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3 de abril de 2010

"O Rastro do Jaguar" e outros livros

Recentemente a revista Caros Amigos publicou o seguinte artigo de minha autoria:

Ideias de Botequim

A obra-prima brasileira que praticamente só Portugal reconhece

O grande romance “O rastro do jaguar”, do mineiro Murilo Carvalho, lançado pela Leya no Brasil em 2009, tem várias coisas em comum com o grande romance “Um defeito de cor”, da também mineira Ana Maria Gonçalves, da Record, de 2006: ambos são os únicos romances brasileiros do século 21 que retomam as alturas de “Grande sertão: veredas”, do também mineiro Guimarães Rosa. Ambos receberam prêmios internacionais importantes: Carvalho, o Prêmio Leya, em Portugal, em 2008 – nada menos de 300 mil euros! –, e Gonçalves o Prêmio Casa de las Américas, em Cuba, em 2006. E ambos foram praticamente ignorados, pelo menos em sua verdadeira dimensão estética e cultural, pela grande mídia brasileira.
Talvez tudo isso se explique por outro ponto em comum entre os dois livros: ambos retratam etnias que, se são dominantes na formação da Nação, não são dominantes na grande mídia: os negros, no caso de Gonçalves, e os índios, no caso de Carvalho. Mais: ambos romanceiam, fantasiando livremente, mas baseados em pesquisas muito bem documentadas, a partir da vida de pessoas que realmente existiram: Gonçalves, a mãe africana do abolicionista brasileiro Luís Gama; Carvalho, um índio brasileiro levado em menino para a França pelo sábio Saint’-Hilaire, menino que foi educado como francês e que, já adulto, redescobre as suas origens indígenas, ao retornar ao Brasil. Finalmente, os dois romances se passam no século 19.
O livro de Murilo Carvalho, jornalista que foi do semanário “Movimento”, de oposição ao regime militar, e da “Folha de S. Paulo”, levou trinta anos para ser escrito e é uma obra-prima épica, de mais de 560 páginas, que retrata a busca pela mítica Terra Sem Males, em meio aos horrores da Guerra do Paraguai. Portugal já reconheceu esse grande autor brasileiro, que lá surge até em anúncios de televisão – resta que seu próprio povo o reconheça como um de seus grandes filhos.

A Polop às vésperas de seu cinqüentenário
Daqui a um ano, a Organização Revolucionária Marxista Política Operária, estará comemorando seu cinquentenário de fundação, em janeiro de 1961. Para marcar a data, o Centro de Estudos Victor Meyer, de Salvador, cvmbahia@gmail.com (note-se que é sem o br), lançou o volume “Polop – Uma trajetória de luta pela organização independente da classe operária no Brasil”.
Do livro constam artigos de alguns dos mais importantes militantes da organização, como Ceici Kameyama, os já falecidos Eric Czaczkes Sachs, também conhecido como Ernesto Martins, e Victor Meyer, além de Eduardo Stotz, e documentos que marcaram a história do grupo, como a “Convocatória para o 1.o Congresso da Polop” e o “Programa socialista para o Brasil”.
Duas palavras de ordem caracterizaram toda a história do grupo, que formou alguns dos principais quadros políticos e intelectuais da história recente do país, como Eder Simão Sader, hoje nome de praça no bairro da Vila Madalena, em São Paulo; Emir Sader, Theotônio dos Santos Júnior, Luiz Alberto Moniz Bandeira, Ruy Mauro Marini, Nilmário Miranda e Dilma Rousseff. Uma delas: “Por um partido independente da classe operária”;
a outra, “Por um governo dos trabalhadores da cidade e do campo”. O grupo se dissolveu ao ser fundado o PT, ao qual aderiu. Se a Polop nunca teve maiores ligações com as massas, a sua importância como importante referência teórica para os quadros políticos mais intelectualizados e de maior formação teórica da esquerda brasileira nunca deixará de ser marcante.
De Luiz Alberto Moniz Bandeira, temos, pela Civilização Brasileira, a 3.a edição, revista e atualizada, de “Formação do império americano – da guerra contra a Espanha à guerra no Iraque”. Trata-se de uma obra de grande abrangência – são mais de 850 páginas –, que combina o rigor teórico com um detalhamento empírico exaustivo, sobre a maior potência imperialista da história. Diz a apresentação que o livro demonstra que a história não comprovou a posição do revolucionário Vladimir Lenin, de que o imperialismo, pelas suas contradições internas, só poderia desembocar no socialismo comandado pelo proletariado, mas confirmou a posição do reformista Karl Kautsky, de que os vários imperialismos deixariam de ser rivais e se fundiriam num ultraimperialismo único, deixando de guerrear entre si e só guerreando contra países mais atrasados e periféricos em relação ao capitalismo. Pelo menos por enquanto, é o que podemos constatar. No entanto, devemos lembrar, que, em russo, o famoso livro de Lenin se chamava na edição original “O imperialismo, o estágio mais recente do capitalismo” e não “O imperialismo, o último estágio do capitalismo”, como passou a ser mais conhecido.

31 de março de 2010

"Um jogador", de Dostoievski

Recentemente o Diário de S. Paulo me encomendou a seguinte nota:

A novela “Um jogador”, de Fiodor Dostoievski

Entre a edição de seus grandes romances “Crime e Castigo” e “Os Demônios”, o escritor russo Fiodor Dostoievski (“Fiodor” é a forma russa de Teodoro) publicou em 1867 a pequena novela “Um jogador”, centrada no jogo de roleta no cassino de um balneário da Europa Central. O irônico é que o próprio Dostoievski escreveu esse livro para obter dinheiro para pagar suas dívidas de jogo de roleta no cassino de um balneário da Europa Central. O narrador é Alexei, empregado da família de um general russo que hipotecou suas propriedades na Rússia para pagar dívidas de jogo a um nobre francês. Alexei é preceptor da jovem Polina (forma russa de Paulina) e se apaixona por ela, que o despreza mas dele se aproveita para melhorar as finanças da família, mandando-o apostar na roleta, pela primeira vez em sua vida, no cassino do balneário. Com a sorte dos principiantes, Alexei ganha muito dinheiro e se torna, como o general, um viciado em jogo. O general espera o falecimento de uma parenta idosa para receber a herança, mas a parenta – chamada de Avó – chega ao balneário, diz que ninguém vai herdar nada dela e passa a apostar na roleta, perdendo milhares de rublos. Alexei tenta novamente aproximar-se de Polina, mas esta lhe diz que está apaixonada por um inglês também estabelecido no balneário. Tendo passado a perder no jogo, Alexei pede dinheiro ao inglês – sua humilhação final – e se prepara para voltar a apostar. A novela não tem a profundidade psicológica das grandes obras de Dostoievski, mas descreve com intensidade o frenesi pelo jogo, que ele conhecia bem. (Renato Pompeu)

9 de março de 2010

O que está vivo em Euclides da Cunha

Há tempo o Diário do Comércio, de São Paulo, me encomendou a seguinte resenha:

A verdadeira herança de Euclides da Cunha

Quase um quarto de século após ter sido realizada, é finalmente reproduzida em livro a mesa-redonda sobre Euclides da Cunha e seu livro seminal “Os Sertões” promovida em 1986 pela Editora Ática, com a participação do filólogo e especialista em literatura Antônio Houaiss, o jornalista Franklin de Oliveira, o pesquisador José Calasans, o médico Oswaldo Galotti, organizador da Semana Euclidiana em São José do Rio Pardo. Atuaram também, como debatedores, os professores da USP José Carlos Garbuglio, Valentim Facioli e Walnice Nogueira Galvão, esta famosa por sua edição crítica de “Os Sertões” e por suas obras sobre Euclides, entre elas “No calor da hora”.
A edição do volume agora lançado, “Euclidianos e conselheiristas – um quarteto de notáveis”, organizado por Walnice Nogueira Galvão, não é da Ática, e sim da Editora Terceiro Nome, à qual foram cedidos os direitos. O curioso, mais de vinte anos depois, é que a mesa-redonda seguiu o mesmo destino de seu tema: como, mais de um século depois de ter sido lançado, “Os Sertões”, a mesa-redonda tem importância muito maior como contribuição cultural e como obra literária do que como ciência.
Ao contrário do que aconteceria numa mesa-redonda entre intelectuais americanos ou da Europa Ocidental, não ocorrem na discussão bem à moda brasileira debates mais acalorados entre os participantes, nem posições conflitantes. Trata-se menos de uma discussão do que de uma amável e amena tertúlia, no estilo dos antigos saraus lítero-musicais-doutrinários promovidos nos anos 1950 por intelectuais espíritas. Os participantes fazem um esforço deliberado para aparar as arestas entre si e chegarem a um consenso.
E qual é esse consenso? O de que, apesar de ter sido visto, no começo do século 20, como a última palavra da ciência sobre a condição humana, determinada pela herança biológica e racial de cada indivíduo e de cada grupo social, no fim daquele século, como agora, “Os Sertões” é muito mais visto como monumental obra literária, como uma verdadeira epopéia da evolução do povo brasileiro.
Fica bastante claro, nos debates, como as observações práticas de Euclides, sobre a fortaleza dos sertanejos, entram em contradição com suas teorias sobre a inferioridade racial dos índios e dos negros que estavam na raiz da mestiçagem que deu origem àqueles heróis anônimos dos sertões de Canudos. Fica bastante clara, na obra de Euclides, a importância crucial que a mestiçagem e a diversidade racial dariam ao povo brasileiro diante do mundo todo, apesar de a teoria de Euclides presumir que a mestiçagem só nos daria melhorias por implicar na maior presença do elemento branco e na diluição do sangue negro e índio na nossa população. Ao contrário, o elemento negro e o elemento índio são cada vez mais presentes e mais conscientes naquilo que constitui a brasilidade do País.
As leituras científicas de Euclides, que foram leituras racistas, foram atropeladas de um lado por suas observações de campo sobre a realidade efetiva da vida sertaneja, e de outro por sua sensibilidade criativa, sua sensibilidade literária, estética, artística. Nas tensas contradições de “Os Sertões”, os participantes da mesa-redonda e os debatedores puderam perceber como a visão “científica” de condenação da mestiçagem acabou se convertendo num poema épico em prosa de exaltação da mestiçagem.
Os participantes concordam que as verdades da ciência são mutáveis e nisso é que consistem a essência e a beleza da ciência. Por isso, as “verdades científicas” de “Os Sertões” estão superadas. Mas também concordam que a verdade de uma grande obra de arte é eterna. Por isso, a obra de Euclides é eterna.
O interessante, para demonstrar o caráter provisório das verdades científicas, é que os participantes citam, como alternativas verdadeiramente científicas para as explicações de Euclides sobre Canudos e sobre Antônio Conselheiro, as explicações marxistas sobre a sociedade brasileira. Hoje, se a obra máxima de Marx, “O Capital”, ainda serve de referência sobre a atual crise econômica mundial, as explicações marxistas elaboradas por seus discípulos e epígonos estão, como as “verdades biológicas” de Euclides, bastante fora de moda.

Renato Pompeu
rrpompeu@uol.com.br
www.renatopompeu.blogspot.com

25 de fevereiro de 2010

Entre nossos parentes, os fungos


Há tempo a revista Carta Capital me encomendou a seguinte resenha:

Vegetais, bactérias e fungos,nossos parentes

“A anatomia do homem é a chave para a anatomia do primata”, escreveu Marx, querendo defender sua tese de que se deve partir do capitalismo atual para entender os “modos de produção” do passado. Em A grande história da evolução – Na trilha dos nossos ancestrais, edição da Companhia das Letras,o biólogo inglês Richard Dawkins, ateu militante, parte dos seres humanos atuais rumo ao passado dos seres vivos, em que, primeiro, busca o ancestral comum de todos os hominídeos, no “encontro 0”.
Em seguida, no “encontro 1”, nos deparamos com o ancestral comum de homens e chimpanzés; no “encontro 2” está o ancestral comum, de um lado, do ancestral comum de homens e chimpanzés, e, de outro, dos gorilas.. No “encontro 39”, depois de passar pelos ancestrais comuns de todos os animais com os fungos, de todos os animais e fungos com os vegetais, todos os outros seres vivos se reúnem com as eubactérias.
O resultado é uma visão fascinante das origens das espécies, segundo as pesquisas mais recentes (o original é de 2004). Além de a história “ao contrário” tornar muito mais simples entender a evolução, Dawkins escreve bem. Baseou-se na obra de ficção medieval inglesa Os contos da Cantuária, de Chaucer. Pelos “contos dos peregrinos” (espécies destacadas) de Dawkins, ficamos sabendo que os seres humanos perderam os pelos porque se dava preferência, na seleção sexual, aos parceiros que não transmitissem piolhos. Os primatas em geral não tiveram essa chance, porque não usavam o fogo para aquecer-se, não poderiam prescindir dos pelos e têm de se haver com os piolhos até hoje.

23 de fevereiro de 2010

Um tratado sobre fotografia, sem nenhuma foto


Há algum tempo o Diário do Comércio, de São Paulo, me encomendou a seguinte resenha:
Um tratado sobre fotografia, sem nenhuma foto

A não ser pela capa, o livro “A fotografia entre documento e arte contemporânea”, do professor de Estética em Paris André Rouillé, um dos mais completos estudos sobre fotografia jamais escrito no mundo inteiro, lançado no Brasil pela Editora Senac São Paulo, se caracteriza por não ter, entre suas densas e rigorosas análises filosóficas, científicas, históricas e estéticas, a reprodução de nenhuma foto em suas quase 500 páginas.
Trata-se de uma excelente dissertação, quase diríamos uma detalhada dissecação, do que foi, do que veio a ser e do que se tornou a fotografia ao longo dos seus menos de dois séculos de existência. O autor descreve como, não só do ponto de vista histórico, como do ponto de vista lógico, a fotografia evoluiu ao longo do tempo, e ainda hoje evolui continuamente, de “documento” para “arte”. Mas o mais importante talvez seja o fato de que Rouillé distingue entre “a arte dos fotógrafos” e a “fotografia dos artistas”.
Vamos por partes. Inicialmente o autor distingue a fotografia em sua função de “documento” e sua função como “expressão”. Não só historicamente, mas também logicamente, a fotografia começa como documentação de algo. Ela registra um fato, uma pessoa, uma coisa, num determinado instante, num determinado local, e assim serve como documento jornalístico, histórico, científico, doméstico, familiar, policial, de identidade, etc.
No entanto, prossegue Rouillé, a foto como documento não é a coisa documentada. Podemos dizer que, num julgamento num tribunal, uma coisa é a prova fisicamente apresentada, outra coisa é uma sua fotografia. Essa distinção entre a foto como “documento” e a “coisa documentada”, abre caminho, tanto na história como na lógica, para a foto como documento se tornar uma “expressão”, não só da coisa documentada, como de quem a documenta. Isto é, a foto passa de ser uma “reprodução da realidade” para ser uma “visão da realidade”; com tudo que uma “visão” tem de subjetivo, em relação a uma “reprodução”. Com isso, a foto pode passar a uma “visão da desrealidade”. Nesse caso, a fotografia sofreu, e continua sofrendo, na palavra de Rouillé, uma “perda do elo com o mundo”. O próximo passo, evidentemente, histórico e lógico, é ela se transformar em “arte”, longe de sua origem como “documentação”.
A par dessa evolução que poderíamos chamar de “interna”, a fotografia sofreu também um ataque externo que a fez ir perdendo a função de “documento” para ganhar a de “expressão”, a caminho de transformar-se em “arte”. Assim como, de um lado, a fotografia, por sua maior fidelidade factual à coisa documentada, foi substituindo a pintura e o desenho como “registro” familiar, jornalístico, etc., e de outro lado ao mesmo tempo liberou e forçou a pintura e o desenho a encontrarem novas formas de criação, do mesmo modo outros avanços técnicos, como o cinema, o cinema falado e a televisão sonorizada permitiram uma “documentação” de mais perfeita fidelidade factual à coisa documentada, permitindo – e forçando – que a fotografia também, como a pintura e o desenho, passasse igualmente a “expressar o inexpressável”, por sua plena transformação em “arte”.
Aqui se destacam dois passos distintos, tanto histórica como logicamente. Num primeiro passo, o fotógrafo, além de usar os recursos técnicos de sua máquina, passa também a usar os seus recursos artísticos, como a maior ou menor luminosidade, a maior ou menor fidelidade às tonalidades das cores “originais”, a maior ou menor “distorção”, a maior ou menor “arrumação” do objeto, para mais bem “documentar” a coisa em questão. Trata-se da “arte dos fotógrafos”.
O segundo e, até agora, o último passo histórico – mas não o último passo lógico, ainda indefinido – é a “fotografia dos artistas”. Nesse caso, já não se trata de usar recursos artísticos para mais bem documentar alguma coisa em questão, sim de criar arte só arte, arte pela arte. Assim passamos, por exemplo, da foto de formatura, para uma foto que é só um conjunto de luminosidades, volumes e formas, como retrata a capa do livro.

22 de fevereiro de 2010

Best-seller e grande arte: Os inomináveis

O Diário do Comércio, de São Paulo, me encomendou há tempo a seguinte resenha:

Um romance popular com técnica de grande arte

Este romance Os inomináveis, do suíço Hansjörg Schertenleib, foi considerado em seu país e na Alemanha uma obra de grande arte, tanto que ganhou os prêmios de Melhor Livro das cidades de Zurique e de Berna, e ainda o prestigioso Prêmio da Fundação Schiller, tendo sido filmado pela TV alemã. Agora, foi lançado no Brasil pela Grua, com apoio da Fundação Pró-Helvetia, empenhada na difusão da cultura da Suíça. Mas é na verdade uma obra de cunho popular, sobre uma seita de fanáticos que quer matar o papa João Paulo 2.o. Está assim bem dentro da recente corrente de best-sellers que têm como tema o misticismo religioso no mundo ultratecnologizado de hoje e que ainda confundem personagens fictícios com personagens reais, querendo criar no leitor a impressão de que está apresentando o relato de uma história realmente acontecida.
Afinal, a grande arte tem como tema a condição humana universal e eterna, particularizada, com emoção discreta, nas dimensões nacionais e de momento – e tem, como característica imprescindível, a de transcender o momento e as condições em que foi criada e perdurar durante séculos. Ora, o livro de Schertenleib, ao que tudo indica, será muito pouco lido, digamos, daqui a meio século. Está irremediavelmente preso à situação contemporânea, em que todas as utopias foram para o brejo, com exceção das milenares utopias religiosas, adaptadas porém aos novos tempos, em que as pessoas tendem a perder o senso comunitário e a adotar ou concepções estritamente individualistas, ou a se inserir em pequenos grupos.
Mas acontece que Schertenleib escreve com todas as técnicas da grande arte em que foi treinado em academias suíças de belas-artes pelas quais passou. Ele escreve com o auxílio luxuoso de uma prosa requintada, na descrição de ações e de paisagens mais rurais que urbanas, na percepção íntima da psicologia de seus personagens. Sentimos na pele quando brilha o sol em suas descrições, ou sentimos perpassarem por nossos corpos as sombras das folhagens e galharias dos bosques na Irlanda e na França.
Fruímos as delicadas insinuações de um erotismo transgressor, dignas da pena dos melhores grandes mestres da literatura universal; nos horrorizamos com as cenas de violência, descritas com discrição e sutileza. O autor detém todas as propriedades de escritor de grande arte, com sua técnica apurada e com sua sensibilidade aguçada, mas quis ser lido nesta época de mercado editorial conturbado, em que a qualidade permanente da grande arte interessa menos do que a legibilidade momentânea, a adequação aos gostos predominantes no momento.
Assim, mesmo sendo simplesmente mais um candidato a best-seller (o que em si não é ilegítimo; atender aos gostos da maioria, afinal, tem um sentido eminentemente democrático – o que acontece é que os gostos da maioria são mutáveis por excelência e as obras que se impõem rapidamente também desaparecem rapidamente), Os inomináveis é um romance de alta qualidade técnica.
No entanto, a alta qualidade técnica, se pode criar obras de grande interesse num determinado momento da vida social, não basta para criar grande arte. Mas é suficiente para criar, como o livro de Schertenleib, um livro que merece leitura atenta e agradável. E que cumpre algumas das funções da grande arte, como a purgação de nossos pecados, por meio da vivência emocional dos pecados da seita que é o verdadeiro personagem central do livro.

Renato Pompeu é jornalista e escritor, autor do romance-ensaio O mundo como obra de arte criada pelo Brasil, Editora Casa Amarela.

21 de fevereiro de 2010

O romance da autora que não existe


Há tempo o Diário do Comércio, de S. Paulo, me encomendou a seguinte resenha:

Um romance italiano, à moda da telenovela latino-americana

A primeira coisa que chama a atenção neste romance Desesperadamente Giulia, lançado no Brasil pela Record, da escritora italiana Sveva Casati Modignani, a qual há mais de quarenta anos já vendeu mais de dez milhões de exemplares em todo o mundo de todos os seus títulos, inclusive Baunilha e Chocolate, já editado aqui (o Giulia, publicado em 1986 na Itália, lá já vendeu mais de 300 mil exemplares), é que, ao contrário do que informa a editora na segunda orelha, que tem até uma foto, sua autora não existe. É apenas o pseudônimo adotado por um casal de jornalistas de Milão, Bice Cariati e Nullo Cantaroni. O casal publica livros reportagens desde 1958 e em 1981 adotou o pseudônimo para lançar o seu primeiro romance, Ana dos olhos verdes. Desde então foi uma sucessão de best-sellers, em várias línguas.
Mas o que mais chama a atenção é a semelhança da trama do romance com a estrutura das telenovelas latino-americanas em geral e brasileiras em particular. Centrado na vida principalmente sentimental de uma escritora quarentona e bonitona, divorciada e com novo namorado, tendo um filho do ex-marido, o livro tem, no tom mais discreto das telenovelas brasileiras (em relação às mexicanas, por exemplo), todos os ingredientes que fazem sucesso numa telenovela de grande audiência.
Assim, se descrevem muito mais ações do que sentimentos. Não falta a filha que só vai descobrir seu verdadeiro pai só tarde na vida, e como em qualquer telenovela há um aborto espontâneo, um aborto provocado, um suicídio, relações homossexuais, adultérios, cirurgias de doenças graves, chantagens, o amor da adolescência que renasce décadas depois, etc., etc.. Há os personagens inteiramente bonzinhos e os personagens inteiramente malvados, mas, se os personagens bonzinhos triunfam no final, os malvados também não se saem tão mal assim, como tem sido moda nas telenovelas mais recentes.
O filósofo grego antigo Aristóteles, que lançou as bases da estética literária ocidental, escreveu que existem dois tipos de obras, além da poesia épica: a tragédia, que descreve a vida de pessoas melhores do que nós, e a comédia, que trata da vida de pessoas piores do que nós. Mas aí se trata de obras-primas. A isso teríamos de acrescentar as obras que não são primas, e que lidam com pessoas iguaizinhas a nós, como este romance Giulia e as telenovelas em geral. Não se trata de obras-primas sobre a condição humana universal e eterna, particularizada, com emoções discretas, nas dimensões nacionais e de momento, mas de relatos sobre a vida cotidiana, com suas emoções importantes só para quem as vive, e para quem se identifica com elas.
Também, do mesmo modo que nas telenovelas, neste romance o mundo está genericamente dividido entre pessoas ricas e pessoas pobres que logo se tornam também ricas, especialmente se as pobres forem boazinhas. Há uma preocupação detalhista em citar os objetos de consumo e suas marcas e grifes e descrever o prazer que seu consumo gera.; a diferença é que, no caso do romance, não parece haver o merchandising que ocorre na televisão Como numa telenovela, mesmo escrita por homens, tudo é principalmente visto por meio de uma ótica bem mais feminina do que masculina, em especial a luta ainda contemporânea das mulheres para alcançarem um grau de liberdade, por exemplo sexual, semelhante à dos homens.
Igualmente, como na maioria das telenovelas (com exceção das poucas que são de época), a trama se passa no presente imediato, mas há muitos retornos ao passado, por meio de flashbacks, que vão pouco a pouco esclarecendo situações que, apresentadas nas primeiras vezes, parecem obscuras.
Em suma, Giulia é um bom entretenimento e sua leitura não apresenta grandes exigências e tem emoções bem dosadas, e envolve por estar em suspense sempre renovado, além de refletir com razoável precisão a vida na classe média alta, seja por nascimento, seja por ascensão social. Seu apelo é especialmente atraente para as pessoas de classe média baixa que estão em busca de ascensão social, em particular mulheres.

Renato Pompeu é jornalista e escritor, autor do romance-ensaio O mundo como obra de arte criada pelo Brasil, Editora Casa Amarela.

20 de fevereiro de 2010

O romance de Foz do Iguaçu

O Diário do Comércio me encomendou há tempo a seguinte resenha:

Um romance importante, sobre Foz do Iguaçu

Existem romances que são obras-primas de grande arte, que apelam para um público universal e atemporal – nessa categoria há poucas obras de brasileiros, como Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa e Clarice Lispector. Há romances que são entretenimento em estado puro, e que deliciam quase apenas seu público-alvo e cujo efeito dura apenas o tempo de sua leitura. Finalmente existem romances que são importantes como documentação social e que sempre vale a pena ler, ainda que sejam dirigidos mais para o público específico que quer conhecer a situação histórica retratada no livro. É o caso de Ai, do paranaense Fábio Campana, 60 anos, publicado pela Travessa dos Leitores.
Trata-se da história da cidade paranaense, fronteiriça com a Argentina e o Paraguai, de Foz do Iguaçu, mais ou menos de 1850 a 2000, encarnada na vida das gerações sucessivas de uma família que enriqueceu como parte da tosca aristocracia do mate, assumiu ares de fidalguia, decaiu como decaiu o mate, teve suas terras afogadas pela represa de Itaipu, e agora vive como estamento do Estado, como o irmão historiador de universidade que narra a saga, o irmão político corrupto e corruptor que é o personagem principal do livro, ou do crime organizado, como o terceiro irmão.
O tom geral do romance, como indica a dolorosa interjeição que é o seu título, é em agudamente pessimista e sombrio, não só sobre os destinos dessa família específica ou de Foz do Iguaçu, mas do Paraná em particular e do Brasil em geral, e até do mundo como um todo. Nada é nobre ou elevado, nem o amor materno, nem o amor conjugal, nem os laços fraternais. A mais importante figura materna, a matriarca, está apenas preocupada com as fumaças de requinte das falsas tradições da família. As esposas estão sempre predispostas à traição. E os irmãos concorrem e rivalizam entre si, muito mais do que se confraternizam; o irmão historiador despreza o irmão político por ser corrupto e o irmão político despreza o irmão historiador por ser fraco. O irmão criminoso, é claro, todos desprezam.
Mas o caráter sombrio da história não se limita a essa família específica. O pessimismo do autor Fábio Campana é cósmico e por muitos será visto como dolorosamente lúcido, por outros como exagerado; para estes, haveria coisas belas na vida também, além das feias e desagradáveis. O pessimismo e o caráter sombrio advêm do romance como painel de toda a vida e história dos seres humanos; na visão de Campana, tudo que é humano está destinado a apodrecer sem ter florescido.
Sim, a família decaiu sem que, em nenhum momento do passado, ela tenha chegado ao esplendor. Os irmãos tiveram visão de um melhor futuro apenas enquanto lutavam contra um presente particularmente degradado, o regime militar. A abertura democrática apenas serviu para que chafurdassem, como porcos, no lamaçal da mediocridade acadêmica, ou no lodaçal da corrupção e da criminalidade. Toda a vida provincial e depois estadual do Paraná, e toda a vida imperial e depois republicana do Brasil estão marcadas por uma decadência agravada pelo fato de ser medida a partir de um ponto alto que nunca foi grande coisa.
Parafraseando o teórico político italiano Antonio Gramsci, os personagens de Campana têm apenas o pessimismo da inteligência: não dispõem do otimismo da vontade também recomendado por esse pensador. Tudo naufraga antes de começar a navegar; o único empreendimento que pode ter alguma dignidade é relatar essas tristezas. Pois é no relatar, mais do que nas coisas relatadas, que reside o entusiasmo do autor. Eu sofro, nós sofremos, Foz do Iguaçu sofre, o Paraná sofre, o Brasil sofre, o mundo sofre, mas pelo menos eu estou consciente disso e posso falar sobre isso – é o que parece dizer Campana com seu “ai”.
Mas ainda assim vislumbramos alguma esperança em sua obra. Houve um momento, no mundo, no começo do século 20; houve um momento, no Brasil, durante a luta contra o regime militar, em que parecia existirem razões para se crer num futuro melhor. Campana não chega a dizer que vislumbres semelhantes podem voltar a ocorrer – mas é o que o leitor pode extrair de seu livro, além da extraordinária capacidade de retratar personagens de carne e osso e situações que vivenciamos na pele.
Renato Pompeu é jornalista e escritor, autor do romance-ensaio O mundo como obra de arte criada pelo Brasil, Editora Casa Amarela.

18 de fevereiro de 2010

Tradução, traição

Há tempo o Diário do Comércio, de São Paulo, me encomendou a seguinte resenha:

Um livro sobre um traidor da Máfia, em que o maior traído é o leitor

É absolutamente inacreditável que uma editora de renome internacional, como a Larousse, tenha lançado no Brasil uma tradução praticamente ilegível de O traidor – A verdadeira história da Máfia americana, de Jimmy Breslin, jornalista e escritor. Há pérolas como “advogado assistente dos Estados Unidos”, que deve ser “assistente de promotor público federal”; “janela” de uma loja, que deve ser “vitrina”; “terno prontinho”, que deveria ser “terno feito”, isto é, comprado pronto e não mandado fazer em uma alfaiataria; “violação de palavra”, que deveria ser “violação de liberdade condicional”. Além disso, fala-se de “quaalude”, sem esclarecer que se trata do nome comercial de um tranqüilizante e sonífero popular nos Estados Unidos.
Mais ainda, não há maiores esclarecimentos sobre a natureza do livro, se é de ficção ou de não-ficção, ou se se trata de não-ficção romanceada, como parece que é o caso. De fato houve um mafioso judeu de Nova York, Burt Kaplan, que, preso há anos, resolveu denunciar dois policiais de sobrenome italiano como assassinos ligados à Máfia e que é o personagem principal do livro. Mas, embora feita por três pessoas, a tradução para o português torna o livro praticamente ininteligível para os leitores brasileiros.
Aparentemente, diante do êxito da edição original americana, lançada este mesmo ano, houve pressa para o lançamento do livro no Brasil e possivelmente os três tradutores foram contratados para lidar com trechos diferentes da obra, para acelerar o trabalho. Também parece que o livro não passou por revisão, pois se pode admitir que, na pressa, se traduza “readymade” por “prontinho”; o que não se pode admitir é que alguém julgue apropriado publicar a expressão “terno prontinho”, que só teria sentido se se estivesse falando do trabalho recém-terminado de um alfaiate, e não da roupa que uma pessoa estivesse usando num tribunal.
Não há muito mais a ser dito desta edição e ficamos por aqui.

Renato Pompeu é jornalista e escritor, autor do romance-ensaio O mundo como obra de arte criada pelo Brasil, Editora Casa Amarela.

14 de fevereiro de 2010

Suicídio, tema de ficções de autor catalão

Há pouco tempo o Diário do Comércio, de São Paulo, me encomendou a seguinte resenha:

“Suicídios exemplares”, livro insólito de contos insólitos

O título desse livro de contos do autor catalão Enrique Vila-Matas já é intrigante: “Suicídios exemplares”, lançado no original em 1991 (significativamente, no ano de um dos suicídios mais exemplares de toda a história da humanidade, o da União Soviética), agora publicado no Brasil pela Cosac-Naify. A idéia central é sem dúvida de insólita originalidade: uma coletânea de contos sobre o problema do suicídio, seja como coisa que passa pela cabeça de cada personagem, seja como tentativa, seja como consumação. E o mais estranho é que, apesar da temática comum, cada conto é, de modo surpreendente, completamente diferente do outro.
Mas os contos têm uma grande característica em comum: todos eles têm um frescor juvenil, quase diríamos infantojuvenil no modo de escrever e de ver as coisas, apesar de o escritor ter 43 anos de idade quando lançou o livro. Ele nasceu em 1948 e, aos 20 anos, se autoexilou da Espanha ainda sob o regime ditatorial do generalíssimo Francisco Franco e foi morar na efervescente Paris de 1968, abrigado por ninguém menos do que a famosa escritora Marguerite Duras. Embora o livro não recorra a nada de sobrenatural, suas diferentes atmosferas são como as de um sonho, como as de um conto de fadas; suas tramas são articuladas de modo artificiosamente ingênuo – é como se, às vezes, uma criança, e, outras vezes, um adolescente estivesse escrevendo.
O resultado é uma série de pinceladas insólitas, centradas, não no desespero de quem pensa em suicidar-se, mas no colorido de suas vidas, seja a do espanhol que passeia por Lisboa e aprende a palavra “saudade”, que, como sabemos, só existe em português, enquanto relembra a história que não chegou a ouvir dos lábios de uma pedinte em sua infância que ficou para trás, seja a de uma alemã funcionária de um museu em Düsseldorf, não muito frustrada porque seu marido e filhos não se lembram do seu dia de aniversário – pelo contrário, está quase agradecida por isso, que lhe permite sair para passear com quem quiser –, seja a de um jogador de futebol espanhol que termina a carreira na Argentina e, com uma jovem argentina que está para morrer, passeia por um cemitério na Catalunha.
Há também, como exemplo de trama com frescor juvenil, a história de um cidadão que finge ser estrangeiro em seu próprio país, uma ilha imaginária, e que escreve em segredo romances em que critica com olhos zombeteiros de estrangeiro a vida de seus, na verdade, compatriotas. O fato de ser uma ilha imaginária chama a atenção no livro, pois, na maioria dos contos, o autor, apesar de já quarentão na época da obra, cai numa célebre armadilha dos escritores estreantes: situa as ações em lugares reais que, enganosamente, julga familiares a todos os seus leitores e menciona obras de arte que julga bem conhecidas também pelos leitores. Mas, quem não conhece os lugares por onde os personagens passam – uma ladeira em Lisboa, um bar em Düsseldorf, etc. – não consegue captar todo o clima da cena, do mesmo modo que as obras de arte apenas mencionadas, e não descritas nem avaliadas, não despertam nos leitores que as desconhecem as evocações que o autor pretendeu transmitir.
Assim, o lugar mais bem evocado do livro é justamente o país que não existe na realidade e que foi inteiramente imaginado por Vila-Matas, com esse conto específico, como obra de arte, não padecendo do problema de depender de referências externas a si próprio para ser plenamente aproveitado. Uma obra de arte clássica, como se sabe, tem de ser inteiramente autorreferente, passível de ser totalmente compreendida mesmo por uma pessoa de cultura completamente diferente da do seu criador.
Também não aspiram à forma clássica os contos do autor. Como teorizaram e praticaram contistas como o americano Edgar Allan Poe e o russo Anton Tchekhov, cada detalhe, cada palavra do conto deve ser como que inexorável, não deve faltar nem sobrar nada, tudo deve desde o início ir preparando o desenlace. Disse Tchekhov que, se uma espingarda aparece ornamentando uma parede durante o conto, antes do final ela tem que disparar. Nesse livro de contos sobre o suicídio, há inúmeros detalhes que têm a requintada superfluidade dos presentes de luxo, além do que há “espingardas que não disparam”, ou seja, falta, por exemplo, a história que a pedinte contava. Mas nossos tempos não são clássicos e esses contos sobre a gratuidade dos suicídios são de beleza bem acima da altura da vida que levamos – de modo que vale, e muito, a pena ler esse livro. Pois, apesar de ser um livro sobre suicídios, ele é exemplar ao nos levar para diferentes caminhos da salvação.

13 de fevereiro de 2010

EUA experimentaram no Brasil dos anos 1890 o que estão fazendo agora no Iraque

A seguinte resenha me foi encomendada há tempo pela revista Carta Capital:

Lente de aumento sobre Brasil e EUA nos anos 1890

Teses ousadas: a política americana atual, de expansionismo comercial apoiada por um militarismo sustentado por empresários particulares, e de imposição do regime democrático a países estrangeiros, política exercida por exemplo agora no Iraque e no Afeganistão, teve antecedentes há mais de um século, ocorridos nos relacionamentos com o Brasil. Treze anos após o original americano, a Companhia das Letras está lançando “Comércio e canhoneiras – Brasil e Estados Unidos na Era dos Impérios (1889-97)”, do historiador Steven C. Topik, da Universidade do Texas – onde há um grande centro de estudos sobre o Brasil -, famoso por seus trabalhos sobre o barão do Rio Branco. Trata-se a rigor de uma monografia sobre o tratado de comércio entre os dois países que vigorou entre 1891 e 1894, com isenções recíprocas de tarifas que beneficiavam principalmente os produtos agrícolas brasileiros no mercado americano e os produtos industriais americanos no mercado brasileiro. Trata também da Esquadra Flint, um grupo de navios de guerra organizado por um empresário americano para ajudar o governo do presidente brasileiro, marechal Floriano Peixoto, a combater a revolta da Marinha nacional, comandada pelos almirantes Custódio de Melo e Saldanha da Gama. A grande novidade do livro é que a Esquadra Flint teve papel muito mais relevante na história do Brasil do que os historiadores brasileiros vinham admitindo: teve peso fundamental na decisão do governo militar do País de convocar eleições que puseram no poder o primeiro presidente civil da República, Prudente de Morais – igualzinho, em linhas gerais, ao que vem acontecendo no Iraque e no Afeganistão. São 500 páginas de documentação exaustiva de apenas oito anos de história, mas os resultados vão muito além desse curto período de tempo. Como se usasse um microscópio para examinar a trama dos tecidos sociais, políticos e econômicos não só dos dois países e suas relações naquele tempo, Topik tira conclusões que se referem a um universo muito mais amplo, o da globalização, e a um período de tempo muito mais longo, até os próprios dias atuais. Ele também nuança com muita sutileza a tese de que “o Estado é o comitê dirigente das classes dominantes”, mostrando como as classes dominantes americanas, e mesmo o governo americano como um todo, se estavam então preocupando muito mais com o mercado interno e com a rebeldia dos trabalhadores do que em conquistar mercados externos, sendo essa conquista muito mais concretizada por individualidades no governo e no empresariado que tinham uma visão diferente.

11 de fevereiro de 2010

Garganta (não muito) Profunda

A revista Carta Capital há tempo me encomendou a seguinte resenha:

O Garganta Profunda continua obscuro


Este livro “A vida do Garganta Profunda – Revelações sobre o FBI, o caso Watergate e a luta pela própria dignidade em Washington”, lançado pela Record, do advogado John O’Connor e de Mark Felt, dirigente do FBI, a Polícia Federal americana, que foi o informante conhecido como Garganta Profunda e que fez revelações ao jornalista Bob Woodward sobre o famoso caso Watergate, o qual resultou na renúncia do presidente Richard Nixon, pouco acrescenta ao que já se sabe sobre o assunto. Tanto que a única citação da imprensa americana sobre o livro que a editora brasileira julgou conveniente reproduzir na contracapa, do próprio jornal que Felt escolheu para fazer as suas denúncias anônimas, o “Washington Post”, apenas diz: “Este livro mostra por que a família decidiu identificar o Garganta Profunda: orgulho do arriscado trabalho de Mark Felt pela nação americana”. Com efeito, o livro é pouco mais do que uma homenagem a Felt por ter tido a coragem de denunciar o esquema de espionagem privada, com fundos públicos, que o governo Nixon tinha montado para vigiar seus adversários políticos. A precariedade do livro se deve a que Felt era nonagenário e estava senil quando O’Connor, o principal autor da obra, pediu a sua colaboração para uma biografia conjunta. O próprio advogado conta que, por causa das dificuldades em entrevistar Felt, foram utilizados textos anteriores do Garganta Profunda, textos suspeitos porque, num deles, Felt justamente negava ser o Garganta Profunda. Havendo uma inverdade, pode haver outras no material que serviu de base para o livro recém lançado no Brasil.

8 de fevereiro de 2010

Um romance espanhol contemporâneo

O Diário do Comércio, de São Paulo, me encomendou recentemente a seguinte resenha:

“Vento da lua”, um romance de formação pós-moderno

Neste romance “Vento da lua”, lançado em 2006 na Espanha e agora publicado no Brasil pela Companhia das Letras, em tradução de Sergio Molina, o escritor andaluz Antonio Muñoz Molina retoma a saga de sua cidadezinha imaginária de Mágina, reconstrução fantasiada de sua formação na cidade natal de Úbeda. Já se disse que a cultura pós-moderna é uma “cultura de inventário”, e Muñoz Molina, nascido em 1956 – como o adolescente narrador do romance – é um típico narrador pós-moderno, mais baseado na pesquisa de fatos reais e na fantasia de fatos de que teve conhecimento, ou que são fatos de sua própria vida, do que baseado na criatividade explosiva que, no modernismo, gerou personagens como Wozzek ou Macunaíma.
Em meio à modorrenta vida durante a ditadura franquista, numa localidade mais rural do que urbana, a transmissão pela televisão da primeira viagem humana à Lua, em julho de 1969, viagem muito bem documentada no livro, faz o jovem adolescente ao mesmo tempo despertar da felicidade ilusória da infância e para os confortos e novidades em geral da vida contemporânea.
As contradições entre o passadismo da vida em Mágina e o futurismo da viagem à Lua alteram sua vida, e as moças de minissaia da televisão contrastam com a lavoura arcaica de sua família de agricultores, com sua casa em que não há água encanada, e, principalmente, com o controle que os padres confessores tentavam exercer sobre sua sexualidade iniciante. Experiências marcantes são a primeira vez em que vê televisão e a primeira vez que toma banho de chuveiro.
Ao mesmo tempo, o jovem vai descobrindo um segredo que sua cidade, aparentemente tão tranqüila e de vida tão transparente, guarda desde os tempos da Guerra Civil. Afinal, as transmissões da televisão, que vão apresentando a contemporaneidade da viagem à Lua e dos anúncios de belas moças que alardeiam as virtudes de cosméticos e perfumes desconhecidos em Mágina, são toda noite encerradas por uma saudação do generalíssimo Francisco Franco, uma assombração que vai deixando de ser ameaçadora.

7 de fevereiro de 2010

Uma ficção sobre Tolstoi

Recentemente o Diário do Comércio, de São Paulo, me encomendou a seguinte resenha:

O fim da vida de Tolstoi deu um bom romance

Quase duas décadas depois do lançamento do original americano em 1990, e aproveitando a repercussão do recente filme baseado no livro, com a atriz Helen Mirren e os atores Christopher Plummer e Paul Giamatti, a Record publica agora “A última estação – os momentos finais de Tolstoi”, romance do escritor americano Jay Parini, que é filho de um mineiro de carvão e se formou em Letras, autor de várias obras. Parini é amigo do bem mais conhecido escritor Gore Vidal, por quem foi nomeado seu executor literário.
Na verdade, o título do romance, apesar de a obra ter sido muito bem traduzida por Sônia Coutinho, deveria ter sido traduzido para “A última estação – Um romance do ano final de Tolstoi”. O russo Lev Tolstoi (1828-1910), um dos maiores ficcionistas de todos os tempos, é mais conhecido por ser o autor dos romances “Guerra e Paz” e “Anna Karenina”. Em seu livro, Parini usou o recurso de escrever em várias primeiras pessoas que falam, pensam ou escrevem no decorrer de 1910, mas podem se referir a outras épocas. Entre os narradores, que se intercalam uns aos outros, estão, além do próprio Tolstoi, sua mulher Sofia, seu discípulo Tchertkov, sua filha Sacha, seu secretário Bulgakov, um médico e tantos outros.
Parini se baseou em extensa documentação, particularmente os diários pessoais e cartas e outros textos das várias pessoas envolvidas na trama. Mas seu livro não é um documentário, sim um belo romance, muito bem escrito, com uma desenvoltura estilística pouco frequente em romances históricos e uma reconstrução artística e existencialmente muito bem evocada da época e dos lugares que descreve. O leitor se sente em plena Rússia tzarista do começo do século 20, com seus esplendores do luxo da nobreza, seu ritmo alucinante de desenvolvimento capitalista e industrial, seus camponeses miseráveis, seus intelectuais e trabalhadores urbanos empenhados em diferentes sonhos de transformação social.
O centro da trama, embora haja várias subtramas, são os conflitos entre Tolstoi, sua esposa Sofia e seu correligionário Tchertkov. Tolstoi, nascido na alta nobreza, foi alto comandante militar, até que, passando a ser um grande escritor, abandonou a vida de luxo e de dissipação, abandonou também a vida violenta de oficial militar e passou a pregar uma doutrina do amor universal e de partilha pacífica do “excesso” dos bens dos mais ricos por entre os mais pobres. Tolstoi vivia angustiado pelo dilema entre a vida de conforto requintado que conhecia desde a infância e a vida frugal e modesta que pregava. Vivia atormentado, por exemplo, entre sua sexualidade extrema (teve treze filhos, além de pelo menos um fora do casamento) e sua pregação da castidade.
Sua mulher Sofia, bem mais jovem do que ele, fazia o pêndulo da vida de Tolstoi balançar para o lado do luxo e da riqueza, particularmente porque estava preocupada em assegurar que os direitos autorais do marido fossem herdados pelos seus filhos, e não pela “causa da justiça social”. Além disso, ela se sentia incomodada porque a mansão do marido abrigava permanentemente grande número de militantes do chamado tolstoísmo – doutrina naquele tempo, na Rússia, bem mais atuante do que o marxismo ou o liberalismo – e recebia diariamente dezenas de pessoas, principalmente camponeses, que vinham pedir diferentes tipos de ajuda.
O discípulo Tchertkov fazia o pêndulo da vida de Tolstoi oscilar para o outro lado, o da opção pelos pobres, que envolvia a opção pela pobreza. Tchertkov estimulava Tolstoi a manter uma dispendiosa rede de escolas e de saúde para os camponeses, e mais do que tudo pressionava para que o escritor legasse seus direitos autorais para a “causa”. Sofia amava Tolstoi, Tchertkov amava Tolstoi, mas além desse ponto em comum Sofia e Tchertkov se odiavam entre si. Diante desse conflito entre duas pessoas que ele próprio também amava, Tolstoi se sente dividido também por dentro, até que não suporta mais e parte para uma viagem de trem até chegar à “última estação”.
A notar que os nomes russos estão grafados como se pronunciam, e não como seriam transcritos do alfabeto russo para o alfabeto português. Assim, temos “Liev Tolstói” e não Lev Tolstoi.

6 de fevereiro de 2010

Os italianos, vistos por um italiano

O Diário do Comércio, de São Paulo, me encomendou há tempo a seguinte resenha:

As peculiaridades divertidas (ou não) dos italianos

É ao mesmo tempo extremamente divertido e extremamente instrutivo o livro A cabeça do italiano – uma visita guiada, do jornalista italiano Beppe Severgnini, editado no Brasil pela Record. Trata-se de uma introdução aos costumes dos italianos que são bem diferentes das reações da maioria dos outros habitantes do planeta diante das mesmas situações, feita através do relato de uma viagem de dez dias por diferentes regiões da Itália.
Por exemplo, em que outro país do mundo todo motorista, diante de um sinal vermelho, se perguntaria se se trata de um “sinal vermelho simples” ou de um “sinal vermelho pleno”? Pois, para cada motorista italiano, segundo Severgnini, um sinal vermelho não é uma ordem de parar e aguardar o sinal verde para continuar à frente, mas uma oportunidade para uma reflexão filosófica sobre se se deve ou não parar, dependendo das circunstâncias de tempo, hora, lugar, clima, condições do trânsito, da segurança e da luminosidade, motivos da viagem, etc. etc., e para a conseqüente decisão de parar ou continuar.
Aqui podemos comparar com o comportamento dos brasileiros, especialmente dos paulistanos, diante da mesma situação: é muito semelhante, embora não tão freqüente e uniforme quanto o dos italianos, pois de fato boa parte dos brasileiros em geral e dos paulistanos em particular realmente pára diante de qualquer sinal vermelho, independente de quaisquer circunstâncias.
Mas aqui no Brasil, ou mais exatamente na cidade de São Paulo, há uma agravante que não existe na Itália: as autoridades recomendam aos motoristas que, alta noite ou de madrugada, não se detenham diante de qualquer sinal vermelho, para que não sejam assaltados. Assim, nossos costumes podem parecer, a olhos estrangeiros (o livro de Severgnini fez sucesso nos países de língua inglesa), ainda mais estranhos do que os dos italianos.
Infelizmente, não há estatísticas ou indicações, seja no livro italiano, seja nos registros brasileiros, sobre se o questionamento do sinal vermelho faz aumentarem os desastres de trânsito, ou diminuírem os assaltos e tentativas.
Também comer pizza no almoço, na Itália, só é aceitável, diz o jornalista italiano, se os comensais são jovens estudantes. E é inaceitável, para qualquer pessoa, tomar cappucino depois das dez horas da manhã. Esses dois costumes são particularmente estranhos para os turistas vindos dos Estados Unidos, acostumados em seu país a comer pizza e a tomar cappucino a qualquer hora do dia.
No Brasil, onde o cappucino é menos difundido e menos disponível, considerando o país como um todo, também existe a tendência de só comer pizza no jantar, e grande parte das pizzarias nem mesmo abre para almoço, mas existe a possibilidade de comer pizza a qualquer hora do dia, em qualquer padaria ou se pedindo para entrega a domicílio. De qualquer modo, comer pizza no almoço, ou mesmo pizza fria, tirada da geladeira, onde foi posta na véspera, no café da manhã, não causa nenhum escândalo no Brasil.
Outro costume italiano que chama a atenção, principalmente por ser lá tão intenso o interesse pelo sexo, gozando os homens italianos da fama de serem grandes amantes e as mulheres italianas da fama de serem muito belas, é que na Itália não deu certo o ramo dos motéis. Não, evidentemente, porque os italianos só pratiquem o sexo a domicílio, entre cônjuges, mas, segundo Severgnini, porque os italianos não gostam de hotéis iguaizinhos uns aos outros.
Os italianos, afirma o jornalista, mesmo para o sexo ocasional, querem que cada hotel tenha uma personalidade própria. Paradoxalmente, no entanto, exigem que cada pensão, aí no sentido de pensão familiar e não de pousada, seja igualzinha a qualquer outra pensão familiar. Que tenha sempre uma velha dona de pensão autoritária, que tenha sempre na sala de estar um televisor com o controle remoto quebrado ou sem pilhas, etc. etc.
Em suma, um livro interessante para os italianos, que nele se reconhecem, e para os não-italianos, que se instruem, especialmente se pretendem visitar a Itália e já estar preparados para surpresas, enquanto, na leitura, todos, italianos e estrangeiros, se divertem.

Renato Pompeu é jornalista e escritor, autor do romance-ensaio O mundo como obra de arte criada pelo Brasil, Editora Casa Amarela.

4 de fevereiro de 2010

Satã não existe, nem na Bíblia

A seguinte resenha me foi encomendada há algum tempo pelo Diário do Comércio, de São Paulo:

Em busca da verdadeira história de Satã

O Demônio, tal como o concebemos hoje, o Senhor do Mal que preside ao Inferno, e que se contrapõe a Deus Senhor do Bem, não existe na Bíblia, nem no Velho, nem no Novo Testamento – é o que argumenta o pesquisador americano Henry Angskar Kelly, professor da Universidade da Califórnia em Los Angeles, no livro Satã, uma biografia, lançado no Brasil pela Editora Globo. Kelly mostra como, na Bíblia, a palavra “Satã” ora é um substantivo comum, significando “adversário”, ora, como no Livro de Jó e no Novo Testamento, indica um personagem encarregado por Deus de governar o mundo, para vigiar e testar os seres humanos no que se refere à sua fidelidade a Deus. No Novo Testamento, Cristo também prevê que, no fim dos tempos, esse funcionário de Deus deixará de governar o mundo.
Kelly demonstra ainda que a imagem de Satã tal como o imaginamos atualmente, foi sendo criada ao longo dos séculos que se seguiram à morte de Cristo, em especial pelos Pais da Igreja, ou seja, escritores cristãos atuantes entre os séculos 2.o e 8.o. Eles é que identificaram Satã com a serpente que tenta Eva, serpente que no Gênesis não aparece como demoníaca. Eles é que desenvolveram os atributos de Satã como Senhor do Mal, num maniqueísmo que em princípio seria incompatível com uma fé monoteísta. Aqui valeria ressaltar que, numa de suas pouquíssimas falhas, a tradução parece ter apresentado como “origens” o termo que tudo indica se referia a Orígenes, um teólogo egípcio da passagem do século 2.o para o século 3.o.
Também a idéia de que Satã, ou Lúcifer, era um anjo que se revoltou contra Deus e se tornou o Demônio, não consta nem do Velho, nem do Novo Testamento, mas surgiu posteriormente, como prova Kelly. Este, porém, parece ser um cristão devoto, que como bom protestante só quer acreditar na Revelação, ou seja, na Bíblia, e assim quer propagandear entre seus companheiros de fé protestantes a noção de que Satã como Senhor do Mal é uma criação da Tradição, isto é, dos acrescentamentos feitos aos ensinamentos da Bíblia tanto pela Igreja Católica Romana como pelas Igrejas Católicas Ortodoxas.
Um bom protestante só deve acreditar na Bíblia – e assim não pode acreditar no Diabo dos católicos, nem no Satã dos muçulmanos: esta parece ser a mensagem central de Kelly. No entanto o tema é atraente tanto para protestantes como para católicos, para os interessados em geral em religião, e para todas as pessoas com sentido humanista.
Mas temos de levar em conta que, embora o tema seja tão atraente, o estilo de Kelly não é tão atraente. Trata-se de uma obra erudita que será lida com maior proveito por outros eruditos, e não de um trabalho a ser lido e compreendido com facilidade. Dizem que “o diabo está nos detalhes” e o leitor leigo, o leitor comum, se perde nas miríades de pequenos detalhes, de citações isoladas aqui e ali, às vezes de uma palavra só, ou de uma frase isolada, com que Kelly vai montando seu argumento.
Assim, embora o leitor mais informado saia convencido, ao final do livro, da correção da tese central de Kelly – de que Satã, ou o Demônio, ou o Diabo, tal como é concebido pela esmagadora maioria dos cristãos, não consta da Bíblia e é uma criação posterior, ao menos a partir de dois séculos depois de Cristo –, o leitor comum caminhará com dificuldades pelo emaranhado de citações e pela complexidade do raciocínio do autor que, afinal, é um professor universitário e quis deixar bem marcadas suas credenciais acadêmicas.
Kelly parece dirigir-se também aos católicos, mas neste caso seu êxito será menor, pois justamente ser católico consiste em crer, além da Bíblia, também na Tradição. Afinal, do mesmo modo que Kelly provou que Satã tal como os católicos o concebem não consta da Bíblia, também poderia ser provado que não consta da Bíblia o culto a seres humanos considerados santos e mesmo à Virgem Maria. Isso, porém, não abalaria a rigor nenhum católico, pois por definição este acredita, além de na Revelação, também na Tradição. Assim, o desmentido dado por Kelly à concepção corrente de Satã só vai valer para aqueles protestantes que julgam que a única fonte da fé é a Bíblia.

Renato Pompeu é jornalista e escritor.

3 de fevereiro de 2010

Dalton Trevisan, epígono de si próprio

Recentemente a revista Carta Capital me encomendou a seguinte resenha:

O epígono de si mesmo

O novo livro do escritor paranaense Dalton Trevisan, um dos mais famosos contistas do País, “Violetas e pavões”, editado pela Record, deve ser lido como a obra de um epígono... do próprio Dalton Trevisan. Para quem nunca leu Trevisan, os contos surpreenderão pelo insólito da forma e do conteúdo. Uma linguagem trabalhada para ser ao mesmo tempo coloquial, concisa e chocante e um universo “normal na sua anormalidade” atingem como uma novidade, a de uma, digamos, brutalidade amena e tranquila, o leitor que nunca leu esse autor. Ali estão escatologias sexuais escandalizantes, hediondos crimes gratuitos, sossegadas mentalidades torpes, narradas neutra e assepticamente como fatos comuns e mesmo ordinários (em todos os sentidos do termo) de um cotidiano a rigor modorrento que, mesmo sendo bárbaro, nos é familiar. Mas, para quem já leu obras-primas como “O vampiro de Curitiba” e outros grandes trabalhos de Dalton Trevisan, as violetas e pavões soarão como imitações e mesmo pastiches, por um escritor menor, de um escritor maior. – RENATO POMPEU

2 de fevereiro de 2010

A Europa islâmica, melhor do que a Europa cristã?

A seguinte resenha foi recentemente encomendada pela revista Carta Capital:

E se os árabes tivessem vencido?

O mundo teria sido um lugar melhor se, no século 8.o, os árabes tivessem conquistado toda a Europa, e não apenas a Península Ibérica. Isso porque o islamismo tinha dado origem a um modo de vida muito mais progressista do que o europeu herdeiro das ruínas do Império Romano e das invasões dos chamados bárbaros. Mais: a parte da Europa que não foi arabizada se tornou, em relação à islamizada, uma região atrasada economicamente, balcanizada política e militarmente, fratricida, que usou como virtudes para a Reconquista males como a manutenção do feudalismo de uma aristocracia rural hereditária, a intolerância religiosa, o particularismo cultural e étnico, e a guerra permanente. É a tese do historiador americano David Levering Lewis, conhecido por seus trabalhos sobre o antissemitismo na França na passagem do século 19 para o século 20, sobre a resistência da África ao colonialismo europeu, sobre o intelectual e militante negro americano W.E.B. Du Bois, no livro “O Islã e a formação da Europa, de 570 a 1215”, lançado no Brasil pela Amarilys, em tradução de Ana Ban. O título do livro em inglês é “O cadinho de Deus”, sendo o título brasileiro, no original, apenas um subtítulo. A obra merece leitura atenta, nestes tempos em que o Islã como um todo é imediatamente associado ao terrorismo de grupos de indivíduos isolados e em que os intelectuais ocidentais mais avançados têm procurado ver os vários Orientes com um olhar mais isento do que o tradicional olhar de superioridade colonialista. Nisso estão descobrindo que, na maior parte da história, os diferentes Orientes foram um lugar melhor para viver do que a isolada Europa. – RENATO POMPEU

31 de janeiro de 2010

A ficção do polemista Diogo Mainardi

A resenha a seguir foi encomendada há tempo pelo Diário do Comércio, de São Paulo:

Mainardi, um artista em progresso


Aproveitando o embalo da venda de 40 mil exemplares, desde dezembro de 2004, do livro de crônicas A tapas e pontapés, do jornalista, escritor e roteirista de cinema Diogo Mainardi, 44 anos, colunista da revista Veja, a editora Record está relançando todas as quatro obras de ficção do autor, o que permite avaliar sua evolução como artista.
O livro de estréia, Malthus (1989), apresentado na própria edição como romance, novela, noveleta e catalogado como conto, é uma imaginosa história, de linguagem vivaz e agradável, cujo fio condutor são as sucessivas mudanças de residência de Loyola y Loyola, um cidadão que vive de vender os móveis da casa onde mora, pertencentes a outras pessoas, e que casa com a filha do capitão de um navio em que mora temporariamente. O livro valeu a Mainardi, aos 28 anos, o Prêmio Jabuti, em 1990. A obra tem o andamento de uma história em quadrinhos, lembra a escrita automática do surrealismo, as comédias de pastelão do cinema mudo, o cinema da nouvelle vague francesa, ou seja, é bastante complexa estruturalmente e bem contemporânea. Como acontece com muitos estreantes, é um livro que depende, para ser plenamente aproveitado, de referências externas – são numerosas as referências à cultura greco-romana, à cultura renascentista, à hagiologia católica romana, etc. etc. – e de um código que deve ser decifrado, acessível somente para iniciados. Também há diálogos longos, em que o leitor a certa altura deixa de saber quem está falando; e Mainardi usa as formas “Procrustes”, ao invés de Procrusto; “monastério”, ao invés de mosteiro, e Joana de “Castilha”, ao invés de Joana de Castela.
O segundo romance de Mainardi, Arquipélago (1992), exige ainda mais do leitor para ser bem aproveitado. Trata-se de uma ficção filosófica, uma espécie de anti-utopia ou distopia, sobre sobreviventes de uma inundação causada pelo rompimento da barragem de Ilha Solteira (SP), que se abrigam na abóbada de uma igreja, única coisa que permanece acima das águas no horizonte visível, e que tentam, sem êxito, criar uma nova sociedade. O texto é bastante requintado, mas exige conhecimento profundo de filosofia para ser bem compreendido. Além disso, o autor usa termos eruditos pouco usuais, como “viso” (no sentido de “fisionomia”), “improviso” (como adjetivo, no sentido de “improvisado”, “imprevisto”) e “vorticoso” (no sentido de “vertiginoso”).
No seu terceiro romance, Polígono das Secas (1995), que na verdade poderia ser considerado uma novela-ensaio, Mainardi mostra uma grande evolução, no sentido de que a obra não depende de referências externas para ser plenamente aproveitada. Trata-se de uma sucessão de episódios, sem um entrecho propriamente dramático, sobre sertanejos nordestinos, cada um deles apresentado, não como “antes de tudo um forte”, ao contrário do que escreveu Euclides da Cunha, mas como bárbaro, supersticioso e incapaz de raciocínio lógico. Sucedem-se as torturas, mutilações, assassínios, crendices e o espalhamento propositado de doenças contagiosas. A obra, que fica entre a ficção de terror e o grand guignol francês, demonstra um grande esforço de pesquisa sobre o Nordeste, cujas paisagens naturais e sociais são descritas com precisão. Pelo lado ensaístico, há uma crítica aos famosos romances regionalistas nordestinos – e mesmo à obra de Guimarães Rosa –, no sentido de que teriam assimilado a tosca visão-de-mundo dos sertanejos, ao invés de criticá-la do ponto-de-vista da chamada alta cultura. O estilo é frio, impiedoso, sem emoção e sem esperança, mas está longe de ser desagradável. O livro se realiza mais como documentação social do que como grande estética.
Também mais documental do que estético, mais informativo do que belo, mais satírico do que romanesco, mais picaresco do que dramático, é o último romance do autor, Contra o Brasil (1998). Trata-se igualmente de uma narrativa ensaística, em que o lado narrativo enfoca a passagem do personagem principal, Pimenta Bueno, pelas terras dos índios Nambiquara, um dos mais “primitivos” do planeta (o mais “primitivo” é o povo de Andamã, ilha indiana, que é o único a não controlar o fogo), e o lado ensaístico é composto de uma série de citações de autores estrangeiros que visitaram o Brasil, do século 16 ao século 20. Entre eles estão nomes famosos como o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss e os poetas Giuseppe Ungaretti, italiano, e Joseph Brodsky, russo, e que invariavelmente denunciam as mazelas brasileiras – a escravidão, a contribuição quase nula para as artes e as ciências universais, as torturas, a corrupção, etc. etc. – numa documentação impressionante sobre os males do país e as limitações da nossa cultura. Infelizmente, a maior parte da documentação cobre os séculos 16 a 19 ou os Nambiquara, pouco se falando do século 20. Não se fala, por exemplo, do Estado Novo ou do regime militar. Nesse romance, é de notar que, desta vez, ao contrário de Malthus, os falantes dos diálogos estão muito bem identificados, com seus nomes invariavelmente vindo antes de suas falas, como num texto de teatro. O romance é uma espécie de Macunaíma em que os heróis não são louvados, e sim atacados, por não terem nenhum caráter.
Uma observação a ser feita é que o povo brasileiro ainda está em formação, pois a escravidão impediu a sua constituição e ainda há seqüelas disso, e é cedo para dizer se seu impacto sobre o mundo vai ser negativo ou positivo. Na verdade, embora tenha como alvo o povo todo, as citações de Mainardi atacam mais as elites e os povos “primitivos” do que os brasileiros em geral, além do que quase não se referem a épocas mais recentes.
Desde 1999, quando começou sua coluna na Veja, Mainardi nunca mais publicou um romance. Fica nos devendo ainda uma obra mais plenamente realizada, mais artística, mais à altura de seu talento e de sua cultura.

Renato Pompeu é jornalista e escritor, autor do ensaio biográfico Canhoteiro, o Homem que Driblou a Glória (Ediouro) e do romance-ensaio O Mundo Como Obra de Arte Criada pelo Brasil, lançado pela Editora Casa Amarela.

30 de janeiro de 2010

Sexo, drogas... e dinheiro

A seguinte resenha foi há tempo encomendada pelo Diário do Comércio, de São Paulo:

Drogas, sexo e violência, na vida real

O dinheiro pode ajudar a trazer a felicidade, mas, sozinho, mesmo em grandes quantias, não a traz – é o que se pode concluir da biografia de uma jovem carioca da alta classe média que se envolveu com drogas durante grande parte de seus atuais 36 anos de vida. Essa vida real é contada no livro A bela menina do cachorrinho – A história real da jovem que enfrentou um seqüestro e o inferno das drogas, depoimento de Ana Karina de Montreuil à jornalista Carla Mühlhaus, publicado pela Ediouro.
Ana Karina nasceu numa família milionária, em 1972, e passou a infância numa casa em que sempre havia, na geladeira, caviar e champanha francês. Mas a maior parte de sua vida não foi feliz. Seus pais se separaram quando ela tinha dois anos e ela ficou com a mãe. O pai se tornou uma presença esporádica em sua vida; sua mãe, viciada em drogas, por mais que quisesse não conseguia dar atenção à filha. Ana Karina, assim, cresceu sem ter alguém que lhe proporcionasse afeto e também sem ter alguém que lhe impusesse limites – isto é, apesar de levar uma vida de luxo e de freqüentar boas escolas, cresceu infeliz e desregrada.
Ela explica que sentia dor por não se sentir querida e valorizada, e isso a levou a embebedar-se desde os 6 anos de idade, e a drogar-se desde os 12 anos, primeiro com maconha e depois com todo tipo de droga, especialmente cocaína. Envolveu-se ainda na pré-adolescência com traficantes e outros bandidos; aos 14 anos, para fugir ao inferno de sua vida em casa, tramou com um desses bandidos o seu próprio seqüestro, para poder levar uma vida independente da família com sua parte do resgate – mas, para sua surpresa, o resgate de simulado passou a real e ela se viu amarrada e estuprada pelo bandido.
Libertada, passou sem nenhum efeito prático por casas de reeducação e iniciou, aos 15 anos, uma vida de drogas, sexo sem limites e violência. Quanto às drogas, experimentou de tudo, mas seu grande problema era a cocaína e esteve internada em clínicas, pelo que conta, pelo menos 17 vezes, além de ser a rigor membro permanente do NA, os Narcóticos Anônimos, ficando porém durante anos sem conseguir se livrar das drogas, além de continuar a beber em excesso.
Quanto ao sexo, sendo bonita, loura, com um belo corpo, teve dezenas de amantes, entre eles chefões de tráfico de morros no Rio, que subia com desenvoltura, à procura de drogas. Não conseguia, porém, ter sexo com os namorados com os quais tinha mais afinidades e que realmente gostavam dela e não apenas de sua beleza e sensualidade. Quanto à violência, muitos amantes eram agressivos e viviam metidos em brigas, principalmente quando estavam drogados. Ela chegou mesmo a presenciar, no alto do morro, um homicídio em que vários traficantes deram tiros sucessivamente, com o mesmo revólver que passava de mão em mão, num jovem que já estava estirado no chão. Chegaram a lhe pôr o revólver na mão e exigir que ela também atirasse no corpo já em estertores, mas, para sua sorte, segundo conta, o chefão a dispensou do gesto.
Ana Karina viveu uma vida tão desregrada que apresenta como intervalo de “paz” e de “lucidez” uns meses que passou em Londres, “só” bebendo e “só” fumando haxixe. Em meio a tudo isso, teve duas filhas, das quais ficou anos afastada por ser julgada irresponsável demais para cuidar delas, e passou por vários abortos.
Sofreu todo tipo de tratamento, em especial tratamentos medicamentosos, para conseguir se livrar das drogas, sem nenhum resultado mais duradouro, tendo chegado a tomar 15 comprimidos por dia de remédios psiquiátricos. Tentou o suicídio várias vezes. Conta que sempre voltava às drogas, não para sentir algo, mas para deixar de sentir qualquer coisa, em especial deixar de sentir a dor e a culpa por não ser amada nem se valorizar como pessoa, tendo chegado ao círculo vicioso de se drogar para não sentir culpa por... se drogar!
Recuperou-se, segundo conta, por três razões principais: um psiquiatra fez o diagnóstico de que ela não sofria de dependência química, e sim de distúrbio bipolar (ciclos de depressão e euforia), podendo se livrar das drogas se se tratasse do distúrbio bipolar; fez também psicanálise, com o que descobriu que sua infelicidade vinha em grande parte da infância sem afeto e sem limites; se sentiu afinal amada, por um homem que se tornou seu marido, e pelas filhas que reencontrou. Um final feliz para uma história verdadeira.

Renato Pompeu é jornalista e escritor, autor do romance-ensaio O mundo como obra de arte criada pelo Brasil, Editora Casa Amarela.