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30 de setembro de 2013
Capitalismo e escravidão
Resenha encomendada pela revista Carta Capital -
Capitalismo e
escravidão
-
O livro de 1944 do intelectual e governante de Trinidad de 1956 até sua morte, Eric Williams (1911-1981), “Capitalismo e escravidão”, agora lançado pela Companhia das Letras, até hoje não foi bem “engolido” nos países anglo-saxões de cultura imbuída pelo chamado espírito do capitalismo, como a Grã-Bretanha e os Estados Unidos. Particularmente na Inglaterra, o livro de Williams chama mais a atenção por dar o pesquisador caribenho relevo à necessidade que o capitalismo industrial desenvolvido teve de eliminar a escravidão, para ampliar seu mercado e aperfeiçoar tecnicamente a mão-de-obra. Assim, os intelectuais anglo-saxões se sentem à vontade com essa importância dada à “missão antiescravista” do capitalismo. Não dão assim atenção à outra tese de Williams, a de que os capitais acumulados pelos traficantes e pelos donos de escravos, além dos armadores e construtores dos navios destinados ao tráfico de escravos, foram cruciais para a eclosão do capitalismo tal como o conhecemos. Em outras palavras, o capitalismo surgiu em grande parte por obra da escravidão. O pior é que as duas teses não são, em Williams, petições de princípios. São exaustivamente comprovadas por centenas e centenas de dados empíricos, estatísticas, nomes de empresários. Notemos que o título foi repetido por Fernando Henrique Cardoso num seu livro de 1960, sobre a situação dos negros no Sul do Brasil. Por causa do título, o livro de Cardoso teve muito maior êxito editorial do que a obra, na mesma época, de Octávio Ianni sobre o mesmo tema, “Metamorfoses do escravo”, de valor pelo menos igual, ou talvez superior. Quanto às relações da escravidão com o capitalismo, os jornais e revistas estão cheios de informações sobre o renascimento da escravidão, em moldes perfeitamente capitalistas, no mundo inteiro, do Brasil à Suíça, passando pelos Estados Unidos. – RENATO POMPEU
23 de agosto de 2013
A epopeia do Corinthians, a odisseia do capitalismo
Artigo encomendado pela revista Caros Amigos - Ca 179ideias
Ideias de Botequim
A expedição dos 70 mil e
o desastre do capitalismo
Renato Pompeu
Na maior operação de transferência de civis em tempos de paz de toda a história da humanidade, comparável a “A retirada dos 10 mil”, do grego antigo Xenofonte, 70 mil torcedores corintianos saíram em poucas horas de São Paulo e outras cidades rumo ao Rio de Janeiro, onde “ocuparam” o Maracanã num jogo decisivo contra o Fluminense, em dezembro de 1976. Trinta e cinco anos depois, os jornalistas Igor Ojeda e Tatiana Merlino retraçam essa verdadeira epopeia, no belo álbum, profusamente ilustrado, “A invasão corinthiana – O dia em que a Fiel tomou o Rio de Janeiro para ver seu time no maior estádio do mundo”, publicado pela LF Editorial e pelo Sport Club Corinthians Paulista. De interesse não só para corintianos, mas para todos os apreciadores do futebol.
Partindo do encanto para a decepção, temos “O universo neoliberal em desencanto”, de autoria do economista José Carlos de Assis e do engenheiro químico e físico Francisco Antonio Doria, professores da Universidade Federal do Rio de Janeiro, livro editado pela Civilização Brasileira. O tema são as práticas neoliberais, que “dominaram quase todo o mundo até causarem o maior desastre econômico da história”. Dizem os autores: “Sabemos, por exemplo, que nenhum país, e nenhuma grande corporação, podem ignorar indefinidamente os condicionantes ambientais; sabemos que, provavelmente, não haverá uma guerra para redefinir hegemonias no mundo, porque seria uma guerra nuclear autodestruidora; sabemos que a economia mundial, quando vier a ser normalizada, será pela ação cooperativa das principais nações, provavelmente aquelas reunidas no G-20. Entretanto, não sabemos quando isso ocorrerá”. O mundo está de tal modo desencantado que esses pesquisadores soam um tanto otimistas.
Igualmente da Civilização Brasileira, e sobre o mesmo grandioso assunto, há o livro “A crise da economia global – Mercados financeiros, lutas sociais e novos cenários políticos”, dos pesquisadores italianos Andrea Fumagalli e Sandro Mezzadra, com posfácio de ninguém menos do que o famoso teórico do chamado “Império”, Antonio Negri. Mais do que constatação de fatos, o trabalho de Fumagalli e Mezzadra é uma proposta de ação.
Ainda dentro dessa temática, a Boitempo Editorial lançou “O enigma do capital e as crises do capitalismo”, do geógrafo David Harvey, professor na Universidade da Cidade de Nova York. Ele destrincha, para leigos, os movimentos, descritos pela primeira vez por Karl Marx, segundo os quais a economia capitalista entra inexoravelmente em crises estruturais periódicas, mostrando, principalmente, que a atual crise dos Estados Unidos e Europa está longe de não ter precedentes. Trata-se de uma obra que combina o rigor teórico do pensamento de Marx com o bom-senso característico dos pensadores anglo-saxões. Imperdível para quem quer entender a dimensão dos problemas contemporâneos.
Também foi lançado pela Boitempo Editorial um livro de ensaios de 18 antropólogos e sociólogos, muitos da nova geração, sobre estratégias de sobrevivência de moradores das precárias periferias de São Paulo, o volume “Saídas de emergência”, obra organizada por R. Cabanes, I. Jorges, C. Rizek e V. Telles. Fala-se muito da periferia, mas o livro ajuda a conhecer na carne o seu sofrido cotidiano.
Se diferentes problemas causados pelo capitalismo são assim discutidos por pesquisadores progressistas, temos uma visão conservadora do desastre que acabou sendo o comunismo, no bem documentado volume de 850 páginas intitulado “Ascensão e queda do comunismo”, do professor de Ciência Política e História da Universidade de Oxford, Inglaterra, Archie Brown, publicado pela Record. De todo modo, Brown, que levou 40 anos estudando centenas e centenas de fontes para escrever esse livro, observa que mais de um quinto da população mundial ainda é, atualmente, governada por Partidos Comunistas, na Ásia e na América Latina. Seu trabalho talvez seja o levantamento mais detalhado sobre um movimento que mobilizou centenas de milhões de pessoas durante décadas, até morrer na praia.
Da jornalista brasileira Adriana Carranca, correspondente internacional, temos “O Afeganistão depois do Talibã”, outra publicação da Civilização Brasileira. É um livro-reportagem, fruto de viagens desde 2008, que retrata a vivência de onze pessoas, entre elas “uma herdeira do profeta Maomé, um talibã, um senhor da guerra, uma candidata a presidente e uma dona de casa afegã analfabeta”. A repórter consegue nos fazer sentir na pele o que é viver no Afeganistão.
12 de abril de 2013
A Graça da Revolução Permanente, por Etapas Mensais
O mau humor dos esquerdistas radicais,
enquanto o mundo ruma ao socialismo.
Renato Pompeu
Há mais de 120 anos os meios mais avançados entre os seres humanos mais progressistas adotaram como fato líquido e certo o de que o futuro da humanidade só tem duas saídas possíveis: ou o socialismo, ou a barbárie. Isso já tinha sido prefigurado por Marx, quando constatou que o desenlace de cada luta de classes é, ou a vitória de uma das classes envolvidas, ou a extinção de todas as classes em luta. Portanto, o socialismo não é “inevitável”, como acredita boa parte dos esquerdistas radicais, pois há outra saída para a humanidade além do socialismo, ou seja, a saída da barbárie.
Hoje, mais de um século depois de já estarem previstas teoricamente as duas saídas possíveis para os seres humanos, isso já deixou de ser uma questão teórica, pois passou pelo teste da experiência. De fato, ao longo do século 20, a humanidade oscilou entre o socialismo do socialismo real, o socialismo da social-democracia, particularmente o socialismo escandinavo, mais o socialismo do New Deal e do Estado do Bem-Estar Social, o estatismo terceiromundista, de um lado, e, de outro lado, balançou pela barbárie do nazifascismo e das ditaduras de direita e de esquerda, da Primeira e Segunda Guerra Mundiais, do Holocausto, do genocídio colonialista, do genocídio racista, da derrocada do socialismo real. E agora, no século 21, enquanto surge na Venezuela um socialismo social-democrata que tenta ser um socialismo escandinavo e na China surge o que lá se chama de socialismo de mercado, de outro lado nunca esteve tão evidente o risco de a barbárie do capitalismo redundar tanto numa guerra nuclear em larga escala, como numa catástrofe ambiental nunca vista, e aomda numa regressão a formas de governo antidemocráticas até mesmo nos países capitalistas mais avançados.
Continuamos, portanto, com a perspectiva sorridente do socialismo e com a alternativa sombria e carrancuda da barbárie. Diante dessa situação parece bastante adequado seguir a recomendação do líder comunista italiano Antonio Gramsci: cultivar ao mesmo tempo o pessimismo da inteligência, para percebermos claramente os riscos de chafurdarmos na barbárie, e o otimismo da vontade, para termos ânimo de prosseguir a luta pela outra saída desse dilema inexorável, o socialismo.
No entanto, são exatamente os esquerdistas mais radicais, que navegam nas nuvens da “inevitabilidade do socialismo”, sem se darem conta de que o socialismo não é de modo nenhum inevitável – sempre existe a sombra da barbárie, a ponto de banhar numa cor autoritária e algo desumana o próprio socialismo, quando este chega a se concretizar –, são exatamente esses esquerdistas mais radicais, que acham que “o caminho é sinuoso, mas o futuro é radiante”, que são os mais mal-humorados seres humanos de que jamais se teve notícia, sempre carrancudos e de sobrecenho carregado. Nunca vi um único deles dar sequer um sorriso, quanto mais uma risada ou mesmo uma gargalhada. Não cultivam assim o otimismo da vontade e na verdade se comportam sempre como se acreditassem que vivemos no pior do mundos possíveis e que nada disso vai mudar, a não ser para pior, no futuro previsível, que é a nossa existência terrena.
Esses esquerdistas radicais ainda estão presos ao dilema rançoso da Revolução Permanente de Trotski vs. a Revolução por Etapas de Stalin. Não se lembram da dialética, que diz que uma coisa pode ser ela mesma e seu contrário ao mesmo tempo, ou seja, que a revolução permanente tem as suas etapas e que a revolução por etapas está passando permanentemente de uma etapa para outra.
Que dizia a Revolução Permanente? Que o proletariado tem de assumir o poder para cumprir as tarefas da Revolução Burguesa que a burguesia se revelou e se tem revelado incapaz de cumprir e em seguida o proletariado deve encaminhar a Revolução Socialista em escala nacional e em seguida em escala internacional. A Revolução por Etapas diz que é a própria burguesia que deve comandar a primeira etapa, a de cumprir todas as tarefas da Revolução Burguesa, com o apoio do proletariado, que em seguida assumirá a hegemonia para cumprir as tarefas propriamente proletárias. Esses dois conceitos teóricos contraditórios, o que implica em serem iguais entre si, foram desde o seu surgimento comprovados parcialmente pela prática: o proletariado soviético cumpriu as tarefas burguesas da NEP, tentou instaurar o socialismo, tentou depois da Segunda Guerra expandir esse socialismo para fora de suas fronteiras. Tudo de acordo com os dois figurinos, o permanente e o por etapas.
Só que não se percebia o fato de que se estava instalando um socialismo irreal, pois não partia das regiões mais avançadas no capitalismo, e sim de regiões bem atrasadas. O que se conseguiu foi um modo de garantir a acumulação primitiva do capital nos países do socialismo real, o qual não suportou a revolução tecnológica e acabou desaparecendo como todos os modos pré-capitalistas de produção, para dar lugar a um capitalismo mais desenvolvido. Enquanto isso, a coalizão governamental no Brasil, liderada pelos proletários mal e mal representados no PT, PDT, PCdoB, tem praticado a revolução permanente e por etapas, notadamente neste mês de abril na frente do trabalho doméstico, na frente do respeito aos gays e na frente antirracista (estas duas últimas frentes intensificadas pelo caso da Comissão dos Direitos Humanos e do pastor Feliciano), sem contar a frente desenvolvimentista com pouca inflação, notoriamente ora em dificuldades, tudo tarefas da Revolução Burguesa; no caso das domésticas e na frente antirracista, começam a ser dadas as últimas (ou as primeiras?) pás de cal nas mazelas herdadas da escravidão. De fora, o PSOL, PSTU e os demais ajudam essa movimentação progressista para evitar a barbárie e fazer avançar o socialismo. Por que, diante de tudo isso, os cenhos carregados? Sorriam como as domésticas estão sorrindo, apesar de saberem que parte delas vai ficar desempregada. Lembrem-se: “revolução” não é “insurreição”. É “mudança mais ou menos lenta ou rápida do equilíbrio de poder entre as classes, em favor das classes mais prejudicadas”. Se isso não é visível no mundo em geral, é bem claro que pelo menos no momento está ocorrendo em nosso País.
12 de outubro de 2012
Bíblia do capitalismo alemão saúda Karl Marx
Em http://www.handelsblatt-shop.com/handelsblatt/handelsblatt-epaper-p1951.html, em alemão, pode ser vista a capa do atual número do jornal econômico alemão Handeslblatt ("Folha do Comércio"), o mais importante da Europa Continental. Trata-se de um número especial, dedicado à Feira do Livro de Frankfurt, e que apresenta a lista dos 50 maiores economistas de todos os tempos, encabeçada por Karl Marx.
4 de agosto de 2012
Capitalismo vai acabar no próximo dia 21 de dezembro, diz ministro boliviano
Segundo o informativo RT, em http://www.rt.com/news/bolivia-ban-coca-cola-581/, em inglês, o ministro das Relações Exteriores da Bolívia, David Choquehuanca, declarou oficialmente: "21 de dezembro de 2012 será o fim do egoísmo e da divisão. 21 de dezembro deve ser o fim da Coca-Cola. Os planetas vão se alinhar pela primeira vez em 26 mil anos e isso é o fim do capitalismo e o começo do comunitarismo." Como se sabe, o calendário maia marca para 21 de dezembro o fim do grande ciclo astronômico, o que por muitos tem sido considerado o fim do mundo. 21 de dezembro também é a data escolhida pelo governo boliviano para entrar em vigor a proibição da Coca-Cola no país.
18 de março de 2012
A herança do anarquismo
Mais um trabalho de História, sobre o anarquismo:
Renato Ribeiro Pompeu
R.A. 1052390
HISTÓRIA SOCIAL DO
ANARQUISMO NO BRASIL
Centro Universitário Claretiano
Curso de História – 2.o ano
Curso de Extensão
Polo de São Paulo
2011
Passado menos de um século do auge do anarquismo operário no Brasil, o que resta de memória dessa vasta movimentação, que em 1917 e 1919 chegou a duas das três únicas greves gerais na cidade de São Paulo (sendo a terceira a do Abono de Natal, hoje conhecido como 13.o salário, em 1962), está nos arquivos e em algumas iniciativas no mundo acadêmico. Para falar a verdade, o próprio 13.o salário é tido pelas atuais gerações de trabalhadores como algo dado e óbvio, sem a lembrança de que foram necessárias lutas até sangrentas durante décadas para concretizá-lo como direito de todos os assalariados.
E os hoje esquecidos anarquistas contribuíram para a conquista de um marco muito mais importante, para os trabalhadores atuais, do que uma questão de salários: foram os anarquistas que forjaram no Brasil recém-saído da escravidão a noção de que o trabalho confere dignidade aos seres humanos. Os anarquistas organizaram o orgulho de pertencer à classe operária, fomentaram uma cultura operária brasileira, por meio de livros, jornais, revistas, saraus, sessões musicais, peças de teatro – tudo escrito e desempenhado pelos próprios trabalhadores. Particularmente, mulheres anarquistas foram as primeiras, no Brasil, a defenderem a independência de cada mulher, não só no que se refere ao trabalho e ao direito de escolher quando terá filhos, mas também no que se relaciona à própria liberdade sexual.
Ironicamente, os direitos que os anarquistas defendiam, a uma vida e um salário dignos, à limpeza pública, ao sanitarismo, à educação e à saúde, à liberdade de expressão, hoje desfrutados por uma grande parcela (longe de serem todos) dos trabalhadores brasileiros, são na atualidade, na prática, garantidos pelo Estado, tão abominado pelos anarquistas. Mesmo porque o poder do Estado burguês no País hoje é largamente exercido por sindicalistas e outros operários que, no entanto, não guardam memória de fato, nem histórica nem afetiva, de que seus benefícios são oriundos das lutas, dos sofrimentos e dos sonhos de trabalhadores hoje obscuros que lutaram durante décadas por uma sociedade sem classes, sem exploradores e sem explorados, sem oprimidos e sem opressores, autogovernada por todos os seus membros, sem um Estado que paire coercitivamente sobre essa sociedade.
Todos esses direitos, no entanto, estão hoje sob ameaça por mais uma incontrolável crise estrutural do capitalismo mundial. Mais e mais trabalhadores, em todo o planeta, estão perdendo o emprego, ou tiveram seus salários e benefícios sociais drasticamente reduzidos, em empregos a cada dia mais precários e insalubres. Por isso, e por muitos outros motivos, é importante cultivar a história social e fazer nascer a memória do que pensaram, do que fizeram e do que pensaram trabalhadores e trabalhadoras hoje de lembrança tão obscurecida. Pois sua noção de que a exploração não devia ser só amenizada, mas extinta – como era o objetivo dos antigos anarquistas –, está começando a entrar de novo na ordem do dia dos trabalhadores, embora os sentimentos de revolta estejam sendo mais aproveitados por populistas de direita do que por esquerdistas, cuja ala mais radical é a dos anarquistas.
17 de março de 2012
Proteção do ambiente: quem quer renunciar ao que consome?
Eis um trabalho meu do curso de História:
Renato Ribeiro Pompeu
R.A. 1052390
ANTROPOLOGIA,
EDUCAÇÃO E ÉTICA
Centro Educacional Claretiano
Curso de História – 2.o ano
Polo de São Paulo
Curso de Extensão
2011
Diante da crise colossal do capitalismo contemporâneo, combatê-la e superá-la por meio de uma educação mais avançada e de uma ética mais comprometida parece necessário, mas é totalmente insuficiente. As pessoas podem ser educadas, nas escolas e nas famílias, para se interessarem mais em ser alguém do que em ter muitas coisas; podem ser desenvolvidos e divulgados princípios éticos que impliquem a defesa do meio-ambiente. No entanto, mesmo as pessoas mais educadas e mais defensoras de princípios éticos de proteção do meio-ambiente, como Mikhail Gorbatchiov, Leonardo Boff e Mercedes Sosa, signatários da Carta da Terra, o mais importante documento ambiental jamais produzido, não fazem tudo que podem para defender a ecologia. Gorbatchiov construiu para si próprio uma mansão no bairro mais chique de Moscou, onde dispõe de uma enorme parafernália de aparelhos eletroeletrônicos, e dispõe de vários carros, consumindo energia poluidora muito mais do que a média da esmagadora maioria da população mundial. E, se todos fossem produzir livros como Boff e discos como Mercedes, não haveria mais nem florestas, nem ares sem poluição em todo o planeta.
O problema é o seguinte: todos se arrogam direitos que não reconhecem aos outros. Gorbatchiov defende que a humanidade seria extinta se todos poluíssem o planeta na medida do que o fazem os habitantes dos Estados Unidos; no entanto, com sua vida de luxo, polui muito mais do que a média da população americana. Igualmente, Boff critica os que defendem o direito de desmatar, mas ele próprio não se cansa de publicar livros impressos que implicam a derrubada de árvores, quando poderia difundi-los, por exemplo, só na Internet. Se fosse movida exclusivamente por fins artísticos, Mercedes Sosa não teria gravado discos – a indústria fonográfica é altamente poluidora – e sim os teria disponibilizado para todos por meio da Web.
Muitos possuem boa educação ambiental e professam parâmetros éticos contra o consumismo poluidor, mas poucos se dispõem a efetivamente renunciar às suas comodidades em favor do meio ambiente.
Além disso, os pensadores antigos, como Aristóteles, que defendia a escravidão, ou medievais, como Santo Tomás de Aquino, que achava justa a servidão da gleba, ou mesmo modernos como Kant, que não só defendia o capitalismo, como quis proibir os presos de uma cadeia de Königsberg (hoje Kaliningrado) de cantarem em suas celas, pouco nos podem servir de guias para combater e superar a atual crise estrutural do capitalismo em escala planetária. Mesmo Karl Marx nos é de pouca utilidade, porque a esmagadora maioria das pessoas, conforme a história demonstrou, prefere o consumismo capitalista, mesmo quando defendem o meio-ambiente, do que a vida mais frugal e menos livre, individualmente, do socialismo, tal como realmente se concretizou.
Mesmo Cuba, onde o governo se jactava de ter protegido toda a Ilha como um vasto santuário ecológico, sendo suas medidas ambientais muito elogiadas por ecologistas em geral, está partindo agora para uma economia mais livre e mais poluidora. E gerações de cubanos foram educados segundo uma ética rigidamente defensora dos princípios ambientais mais avançados, porém toda essa educação e toda essa ética ameaçam desabar diante da abertura para o consumismo. Assim a educação e a ética, embora necessárias, são totalmente insuficientes se as pessoas não renunciarem às suas liberdades de consumir o que bem entendem.
28 de fevereiro de 2012
Ex-primeiro-ministro francês critica o capitalismo
Em entrevista ao jornal francês Le Monde, o ex-primeiro-ministro socialista da França, Michel Roccard, 82 anos, critica a atual sociedade capitalista e prega uma nova sociedade para o futuro:
"Uma sociedade menos mercantil, menos sujeita à competição, menos entregue à cobiça, organizada em função do tempo livro. Costumo dizer que os melhores momentos da vida são o namoro, o nascimento de um filho, as boas realizações artísticas ou profissionais, as façanhas esportivas, as viagens maravilhosas, ou muitas outras coisas; note que nenhuma destas satisfações está ligada à acumulação de dinheiro. Em síntese, concebo o mundo futuro como um mundo de práticas culturais ou esportivas intensas, de abundância de tempo para dedicar à família, de atenção para os filhos, e de voltar a cultivar as relaçoes de amizade".
A entrevista foi reproduzida, em castelhano, na lista argentina Reconquista Popular, por Néstor Gorojovsky, nmgoro@gmail.com.
"Uma sociedade menos mercantil, menos sujeita à competição, menos entregue à cobiça, organizada em função do tempo livro. Costumo dizer que os melhores momentos da vida são o namoro, o nascimento de um filho, as boas realizações artísticas ou profissionais, as façanhas esportivas, as viagens maravilhosas, ou muitas outras coisas; note que nenhuma destas satisfações está ligada à acumulação de dinheiro. Em síntese, concebo o mundo futuro como um mundo de práticas culturais ou esportivas intensas, de abundância de tempo para dedicar à família, de atenção para os filhos, e de voltar a cultivar as relaçoes de amizade".
A entrevista foi reproduzida, em castelhano, na lista argentina Reconquista Popular, por Néstor Gorojovsky, nmgoro@gmail.com.
27 de dezembro de 2011
A esquerda e a ascensão do capitalismo brasileiro
Compare-se o sexto lugar entre as economias mundiais recém-alcançado pelo capitalismo brasileiro com as teses da esquerda nos anos 1960, segundo as quais a ditadura tinha raízes na impossibilidade de a burguesia brasileira associada à burguesia imperialista desenvolver o País. Essas teses tinham duas vertentes: a nacionalista, segundo a qual o desenvolvimento só seria possível com a burguesia nacional enfrentando o imperialismo, e a socialista, segundo a qual o capitalismo teria entrado num impasse e só o socialismo poderia garantir o desenvolvimento do Brasil. A história, como sabemos, jogou essas duas teses da esquerda no lixo, e a burguesia brasileira subordinada à burguesia imperialista desenvolveu tanto o País que este se tornou a sexta economia mundial, quando no regime militar não chegava entre os dez primeiros. Também o socialismo estatal pregado pela esquerda entrou em colapso e mesmo em Cuba está sendo abandonado. Será que as teses da esquerda de hoje em dia estão mais adequadas à realidade do que as teses do passado?
30 de agosto de 2011
Até a Bloomberg recomenda Karl Marx
A Bloomberg é uma das empresas de consultoria e informações econômicas mais respeitadas pelos altos executivos das grandes multinacionais. Pois ela acaba de publicar, em http://www.bloomberg.com/news/2011-08-29/give-marx-a-chance-to-save-the-world-economy-commentary-by-george-magnus.html, um artigo do economista conservador George Magnus, intitulado: "Dê a Marx uma chance de salvar a economia mundial". Diz o artigo:
"O espírito de Marx, que está enterrado num cemitório perto de onde moro no Norte de Londres, se ergueu da sepultura entre a crise financeira e a subsequente queda econômico. A análise do capitalismo pelo voluntarioso filósofo tinha uma porção de falhas, mas a economia global de hoje carrega algumas perturbadoras semelhanças às condições que ele previu".
"O espírito de Marx, que está enterrado num cemitório perto de onde moro no Norte de Londres, se ergueu da sepultura entre a crise financeira e a subsequente queda econômico. A análise do capitalismo pelo voluntarioso filósofo tinha uma porção de falhas, mas a economia global de hoje carrega algumas perturbadoras semelhanças às condições que ele previu".
24 de agosto de 2011
Classes dominantes globais se preparam para guerra de classes em escala mundial
Em http://roarmag.org/2011/08/passive-revolution-are-the-rich-starting-to-get-scared/, em inglês, o pesquisador Jérôme E. Roos constata que meios das classes dominantes globais, como as revistas americanas Forbes, de economia, e Time, semanário de informação, além de personalidades como o bilionário Warren Buffett e o renomado economista Nuriel Roubini, têm advertido para os riscos que o capitalismo mundial está correndo na atualidade. A Forbes levantou o espectro de uma guerra de classes em escala mundial e afirmou que os recentes distúrbios na Inglaterra tendem a se espalhar em outros países, na medida em que a crise avança. A Time e Roubini defendem que Marx estava correto ao observar que o capitalismo tem uma tendência a se autodestruir. A Time aconselha uma maior intervenção do Estado na economia, para evitar o colapso do capitalismo. Buffett defende que os ricos, como ele, paguem mais impostos.
13 de agosto de 2011
Uma entrevista de Roubini que não teve repercussão: "Marx tinha razão"
As entrevistas do economista Nouriel Roubini, o guru que previu a crise de 2008 e seus desdobramentos atuais, normalmente têm grande repercussão. Mas a que ele acaba de dar ao jornal econômico americano The Wall Street Journal, reproduzida pelo jornal econômico canadense The Financial Post em http://business.financialpost.com/2011/08/12/roubini-says-more-than-50-chance-of-global-recession/, em inglês, não teve tanta repercussão assim. Diz o texto de Pam Heaven, jornalista do The Financial Post:
"Nouriel Roubini citou esta semana um economista ainda mais controvertido do que ele próprio, ao explicar a situação da turbulenta economia mundial.
"'Karl Marx tinha razão, em algum ponto o capitalismo pode se destruir a si próprio', disse o sr. Roubini, numa entrevista ao The Wall Street Journal. 'Pensávamos que os mercados funcionavam. Não estão funcionando".
"O sr. Roubini também disse que há uma chance de mais de 50 por cento de que o mundo vá afundar em outra recessão global e os próximos dois a três meses vão revelar a direção da economia."
"Nouriel Roubini citou esta semana um economista ainda mais controvertido do que ele próprio, ao explicar a situação da turbulenta economia mundial.
"'Karl Marx tinha razão, em algum ponto o capitalismo pode se destruir a si próprio', disse o sr. Roubini, numa entrevista ao The Wall Street Journal. 'Pensávamos que os mercados funcionavam. Não estão funcionando".
"O sr. Roubini também disse que há uma chance de mais de 50 por cento de que o mundo vá afundar em outra recessão global e os próximos dois a três meses vão revelar a direção da economia."
7 de agosto de 2011
Quem tem comunistas como os chineses não precisa de capitalistas
Jornais chineses publicaram um artigo em que se exige que os Estados Unidos façam cortes "substanciais" em seus "inchados" programas de bem-estar social. A informação é do jornal americano The New York Times, reproduzida em parte na lista de notícias também americana Marxism, por Shane Mage < shmage@pipeline.com >, em inglês. Eis o trecho do NY Times de sábado, 7 de agosto, citado por Mage: “'O governo dos Estados Unidos tem de acertar as contas com o doloroso fato de que os bons velhos dias em que podia simplesmente tomar empréstimos para sair das confusões que ele próprio armava, são finalmente coisa do passado', se lê no comentário, que foi publicado em jornais chineses.
"Pequim, que não divulgou nenhuma outra declaração oficial sobre o rebaixamento (da nota da dívida pública dos EUA), convocou Washington a fazer cortes substanciais em seus programas 'inchados' de bem-estar social'".
Ao mesmo tempo, isso coloca um desafio para os partidários da justiça social: os subsídios públicos adotados por governos progressistas, sejam democráticos, socialdemocratas, socialistas, comunistas, são a única ou a principal solução para as injustiças na sociedade?
"Pequim, que não divulgou nenhuma outra declaração oficial sobre o rebaixamento (da nota da dívida pública dos EUA), convocou Washington a fazer cortes substanciais em seus programas 'inchados' de bem-estar social'".
Ao mesmo tempo, isso coloca um desafio para os partidários da justiça social: os subsídios públicos adotados por governos progressistas, sejam democráticos, socialdemocratas, socialistas, comunistas, são a única ou a principal solução para as injustiças na sociedade?
15 de julho de 2011
Crise mundial: população despreparada para enfrentar o que vem por aí
Seja qual for o encaminhamento a ser dado ao problema da dívida pública dos Estados Unidos, o fato é que parece bem claro, no horizonte a médio e longo prazo, que a atual crise mundial do capitalismo ainda está longe de ter sido atingido o seu auge. A médio e a longo prazo, as coisas só tendem a piorar. Mas o grande problema é que a esmagadora maioria dos seres humanos não está se dando conta dos riscos gravíssimos que estamos correndo, de conflitos cada vez mais intensos tanto dentro de cada nação como internacionalmente, entre nações e entre blocos de nações. Particularmente grave é o fato de que tanto partidos de direita como os partidos de esquerda em todo o mundo estão colaborando em "soluções" que, se resolvem as coisas no curto para os grandes bancos e os grandes conglomerados, a médio e longo prazo só tendem a fazer empobrecer cada vez mais a esmagadora maioria das pessoas.
23 de maio de 2011
Esquerda parece não ter o que dizer ao mundo
As eleições espanholas, com a vitória do PP direitista, bem como o andamento das revoluções árabes, e em geral o ambiente político, particularmente na Europa, parecem indicar que a esquerda não tem nada a dizer ao mundo, ou que o mundo não está dando ouvidos à esquerda. Isso apesar de estar ocorrendo uma das maiores crises estruturais da história do capitalismo.
9 de abril de 2011
A fragilidade mundial da esquerda
Apesar da crise estrutural do capitalismo que ocorre atualmente, não se notam, em escala mundial, avanços da esquerda. A crise em Portugal, como anteriormente na Grécia e na Irlanda, têm gerado muitas mobilizações e manifestações, sem maiores ganhos econômicos, políticos e sociais. As revoluções árabes têm sido comandadas por setores não-esquerdistas.
2 de março de 2011
Aumenta procura por "marxismo" no Google
A procura pela palavra "marxismo" tem aumentado, desde dezembro, no Google, segundo relata Rana Foroohar, em artigo no semanário americano Time, em http://news.yahoo.com/s/time/09171205001900;_ylt=ApoTWnFqe9V3qeJpsZ1Gpa2s0NUE;_ylu=X3oDMTNrYnE1N25tBGFzc2V0A3RpbWUvMjAxMTAyMjgvMDkxNzEyMDUwMDE5MDAEY2NvZGUDbW9zdHBvcHVsYXIEY3BvcwM0BHBvcwMxBHB0A2hvbWVfY29rZQRzZWMDeW5faGVhZGxpbmVfbGlzdARzbGsDeW91cmluY3JlZGli>, em inglês. O artigo defende a atualidade do pensamento de Marx sobre a tendência da queda da taxa de lucro e sobre a tendência da pauperização relativa dos trabalhadores, dentro do quadro geral das crises estruturais periódicas do capitalismo
29 de outubro de 2010
Comunista cubano aponta riscos das mudanças em seu país
Em artigo em inglês em http://www.marxist.com/which-way-for-cuban-revolution-debate.htm, o militante comunista cubano Frank Josué Solar Cabrales defende a tese de que as reformas recentemente anunciadas pelo governo de seu país têm de ser encaradas como um mal necessário, porém temporário, e não como um rumo definitivo para a sociedade de Cuba. Acima de tudo, ele considera que a desigualdade imposta pelas mudanças não pode ser considerada um objetivo dos comunistas: "Creio que a pergunta fundamental que devemos fazer é até que ponto a atual campanha contra serviços públicos gratuitos e subsídios, contra o igualitarismo e certos princípios de igualdade social, irá afetar as conquistas sociais fundamentais da Revolução Cubana? É uma contradição em termos afirmar que a construção do socialismo ocorre por meio da desigualdade, ou aceitar a desigualdade como normal ou inevitável. Isso é o que o capitalismo faz muito bem".
18 de setembro de 2010
O destino do Vietnã antecipa o de Cuba?
Agora que se está falando das mudanças pró-cooperativas privadas e pró-empresas privadas em Cuba, talvez seja adequado lembrar a trajetória do Vietnã. Abaixo, artigo que me foi encomendado em abril pelo Diário de S. Paulo:
Aos 35 anos de sua reunificação, Vietnã busca novos caminhos
Renato Pompeu (especial para o Diário)
Exatamente 35 anos depois da vitória dos comunistas na Guerra do Vietnã, cujo aniversário transcorreu na sexta-feira última, 30 de abril, e da unificação dos Vietnãs do Norte e do Sul na atual República Socialista do Vietnã, o país parece paradoxalmente em vias de tornar-se, não o que planejavam os vitoriosos na guerra, sim o que planejavam os derrotados, os sulvietnamitas anticomunistas e os norteamericanos. Esses dois últimos queriam uma economia abertamente capitalista, sem maior referência a uma abertura na política – exatamente os dois fenômenos que estão ocorrendo no Vietnã -, enquanto os comunistas queriam uma economia estatal planificada que se demonstrou inviável.
Com 330 mil quilômetros quadrados – um tanto maior do que o Estado de São Paulo – o Vietnã tem cerca de 88 milhões de habitantes, sendo assim literalmente um formigueiro humano. Sua história como região cultural e política com identidade étnica própria data do século 2 a.C, com o nome de Nam Viet, que, como Vietnã, significa “Estado do Sul”, em referência ao “Império do Meio” que seria a China. Esta dominou o país até o século 10 d.C.; a região depois esteve variadamente dividida até 1802, quando foi unificada sob uma única dinastia. Em 1859, os franceses ocuparam Saigon, hoje Cidade Ho Chi Minh.
Os portugueses tinham chegado bem antes, em 1535; o poeta Camões quase se afogou com o manuscrito de “Os Lusíadas” no delta do rio Mekong, e consta que é dirigido a uma vietnamita o seu célebre soneto “Alma minha gentil que te partiste”, e que ela teria morrido nesse naufrágio de que ele se salvou. Mas os portugueses só instalaram feitorias, enquanto os franceses - que acabaram ocupando todo o Vietnã até 1940, quando durante a Segunda Guerra Mundial o país foi tomado pelos japoneses – colonizaram plenamente o país e mudaram seu alfabeto tradicional para o alfabeto romano, ainda hoje utilizado pelos vietnamitas.
Em 1945, as tropas japonesas em fuga aceitaram a declaração de independência do Vietnã, feita pelos guerrilheiros comunistas, que porém não foi aceita pelas tropas francesas retornadas. Iniciou-se uma guerra entre os comunistas e a França, apoiada pelos Estados Unidos, com a vitória dos comunistas em 1954. Os franceses foram expulsos.
Surgiram então, em 1956, o Vietnã do Norte, comunista, e o Vietnã do Sul, com a presença de tropas americanas. No Sul, guerrilheiros comunistas apoiados pelos norte-vietnamitas combatiam o governo pró-ocidental. Tropas americanas intervieram e nos anos 1960 aviões dos EUA bombardearam maciçamente o Vietnã do Norte, tendo sua capital, Hanói, sofrido muito mais bombas do que Berlim em toda a Segunda Guerra Mundial.
A indefinição do resultado da guerra, e a impossibilidade de os Estados Unidos a ganharem, para o que seria necessário invadir por terra o Vietnã do Norte – o que desencadearia uma imprevisível reação da China e da então União Soviética -, levaram a que o número de jovens americanos mortos em combate crescesse cada vez mais. Isso desencadeou uma reação da juventude, naqueles anos de recrutamento obrigatório e não de soldados profissionais como agora, e de outros setores da população dos EUA, reação que contribuiu de modo notável para o grande movimento de “paz e amor” de milhões de hippies nos lendários anos 1960.
Em 1973, houve um acordo de cessar-fogo e as tropas americanas começaram a se retirar. Em maio de 1975, finalmente, tropas regulares do Norte ocuparam Saigon, pondo fim ao regime sul-vietnamita pró-ocidental.
Antes mesmo da derrocada mundial do comunismo, em meados dos anos 1980, diante da inviabilidade do prosseguimento da instauração de uma economia estatal planejada, que não conseguiu se adaptar ao rápido desenvolvimento tecnológico em todo o planeta, ainda hoje longe de atingir a estabilidade necessária para o planejamento, o governo comunista vietnamita introduziu reformas profundas. O país foi aberto aos investimentos estrangeiros e mesmo à iniciativa privada local. Esses tinham sido exatamente os objetivos pelos quais tinham lutado os sul-vietnamitas e os americanos.
As relações diplomáticas com os Estados Unidos foram estabelecidas em 1995; os EUA assim perderam a guerra, mas ganharam a paz, com empresas como a Nike tendo suas maiores fábricas no Vietnã. O país caminha para se tornar mais um Tigre asiático.
Aos 35 anos de sua reunificação, Vietnã busca novos caminhos
Renato Pompeu (especial para o Diário)
Exatamente 35 anos depois da vitória dos comunistas na Guerra do Vietnã, cujo aniversário transcorreu na sexta-feira última, 30 de abril, e da unificação dos Vietnãs do Norte e do Sul na atual República Socialista do Vietnã, o país parece paradoxalmente em vias de tornar-se, não o que planejavam os vitoriosos na guerra, sim o que planejavam os derrotados, os sulvietnamitas anticomunistas e os norteamericanos. Esses dois últimos queriam uma economia abertamente capitalista, sem maior referência a uma abertura na política – exatamente os dois fenômenos que estão ocorrendo no Vietnã -, enquanto os comunistas queriam uma economia estatal planificada que se demonstrou inviável.
Com 330 mil quilômetros quadrados – um tanto maior do que o Estado de São Paulo – o Vietnã tem cerca de 88 milhões de habitantes, sendo assim literalmente um formigueiro humano. Sua história como região cultural e política com identidade étnica própria data do século 2 a.C, com o nome de Nam Viet, que, como Vietnã, significa “Estado do Sul”, em referência ao “Império do Meio” que seria a China. Esta dominou o país até o século 10 d.C.; a região depois esteve variadamente dividida até 1802, quando foi unificada sob uma única dinastia. Em 1859, os franceses ocuparam Saigon, hoje Cidade Ho Chi Minh.
Os portugueses tinham chegado bem antes, em 1535; o poeta Camões quase se afogou com o manuscrito de “Os Lusíadas” no delta do rio Mekong, e consta que é dirigido a uma vietnamita o seu célebre soneto “Alma minha gentil que te partiste”, e que ela teria morrido nesse naufrágio de que ele se salvou. Mas os portugueses só instalaram feitorias, enquanto os franceses - que acabaram ocupando todo o Vietnã até 1940, quando durante a Segunda Guerra Mundial o país foi tomado pelos japoneses – colonizaram plenamente o país e mudaram seu alfabeto tradicional para o alfabeto romano, ainda hoje utilizado pelos vietnamitas.
Em 1945, as tropas japonesas em fuga aceitaram a declaração de independência do Vietnã, feita pelos guerrilheiros comunistas, que porém não foi aceita pelas tropas francesas retornadas. Iniciou-se uma guerra entre os comunistas e a França, apoiada pelos Estados Unidos, com a vitória dos comunistas em 1954. Os franceses foram expulsos.
Surgiram então, em 1956, o Vietnã do Norte, comunista, e o Vietnã do Sul, com a presença de tropas americanas. No Sul, guerrilheiros comunistas apoiados pelos norte-vietnamitas combatiam o governo pró-ocidental. Tropas americanas intervieram e nos anos 1960 aviões dos EUA bombardearam maciçamente o Vietnã do Norte, tendo sua capital, Hanói, sofrido muito mais bombas do que Berlim em toda a Segunda Guerra Mundial.
A indefinição do resultado da guerra, e a impossibilidade de os Estados Unidos a ganharem, para o que seria necessário invadir por terra o Vietnã do Norte – o que desencadearia uma imprevisível reação da China e da então União Soviética -, levaram a que o número de jovens americanos mortos em combate crescesse cada vez mais. Isso desencadeou uma reação da juventude, naqueles anos de recrutamento obrigatório e não de soldados profissionais como agora, e de outros setores da população dos EUA, reação que contribuiu de modo notável para o grande movimento de “paz e amor” de milhões de hippies nos lendários anos 1960.
Em 1973, houve um acordo de cessar-fogo e as tropas americanas começaram a se retirar. Em maio de 1975, finalmente, tropas regulares do Norte ocuparam Saigon, pondo fim ao regime sul-vietnamita pró-ocidental.
Antes mesmo da derrocada mundial do comunismo, em meados dos anos 1980, diante da inviabilidade do prosseguimento da instauração de uma economia estatal planejada, que não conseguiu se adaptar ao rápido desenvolvimento tecnológico em todo o planeta, ainda hoje longe de atingir a estabilidade necessária para o planejamento, o governo comunista vietnamita introduziu reformas profundas. O país foi aberto aos investimentos estrangeiros e mesmo à iniciativa privada local. Esses tinham sido exatamente os objetivos pelos quais tinham lutado os sul-vietnamitas e os americanos.
As relações diplomáticas com os Estados Unidos foram estabelecidas em 1995; os EUA assim perderam a guerra, mas ganharam a paz, com empresas como a Nike tendo suas maiores fábricas no Vietnã. O país caminha para se tornar mais um Tigre asiático.
19 de maio de 2010
Cochabamba e o ecossocialismo
Em mensagem enviada à lista de notícias do The Socialist Register, o canadense Sid Shniad shniad@gmail.com, transcreve artigo de outro militante canadense, Roger Rashi, que faz um balanço da Conferência dos Povos sobre a Mudança Climática e os Direitos da Mãe-Terra, recentemente realizada em Cochabamba, na Bolívia. Rashid diz que a Conferência representou um grande avanço do ecossocialismo, pois até agora, segundo ele, os ambientalistas eram avessos a tocar em problemas sociais, para não desagradarem os governos que procuram influenciar.
Rashid acrescenta que o resultado da Conferência foi "espetacular". Os organizadores esperavam 15 mil participantes, mas mais de 35 mil compareceram, dos quais mais de 9 mil estrangeiros. Da América Latina, participaram milhares de ativistas comunitários, camponeses pobres e indígenas, que de acordo com ele impuseram um ritmo combativo aos 17 grupos de trabalho. O documento final, O Acordo dos Povos, aponta claramente o modelo capitalista de desenvolvimento e o imperialismo como causas estruturais da crise do clima.
Rashid acrescenta que o resultado da Conferência foi "espetacular". Os organizadores esperavam 15 mil participantes, mas mais de 35 mil compareceram, dos quais mais de 9 mil estrangeiros. Da América Latina, participaram milhares de ativistas comunitários, camponeses pobres e indígenas, que de acordo com ele impuseram um ritmo combativo aos 17 grupos de trabalho. O documento final, O Acordo dos Povos, aponta claramente o modelo capitalista de desenvolvimento e o imperialismo como causas estruturais da crise do clima.
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