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7 de março de 2010

Cerveja, a bebida do verão em artigo para o Diário de S. Paulo

Recentemente o Diário de S. Paulo me encomendou o seguinte artigo:

Cerveja, a bebida do verão

A cerveja, para os brasileiros, é a bebida do ano inteiro, mas seu grande reinado é durante o verão, como lembrou a recente grita pela escassez de chope em São Paulo. Mas você sabe o que está tomando quando bebe cerveja?
A cerveja pode ser definida como a bebida obtida a partir do malte a que se acrescenta água, ou mais exatamente como a bebida obtida a partir da fermentação do malte, nome que se dá à cevada germinada, isto é, já brotada; além da água, à bebida se acrescenta lúpulo, folhagem de uma erva proveniente de uma trepadeira. Esta é a clássica cerveja consumida, em diferentes formas e preparos, em massa no mundo inteiro. Mas a cerveja pode ser obtida de qualquer cereal germinado, como o trigo (caso da Bohemia Weiss), o milho, ou centeio (caso do kwass da Europa Oriental) – ou o arroz (caso do saquê), o sorgo na África. E o lúpulo só foi acrescentado já na passagem da Antiguidade para a Alta Idade Média, já na Europa, pois antes a cerveja era feita só com malte, e não reconheceríamos o gosto da cerveja tomada pelos antigos egípcios – os operários que construíram as pirâmides eram alimentados com pão, cebola e cerveja. Poucos sabem que a cerveja é parenta do uísque, produzido a partir da destilação de diferentes tipos de cervejas.
A cerveja comum normalmente consumida no Brasil, como na Europa Continental e nos Estados Unidos, é feita a partir da chamada baixa fermentação e armazenada durante longo tempo antes de ser consumida. A baixa fermentação ocorre quando, no momento em que a fermentação é completada, o fermento cai para o fundo do receptáculo de produção. O mestre cervejeiro e gerente corporativo de desenvolvimento de cervejas da AmBev, Luciano Horn, explica que é o tipo de fermento escolhido que determina se a cerveja é de baixa ou alta fermentação, sendo que o de baixa fermentação passou a ser usado mais recentemente, na milenar história da cerveja, do que o de alta.
Quando a bebida de baixa fermentação é vendida ainda nova, sem ser armazenada, e posta em barril assim que ficou pronta, é chamada de chope. Quando fica armazenada durante longo período, é chamada Lager (do verbo alemão lagern, que significa “armazenar”) e é desse tipo, mais exatamente do subtipo Pilsen, desenvolvido a partir de 1839 nessa cidade hoje na República Tcheca e grafada Plzem em tcheco, a cerveja clara comum, a mais consumida, tipo Brahma, Antarctica, Kaiser, Skol, Schincariol e tantas outras. Seu teor alcoólico fica entre 3 por cento e cinco por cento. A Bock, fabricada originalmente em Einbeck, na Alemanha, de onde recebeu o nome, é uma Lager mais escura, assim como a München, de Munique. Horn explica que as cores diferentes se devem à maior ou menor proporção de malte torrado ao lado do malte cru, ou claro: quanto mais malte torrado, mais escura a cerveja. A Eisbock, ou Bock de gelo em alemão, é conservada abaixo de zero grau; congela em parte, a parte congelada é retirada e a cerveja fica com 13 por cento de álcool. A Eisbock, que praticamente não é consumida no Brasil, não deve ser confundida com a Antarctica Sub Zero, que só é mais gelada para garantir maior refrescância.
No caso da alta fermentação, o tipo de fermento utilizado, quando a fermentação está completada, sobe à superfície no recipiente de produção e o teor alcoólico sobe para entre 4 por cento e 6,5 por cento. É o caso das cervejas Stout, como a Caracu, mais comuns na Inglaterra, entre elas a Porter – esta última chegou até poucas décadas a ter consumo significativo no Brasil, caso da saudosa Brahma Porter. Era preciso ter todo cuidado para, ao colocar a Porter no copo, não ficar só com espuma: quem não era veterano dessa cerveja preferia pôr no copo uma batata cozida ou uma fatia de queijo para absorver a espuma, mas essa manobra não era bem vista pelos bebedores veteranos. Em suma, para tirar a Porter da garrafa, o bom bebedor precisava ter mão tão boa quanto a de um bom chopeiro. O gosto do lúpulo fica mais acentuado na cerveja de alta fermentação, ou seja, ainda mais amargo do que na de baixa fermentação. Enquanto as cervejas de baixa fermentação são normalmente pasteurizadas, com exceção do chope, algumas de alta fermentação não são, como a antiga Porter. Existe uma cerveja praticamente não fermentada, de teor alcoólico abaixo de 1 por cento: é a Maltzbier, ou cerveja de malte em alemão, em que a fermentação é praticamente abortada pela introdução do fermento abaixo de zero grau; acrescenta-se açúcar e essa cerveja preta, doce e pouco alcoólica era preferida tradicionalmente pelas mulheres, até que estas passaram a beber do mesmo modo que os homens. Horn relaciona os tipos mais comuns de cerveja no Brasil: Pilsen, preta, de trigo, Abadia (como as dos monges trapistas belgas), Stout e Lambic, esta última misturada com frutas, como a framboesa. O mestre cervejeiro da AmBev esclarece que o nome Premium é um nome fantasia e não tem nenhum significado técnico. Mas Juliana Damigue, assessora de imprensa da AmBev, afirma: “O mercado de cervejas é dividido em ‘mainstream’ e ‘premium’. As cervejas ‘mainstream’ são as mais populares como Skol, Brahma e Antarctica. As chamadas Premium são as marcas produzidas com ingredientes diferenciados e embalagens mais elaboradas, por exemplo, como é o caso de marcas como Bohemia e Stella Artois.”
A cerveja é a bebida alcoólica mais consumida do mundo, e na verdade, entre todas as bebidas, só perde para a água e o chá, sendo mais consumida até do que o café... ou o leite!. É também a bebida alcoólica mais antiga produzida por seres humanos. Há provas de seu consumo na Mesopotâmia há mais de 8 mil anos, mas provavelmente ela foi produzida ainda antes, desde a vulgarização dos cereais na alimentação humana com a Revolução Agrícola de 10 mil anos atrás. Provavelmente foi, de início, feita a partir de cereais amassados; a massa entrava espontaneamente em fermentação; no Egito, tudo indica que ela era feita a partir de pão levedado (isto é, fermentado), lembrando-se que o pão é a massa de cereais assada. Mas logo se aprendeu a fazer a cerveja a partir de grãos de cereais já germinados, de sua massa, ou de seu pão. Essas cervejas eram de alta fermentação, um tanto azedas.
Nas tabuinhas com textos cuineformes da epopéia “Gilgamesh”, de 3.500 anos antes de Cristo, na Suméria, se descrevem todos os passos da produção de cerveja, já elaborada a partir da cevada e aromatizada com outros cereais ou com especiarias. A epopéia conta como um ser animalesco, Enkidu, se tornou um ser humano assim que tomou sua primeira cerveja. Assim como hoje é considerada de mais qualidade a cerveja com mais lúpulo, naquele tempo a mais considerada era a cerveja com mais trigo. Havia uma deusa suméria da cerveja, Ninkasi, e a imagem de um filtro era o distintivo das cervejeiras profissionais (era uma profissão feminina) por volta de 1.800 anos antes de Cristo, tendo o filtro tornado dispensáveis os canudos antes necessários para não ingerir as partículas sólidas da mistura – agora se podia beber diretamente da taça. As cervejas sumérias tinham a consistência de xarope. Um provérbio sumério dizia; “Quem não conhece cerveja, não sabe o que é bom. A cerveja torna o lar agradável”. O Código de Hamurábi, o mais antigo código legal conhecido, decretado por volta de 1750 AC por esse rei babilônio, contém regras rigorosas sobre a produção e o consumo de cerveja; em particular, havia regras para proteger o consumidor das contrafações de cerveja promovidas pelos taberneiros..
No Egito a cerveja chegava a ser mais consumida do que a água, por esta causar doenças, por estar freqüentemente contaminada. Interessante é notar como, do mesmo modo que havia até recentemente uma rivalidade entre os franceses tomadores de vinho e os ingleses tomadores de cerveja, na Antiguidade havia uma rivalidade entre os gregos tomadores de vinho e os egípcios tomadores de cerveja. Os egípcios não diziam “Bom dia”, como nós, ou “A paz seja convosco”, como judeus e árabes – cumprimentavam dizendo “Pão e cerveja”. Havia um oficial nomeado pelo faraó como “controlador das cervejeiras” (a profissão continuava sendo feminina, sendo o único homem o controlador). Além de exportada para portos no Mediterrâneo, a cerveja egípcia era uma oferenda usada em rituais em honra de várias divindades.
Do Egito, a cerveja foi levada pelos comerciantes gregos ao Norte e ao Leste do Mediterrâneo, e dessas duas regiões chegou à Ibéria, Gália e Germânia (hoje Portugal e Espanha, França e Alemanha), e daí para a Grã-Bretanha e os países nórdicos, e para o Leste europeu. Era considerada uma “bebida bárbara” pelos gregos da própria Grécia e pelos romanos, que preferiam o vinho, como atestam os livros dos pesquisadores Plínio e Tácito. A cerveja era preferida pelos germânicos, celtas, trácios e citas; mesmo assim tavernas romanas serviam cerveja. O nome “cerveja” provém do latim cerevisia, que por sua vez vem do celta. Inversamente, os nomes da cerveja em inglês, alemão, francês e italiano, beer, bier, bière, birra, vêm do celta bier, que por sua vez vem do latim bibere, beber.
Da Antiguidade, a produção artesanal de cerveja passou para a Idade Média; em 719, a Lei dos Alemães, promulgada pelos francos, regulou a produção doméstica de cerveja em todas as regiões germânicas. Cervejas dessa época sobrevivem até hoje no Norte da Europa e no Leste europeu, como o kvass – cerveja de centeio. Foram surgindo as cervejarias comerciais; cada taverna era acoplada a uma unidade produtora, especialmente em mosteiros. No ano 1000, quarenta casas do mosteiro de St. Gallen, na Suíça, produziam e vendiam cerveja; na Alemanha havia mais de 400 mosteiros-cervejarias – e na Bélgica de hoje, como então, os monges trapistas continuam produzindo sua famosa cerveja.
A partir do século 12, quando ocorre a primeira menção por escrito ao acrescentamento de lúpulo, as cidades alemãs que formaram a Liga Hanseática passaram a emitir licenças, com altos impostos, para particulares produzirem cerveja e a exportarem. Data de então a tradição da cerveja alemã. O lúpulo foi adotado pela Holanda por volta de 1400 e na Inglaterra por volta de 1600. A erva demorou a ser aceita pelos bebedores, por dar um certo amargor à cerveja, mas permitia sua conservação por mais tempo, o que facilitava a sua difusão pelos comerciantes e exportadores. (Logo o próprio gosto do lúpulo passou a ser mais aceito e a cerveja Lager com mais lúpulo, tipo Pilsen, passou a ser a mais apreciada).
Em 1420, na Bavária, os monges introduziram a produção por baixa fermentação e a cerveja Lager; em 1516 essa região aprovou a Lei da Pureza, que só permitia a fabricação de cerveja com malte de cevada e lúpulo, em 1551 nova lei bávara só permitia a baixa fermentação, mas essa segunda lei só no fim do século 19 se estendeu para o Norte da Alemanha. Da Alemanha, o gosto pela Lager, em particular pela Pilsen, se espalhou pelo mundo, com a notável exceção das áreas de influência britânica – a alta fermentação continua predominando na Inglaterra -, como a Rússia e a Índia, onde passaram a predominar a adocicada Stout e a forte Porter.
Inventados ao longo do século 18, o hidrômetro, o sacarômetro, o termômetro e a máquina a vapor se combinaram para tornar possível a industrialização em larga escala da cerveja, surgindo ao longo do século 19 as fábricas mais semelhantes às que conhecemos hoje. A partir dos anos 1830, com a descoberta das enzimas, começaram os aperfeiçoamentos bioquímicos no conhecimento do processo de fermentação e da produção de cerveja – e é de então que datam muitas das grandes indústrias cervejeiras de hoje, como a Brahma e a Antarctica. No fim do século 19, a Carlsberg da Dinamarca introduziu o fermento produzido em laboratório; antes cada fermentação era obtida pelo acrescentamento de um fermento anterior, como nas coalhadas caseiras. A grande novidade do século 20 foi a difusão, a partir dos Estados Unidos, da cerveja bem gelada.
A cerveja sempre havia sido considerada um bom alimento, e talvez fosse, mas hoje, segundo muitos estudos, tem valor apenas calórico, pois os modernos filtros eliminam a maior parte das vitaminas e sais minerais que ela continha nos tempos em que Marx lamentou a substituição do hábito da cerveja pelo hábito do gim entre os proletários ingleses. Desde então a cerveja não é mais considerada, em muitos estudos, um bom nutriente. Por isso, sua ingestão deve ser acompanhada de alimentos ricos em fibras e proteínas. Mas Horn não concorda com isso: “A cerveja sempre foi considerada um bom alimento, ainda hoje, por ser elaborada com malte rico em proteínas e sais minerais e o fermento ricos em vitaminas principalmente do complexo B. Os filtros não retiram as vitaminas e sais”. A Malzbier, como vimos, tem bastante açúcar.
Tomada em grande quantidade durante um grande período de tempo, a cerveja tem as mesmas consequências maléficas que qualquer outra bebida alcoólica. Sua única vantagem é que ela “enche” o estômago mais rapidamente do que o vinho ou os destilados, e assim o típico bebedor de cerveja acaba tendo menos álcool no sangue comparado com o típico bebedor de vinho ou de destilados. Esse “enchimento” do estômago, aliás, é uma das origens da lenda da “barriguinha da cerveja”, provocada muito mais pelos salgadinhos que a acompanham. Há estudos que indicam que o consumo de 100 ou 200 gramas de cerveja por semana pode ter efeitos benéficos, em especial sobre o sistema circulatório, mas isso não dá um copo por semana.


A cerveja só chegou ao Brasil em 1808, com a vinda da Família Real, pois antes os interesses comerciais portugueses não admitiam concorrência ao vinho. As preferências tarifárias concedidas à Inglaterra levaram o País a se tornar importador de cerveja inglesa, ou seja, de alta fermentação; cervejas de outras nações eram também importadas para o Brasil por comerciantes ingleses. O povão tomava algo parecido com cerveja, a gengibirra, produzida a partir da fermentação do gengibre, às vezes misturado com milho.
Por volta de 1830 os imigrantes alemães introduzem no Brasil a produção doméstica de cerveja, mas, como vinham do Norte e do Oeste da Alemanha, a cerveja era de alta fermentação, como a inglesa; na verdade, a rolha tinha de ser amarrada com barbante, para não estourar, daí surgindo a expressão “cerveja marca barbante”, comparada desfavoravelmente à inglesa importada. A partir de 1850 surgiram as primeiras produções comerciais, por iniciativa de imigrantes, com o trabalho tanto de escravos como de empregados livres. A partir de 1870 passa a predominar, no mercado brasileiro, a cerveja de baixa fermentação, em parte produzida no País e na maior parte importada do recém-instituído Império Alemão. No início do século 20 cessa a importação em grande escala, substituída pela cerveja nacional.
Grandes fábricas vão paulatinamente concentrando a produção, especialmente a Brahma e a Antarctica, mas na segunda metade do século 20, enquanto essas duas se fundiam na Ambev e depois na InBev, surgiram outras marcas significativas, como a Kaiser, a Schincariol e a Skol – e, nos fins do século passado, uma infinidade de fábricas pequenas, grande parte delas microcervejarias que só vendem para fora o excedente de sua produção não vendido no seu próprio estabelecimento comercial. A variedade é tanta que hoje existem no País lojas de diferentes tipos de cerveja, até mesmo com sessões de degustação.
Nas últimas décadas, surgiu a cerveja sem álcool – pelo controle da fermentação – (como a Kronenbier, a a Schincariol sem álcool), nome dado à cerveja com menos de 0,5 por cento de álcool, e, nos últimos anos, a cerveja totalmente sem álcool, como a Líber, para quem está preocupado com o alcoolismo, ou com a dieta.
Um brinde à cerveja!

25 de fevereiro de 2010

Entre nossos parentes, os fungos


Há tempo a revista Carta Capital me encomendou a seguinte resenha:

Vegetais, bactérias e fungos,nossos parentes

“A anatomia do homem é a chave para a anatomia do primata”, escreveu Marx, querendo defender sua tese de que se deve partir do capitalismo atual para entender os “modos de produção” do passado. Em A grande história da evolução – Na trilha dos nossos ancestrais, edição da Companhia das Letras,o biólogo inglês Richard Dawkins, ateu militante, parte dos seres humanos atuais rumo ao passado dos seres vivos, em que, primeiro, busca o ancestral comum de todos os hominídeos, no “encontro 0”.
Em seguida, no “encontro 1”, nos deparamos com o ancestral comum de homens e chimpanzés; no “encontro 2” está o ancestral comum, de um lado, do ancestral comum de homens e chimpanzés, e, de outro, dos gorilas.. No “encontro 39”, depois de passar pelos ancestrais comuns de todos os animais com os fungos, de todos os animais e fungos com os vegetais, todos os outros seres vivos se reúnem com as eubactérias.
O resultado é uma visão fascinante das origens das espécies, segundo as pesquisas mais recentes (o original é de 2004). Além de a história “ao contrário” tornar muito mais simples entender a evolução, Dawkins escreve bem. Baseou-se na obra de ficção medieval inglesa Os contos da Cantuária, de Chaucer. Pelos “contos dos peregrinos” (espécies destacadas) de Dawkins, ficamos sabendo que os seres humanos perderam os pelos porque se dava preferência, na seleção sexual, aos parceiros que não transmitissem piolhos. Os primatas em geral não tiveram essa chance, porque não usavam o fogo para aquecer-se, não poderiam prescindir dos pelos e têm de se haver com os piolhos até hoje.

23 de fevereiro de 2010

Um tratado sobre fotografia, sem nenhuma foto


Há algum tempo o Diário do Comércio, de São Paulo, me encomendou a seguinte resenha:
Um tratado sobre fotografia, sem nenhuma foto

A não ser pela capa, o livro “A fotografia entre documento e arte contemporânea”, do professor de Estética em Paris André Rouillé, um dos mais completos estudos sobre fotografia jamais escrito no mundo inteiro, lançado no Brasil pela Editora Senac São Paulo, se caracteriza por não ter, entre suas densas e rigorosas análises filosóficas, científicas, históricas e estéticas, a reprodução de nenhuma foto em suas quase 500 páginas.
Trata-se de uma excelente dissertação, quase diríamos uma detalhada dissecação, do que foi, do que veio a ser e do que se tornou a fotografia ao longo dos seus menos de dois séculos de existência. O autor descreve como, não só do ponto de vista histórico, como do ponto de vista lógico, a fotografia evoluiu ao longo do tempo, e ainda hoje evolui continuamente, de “documento” para “arte”. Mas o mais importante talvez seja o fato de que Rouillé distingue entre “a arte dos fotógrafos” e a “fotografia dos artistas”.
Vamos por partes. Inicialmente o autor distingue a fotografia em sua função de “documento” e sua função como “expressão”. Não só historicamente, mas também logicamente, a fotografia começa como documentação de algo. Ela registra um fato, uma pessoa, uma coisa, num determinado instante, num determinado local, e assim serve como documento jornalístico, histórico, científico, doméstico, familiar, policial, de identidade, etc.
No entanto, prossegue Rouillé, a foto como documento não é a coisa documentada. Podemos dizer que, num julgamento num tribunal, uma coisa é a prova fisicamente apresentada, outra coisa é uma sua fotografia. Essa distinção entre a foto como “documento” e a “coisa documentada”, abre caminho, tanto na história como na lógica, para a foto como documento se tornar uma “expressão”, não só da coisa documentada, como de quem a documenta. Isto é, a foto passa de ser uma “reprodução da realidade” para ser uma “visão da realidade”; com tudo que uma “visão” tem de subjetivo, em relação a uma “reprodução”. Com isso, a foto pode passar a uma “visão da desrealidade”. Nesse caso, a fotografia sofreu, e continua sofrendo, na palavra de Rouillé, uma “perda do elo com o mundo”. O próximo passo, evidentemente, histórico e lógico, é ela se transformar em “arte”, longe de sua origem como “documentação”.
A par dessa evolução que poderíamos chamar de “interna”, a fotografia sofreu também um ataque externo que a fez ir perdendo a função de “documento” para ganhar a de “expressão”, a caminho de transformar-se em “arte”. Assim como, de um lado, a fotografia, por sua maior fidelidade factual à coisa documentada, foi substituindo a pintura e o desenho como “registro” familiar, jornalístico, etc., e de outro lado ao mesmo tempo liberou e forçou a pintura e o desenho a encontrarem novas formas de criação, do mesmo modo outros avanços técnicos, como o cinema, o cinema falado e a televisão sonorizada permitiram uma “documentação” de mais perfeita fidelidade factual à coisa documentada, permitindo – e forçando – que a fotografia também, como a pintura e o desenho, passasse igualmente a “expressar o inexpressável”, por sua plena transformação em “arte”.
Aqui se destacam dois passos distintos, tanto histórica como logicamente. Num primeiro passo, o fotógrafo, além de usar os recursos técnicos de sua máquina, passa também a usar os seus recursos artísticos, como a maior ou menor luminosidade, a maior ou menor fidelidade às tonalidades das cores “originais”, a maior ou menor “distorção”, a maior ou menor “arrumação” do objeto, para mais bem “documentar” a coisa em questão. Trata-se da “arte dos fotógrafos”.
O segundo e, até agora, o último passo histórico – mas não o último passo lógico, ainda indefinido – é a “fotografia dos artistas”. Nesse caso, já não se trata de usar recursos artísticos para mais bem documentar alguma coisa em questão, sim de criar arte só arte, arte pela arte. Assim passamos, por exemplo, da foto de formatura, para uma foto que é só um conjunto de luminosidades, volumes e formas, como retrata a capa do livro.

22 de fevereiro de 2010

Best-seller e grande arte: Os inomináveis

O Diário do Comércio, de São Paulo, me encomendou há tempo a seguinte resenha:

Um romance popular com técnica de grande arte

Este romance Os inomináveis, do suíço Hansjörg Schertenleib, foi considerado em seu país e na Alemanha uma obra de grande arte, tanto que ganhou os prêmios de Melhor Livro das cidades de Zurique e de Berna, e ainda o prestigioso Prêmio da Fundação Schiller, tendo sido filmado pela TV alemã. Agora, foi lançado no Brasil pela Grua, com apoio da Fundação Pró-Helvetia, empenhada na difusão da cultura da Suíça. Mas é na verdade uma obra de cunho popular, sobre uma seita de fanáticos que quer matar o papa João Paulo 2.o. Está assim bem dentro da recente corrente de best-sellers que têm como tema o misticismo religioso no mundo ultratecnologizado de hoje e que ainda confundem personagens fictícios com personagens reais, querendo criar no leitor a impressão de que está apresentando o relato de uma história realmente acontecida.
Afinal, a grande arte tem como tema a condição humana universal e eterna, particularizada, com emoção discreta, nas dimensões nacionais e de momento – e tem, como característica imprescindível, a de transcender o momento e as condições em que foi criada e perdurar durante séculos. Ora, o livro de Schertenleib, ao que tudo indica, será muito pouco lido, digamos, daqui a meio século. Está irremediavelmente preso à situação contemporânea, em que todas as utopias foram para o brejo, com exceção das milenares utopias religiosas, adaptadas porém aos novos tempos, em que as pessoas tendem a perder o senso comunitário e a adotar ou concepções estritamente individualistas, ou a se inserir em pequenos grupos.
Mas acontece que Schertenleib escreve com todas as técnicas da grande arte em que foi treinado em academias suíças de belas-artes pelas quais passou. Ele escreve com o auxílio luxuoso de uma prosa requintada, na descrição de ações e de paisagens mais rurais que urbanas, na percepção íntima da psicologia de seus personagens. Sentimos na pele quando brilha o sol em suas descrições, ou sentimos perpassarem por nossos corpos as sombras das folhagens e galharias dos bosques na Irlanda e na França.
Fruímos as delicadas insinuações de um erotismo transgressor, dignas da pena dos melhores grandes mestres da literatura universal; nos horrorizamos com as cenas de violência, descritas com discrição e sutileza. O autor detém todas as propriedades de escritor de grande arte, com sua técnica apurada e com sua sensibilidade aguçada, mas quis ser lido nesta época de mercado editorial conturbado, em que a qualidade permanente da grande arte interessa menos do que a legibilidade momentânea, a adequação aos gostos predominantes no momento.
Assim, mesmo sendo simplesmente mais um candidato a best-seller (o que em si não é ilegítimo; atender aos gostos da maioria, afinal, tem um sentido eminentemente democrático – o que acontece é que os gostos da maioria são mutáveis por excelência e as obras que se impõem rapidamente também desaparecem rapidamente), Os inomináveis é um romance de alta qualidade técnica.
No entanto, a alta qualidade técnica, se pode criar obras de grande interesse num determinado momento da vida social, não basta para criar grande arte. Mas é suficiente para criar, como o livro de Schertenleib, um livro que merece leitura atenta e agradável. E que cumpre algumas das funções da grande arte, como a purgação de nossos pecados, por meio da vivência emocional dos pecados da seita que é o verdadeiro personagem central do livro.

Renato Pompeu é jornalista e escritor, autor do romance-ensaio O mundo como obra de arte criada pelo Brasil, Editora Casa Amarela.

21 de fevereiro de 2010

O romance da autora que não existe


Há tempo o Diário do Comércio, de S. Paulo, me encomendou a seguinte resenha:

Um romance italiano, à moda da telenovela latino-americana

A primeira coisa que chama a atenção neste romance Desesperadamente Giulia, lançado no Brasil pela Record, da escritora italiana Sveva Casati Modignani, a qual há mais de quarenta anos já vendeu mais de dez milhões de exemplares em todo o mundo de todos os seus títulos, inclusive Baunilha e Chocolate, já editado aqui (o Giulia, publicado em 1986 na Itália, lá já vendeu mais de 300 mil exemplares), é que, ao contrário do que informa a editora na segunda orelha, que tem até uma foto, sua autora não existe. É apenas o pseudônimo adotado por um casal de jornalistas de Milão, Bice Cariati e Nullo Cantaroni. O casal publica livros reportagens desde 1958 e em 1981 adotou o pseudônimo para lançar o seu primeiro romance, Ana dos olhos verdes. Desde então foi uma sucessão de best-sellers, em várias línguas.
Mas o que mais chama a atenção é a semelhança da trama do romance com a estrutura das telenovelas latino-americanas em geral e brasileiras em particular. Centrado na vida principalmente sentimental de uma escritora quarentona e bonitona, divorciada e com novo namorado, tendo um filho do ex-marido, o livro tem, no tom mais discreto das telenovelas brasileiras (em relação às mexicanas, por exemplo), todos os ingredientes que fazem sucesso numa telenovela de grande audiência.
Assim, se descrevem muito mais ações do que sentimentos. Não falta a filha que só vai descobrir seu verdadeiro pai só tarde na vida, e como em qualquer telenovela há um aborto espontâneo, um aborto provocado, um suicídio, relações homossexuais, adultérios, cirurgias de doenças graves, chantagens, o amor da adolescência que renasce décadas depois, etc., etc.. Há os personagens inteiramente bonzinhos e os personagens inteiramente malvados, mas, se os personagens bonzinhos triunfam no final, os malvados também não se saem tão mal assim, como tem sido moda nas telenovelas mais recentes.
O filósofo grego antigo Aristóteles, que lançou as bases da estética literária ocidental, escreveu que existem dois tipos de obras, além da poesia épica: a tragédia, que descreve a vida de pessoas melhores do que nós, e a comédia, que trata da vida de pessoas piores do que nós. Mas aí se trata de obras-primas. A isso teríamos de acrescentar as obras que não são primas, e que lidam com pessoas iguaizinhas a nós, como este romance Giulia e as telenovelas em geral. Não se trata de obras-primas sobre a condição humana universal e eterna, particularizada, com emoções discretas, nas dimensões nacionais e de momento, mas de relatos sobre a vida cotidiana, com suas emoções importantes só para quem as vive, e para quem se identifica com elas.
Também, do mesmo modo que nas telenovelas, neste romance o mundo está genericamente dividido entre pessoas ricas e pessoas pobres que logo se tornam também ricas, especialmente se as pobres forem boazinhas. Há uma preocupação detalhista em citar os objetos de consumo e suas marcas e grifes e descrever o prazer que seu consumo gera.; a diferença é que, no caso do romance, não parece haver o merchandising que ocorre na televisão Como numa telenovela, mesmo escrita por homens, tudo é principalmente visto por meio de uma ótica bem mais feminina do que masculina, em especial a luta ainda contemporânea das mulheres para alcançarem um grau de liberdade, por exemplo sexual, semelhante à dos homens.
Igualmente, como na maioria das telenovelas (com exceção das poucas que são de época), a trama se passa no presente imediato, mas há muitos retornos ao passado, por meio de flashbacks, que vão pouco a pouco esclarecendo situações que, apresentadas nas primeiras vezes, parecem obscuras.
Em suma, Giulia é um bom entretenimento e sua leitura não apresenta grandes exigências e tem emoções bem dosadas, e envolve por estar em suspense sempre renovado, além de refletir com razoável precisão a vida na classe média alta, seja por nascimento, seja por ascensão social. Seu apelo é especialmente atraente para as pessoas de classe média baixa que estão em busca de ascensão social, em particular mulheres.

Renato Pompeu é jornalista e escritor, autor do romance-ensaio O mundo como obra de arte criada pelo Brasil, Editora Casa Amarela.

20 de fevereiro de 2010

O romance de Foz do Iguaçu

O Diário do Comércio me encomendou há tempo a seguinte resenha:

Um romance importante, sobre Foz do Iguaçu

Existem romances que são obras-primas de grande arte, que apelam para um público universal e atemporal – nessa categoria há poucas obras de brasileiros, como Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa e Clarice Lispector. Há romances que são entretenimento em estado puro, e que deliciam quase apenas seu público-alvo e cujo efeito dura apenas o tempo de sua leitura. Finalmente existem romances que são importantes como documentação social e que sempre vale a pena ler, ainda que sejam dirigidos mais para o público específico que quer conhecer a situação histórica retratada no livro. É o caso de Ai, do paranaense Fábio Campana, 60 anos, publicado pela Travessa dos Leitores.
Trata-se da história da cidade paranaense, fronteiriça com a Argentina e o Paraguai, de Foz do Iguaçu, mais ou menos de 1850 a 2000, encarnada na vida das gerações sucessivas de uma família que enriqueceu como parte da tosca aristocracia do mate, assumiu ares de fidalguia, decaiu como decaiu o mate, teve suas terras afogadas pela represa de Itaipu, e agora vive como estamento do Estado, como o irmão historiador de universidade que narra a saga, o irmão político corrupto e corruptor que é o personagem principal do livro, ou do crime organizado, como o terceiro irmão.
O tom geral do romance, como indica a dolorosa interjeição que é o seu título, é em agudamente pessimista e sombrio, não só sobre os destinos dessa família específica ou de Foz do Iguaçu, mas do Paraná em particular e do Brasil em geral, e até do mundo como um todo. Nada é nobre ou elevado, nem o amor materno, nem o amor conjugal, nem os laços fraternais. A mais importante figura materna, a matriarca, está apenas preocupada com as fumaças de requinte das falsas tradições da família. As esposas estão sempre predispostas à traição. E os irmãos concorrem e rivalizam entre si, muito mais do que se confraternizam; o irmão historiador despreza o irmão político por ser corrupto e o irmão político despreza o irmão historiador por ser fraco. O irmão criminoso, é claro, todos desprezam.
Mas o caráter sombrio da história não se limita a essa família específica. O pessimismo do autor Fábio Campana é cósmico e por muitos será visto como dolorosamente lúcido, por outros como exagerado; para estes, haveria coisas belas na vida também, além das feias e desagradáveis. O pessimismo e o caráter sombrio advêm do romance como painel de toda a vida e história dos seres humanos; na visão de Campana, tudo que é humano está destinado a apodrecer sem ter florescido.
Sim, a família decaiu sem que, em nenhum momento do passado, ela tenha chegado ao esplendor. Os irmãos tiveram visão de um melhor futuro apenas enquanto lutavam contra um presente particularmente degradado, o regime militar. A abertura democrática apenas serviu para que chafurdassem, como porcos, no lamaçal da mediocridade acadêmica, ou no lodaçal da corrupção e da criminalidade. Toda a vida provincial e depois estadual do Paraná, e toda a vida imperial e depois republicana do Brasil estão marcadas por uma decadência agravada pelo fato de ser medida a partir de um ponto alto que nunca foi grande coisa.
Parafraseando o teórico político italiano Antonio Gramsci, os personagens de Campana têm apenas o pessimismo da inteligência: não dispõem do otimismo da vontade também recomendado por esse pensador. Tudo naufraga antes de começar a navegar; o único empreendimento que pode ter alguma dignidade é relatar essas tristezas. Pois é no relatar, mais do que nas coisas relatadas, que reside o entusiasmo do autor. Eu sofro, nós sofremos, Foz do Iguaçu sofre, o Paraná sofre, o Brasil sofre, o mundo sofre, mas pelo menos eu estou consciente disso e posso falar sobre isso – é o que parece dizer Campana com seu “ai”.
Mas ainda assim vislumbramos alguma esperança em sua obra. Houve um momento, no mundo, no começo do século 20; houve um momento, no Brasil, durante a luta contra o regime militar, em que parecia existirem razões para se crer num futuro melhor. Campana não chega a dizer que vislumbres semelhantes podem voltar a ocorrer – mas é o que o leitor pode extrair de seu livro, além da extraordinária capacidade de retratar personagens de carne e osso e situações que vivenciamos na pele.
Renato Pompeu é jornalista e escritor, autor do romance-ensaio O mundo como obra de arte criada pelo Brasil, Editora Casa Amarela.

18 de fevereiro de 2010

Tradução, traição

Há tempo o Diário do Comércio, de São Paulo, me encomendou a seguinte resenha:

Um livro sobre um traidor da Máfia, em que o maior traído é o leitor

É absolutamente inacreditável que uma editora de renome internacional, como a Larousse, tenha lançado no Brasil uma tradução praticamente ilegível de O traidor – A verdadeira história da Máfia americana, de Jimmy Breslin, jornalista e escritor. Há pérolas como “advogado assistente dos Estados Unidos”, que deve ser “assistente de promotor público federal”; “janela” de uma loja, que deve ser “vitrina”; “terno prontinho”, que deveria ser “terno feito”, isto é, comprado pronto e não mandado fazer em uma alfaiataria; “violação de palavra”, que deveria ser “violação de liberdade condicional”. Além disso, fala-se de “quaalude”, sem esclarecer que se trata do nome comercial de um tranqüilizante e sonífero popular nos Estados Unidos.
Mais ainda, não há maiores esclarecimentos sobre a natureza do livro, se é de ficção ou de não-ficção, ou se se trata de não-ficção romanceada, como parece que é o caso. De fato houve um mafioso judeu de Nova York, Burt Kaplan, que, preso há anos, resolveu denunciar dois policiais de sobrenome italiano como assassinos ligados à Máfia e que é o personagem principal do livro. Mas, embora feita por três pessoas, a tradução para o português torna o livro praticamente ininteligível para os leitores brasileiros.
Aparentemente, diante do êxito da edição original americana, lançada este mesmo ano, houve pressa para o lançamento do livro no Brasil e possivelmente os três tradutores foram contratados para lidar com trechos diferentes da obra, para acelerar o trabalho. Também parece que o livro não passou por revisão, pois se pode admitir que, na pressa, se traduza “readymade” por “prontinho”; o que não se pode admitir é que alguém julgue apropriado publicar a expressão “terno prontinho”, que só teria sentido se se estivesse falando do trabalho recém-terminado de um alfaiate, e não da roupa que uma pessoa estivesse usando num tribunal.
Não há muito mais a ser dito desta edição e ficamos por aqui.

Renato Pompeu é jornalista e escritor, autor do romance-ensaio O mundo como obra de arte criada pelo Brasil, Editora Casa Amarela.

14 de fevereiro de 2010

Suicídio, tema de ficções de autor catalão

Há pouco tempo o Diário do Comércio, de São Paulo, me encomendou a seguinte resenha:

“Suicídios exemplares”, livro insólito de contos insólitos

O título desse livro de contos do autor catalão Enrique Vila-Matas já é intrigante: “Suicídios exemplares”, lançado no original em 1991 (significativamente, no ano de um dos suicídios mais exemplares de toda a história da humanidade, o da União Soviética), agora publicado no Brasil pela Cosac-Naify. A idéia central é sem dúvida de insólita originalidade: uma coletânea de contos sobre o problema do suicídio, seja como coisa que passa pela cabeça de cada personagem, seja como tentativa, seja como consumação. E o mais estranho é que, apesar da temática comum, cada conto é, de modo surpreendente, completamente diferente do outro.
Mas os contos têm uma grande característica em comum: todos eles têm um frescor juvenil, quase diríamos infantojuvenil no modo de escrever e de ver as coisas, apesar de o escritor ter 43 anos de idade quando lançou o livro. Ele nasceu em 1948 e, aos 20 anos, se autoexilou da Espanha ainda sob o regime ditatorial do generalíssimo Francisco Franco e foi morar na efervescente Paris de 1968, abrigado por ninguém menos do que a famosa escritora Marguerite Duras. Embora o livro não recorra a nada de sobrenatural, suas diferentes atmosferas são como as de um sonho, como as de um conto de fadas; suas tramas são articuladas de modo artificiosamente ingênuo – é como se, às vezes, uma criança, e, outras vezes, um adolescente estivesse escrevendo.
O resultado é uma série de pinceladas insólitas, centradas, não no desespero de quem pensa em suicidar-se, mas no colorido de suas vidas, seja a do espanhol que passeia por Lisboa e aprende a palavra “saudade”, que, como sabemos, só existe em português, enquanto relembra a história que não chegou a ouvir dos lábios de uma pedinte em sua infância que ficou para trás, seja a de uma alemã funcionária de um museu em Düsseldorf, não muito frustrada porque seu marido e filhos não se lembram do seu dia de aniversário – pelo contrário, está quase agradecida por isso, que lhe permite sair para passear com quem quiser –, seja a de um jogador de futebol espanhol que termina a carreira na Argentina e, com uma jovem argentina que está para morrer, passeia por um cemitério na Catalunha.
Há também, como exemplo de trama com frescor juvenil, a história de um cidadão que finge ser estrangeiro em seu próprio país, uma ilha imaginária, e que escreve em segredo romances em que critica com olhos zombeteiros de estrangeiro a vida de seus, na verdade, compatriotas. O fato de ser uma ilha imaginária chama a atenção no livro, pois, na maioria dos contos, o autor, apesar de já quarentão na época da obra, cai numa célebre armadilha dos escritores estreantes: situa as ações em lugares reais que, enganosamente, julga familiares a todos os seus leitores e menciona obras de arte que julga bem conhecidas também pelos leitores. Mas, quem não conhece os lugares por onde os personagens passam – uma ladeira em Lisboa, um bar em Düsseldorf, etc. – não consegue captar todo o clima da cena, do mesmo modo que as obras de arte apenas mencionadas, e não descritas nem avaliadas, não despertam nos leitores que as desconhecem as evocações que o autor pretendeu transmitir.
Assim, o lugar mais bem evocado do livro é justamente o país que não existe na realidade e que foi inteiramente imaginado por Vila-Matas, com esse conto específico, como obra de arte, não padecendo do problema de depender de referências externas a si próprio para ser plenamente aproveitado. Uma obra de arte clássica, como se sabe, tem de ser inteiramente autorreferente, passível de ser totalmente compreendida mesmo por uma pessoa de cultura completamente diferente da do seu criador.
Também não aspiram à forma clássica os contos do autor. Como teorizaram e praticaram contistas como o americano Edgar Allan Poe e o russo Anton Tchekhov, cada detalhe, cada palavra do conto deve ser como que inexorável, não deve faltar nem sobrar nada, tudo deve desde o início ir preparando o desenlace. Disse Tchekhov que, se uma espingarda aparece ornamentando uma parede durante o conto, antes do final ela tem que disparar. Nesse livro de contos sobre o suicídio, há inúmeros detalhes que têm a requintada superfluidade dos presentes de luxo, além do que há “espingardas que não disparam”, ou seja, falta, por exemplo, a história que a pedinte contava. Mas nossos tempos não são clássicos e esses contos sobre a gratuidade dos suicídios são de beleza bem acima da altura da vida que levamos – de modo que vale, e muito, a pena ler esse livro. Pois, apesar de ser um livro sobre suicídios, ele é exemplar ao nos levar para diferentes caminhos da salvação.

13 de fevereiro de 2010

EUA experimentaram no Brasil dos anos 1890 o que estão fazendo agora no Iraque

A seguinte resenha me foi encomendada há tempo pela revista Carta Capital:

Lente de aumento sobre Brasil e EUA nos anos 1890

Teses ousadas: a política americana atual, de expansionismo comercial apoiada por um militarismo sustentado por empresários particulares, e de imposição do regime democrático a países estrangeiros, política exercida por exemplo agora no Iraque e no Afeganistão, teve antecedentes há mais de um século, ocorridos nos relacionamentos com o Brasil. Treze anos após o original americano, a Companhia das Letras está lançando “Comércio e canhoneiras – Brasil e Estados Unidos na Era dos Impérios (1889-97)”, do historiador Steven C. Topik, da Universidade do Texas – onde há um grande centro de estudos sobre o Brasil -, famoso por seus trabalhos sobre o barão do Rio Branco. Trata-se a rigor de uma monografia sobre o tratado de comércio entre os dois países que vigorou entre 1891 e 1894, com isenções recíprocas de tarifas que beneficiavam principalmente os produtos agrícolas brasileiros no mercado americano e os produtos industriais americanos no mercado brasileiro. Trata também da Esquadra Flint, um grupo de navios de guerra organizado por um empresário americano para ajudar o governo do presidente brasileiro, marechal Floriano Peixoto, a combater a revolta da Marinha nacional, comandada pelos almirantes Custódio de Melo e Saldanha da Gama. A grande novidade do livro é que a Esquadra Flint teve papel muito mais relevante na história do Brasil do que os historiadores brasileiros vinham admitindo: teve peso fundamental na decisão do governo militar do País de convocar eleições que puseram no poder o primeiro presidente civil da República, Prudente de Morais – igualzinho, em linhas gerais, ao que vem acontecendo no Iraque e no Afeganistão. São 500 páginas de documentação exaustiva de apenas oito anos de história, mas os resultados vão muito além desse curto período de tempo. Como se usasse um microscópio para examinar a trama dos tecidos sociais, políticos e econômicos não só dos dois países e suas relações naquele tempo, Topik tira conclusões que se referem a um universo muito mais amplo, o da globalização, e a um período de tempo muito mais longo, até os próprios dias atuais. Ele também nuança com muita sutileza a tese de que “o Estado é o comitê dirigente das classes dominantes”, mostrando como as classes dominantes americanas, e mesmo o governo americano como um todo, se estavam então preocupando muito mais com o mercado interno e com a rebeldia dos trabalhadores do que em conquistar mercados externos, sendo essa conquista muito mais concretizada por individualidades no governo e no empresariado que tinham uma visão diferente.

11 de fevereiro de 2010

Garganta (não muito) Profunda

A revista Carta Capital há tempo me encomendou a seguinte resenha:

O Garganta Profunda continua obscuro


Este livro “A vida do Garganta Profunda – Revelações sobre o FBI, o caso Watergate e a luta pela própria dignidade em Washington”, lançado pela Record, do advogado John O’Connor e de Mark Felt, dirigente do FBI, a Polícia Federal americana, que foi o informante conhecido como Garganta Profunda e que fez revelações ao jornalista Bob Woodward sobre o famoso caso Watergate, o qual resultou na renúncia do presidente Richard Nixon, pouco acrescenta ao que já se sabe sobre o assunto. Tanto que a única citação da imprensa americana sobre o livro que a editora brasileira julgou conveniente reproduzir na contracapa, do próprio jornal que Felt escolheu para fazer as suas denúncias anônimas, o “Washington Post”, apenas diz: “Este livro mostra por que a família decidiu identificar o Garganta Profunda: orgulho do arriscado trabalho de Mark Felt pela nação americana”. Com efeito, o livro é pouco mais do que uma homenagem a Felt por ter tido a coragem de denunciar o esquema de espionagem privada, com fundos públicos, que o governo Nixon tinha montado para vigiar seus adversários políticos. A precariedade do livro se deve a que Felt era nonagenário e estava senil quando O’Connor, o principal autor da obra, pediu a sua colaboração para uma biografia conjunta. O próprio advogado conta que, por causa das dificuldades em entrevistar Felt, foram utilizados textos anteriores do Garganta Profunda, textos suspeitos porque, num deles, Felt justamente negava ser o Garganta Profunda. Havendo uma inverdade, pode haver outras no material que serviu de base para o livro recém lançado no Brasil.

8 de fevereiro de 2010

Um romance espanhol contemporâneo

O Diário do Comércio, de São Paulo, me encomendou recentemente a seguinte resenha:

“Vento da lua”, um romance de formação pós-moderno

Neste romance “Vento da lua”, lançado em 2006 na Espanha e agora publicado no Brasil pela Companhia das Letras, em tradução de Sergio Molina, o escritor andaluz Antonio Muñoz Molina retoma a saga de sua cidadezinha imaginária de Mágina, reconstrução fantasiada de sua formação na cidade natal de Úbeda. Já se disse que a cultura pós-moderna é uma “cultura de inventário”, e Muñoz Molina, nascido em 1956 – como o adolescente narrador do romance – é um típico narrador pós-moderno, mais baseado na pesquisa de fatos reais e na fantasia de fatos de que teve conhecimento, ou que são fatos de sua própria vida, do que baseado na criatividade explosiva que, no modernismo, gerou personagens como Wozzek ou Macunaíma.
Em meio à modorrenta vida durante a ditadura franquista, numa localidade mais rural do que urbana, a transmissão pela televisão da primeira viagem humana à Lua, em julho de 1969, viagem muito bem documentada no livro, faz o jovem adolescente ao mesmo tempo despertar da felicidade ilusória da infância e para os confortos e novidades em geral da vida contemporânea.
As contradições entre o passadismo da vida em Mágina e o futurismo da viagem à Lua alteram sua vida, e as moças de minissaia da televisão contrastam com a lavoura arcaica de sua família de agricultores, com sua casa em que não há água encanada, e, principalmente, com o controle que os padres confessores tentavam exercer sobre sua sexualidade iniciante. Experiências marcantes são a primeira vez em que vê televisão e a primeira vez que toma banho de chuveiro.
Ao mesmo tempo, o jovem vai descobrindo um segredo que sua cidade, aparentemente tão tranqüila e de vida tão transparente, guarda desde os tempos da Guerra Civil. Afinal, as transmissões da televisão, que vão apresentando a contemporaneidade da viagem à Lua e dos anúncios de belas moças que alardeiam as virtudes de cosméticos e perfumes desconhecidos em Mágina, são toda noite encerradas por uma saudação do generalíssimo Francisco Franco, uma assombração que vai deixando de ser ameaçadora.

7 de fevereiro de 2010

Uma ficção sobre Tolstoi

Recentemente o Diário do Comércio, de São Paulo, me encomendou a seguinte resenha:

O fim da vida de Tolstoi deu um bom romance

Quase duas décadas depois do lançamento do original americano em 1990, e aproveitando a repercussão do recente filme baseado no livro, com a atriz Helen Mirren e os atores Christopher Plummer e Paul Giamatti, a Record publica agora “A última estação – os momentos finais de Tolstoi”, romance do escritor americano Jay Parini, que é filho de um mineiro de carvão e se formou em Letras, autor de várias obras. Parini é amigo do bem mais conhecido escritor Gore Vidal, por quem foi nomeado seu executor literário.
Na verdade, o título do romance, apesar de a obra ter sido muito bem traduzida por Sônia Coutinho, deveria ter sido traduzido para “A última estação – Um romance do ano final de Tolstoi”. O russo Lev Tolstoi (1828-1910), um dos maiores ficcionistas de todos os tempos, é mais conhecido por ser o autor dos romances “Guerra e Paz” e “Anna Karenina”. Em seu livro, Parini usou o recurso de escrever em várias primeiras pessoas que falam, pensam ou escrevem no decorrer de 1910, mas podem se referir a outras épocas. Entre os narradores, que se intercalam uns aos outros, estão, além do próprio Tolstoi, sua mulher Sofia, seu discípulo Tchertkov, sua filha Sacha, seu secretário Bulgakov, um médico e tantos outros.
Parini se baseou em extensa documentação, particularmente os diários pessoais e cartas e outros textos das várias pessoas envolvidas na trama. Mas seu livro não é um documentário, sim um belo romance, muito bem escrito, com uma desenvoltura estilística pouco frequente em romances históricos e uma reconstrução artística e existencialmente muito bem evocada da época e dos lugares que descreve. O leitor se sente em plena Rússia tzarista do começo do século 20, com seus esplendores do luxo da nobreza, seu ritmo alucinante de desenvolvimento capitalista e industrial, seus camponeses miseráveis, seus intelectuais e trabalhadores urbanos empenhados em diferentes sonhos de transformação social.
O centro da trama, embora haja várias subtramas, são os conflitos entre Tolstoi, sua esposa Sofia e seu correligionário Tchertkov. Tolstoi, nascido na alta nobreza, foi alto comandante militar, até que, passando a ser um grande escritor, abandonou a vida de luxo e de dissipação, abandonou também a vida violenta de oficial militar e passou a pregar uma doutrina do amor universal e de partilha pacífica do “excesso” dos bens dos mais ricos por entre os mais pobres. Tolstoi vivia angustiado pelo dilema entre a vida de conforto requintado que conhecia desde a infância e a vida frugal e modesta que pregava. Vivia atormentado, por exemplo, entre sua sexualidade extrema (teve treze filhos, além de pelo menos um fora do casamento) e sua pregação da castidade.
Sua mulher Sofia, bem mais jovem do que ele, fazia o pêndulo da vida de Tolstoi balançar para o lado do luxo e da riqueza, particularmente porque estava preocupada em assegurar que os direitos autorais do marido fossem herdados pelos seus filhos, e não pela “causa da justiça social”. Além disso, ela se sentia incomodada porque a mansão do marido abrigava permanentemente grande número de militantes do chamado tolstoísmo – doutrina naquele tempo, na Rússia, bem mais atuante do que o marxismo ou o liberalismo – e recebia diariamente dezenas de pessoas, principalmente camponeses, que vinham pedir diferentes tipos de ajuda.
O discípulo Tchertkov fazia o pêndulo da vida de Tolstoi oscilar para o outro lado, o da opção pelos pobres, que envolvia a opção pela pobreza. Tchertkov estimulava Tolstoi a manter uma dispendiosa rede de escolas e de saúde para os camponeses, e mais do que tudo pressionava para que o escritor legasse seus direitos autorais para a “causa”. Sofia amava Tolstoi, Tchertkov amava Tolstoi, mas além desse ponto em comum Sofia e Tchertkov se odiavam entre si. Diante desse conflito entre duas pessoas que ele próprio também amava, Tolstoi se sente dividido também por dentro, até que não suporta mais e parte para uma viagem de trem até chegar à “última estação”.
A notar que os nomes russos estão grafados como se pronunciam, e não como seriam transcritos do alfabeto russo para o alfabeto português. Assim, temos “Liev Tolstói” e não Lev Tolstoi.