu tudo que estava traduzido das literaturas orientais para línguas ocidentais, e costumava citar, por exemplo, místicos muçulmanos.
9 de abril de 2013
Introdução de Juca Kfouri ao romance A saída do primeiro tempo, de Renato Pompeu, de 1978
Introdução
Juca Kfouri
A “Saída do Primeiro Tempo” é um clássico da literatura futebolística nacional.
Pena que, de tão vanguardista, tenha sido lançado ainda em 1978, razão pela qual, apesar de atualíssimo, o livro seja muito menos conhecido, e badalado, do que merece e precisa ser.
Precursor de obras como as de José Miguel Wisnik (“Veneno Remédio”) e Hilário Franco Júnior (“A Dança dos Deuses”), Renato Pompeu nos conta uma literalmente fantástica história da Ponte Preta, dessas que torcedor algum pode desconhecer.
E, se não bastasse, no intervalo entre o primeiro e o segundo tempos da saga do espectro da velha Macaca, Pompeu traça uma genial, criativa, obrigatória, Teoria do Futebol, tomando de empréstimo o primeiro capítulo de “O Capital” de Karl Marx, sobre a Mercadoria e seus fetiches.
Ninguém passa impune sobre as 74 páginas do ensaio, “O Futebol, Crítica da Economia Política”.
Ninguém.
Nem que não goste, até odeie ou despreze o futebol.
E ninguém que leia seguirá vendo futebol do mesmo jeito.
Em ótima hora, porque o Século 21, a Ponte Preta e as torcidas do Corinthians e do Flamengo merecem, para não falar das demais, é claro, a obra de Pompeu é relançada, para compor uma espécie de trilogia com Wisnik e Franco, compondo um triângulo que vai muito além das bermudas, porque das chuteiras, calções e camisas que produzem esse encantamento chamado jogo de futebol, com todos os seus segredos, seus mistérios mesmo, que quanto mais revelam mais escondem, num jogo mágico de labirintos sem fim.
Porque, como Pompeu explica sabiamente, as ciências sociais têm se preocupado mais com coisas chatas do que com as lindas e maravilhosas como o Futebol, que carrega em si a tendência de ser Atividade Única do mesmo modo que se sonha com a Religião Única ou com o Partido Único.
Ora, quem já pensou que o futebol implica na existência da Mulher, pois senão os jogadores não teriam nascido?
Pompeu pensou.
Quem já refletiu sobre a complexidade da Saída do Primeiro Tempo?
Pompeu refletiu.
E sobre a vocação democrática implícita do futebol?
Além do Doutor Sócrates, só Pompeu ponderou, e antes do Magrão.
O homem brinca com a bola que é redonda como o mundo é redondo e realiza pelo futebol o desejo de todos, o de brincar com o mundo.
Pompeu brinca com as palavras, com as ideias, as teorias, e nos diverte e instiga ao tratar o óbvio com a inteligência que só os mais bem providos são capazes.
Tanto que elege João Saldanha como o maior intelectual brasileiro e ensina que o gol é a vitória da Vida sobre a Morte, o triunfo do dinamismo contra o imobilismo, já que os jogadores e a bola são móveis, e, as traves, imóveis.
Não, não contarei mais.
Chega de estragar prazeres.
Pena que o velho alemão não poderá desfrutá-los como você.
12 de outubro de 2012
Bíblia do capitalismo alemão saúda Karl Marx
Em http://www.handelsblatt-shop.com/handelsblatt/handelsblatt-epaper-p1951.html, em alemão, pode ser vista a capa do atual número do jornal econômico alemão Handeslblatt ("Folha do Comércio"), o mais importante da Europa Continental. Trata-se de um número especial, dedicado à Feira do Livro de Frankfurt, e que apresenta a lista dos 50 maiores economistas de todos os tempos, encabeçada por Karl Marx.
12 de julho de 2012
Marxcard
A Folha de S. Paulo publicou uma versão resumida do seguinte artigo meu:
Karl Marx agora é
efígie do MasterCard
Renato Pompeu
especial para a Folha
Karl Marx, quem diria, virou este ano efígie do cartão de crédito MasterCard, na Alemanha (veja a ilustração). A iniciativa foi do banco Sparkasse Chemnitz, da cidade alemã de Chemnitz, e foi resultado de uma pesquisa entre os seus clientes. Com isso Marx veio a ser o segundo líder comunista a se tornar foco de propaganda de empresas capitalistas, mas ainda perde de longe para o primeiro, Che Guevara, muito aproveitado, em todo o mundo, para ornar camisetas.
No caso de Marx, porém, não se trata de uma jogada de marketing, e sim de uma medida de relações públicas. Para entender a transformação desse teórico e ativista anticapitalista em atração consumista, é preciso conhecer tanto a natureza especial do Sparkasse Chemnitz e também a história da cidade de Chemnitz, de 255 mil habitantes, no centro-leste da Alemanha, na antiga Alemanha Oriental.
A cidade já existia no século 12 e era um centro da produção de sal. No começo da Revolução Industrial, nela foi instalado o primeiro tear mecânico da Alemanha e, durante o século 19 e parte do século 20, era um centro têxtil. Ali se instalou a fábrica de automóveis Auto Union e, durante a Segunda Guerra Mundial, era um ativo centro de produção de armamentos e tinha uma grande refinaria de petróleo. Por isso mesmo foi arrasada pelos bombardeios dos Aliados.
Finda a guerra, com Chemnitz e todo o Leste alemão ocupados pela União Soviética, os executivos da Auto Union migraram para o Ocidente, onde fundaram a Audi. Inserida na Alemanha Oriental, Chemnitz se tornou um centro de engenharia mecânica e metalurgia, mas as autoridades comunistas mudaram o seu nome em 1953 para Karl Marx-Stadt (Cidade Karl Marx) e instalaram um busto de Marx de sete metros de altura numa praça principal. Tratou-se de atos que pouco tiveram a ver com os anseios da população, pois Marx jamais sequer esteve em Chemnitz e os habitantes não gostaram da mudança, embora muitos gostem do busto do líder comunista. O monumento é conhecido como Nischel (“cabeça”, no dialeto saxão local).
Com numerosos projetos de conjuntos habitacionais e um cuidado especial para a reconstrução pós-guerra (cuidado que não houve em outros centros importantes, como a própria Berlim Oriental), as autoridades comunistas procuravam apresentar a cidade como uma “cidade socialista modelo”. Desde a reunificação até agora, a cidade retomou seu nome original, mas também perdeu cerca de 20 por cento de seus habitantes. Cumpre lembrar que, segundo pesquisas realizadas após a eclosão da crise mundial em 2008, por volta de 40 por cento dos moradores na antiga Alemanha Oriental consideram o socialismo, tal como o conheceram, melhor do que o capitalismo.
Mas, acima de tudo, é importante levar em conta as características do Sparkasse Chemnitz. Na Alemanha, além dos grandes bancos privados semelhantes aos que temos no Brasil, há também importantes cooperativas de crédito e ainda bancos públicos, como o Banco Central federal e os mais de 400 bancos municipais de nome Sparkasse, dos quais o mais antigo é o de Hamburgo, de 1778, e grande parte data do século 19. Sparkasse pode ser traduzido por Caixa de Poupança, mas são bancos de âmbito municipal ou regional, que além de servirem pequenos poupadores atendem também micro e pequenas empresas necessitadas de financiamento ou capital de giro.
Esses bancos, muitas vezes, não têm finalidades de lucros e procuram fomentar as atividades tradicionais da cidade. Agora, no começo do ano, o que aconteceu é que o Sparkasse Chemnitz fez uma pesquisa entre seus clientes sobre qual era o marco urbano mais importante na opinião de cada um deles, para ornar o seu cartão MasterCard. Enfrentando nove outras instalações, como castelos medievais, um hipódromo, etc., o busto de Marx, com 35 por cento dos votos, foi o vencedor. Assim se explica que sua efígie barbuda enfeite agora o MasterCard.
17 de maio de 2012
Ambientalismo: a contribuição de Marx
Em http://monthlyreview.org/2012/05/01/marxs-ecology-and-the-understanding-of-land-cover-change,em inglês o pesquisador Ricardo Dobrovolski defende a tese de que o terceiro volume de O Capital de Marx tem a estatura de um tratado ecológico, com uma teoria ambientalista altamente relevante até hoje. A noção básica de Marx seria a de que os seres humanos constituem uma espécie social em metabolismo com a natureza, em combinação com seu conceito de "fenda metabólica".Trata-se do seguinte: o capitalismo, ao desenvolver-se, faz crescer enormemente a população urbana em relação à população rural. Com isso os nutrientes tendem a acumular-se exponencialmente nas áreas urbanas, desprovendo de nutrientes a maior parte da superfície do planeta. Ver o artigo para conferir com maior precisão
1 de abril de 2012
O racismo em Marx e Engels
Recentemente a revista Caros Amigos publicou o seguinte artigo meu:
Renato Pompeu é jornalista e escritor.
Ca175ideias
Ideias de Botequim
Marx e Engels,
racistas?
O que teria levado Engels a escrever, num artigo de 1849, que entre todos os povos do Império Austro-Húngaro “há apenas três que foram portadores do progresso, que desempenharam um papel ativo na história e que ainda conservam a sua vitalidade: os alemães, os poloneses e os húngaros. Por essa razão eles agora são revolucionários. A vocação principal de todas as outras raças e povos, grandes e pequenas, é de perecer no holocausto revolucionário”, e a postular, em carta a A.H. Starkenburg , “vemos nas condições econômicas o que, em última instância, condiciona o desenvolvimento. Por si mesma, no entanto, a raça é um fator econômico”? E por que Marx não só achava que a classe operária “germânica” da Alemanha era superior, por exemplo, à classe operária francesa, como também exaltou todas as revoluções que aconteceram no século 19 na Europa, mas não mencionou nenhuma vez a revolução haitiana, em que os escravos negros derrotaram as tropas francesas, acabaram com a escravidão e se instauraram como povo independente? Segundo o livro “O marxismo e a questão racial – Karl Marx e Friedrich Engels frente ao racismo e a escravidão”, do intelectual cubano Carlos Moore, septuagenário que saiu de seu país nos anos 1960 e está radicado na Bahia, depois de ter vivido em vários países das Américas, Europa e África, tendo sido em Cuba acusado de trabalhar para a CIA e condenado por isso, embora tenha lá voltado para se tratar de câncer, nos anos 1990, tudo isso se deve a que Marx e Engels não estiveram alheios às concepções racistas vigentes em sua época entre os “cientistas sociais” europeus.
O livro, com prefácio do professor de Filosofia, formado na PUC de São Paulo, Ricardo Matheus Benedicto – que em recente palestra no Centro Educacional Claretiano, na capital paulista, defendeu a tese de que o que considera falhas de Marx e Engels não devem servir de pretexto para atacar as contribuições fundamentais de ambos – foi lançado no Brasil pela Editora Nandyala e pelo Cenafro-Centro Nacional de Estudos e Políticas de Igualdade na Educação. Moore, que foi acusado também de ligações com o líder direitista angolano Holden Roberto, o que ele nega veementemente, diz lutar contra o racismo em Cuba, país que segundo ele contaria com uma maioria de pretos e mestiços mas que, segundo Benedicto, citando um documento oficial cubano de 2007, conta com apenas 3 por cento de negros entre seus estudantes universitários e em que 68 por cento dos brancos cubanos não aceitam casamentos inter-raciais e 58 por cento deles consideram que os negros são “menos inteligentes” do que os brancos. Meios cubanos, entretanto, defendem a tese de que o racismo desapareceu em Cuba, porque era uma arma do capitalismo para dividir os trabalhadores e, com o fim do capitalismo, perdeu suas bases materiais e deixou de existir.
No Brasil, também há a discussão a respeito do bem disfarçado racismo existente no País. Há intelectuais e militantes, tanto negros como brancos, defendendo teses opostas, segundo as quais a questão racial seria uma mera derivação da questão de classes ou, ao contrário, haveria uma questão racial específica, a ser combatida por si só.
Ainda dentro dessa questão, um dos maiores intelectuais brasileiros, Luiz Gama, filho de uma escrava africana e do seu “dono” português, teve textos seus, organizados pela pesquisadora Lígia Fonseca Ferreira, editados pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, no livro “Com a palavra, Luiz Gama – poemas, artigos, cartas, máximas”. Exemplos: “A escravidão é uma espécie de lepra social: tem sido muitas vezes abolida pelos legisladores e restaurada pela educação sob aspetos diversos”, “A humildade e a escravidão nasceram gêmeas e foram cautamente educadas pelo Catolicismo”. Finalmente, temos os “Cadernos negros – volume 33 – Poemas afro-brasileiros”, editado pelo Quilombhoje. São poemas de 24 autores brasileiros, entre eles Cuti, Elizandra Souza, Flávia Martins e Jairo Pinto.
Outros livros importantes incluem “Porecatu, a guerrilha que os comunistas esqueceram”, do jornalista Marcelo Oikawa, editado pela Expressão Popular. Na passagem dos anos 1940 para 1950, no Norte do Paraná, três mil posseiros, animados pelo chamado Manifesto de Agosto do Partido Comunista, que pregava a luta armada, e pelo exemplo de Mao Zedong na China, se empenharam num conflito armado em que foram derrotados, mas que serviu de inspiração para a instauração de Ligas Camponesas no Paraná e, depois, no Nordeste; seus quadros, vencidos na luta armada, passaram a atuar na construção do sindicalismo rural no Paraná e da fundação da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura, a Contag, em 1963.
Também vale a pena ler “Indignai-vos”, publicado pela Leya, em que o veterano da Resistência francesa contra os nazistas, Stéphane Hessel, protesta contra o que considera traição, pelos governos neoliberais, de todos os ideais de justiça pelos quais os resistentes lutaram tantas décadas atrás. Em vários países, esse livro já vendeu mais de 3 milhões de exemplares. Finalmente, para que não falte a ficção, temos “O País das Mulheres”, Editora Verus, em que a romancista nicaraguense Gioconda Belli descreve um país fictício em que o Partido da Esquerda Erótica toma o poder.
WWW.renatopompeu.blogspot.com
rrpompeu@uol.com.br
13 de setembro de 2011
Mais marxista do que Marx
Recentemente o Diário do Comércio publicou o seguinte artigo de minha autoria
A audácia de Kurz
Renato Pompeu
Eis que surge, em pleno século 21, alguém mais marxista do que Karl Marx. Trata-se do pensador alemão Robert Kurz, famoso por suas análises segundo as quais o chamado socialismo real era na verdade um modo de produção pré-capitalista, do qual acaba de ser lançado no Brasil, pela Hedra, o livro “Razão sangrenta – ensaios sobre a crítica emancipatória da modernidade capitalista e de seus valores ocidentais”. Nesses textos, publicados originalmente em revistas alemãs, Kurz tenta desancar todos os princípios do Iluminismo (a tradução preferiu a forma Esclarecimento) em particular e da filosofia ocidental em geral, como se fossem justificações ideológicas da exclusão social e da violência que ocorrem na sociedade contemporânea.
Marx, que na verdade era herdeiro do Iluminismo, cujos valores de liberdade, igualdade e fraternidade queria estender para todos os seres humanos, embora os seus seguidores tenham fundado regimes que não obedeciam a esses princípios, talvez se mostrasse surpreso e até mesmo assombrado com as conclusões de Kurz. Pode ser que seja exatamente devido a isso que, por defender essas ideias anti-iluministas, Kurz foi excluído de revistas alemãs derivadas do marxismo que ele próprio havia ajudado a fundar.
Lembremos que Marx havia postulado que o valor de cada mercadoria é determinado pelo tempo de trabalho socialmente necessário para produzi-la. É uma formulação complicada, porque esse “socialmente necessário” implica que não se trata do tempo de trabalho que a mercadoria efetivamente precisou para ser produzida, e sim de um cálculo abstrato do tempo teoricamente necessário, nas condições tecnológicas vigentes, para produzi-la.
Assim, Marx fala em “valor abstrato”. Segundo Kurz, esse valor abstrato não determina apenas o valor pelo qual cada mercadoria deve ser comprada e vendida, mas determina todas as condições de vida dos seres humanos que vivem sob o capitalismo ou são por ele afetados. Kurz postula, mais do que demonstra, que esse valor abstrato é que é chamado de Razão pelos filósofos iluministas, como Kant, ou de Espírito, pelo filósofo Hegel. Se trataria, para Kurz, do princípio que rege toda a vida contemporânea e que assegura os direitos à vida, à liberdade e à busca da felicidade – ele nota que não está assegurado o direito à felicidade, mas só à sua busca – a apenas uma parte da humanidade, excluindo uma parcela significativa dos seres humanos, aos quais a Razão ocidental não garante nem a vida, nem a liberdade, nem a busca da felicidade.
Isso explicaria por que Kurz escolheu para seus textos o título de “Razão sangrenta”: para ele, os direitos individuais, na sociedade contemporânea, estão assegurados apenas na medida em que cada pessoa tem meios para comprar e/ou vender bens e serviços, chega a dar a entender que as pessoas que não têm esses meios estão condenadas ou a morrerem de fome, ou a serem bombardeadas pela Otan. Ele também opina, igualmente sem provar, que o capitalismo inclui uns, mas forçosamente exclui outros, ao contrário da maioria dos estudiosos, que acham que justamente a luta pela emancipação é a luta pela extensão do capitalismo moderno e da democracia para todo o planeta.
Kurz vai além e defende, sempre sem provar, que as dificuldades que as mulheres e as pessoas de etnias não-brancas enfrentam no mundo contemporâneo advêm justamente das condições de vida sacramentadas pelo valor abstrato, ou, em outras palavras, pela Razão ocidental, que na sua opinião consagram apenas o modo de vida dos seres humanos brancos de sexo masculino que tenham alcance ao dinheiro.
Ele diz ainda que as próprias lutas de classes e as concepções de militar em defesa das classes trabalhadoras fazem parte desse jogo de inclusão de uns e de exclusão de outros, jogo comandado pelo valor abstrato, ou pela Razão ocidental. Talvez Kurz esteja querendo dizer que, na medida em que se luta pela defesa das classes trabalhadoras, isso representa reforçar a sobrevivência da sociedade de classes.
A grande dificuldade das postulações de Kurz reside em que, nelas, o tempo histórico e as situações históricas concretas não são levadas em conta. Para ele, desde que o capitalismo existe, o capitalismo sempre teria sido igual e continuaria sendo igual a si mesmo. Isto é, Kurz ignora o avanço dos direitos, inclusive das mulheres e dos não-brancos, que ocorreram desde o século 18 até agora.
8 de setembro de 2011
Harvard também reconhece Marx
Na mais prestigiada revista acadêmica de economia, a Harvard Business Review, um guru dos grandes executivos mundiais, Umair Haque, defende em http://blogs.hbr.org/haque/2011/09/was_marx_right.html, a tese de que Marx estava correto na maioria de suas teses sobre os problemas do capitalismo, como por exemplo a pauperização relativa, a longo prazo, da maioria dos trabalhadores; tendência à crise de superprodução, estagnação progressiva da economia, queda tendencial das taxas de lucro, sentido de alienação e de mal-estar no local de trabalho, falsa consciência. Haque, é claro, não aprova as soluções propostas por Marx para esses problemas, mas diz que os seus diagnósticos estão perfeitamente comprovados.
30 de agosto de 2011
Até a Bloomberg recomenda Karl Marx
A Bloomberg é uma das empresas de consultoria e informações econômicas mais respeitadas pelos altos executivos das grandes multinacionais. Pois ela acaba de publicar, em http://www.bloomberg.com/news/2011-08-29/give-marx-a-chance-to-save-the-world-economy-commentary-by-george-magnus.html, um artigo do economista conservador George Magnus, intitulado: "Dê a Marx uma chance de salvar a economia mundial". Diz o artigo:
"O espírito de Marx, que está enterrado num cemitório perto de onde moro no Norte de Londres, se ergueu da sepultura entre a crise financeira e a subsequente queda econômico. A análise do capitalismo pelo voluntarioso filósofo tinha uma porção de falhas, mas a economia global de hoje carrega algumas perturbadoras semelhanças às condições que ele previu".
"O espírito de Marx, que está enterrado num cemitório perto de onde moro no Norte de Londres, se ergueu da sepultura entre a crise financeira e a subsequente queda econômico. A análise do capitalismo pelo voluntarioso filósofo tinha uma porção de falhas, mas a economia global de hoje carrega algumas perturbadoras semelhanças às condições que ele previu".
13 de agosto de 2011
Uma entrevista de Roubini que não teve repercussão: "Marx tinha razão"
As entrevistas do economista Nouriel Roubini, o guru que previu a crise de 2008 e seus desdobramentos atuais, normalmente têm grande repercussão. Mas a que ele acaba de dar ao jornal econômico americano The Wall Street Journal, reproduzida pelo jornal econômico canadense The Financial Post em http://business.financialpost.com/2011/08/12/roubini-says-more-than-50-chance-of-global-recession/, em inglês, não teve tanta repercussão assim. Diz o texto de Pam Heaven, jornalista do The Financial Post:
"Nouriel Roubini citou esta semana um economista ainda mais controvertido do que ele próprio, ao explicar a situação da turbulenta economia mundial.
"'Karl Marx tinha razão, em algum ponto o capitalismo pode se destruir a si próprio', disse o sr. Roubini, numa entrevista ao The Wall Street Journal. 'Pensávamos que os mercados funcionavam. Não estão funcionando".
"O sr. Roubini também disse que há uma chance de mais de 50 por cento de que o mundo vá afundar em outra recessão global e os próximos dois a três meses vão revelar a direção da economia."
"Nouriel Roubini citou esta semana um economista ainda mais controvertido do que ele próprio, ao explicar a situação da turbulenta economia mundial.
"'Karl Marx tinha razão, em algum ponto o capitalismo pode se destruir a si próprio', disse o sr. Roubini, numa entrevista ao The Wall Street Journal. 'Pensávamos que os mercados funcionavam. Não estão funcionando".
"O sr. Roubini também disse que há uma chance de mais de 50 por cento de que o mundo vá afundar em outra recessão global e os próximos dois a três meses vão revelar a direção da economia."
19 de maio de 2011
Os aniversários do 18 Brumário e da Comuna de Paris
Para assinalar os 160 anos do golpe de Luís Bonaparte na França e os 140 anos da Comuna de Paris, a Boitempo Editorial está lançando novas edições, traduzidas diretamente dos originais, de "O 18 de brumário de Luís Bonaparte" e "A guerra civil na França", de Marx. Embora Marx estivesse fazendo o que seriam estudos concretos de casos específicos, e não elaborando uma teoria geral aplicável a todas as situações de crise nas sociedades capitalistas, foi exatamente assim que a grande maioria dos chamados marxistas aproveitou esses livros. Passaram a considerar que em todas as crises os proletários querem avançar mais, rumo ao socialismo, enquanto a burguesia tenta manter a ordem e os pequenos-burgueses hesitam, tornando-se cruciais as posições dos camponeses. Quando o proletariado não consegue triunfar e impor o socialismo, isso é atribuído a "traições" de suas lideranças. Assim não conseguem entender que, por exemplo, os proletários dos Estados Unidos têm interesse nas guerras pelo petróleo, porque querem gasolina barata para seus carros, e são hostis ao socialismo.
17 de abril de 2011
A esquerda iludida
Marx, no final de sua vida, achava que o proletariado, particularmente o inglês, se estava aburguesando, e chamou o Manifesto Comunista de texto de interesse primordialmente histórico. Lenin, no final de sua vida, ficou tão preocupado com o burocratismo do Estado soviético que sofreu um derrame e deixou um documento intitulado "Nós, os comunistas, somos profundamente culpados perante os povos da Rússia". Trotsky, no fim de sua vida, achava que, se o proletariado ocidental não tomasse o poder ao fim da Segunda Guerra Mundial, estaria provado que o proletariado não tem condições de ser a classe dominante em nenhum país. Por que partir do ponto de partida dos grandes pensadores, e não de seu ponto de chegada?
2 de março de 2011
Aumenta procura por "marxismo" no Google
A procura pela palavra "marxismo" tem aumentado, desde dezembro, no Google, segundo relata Rana Foroohar, em artigo no semanário americano Time, em http://news.yahoo.com/s/time/09171205001900;_ylt=ApoTWnFqe9V3qeJpsZ1Gpa2s0NUE;_ylu=X3oDMTNrYnE1N25tBGFzc2V0A3RpbWUvMjAxMTAyMjgvMDkxNzEyMDUwMDE5MDAEY2NvZGUDbW9zdHBvcHVsYXIEY3BvcwM0BHBvcwMxBHB0A2hvbWVfY29rZQRzZWMDeW5faGVhZGxpbmVfbGlzdARzbGsDeW91cmluY3JlZGli>, em inglês. O artigo defende a atualidade do pensamento de Marx sobre a tendência da queda da taxa de lucro e sobre a tendência da pauperização relativa dos trabalhadores, dentro do quadro geral das crises estruturais periódicas do capitalismo
7 de janeiro de 2011
Nova edição das Obras Completas de Marx e Engels restabelece o que Marx realmente disse
Em entrevista à revista filosófica russa Logos, reproduzida em inglês em http://links.org.au/node/2083, o acadêmico Marcello Mosto, após comentar que Engels tornou muito mais "fechado" do que realmente era o modelo econômico dos volumes 2 e 3 de O Capital, conforme revela a nova edição do MEGA - Obras Completas de Marx e Engels que está sendo publicada em alemão, afirma:
"Plekhanov, como muitos outros marxistas depois dele, teve a culpa de construir uma concepção rígida da sociedade e história. E suas ideias se tornaram muito influentes entre os revolucionários russos - e não somente russos, devido à sua reputação internacional na época. Na minha opinião, esta concepção, baseada num monismo simplista em que os desenvolvimentos econômicos são decisivos para outras transformações da sociedade, tinham muito poco a ver com a concepção própria de Marx. É muito mais relacionada com o clima cultural da época, em que o positivismo e o determinismo tinham um grande papel."
Em suma, ao invés de lermos Marx como era, aberto e flexível, o temos lido como um dogma.
"Plekhanov, como muitos outros marxistas depois dele, teve a culpa de construir uma concepção rígida da sociedade e história. E suas ideias se tornaram muito influentes entre os revolucionários russos - e não somente russos, devido à sua reputação internacional na época. Na minha opinião, esta concepção, baseada num monismo simplista em que os desenvolvimentos econômicos são decisivos para outras transformações da sociedade, tinham muito poco a ver com a concepção própria de Marx. É muito mais relacionada com o clima cultural da época, em que o positivismo e o determinismo tinham um grande papel."
Em suma, ao invés de lermos Marx como era, aberto e flexível, o temos lido como um dogma.
19 de outubro de 2010
Os livros da UFRJ
Recentemente saiu na revista Caros Amigos o seguinte artigo:
Ca156ideias
Ideias de Botequim
Uma editora que resiste ao
neoliberalismo: a da UFRJ
Renato Pompeu
Praticamente ignorada pela grande mídia, a Editora UFRJ, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, tem lançado obras importantíssimas do ponto de vista progressista, pouco conhecidas até entre os intelectuais esquerdistas. A editora está sob a direção do eminente intelectual baiano radicado no Rio de Janeiro, Carlos Nelson Coutinho, um dos principais nomes no País do marxismo de linha humanista, isto é, mais preocupado com questões de ética social, da alta cultura e de bem-estar existencial do que com destrinchar os mistérios da economia política. Em outras palavras, mais preocupado com a problemática do Jovem Marx, do que com as questões enfrentadas pelo chamado Velho Marx.
Isso não quer dizer que as obras não enfrentem questões candentes da atualidade. Prova disso é o volume “Por um socialismo indoamericano”, com textos do famoso intelectual peruano José Carlos Mariátegui, considerado “o mais importante e inventivo dos marxistas latinoamericanos”, criador de um “marxismo herético” que “tem profundas afinidades com alguns dos grandes pensadores do marxismo ocidental: Gramsci, Lukács e Walter Benjamin”, pelo selecionador e organizador da obra, o bem conhecido intelectual marxista brasileiro radicado na França Michael Lowy. Mariátegui foi o fundador da fusão do marxismo e do socialismo com o indigenismo, hoje consagrada na prática em países como a Bolívia.
Outro livro de importância crucial da editora é “Marx (sem ismos)”, em que o professor universitário espanhol Francisco Fernández Buey procura resgatar o que Marx realmente disse, escreveu e propôs que fosse feito em relação ao que, após sua morte, foi dito, escrito e feito pelos que falaram e agiram em seu nome: “Deve-se distinguir entre o que Marx fez e disse como comunista e o que outros disseram, ao longo do tempo, no seu nome. (...) Seria uma injustiça histórica acusar o autor do ‘Manifesto Comunista’ pelos erros e delitos dos que, com boa ou má vontade, continuaram utilizando seu sobrenome”.
Em “Sociedade civil e hegemonia”, o professor cubano, atuante em seu país, Jorge Luis Acanda, procura discutir a atualidade da herança do pensador e militante comunista italiano Antonio Gramsci. O catálogo editorial escolhido por Coutinho é particularmente enriquecido pelo clássico “O jovem Marx e outros escritos de filosofia”, do eminente pensador húngaro Gyorgy Lukács, que defende a tese de que a liberdade não é inata, mas “é o produto da própria atividade humana, a qual, embora sempre engendre concretamente algo diferente daquilo que se propusera, termina por ter consequências que ampliam, de modo objetivo e contínuo, o espaço no qual a liberdade se torna possível”.
Outra reedição de obra clássica, agora brasileira, é “Cangaceiros e fanáticos – gênese e lutas”, de Rui Facó, que discute o cangaço e o fanatismo religioso como reações ao tratamento como semiescravos que as classes dominantes agrárias continuaram reservando aos pequenos camponeses e trabalhadores em geral do campo depois da Abolição da escravidão.
E mais um ponto alto do marxismo heterodoxo é “Marxismo e filosofia”, do alemão Karl Korsch, que entre as duas Guerras Mundiais defendeu que a luta filosófica contra a consciência burguesa é tão importante quanto a luta econômica, social e política contra o capitalismo. Convém notar que, bem depois dessa importante obra, inspiradora até hoje entre os marxistas de linha humanista, Korsch se tornou anticomunista e militou na Guerra Fria em defesa dos Estados Unidos.
Também são importantes “Heidegger e a destruição da ética”, do filósofo e teólogo brasileiro Alexandre Marques Cabral, em coedição com a Editora Mauad, e “Para além dos direitos – Cidadania e hegemonia no mundo moderno”, em que o professor também brasileiro Haroldo Abreu procura demonstrar que “a cidadania jamais foi limitada à sua constituição formal”. Um estudo mais empírico é “Os arquitetos da memória – sociogênese das práticas de preservação do patrimônio cultural no Brasil (anos 1930-1940)”, da historiadora Márcia Regina Romeiro Chuva.
O espaço de Ideias de Botequim nos permite apenas citar os títulos e autores de outras obras muito interessantes e muito importantes do catálogo da Editora UFRJ: “Dialética e materialismo – Marx entre Hegel e Feuerbach”, dos pensadores brasileiros Benedicto Arthur Sampaio e Celso Frederico; “Democracia ou bonapartismo”, do teórico italiano Domenico Losurdo, “reconstrução histórica da luta pela conquista dos direitos civis, políticos, econômicos e sociais”; “Gramsci, materialismo histórico e relações internacionais”, organizado pelo professor canadense nascido na Grã-Bretanha Stephen Gill; “Arte e sociedade – escritos estéticos, 1932-1967” e “Socialismo e democratização – escritos políticos, 1956-1971”, ambos de novo de Gyorgy Lukács; “Revolução e democracia em Marx e Engels”, do pensador francês Jacques Texier, e “Roteiros para Gramsci”, do professor italiano Guido Liguori.
Em suma, pode-se dizer que a linha intelectual da Editora UFRJ obedece ao lema: “Sem democratização não há socialismo, sem socialismo não há democratização”.
Ca156ideias
Ideias de Botequim
Uma editora que resiste ao
neoliberalismo: a da UFRJ
Renato Pompeu
Praticamente ignorada pela grande mídia, a Editora UFRJ, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, tem lançado obras importantíssimas do ponto de vista progressista, pouco conhecidas até entre os intelectuais esquerdistas. A editora está sob a direção do eminente intelectual baiano radicado no Rio de Janeiro, Carlos Nelson Coutinho, um dos principais nomes no País do marxismo de linha humanista, isto é, mais preocupado com questões de ética social, da alta cultura e de bem-estar existencial do que com destrinchar os mistérios da economia política. Em outras palavras, mais preocupado com a problemática do Jovem Marx, do que com as questões enfrentadas pelo chamado Velho Marx.
Isso não quer dizer que as obras não enfrentem questões candentes da atualidade. Prova disso é o volume “Por um socialismo indoamericano”, com textos do famoso intelectual peruano José Carlos Mariátegui, considerado “o mais importante e inventivo dos marxistas latinoamericanos”, criador de um “marxismo herético” que “tem profundas afinidades com alguns dos grandes pensadores do marxismo ocidental: Gramsci, Lukács e Walter Benjamin”, pelo selecionador e organizador da obra, o bem conhecido intelectual marxista brasileiro radicado na França Michael Lowy. Mariátegui foi o fundador da fusão do marxismo e do socialismo com o indigenismo, hoje consagrada na prática em países como a Bolívia.
Outro livro de importância crucial da editora é “Marx (sem ismos)”, em que o professor universitário espanhol Francisco Fernández Buey procura resgatar o que Marx realmente disse, escreveu e propôs que fosse feito em relação ao que, após sua morte, foi dito, escrito e feito pelos que falaram e agiram em seu nome: “Deve-se distinguir entre o que Marx fez e disse como comunista e o que outros disseram, ao longo do tempo, no seu nome. (...) Seria uma injustiça histórica acusar o autor do ‘Manifesto Comunista’ pelos erros e delitos dos que, com boa ou má vontade, continuaram utilizando seu sobrenome”.
Em “Sociedade civil e hegemonia”, o professor cubano, atuante em seu país, Jorge Luis Acanda, procura discutir a atualidade da herança do pensador e militante comunista italiano Antonio Gramsci. O catálogo editorial escolhido por Coutinho é particularmente enriquecido pelo clássico “O jovem Marx e outros escritos de filosofia”, do eminente pensador húngaro Gyorgy Lukács, que defende a tese de que a liberdade não é inata, mas “é o produto da própria atividade humana, a qual, embora sempre engendre concretamente algo diferente daquilo que se propusera, termina por ter consequências que ampliam, de modo objetivo e contínuo, o espaço no qual a liberdade se torna possível”.
Outra reedição de obra clássica, agora brasileira, é “Cangaceiros e fanáticos – gênese e lutas”, de Rui Facó, que discute o cangaço e o fanatismo religioso como reações ao tratamento como semiescravos que as classes dominantes agrárias continuaram reservando aos pequenos camponeses e trabalhadores em geral do campo depois da Abolição da escravidão.
E mais um ponto alto do marxismo heterodoxo é “Marxismo e filosofia”, do alemão Karl Korsch, que entre as duas Guerras Mundiais defendeu que a luta filosófica contra a consciência burguesa é tão importante quanto a luta econômica, social e política contra o capitalismo. Convém notar que, bem depois dessa importante obra, inspiradora até hoje entre os marxistas de linha humanista, Korsch se tornou anticomunista e militou na Guerra Fria em defesa dos Estados Unidos.
Também são importantes “Heidegger e a destruição da ética”, do filósofo e teólogo brasileiro Alexandre Marques Cabral, em coedição com a Editora Mauad, e “Para além dos direitos – Cidadania e hegemonia no mundo moderno”, em que o professor também brasileiro Haroldo Abreu procura demonstrar que “a cidadania jamais foi limitada à sua constituição formal”. Um estudo mais empírico é “Os arquitetos da memória – sociogênese das práticas de preservação do patrimônio cultural no Brasil (anos 1930-1940)”, da historiadora Márcia Regina Romeiro Chuva.
O espaço de Ideias de Botequim nos permite apenas citar os títulos e autores de outras obras muito interessantes e muito importantes do catálogo da Editora UFRJ: “Dialética e materialismo – Marx entre Hegel e Feuerbach”, dos pensadores brasileiros Benedicto Arthur Sampaio e Celso Frederico; “Democracia ou bonapartismo”, do teórico italiano Domenico Losurdo, “reconstrução histórica da luta pela conquista dos direitos civis, políticos, econômicos e sociais”; “Gramsci, materialismo histórico e relações internacionais”, organizado pelo professor canadense nascido na Grã-Bretanha Stephen Gill; “Arte e sociedade – escritos estéticos, 1932-1967” e “Socialismo e democratização – escritos políticos, 1956-1971”, ambos de novo de Gyorgy Lukács; “Revolução e democracia em Marx e Engels”, do pensador francês Jacques Texier, e “Roteiros para Gramsci”, do professor italiano Guido Liguori.
Em suma, pode-se dizer que a linha intelectual da Editora UFRJ obedece ao lema: “Sem democratização não há socialismo, sem socialismo não há democratização”.
20 de dezembro de 2009
Motoristas de ônibus querem jornada de seis horas
Segundo o jornal A Voz da Cidade, de Barra Mansa-RJ, em http://www.avozdacidade.com/portal/C/c20091219.asp, os trabalhadores rodoviários do Sul Fluminense, além de aumento de salários, estão reivindicando jornada de trabalho de seis horas por dia. Convém lembrar que, ao contrário da ideologia dita marxista, que prega a dignidade do trabalho, Marx pregava a redução do tempo de trabalho, e até sua total eliminação, como passo imprescindível para a verdadeira humanização do ser humano.
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