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19 de março de 2012

Novo livro de Roth


Recentemente o Diário do Comércio de São Paulo publicou a seguinte resenha de minha autoria:

A paralisia infantil,
segundo Philip Roth

Renato Pompeu

O consagrado escritor americano Philip Roth, que completa 79 anos em março, volta à sua região natal e à sua pré-adolescência em sua mais recente novela, “Nêmesis”, publicada em 2010 tanto nos Estados Unidos como no Brasil (aqui, pela Companhia das Letras). Roth nasceu em Newark, no Estado de Nova Jersey, vizinho a Nova York, em 1933, e a ação se passa num bairro dessa cidade, Weequahic, em 1944, quando o autor, então morador nesse bairro,  tinha 11 anos.
Trata-se, de um lado, das vicissitudes de um jovem de 23 anos, de físico atlético, professor de Educação Física, que no entanto tinha sido recusado, em plena Segunda Guerra Mundial, quando se apresentou para prestar o serviço militar, por ser míope. E, de outro, de um surto de poliomielite, a então temida paralisia infantil, que atingiu tantas crianças no mundo inteiro, antes do lançamento, nas décadas seguintes, das vacinas Salk e Sabin, que debelaram a doença.
No verão de 1944, em meio a um forte calor, o jovem está encarregado das atividades recreativas no playground do bairro. Embora o trabalho pareça longe de proporcionar glórias com que o jovem professor, tão atlético, pensava anteriormente se cobrir durante a guerra, ele procurou exercer aquelas atividades recreativas com o mesmo empenho com que, em tese, um soldado deve dedicar à defesa da Pátria.
Entretanto, ocorre, atingindo particularmente seus jovens discípulos, um surto (fictício) de pólio semelhante ao violento surto real da doença que havia ocorrido na cidade em 1916, por coincidência em meio à Primeira Guerra Mundial. Muitos pupilos do professor de Educação Física e coordenador de atividades recreativas acabam morrendo e são pungentes as descrições das pompas fúnebres, dos encontros do professor com os pais e de seus esforços para consolar as crianças sobreviventes.
Mas a situação se agrava quando os pais das crianças atingidas, em seu desespero, passam a acusar o professor de responsável pelo surto, por supostas insuficiências de suas práticas de higiene coletiva, e por ele deixar, por exemplo, as crianças correrem por aí “como animais”. Finalmente, ele desiste de lutar e foge para outro emprego, num acampamento de verão na zona rural.
Nêmesis, cujo nome foi escolhido para o livro, é a deusa grega da vingança, ou, mais exatamente, ela encarna a punição, pelos deuses, contra os seres humanos que pretendem atingir a perfeição divina. Ela é filha de Nyx, a Noite, e é uma das raras divindades antigas que, ao invés de personificar uma força da natureza, ou um fenômeno natural, encarna uma força moral. É como se o jovem professor e animador acabasse castigado por ter ousado sonhar com a perfeição em sua dedicação ao seu trabalho.
É importante notar que, no novo livro, Roth de um lado abandona as exaustivas descrições sexuais de suas obras imediatamente anteriores, em favor de uma trama cheia de angústias e cheia de peripécias, e de outro volta à sua preocupação inicial de cultivar uma forma requintada, tal como demonstrou em seu primeiro romance que o consagrou aos 26 anos de idade: “Adeus, Columbus”. Então, ele foi saudado logo na estreia, em 1959, como “virtuose”, por ninguém menos do que o grande escritor Saul Bellow, e como tendo alcançado uma “força tonal” que a maioria dos grandes escritores só consegue na maturidade. Se esse sucesso de crítica veio logo na estreia, o sucesso de público viria dez anos depois, com “O complexo de Portnoy” (uma tradução mais literal seria “A queixa de Portnoy”), de 1969, em que ele relata as frustrações, particularmente sexuais, de um jovem judeu típico em Newark. Neste livro, Roth não teve preocupações com a forma tão grandes quanto no seu primeiro trabalho, mas de fato se empenhou em fazer, o mais das vezes, o leitor rir, até mesmo às gargalhadas, e umas poucas vezes, em fazer o leitor se comover com o drama do homem levado a se masturbar compulsivamente para reagir contra o domínio sufocante de um protótipo da famosa “mãe judia”.
Seguiram-se uma série de livros tendo como temática a vida, particularmente a vida sexual, de um profissional liberal judeu da Costa Leste dos Estados Unidas, em especial um escritor, todas obras tidas como reproduzindo diferentes fatos e aspectos da vida pessoal de Roth. Mas também há uma obra sobre uma protestante do Meio-Oeste, outra de sátira ao presidente Richard Nixon e uma sobre a eleição fictícia do herói aviador Charles Lindbergh, o primeiro a atravessar o Atlântico Norte sem escalas, para presidente dos EUA, instaurando um regime antissemita (Lindbergh chegou a simpatizar com o nazismo). Agora, de novo Roth foge de sua temática habitual, para encanto dos leitores fãs de sua antiga perfeição formal requintada.

7 de outubro de 2011

As sombrias previsões da escritora Margaret Atwood

Recentemente o Diário do Comércio, de São Paulo, me encomendou a seguinte resenha:

A “distopia” de Margaret Atwood



Renato Pompeu



Desde o século 16, no Ocidente, escritores produziram várias utopias, em que descreviam situações ideais, sociedades humanas fictícias, localizadas no futuro ou em regiões remotas, em que não havia miséria nem maldades, nem abusos nem exploração de seres humanos por seres humanos. Foi só a partir do século 20, com sua sucessão de horrores em massa, que surgiram as chamadas “distopias”, ou seja, utopias ao contrário, que descreviam sociedades humanas no futuro ou em lugares remotos, em que prevaleciam a maldade, o controle absoluto das mentes, a miséria e a infelicidade, as torturas.

No começo, a inspiração das distopias eram os regimes totalitários que povoaram o século 20 e os escritores imaginavam sociedades ainda mais totalitárias, como “1984”, do britânico George Orwell, ou “O admirável mundo novo”, do também britânico Aldous Huxley. Em Orwell, o totalitarismo se estendia ao controle das mentes; em Huxley, ao controle biológico dos nascimentos.

Depois, entre novas distopias, no pós-Segunda Guerra Mundial, se destacavam as que se situavam após uma guerra nuclear, com os sobreviventes humanos constituindo uma população rarefeita, às vezes reduzidas a uma pessoa só, ou a poucas outras pessoas.Em seguida vieram as distopias baseadas em catástrofes ecológicas, em desastres ambientais. Mas o romance da escritora canadense Margaret Atwood, “O ano do dilúvio”, que acaba de ser lançado no Brasil pela Rocco , dois anos após o lançamento em inglês, descreve um mundo desolado e hostil a seres humanos que se localiza no futuro após catástrofes genéticas.

Num mundo que leva ao exagero características do mundo atual, a humanidade está dividida em três grupos: os poucos que vivem em condomínios de luxo realizando experiências de bioengenharia, os muitos que vivem na miséria absoluta fora dessas verdadeiras redomas luxuosas, e os ambientalistas que combatem o consumismo desenfreado. Um vírus desconhecido mata quase todos os seres humanos, e animais “experimentais” criados pela engenharia genética tomam conta do mundo, como os mistos de leão e de carneiro e os porcos dotados de cérebros humanos, além de ovelhas de pelos multicoloridos.

A história é narrada sob os pontos de vista de duas mulheres que escaparam da nova praga. Margaret Atwood tem sido chamada de escritora de ficção científica, mas ela prefere descrever o gênero que pratica como “ficção especulativa”. Com efeito, nesse seu novo livro, ela não lida apenas com ciência, mas desenvolve tramas relacionadas com exacerbações de tendências sociais e culturais do atual mundo global, bem como com suas vertentes econômicas, religiosas e políticas.

De fato, embora Margaret Atwood, atualmente com 72 anos de idade, tenha escrito dezenas de livros de vários gêneros, inclusive para crianças, a sua marca desde pelo menos os anos 1980 tem sido realmente a ficção especulativa. Trata-se do seguinte – ela constata um aspecto mais ou menos anômalo da sociedade atual, como o fundamentalismo religioso ou a eventual falta de maior cuidado com as consequências dos avanços tecnológicos. Em seguida, a escritora imagina uma situação no futuro em que essa anomalia se agiganta e toma conta do mundo. Ela já descreveu, por exemplo, os Estados Unidos do futuro como estando dominados pelos fanáticos cristãos de extrema direita, ou, em “Oryx e Crake”, de 2003, o mundo que existiria após uma catástrofe genética. Assim, ela realiza um trabalho semelhante aos que especulam, por exemplo, sobre os futuros impactos das mudanças climáticas.

“O ano do dilúvio” chegou a ser apresentado como uma continuação de “Oryx e Crake”, pois também se passa após uma catástrofe genética, e de fato há personagens em comum entre os dois livros, mas cada um pode ser lido independentemente do outro. Margaret Atwood é particularmente destra em descrever ambientes naturais, seja intocados, seja destruídos pela ação humana. Afinal, ela é filha de um entomologista, e o pai a fazia passar seis meses de cada ano na mata virgem da Província de Ontario, onde ele observava insetos, e os restantes seis meses na cidade grande.

Começou como poeta que criticava os artificialismos da vida moderna. Formada em três universidades, a canadense de Ontario e as americanas de Radcliffe e Harvard, ela publicou, além de seus poemas, mais de dez romances, dois volumes de crítica literária, livros infantis, livros de contos; é ativa colaboradora em jornais e revistas, militante de causas feministas e políticas, sempre com um sentido de manter as liberdades individuais e a independência diante de governos e de grandes conglomerados econômicos.

Em diversos livros, tanto de ficção como de não-ficção, ela manifesta preocupação com tendências antidemocráticas nos poderosos Estados Unidos, tão próximos de seu Canadá. Duas de suas frases famosas são: “Cuidado ao pedir justiça, pois a justiça pode ser imposta a você” e “Uma palavra depois de uma palavra depois de uma palavra é poder”. No novo livro, ela nos chama a atenção sobre o que pode ocorrer se os seres humanos continuarem irresponsáveis ecológica e geneticamente.

31 de março de 2011

Saul Bellow e seu romance preferido

Há tempo a revista Carta Capital me encomendou a seguinte nota:

O preferido de


Saul Bellow



Mais de meio século depois de seu lançamento original em 1959, sai finalmente no Brasil o romance de maior sucesso nos EUA, e o preferido do próprio autor, de Saul Bellow (1915-2005), americano nascido no Canadá filho de judeus russos, Nobel de 1976. Trata-se de “Henderson, o Rei da Chuva”, em bem cuidada tradução de José Geraldo Couto, pela Companhia das Letras. Para o leitor brasileiro, mais próximo dos deserdados da terra do que o leitor americano, o livro pode chocar pela facilidade com que o personagem-título, um típico americano rico, um tanto brusco de maneiras, um tanto superficial e grosseiro, um tanto infeliz com o vazio existencial de sua vida, se torna candidato a rei de uma tribo africana, por suas façanhas de “civilizado”. Para o leitor americano, são fascinantes os debates do prático Henderson com o filosófico rei africano educado no Ocidente, e o romance nos EUA foi consagrado pelo misto de humor, aventura e profundidade. A notar, entretanto, que o rei africano só é apresentado como influente no aperfeiçoamento comportamental de Henderson por ser, afinal, um africano formado no Ocidente. É o livro de um virtuose da prosa, misto de entretenimento e de alta vulgarização filosófica. Não fica claro, entretanto, se Bellow jamais conversou pessoalmente com um “nativo” na África. – RENATO POMPEU

21 de novembro de 2010

O escritor que escreve sobre si mesmo e se apresenta como grande amante

A revista Carta Capital, há pouco tempo, me encomendou o seguinte artigo:

Coetzee, um Autorretrato

O escritor sulafricano radicado na Austrália, J.M. Coetzee, 70 anos, Nobel de 2003, é famoso por sua militância – contra o apartheid na África do Sul, contra a guerra do Vietnã nos EUA e pelos direitos dos animais na Austrália – e pelo seu caráter arredio: mantém-se distante da mídia. No entanto, em seu romance “Verão – Cenas da vida na província”, agora lançado pela Companhia das Letras, ele se compraz em descrever a vida de um certo Coetzee, apresentado como um bem sucedido amante, quando adulto na Cidade do Cabo e em lugares mais remotos da África do Sul, nos anos 1970. É continuação de romances anteriores sobre a infância e juventude desse seu alter ego. A principal diferença é que o Coetzee do livro já morreu. – RENATO POMPEU

14 de novembro de 2010

Romance sobre a tragédia dos Bálcãs

A revista Carta Capital há poucos meses me encomendou a seguinte resenha:


Kadaré e a angústia



No angustiado romance “O acidente”, agora publicado no Brasil pela Companhia das Letras, dois anos depois da edição francesa, o escritor albanês radicado na França Ismail Kadaré, 74 anos, famoso por “Abril despedaçado”, mistura a temática imemorial do amor mesclado de ternura e agressividade com a temática imediata das recentes guerras nos Bálcãs. O romance abre com um acidente de carro em que morreu um casal de albaneses e procura retraçar a trajetória daquele homem e daquela mulher desde que se conheceram até o momento de sua morte, em meio aos horrores dos conflitos étnicos. Kadaré, que estudou sob o regime comunista em Tirana e em Moscou, começou publicando poesia, mas em 1963 passou a publicar romances em seu país, dos quais dois foram proibidos pelas autoridades comunistas: “O monstro” (1965) e “O palácio dos sonhos” (1980). Ele se considerava, não um “dissidente”, mas um “resistente” e, em meio à crise final do comunismo, se asilou na França em 1990. Agora, em “O acidente” traduzido diretamente do albanês por Bernardo Joffily, ele apresenta uma trama fascinante e aterrorizante entremeada de massacres físicos entre etnias e dos talvez igualmente assustadores massacres psicológicos entre amantes, uma trama trabalhada e retrabalhada artisticamente para ir se revelando aos poucos, como se fosse um espelho aos pedaços. Às angústias próprias da trama, se junta a inquietação do leitor, que lê sofregamente para entender, afinal, o que aconteceu. Assim, a leitura em si chega a ser angustiante, a par dos acontecimentos relatados. – RENATO POMPEU

6 de setembro de 2010

Um clássico pós-moderno

Recentemente a revista Carta Capital me encomendou a seguinte resenha:

O “2666” de Bolaños, clássico pós-moderno

Uma Europa cansada, uma América Latina bárbara, um epitáfio da segunda metade do século 20 no Ocidente – é isso o que retrata o primeiro clássico da ficção pós-moderna. Sete anos após a morte de seu autor, o bem conhecido escritor chileno Roberto Bolaño (1953-2003), seis anos após sua publicação póstuma em castelhano, de 1.100 páginas, e dois anos após o seu lançamento em inglês, de cerca de 900 páginas, e um ano após a edição portuguesa da Quetzal, sai finalmente no Brasil, pela Companhia das Letras, em mais de 850 paginas, o monumental romance “2666”, aclamado como o primeiro clássico mundial do século 21 pelo Círculo Nacional dos Críticos de Livros dos Estados Unidos, que lhe consagrou seu Prêmio de Ficção em 2008. Bolaño nasceu filho de um motorista de caminhão e pugilista e de uma professora do fundamental. Sua família mudou para o México por ocasião do golpe que derrubou e matou o presidente Salvador Allende, em 1973. Bolaño se estabeleceu na Espanha, após a redemocratização desse país, e lá se tornou um poeta cujas obras não tiveram maior repercussão. Por volta dos 40 anos, porém, nos anos 1990, começou a publicar importantes romances que o tornaram famoso no mundo de fala hispânica e internacionalmente, como “Os detetives selvagens” e “Noturno do Chile”, já traduzidos em português. Ao morrer, o escritor deixou diversos textos inéditos e o primeiro a ter sido publicado pelos seus herdeiros foi “2666”, programado inicialmente pelo autor para ser editado como uma série em cinco volumes. Sua família, no entanto, resolveu incluir num livro só toda a série, embora uma das cinco partes ainda tivesse sido deixada incompleta pelo escritor. Em nenhum momento do livro aparece o número do título, mas se especula que é uma referência ao Livro do Êxodo do Antigo Testamento, já que, segundo a tradição judaica, o Êxodo dos judeus que saíram do Egito teria ocorrido no ano 2666 de seu calendário, que, ainda de acordo com a tradição judaica, se iniciou no momento da Criação. As cinco partes, que se passam em diferentes países do mundo – um reflexo da globalização – se organizam em torno de três eixos principais: o vazio da vivência cultural e existencial da intelectualidade universitária européia pós-moderna, que se limita a catalogar e inventariar as poucas obras realmente criativas que surgiram na segunda metade do século 20, retrato de uma Europa cansada, descrente e cínica, apesar de seu auge de conforto material; as centenas de assassínios misteriosos de mulheres na fictícia cidade mexicana de Santa Teresa, inspirada na cidade real de Ciudad Juárez, perto da fronteira com os Estados Unidos, onde ocorreram esses crimes, retrato de uma América Latina que ainda mal saiu da barbárie, e as peripécias igualmente selvagens da Frente Oriental da Segunda Guerra Mundial, ou seja, a guerra entre a Alemanha Nazista e a União Soviética. O livro tem mais valor como riquíssima documentação social do que efetivamente como obra de arte, já que é basicamente um inventário, com muita informação e pouca emoção. Como a cultura pós-moderna já foi chamada de “cultura de inventário”, o livro já é o grande clássico da pós-modernidade, pois a cultura de nossos tempos está nele imortalizada. – RENATO POMPEU

21 de fevereiro de 2010

O romance da autora que não existe


Há tempo o Diário do Comércio, de S. Paulo, me encomendou a seguinte resenha:

Um romance italiano, à moda da telenovela latino-americana

A primeira coisa que chama a atenção neste romance Desesperadamente Giulia, lançado no Brasil pela Record, da escritora italiana Sveva Casati Modignani, a qual há mais de quarenta anos já vendeu mais de dez milhões de exemplares em todo o mundo de todos os seus títulos, inclusive Baunilha e Chocolate, já editado aqui (o Giulia, publicado em 1986 na Itália, lá já vendeu mais de 300 mil exemplares), é que, ao contrário do que informa a editora na segunda orelha, que tem até uma foto, sua autora não existe. É apenas o pseudônimo adotado por um casal de jornalistas de Milão, Bice Cariati e Nullo Cantaroni. O casal publica livros reportagens desde 1958 e em 1981 adotou o pseudônimo para lançar o seu primeiro romance, Ana dos olhos verdes. Desde então foi uma sucessão de best-sellers, em várias línguas.
Mas o que mais chama a atenção é a semelhança da trama do romance com a estrutura das telenovelas latino-americanas em geral e brasileiras em particular. Centrado na vida principalmente sentimental de uma escritora quarentona e bonitona, divorciada e com novo namorado, tendo um filho do ex-marido, o livro tem, no tom mais discreto das telenovelas brasileiras (em relação às mexicanas, por exemplo), todos os ingredientes que fazem sucesso numa telenovela de grande audiência.
Assim, se descrevem muito mais ações do que sentimentos. Não falta a filha que só vai descobrir seu verdadeiro pai só tarde na vida, e como em qualquer telenovela há um aborto espontâneo, um aborto provocado, um suicídio, relações homossexuais, adultérios, cirurgias de doenças graves, chantagens, o amor da adolescência que renasce décadas depois, etc., etc.. Há os personagens inteiramente bonzinhos e os personagens inteiramente malvados, mas, se os personagens bonzinhos triunfam no final, os malvados também não se saem tão mal assim, como tem sido moda nas telenovelas mais recentes.
O filósofo grego antigo Aristóteles, que lançou as bases da estética literária ocidental, escreveu que existem dois tipos de obras, além da poesia épica: a tragédia, que descreve a vida de pessoas melhores do que nós, e a comédia, que trata da vida de pessoas piores do que nós. Mas aí se trata de obras-primas. A isso teríamos de acrescentar as obras que não são primas, e que lidam com pessoas iguaizinhas a nós, como este romance Giulia e as telenovelas em geral. Não se trata de obras-primas sobre a condição humana universal e eterna, particularizada, com emoções discretas, nas dimensões nacionais e de momento, mas de relatos sobre a vida cotidiana, com suas emoções importantes só para quem as vive, e para quem se identifica com elas.
Também, do mesmo modo que nas telenovelas, neste romance o mundo está genericamente dividido entre pessoas ricas e pessoas pobres que logo se tornam também ricas, especialmente se as pobres forem boazinhas. Há uma preocupação detalhista em citar os objetos de consumo e suas marcas e grifes e descrever o prazer que seu consumo gera.; a diferença é que, no caso do romance, não parece haver o merchandising que ocorre na televisão Como numa telenovela, mesmo escrita por homens, tudo é principalmente visto por meio de uma ótica bem mais feminina do que masculina, em especial a luta ainda contemporânea das mulheres para alcançarem um grau de liberdade, por exemplo sexual, semelhante à dos homens.
Igualmente, como na maioria das telenovelas (com exceção das poucas que são de época), a trama se passa no presente imediato, mas há muitos retornos ao passado, por meio de flashbacks, que vão pouco a pouco esclarecendo situações que, apresentadas nas primeiras vezes, parecem obscuras.
Em suma, Giulia é um bom entretenimento e sua leitura não apresenta grandes exigências e tem emoções bem dosadas, e envolve por estar em suspense sempre renovado, além de refletir com razoável precisão a vida na classe média alta, seja por nascimento, seja por ascensão social. Seu apelo é especialmente atraente para as pessoas de classe média baixa que estão em busca de ascensão social, em particular mulheres.

Renato Pompeu é jornalista e escritor, autor do romance-ensaio O mundo como obra de arte criada pelo Brasil, Editora Casa Amarela.

31 de janeiro de 2010

A ficção do polemista Diogo Mainardi

A resenha a seguir foi encomendada há tempo pelo Diário do Comércio, de São Paulo:

Mainardi, um artista em progresso


Aproveitando o embalo da venda de 40 mil exemplares, desde dezembro de 2004, do livro de crônicas A tapas e pontapés, do jornalista, escritor e roteirista de cinema Diogo Mainardi, 44 anos, colunista da revista Veja, a editora Record está relançando todas as quatro obras de ficção do autor, o que permite avaliar sua evolução como artista.
O livro de estréia, Malthus (1989), apresentado na própria edição como romance, novela, noveleta e catalogado como conto, é uma imaginosa história, de linguagem vivaz e agradável, cujo fio condutor são as sucessivas mudanças de residência de Loyola y Loyola, um cidadão que vive de vender os móveis da casa onde mora, pertencentes a outras pessoas, e que casa com a filha do capitão de um navio em que mora temporariamente. O livro valeu a Mainardi, aos 28 anos, o Prêmio Jabuti, em 1990. A obra tem o andamento de uma história em quadrinhos, lembra a escrita automática do surrealismo, as comédias de pastelão do cinema mudo, o cinema da nouvelle vague francesa, ou seja, é bastante complexa estruturalmente e bem contemporânea. Como acontece com muitos estreantes, é um livro que depende, para ser plenamente aproveitado, de referências externas – são numerosas as referências à cultura greco-romana, à cultura renascentista, à hagiologia católica romana, etc. etc. – e de um código que deve ser decifrado, acessível somente para iniciados. Também há diálogos longos, em que o leitor a certa altura deixa de saber quem está falando; e Mainardi usa as formas “Procrustes”, ao invés de Procrusto; “monastério”, ao invés de mosteiro, e Joana de “Castilha”, ao invés de Joana de Castela.
O segundo romance de Mainardi, Arquipélago (1992), exige ainda mais do leitor para ser bem aproveitado. Trata-se de uma ficção filosófica, uma espécie de anti-utopia ou distopia, sobre sobreviventes de uma inundação causada pelo rompimento da barragem de Ilha Solteira (SP), que se abrigam na abóbada de uma igreja, única coisa que permanece acima das águas no horizonte visível, e que tentam, sem êxito, criar uma nova sociedade. O texto é bastante requintado, mas exige conhecimento profundo de filosofia para ser bem compreendido. Além disso, o autor usa termos eruditos pouco usuais, como “viso” (no sentido de “fisionomia”), “improviso” (como adjetivo, no sentido de “improvisado”, “imprevisto”) e “vorticoso” (no sentido de “vertiginoso”).
No seu terceiro romance, Polígono das Secas (1995), que na verdade poderia ser considerado uma novela-ensaio, Mainardi mostra uma grande evolução, no sentido de que a obra não depende de referências externas para ser plenamente aproveitada. Trata-se de uma sucessão de episódios, sem um entrecho propriamente dramático, sobre sertanejos nordestinos, cada um deles apresentado, não como “antes de tudo um forte”, ao contrário do que escreveu Euclides da Cunha, mas como bárbaro, supersticioso e incapaz de raciocínio lógico. Sucedem-se as torturas, mutilações, assassínios, crendices e o espalhamento propositado de doenças contagiosas. A obra, que fica entre a ficção de terror e o grand guignol francês, demonstra um grande esforço de pesquisa sobre o Nordeste, cujas paisagens naturais e sociais são descritas com precisão. Pelo lado ensaístico, há uma crítica aos famosos romances regionalistas nordestinos – e mesmo à obra de Guimarães Rosa –, no sentido de que teriam assimilado a tosca visão-de-mundo dos sertanejos, ao invés de criticá-la do ponto-de-vista da chamada alta cultura. O estilo é frio, impiedoso, sem emoção e sem esperança, mas está longe de ser desagradável. O livro se realiza mais como documentação social do que como grande estética.
Também mais documental do que estético, mais informativo do que belo, mais satírico do que romanesco, mais picaresco do que dramático, é o último romance do autor, Contra o Brasil (1998). Trata-se igualmente de uma narrativa ensaística, em que o lado narrativo enfoca a passagem do personagem principal, Pimenta Bueno, pelas terras dos índios Nambiquara, um dos mais “primitivos” do planeta (o mais “primitivo” é o povo de Andamã, ilha indiana, que é o único a não controlar o fogo), e o lado ensaístico é composto de uma série de citações de autores estrangeiros que visitaram o Brasil, do século 16 ao século 20. Entre eles estão nomes famosos como o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss e os poetas Giuseppe Ungaretti, italiano, e Joseph Brodsky, russo, e que invariavelmente denunciam as mazelas brasileiras – a escravidão, a contribuição quase nula para as artes e as ciências universais, as torturas, a corrupção, etc. etc. – numa documentação impressionante sobre os males do país e as limitações da nossa cultura. Infelizmente, a maior parte da documentação cobre os séculos 16 a 19 ou os Nambiquara, pouco se falando do século 20. Não se fala, por exemplo, do Estado Novo ou do regime militar. Nesse romance, é de notar que, desta vez, ao contrário de Malthus, os falantes dos diálogos estão muito bem identificados, com seus nomes invariavelmente vindo antes de suas falas, como num texto de teatro. O romance é uma espécie de Macunaíma em que os heróis não são louvados, e sim atacados, por não terem nenhum caráter.
Uma observação a ser feita é que o povo brasileiro ainda está em formação, pois a escravidão impediu a sua constituição e ainda há seqüelas disso, e é cedo para dizer se seu impacto sobre o mundo vai ser negativo ou positivo. Na verdade, embora tenha como alvo o povo todo, as citações de Mainardi atacam mais as elites e os povos “primitivos” do que os brasileiros em geral, além do que quase não se referem a épocas mais recentes.
Desde 1999, quando começou sua coluna na Veja, Mainardi nunca mais publicou um romance. Fica nos devendo ainda uma obra mais plenamente realizada, mais artística, mais à altura de seu talento e de sua cultura.

Renato Pompeu é jornalista e escritor, autor do ensaio biográfico Canhoteiro, o Homem que Driblou a Glória (Ediouro) e do romance-ensaio O Mundo Como Obra de Arte Criada pelo Brasil, lançado pela Editora Casa Amarela.