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26 de setembro de 2010

A ação contra a Carta Capital

A Justiça Eleitoral exigiu que a revista Carta Capital, que havia declarado apoio a Dilma Rousseff, prestasse informações sobre as verbas para anúncios que tem recebido do governo federal. A ação que deu início a essa exigência fora impetrada por denúncia anônima, embora se assinale que a Justiça Eleitoral sabe o nome de quem denunciou, mas não pretende divulgá-lo. Grande parte dos anúncios governamentais federais são publicados em jornais, revistas, rádios e televisões que fazem oposição ao governo Lula e a Dilma. Enquanto é visível que as grandes empresas de mídia defendem determinadas posições políticas a partir dos seus próprios interesses como empresas, muitas vezes ligadas a outros negócios que não a informação, o jornalista Mino Carta, diretor da Carta Capital, defende posições a favor de Lula desde muito antes de o PT ter chegado ao poder. De modo que de maneira nenhuma ele está "pagando" os anúncios governamentais com o seu apoio a Dilma. Ele o faz movido por convicções profundamente arraigadas há décadas.

25 de fevereiro de 2010

Entre nossos parentes, os fungos


Há tempo a revista Carta Capital me encomendou a seguinte resenha:

Vegetais, bactérias e fungos,nossos parentes

“A anatomia do homem é a chave para a anatomia do primata”, escreveu Marx, querendo defender sua tese de que se deve partir do capitalismo atual para entender os “modos de produção” do passado. Em A grande história da evolução – Na trilha dos nossos ancestrais, edição da Companhia das Letras,o biólogo inglês Richard Dawkins, ateu militante, parte dos seres humanos atuais rumo ao passado dos seres vivos, em que, primeiro, busca o ancestral comum de todos os hominídeos, no “encontro 0”.
Em seguida, no “encontro 1”, nos deparamos com o ancestral comum de homens e chimpanzés; no “encontro 2” está o ancestral comum, de um lado, do ancestral comum de homens e chimpanzés, e, de outro, dos gorilas.. No “encontro 39”, depois de passar pelos ancestrais comuns de todos os animais com os fungos, de todos os animais e fungos com os vegetais, todos os outros seres vivos se reúnem com as eubactérias.
O resultado é uma visão fascinante das origens das espécies, segundo as pesquisas mais recentes (o original é de 2004). Além de a história “ao contrário” tornar muito mais simples entender a evolução, Dawkins escreve bem. Baseou-se na obra de ficção medieval inglesa Os contos da Cantuária, de Chaucer. Pelos “contos dos peregrinos” (espécies destacadas) de Dawkins, ficamos sabendo que os seres humanos perderam os pelos porque se dava preferência, na seleção sexual, aos parceiros que não transmitissem piolhos. Os primatas em geral não tiveram essa chance, porque não usavam o fogo para aquecer-se, não poderiam prescindir dos pelos e têm de se haver com os piolhos até hoje.

29 de janeiro de 2010

China: dissidente acha que valeu a pena

Recentemente a Carta Capital me encomendou a seguinte resenha:

China: apesar de tudo, “valeu a pena”

Renato Pompeu

Avaliando um século de violências na China – décadas de guerra civil, a Segunda Guerra Mundial, o Grande Salto para a Frente, em que tantos morreram de fome, a Revolução Cultural, em que tantos foram agredidos e assassinados, e o recente capitalismo regulado pelo Estado, mas selvagem para grande parte da população –, a jornalista chinesa radicada na Inglaterra, Xinran, que passou 40 de seus 51 anos de vida na terra natal, chega neste livro Testemunhas da China – vozes de uma geração silenciosa (Companhia das Letras), à surpreendente conclusão de que tudo isso valeu a pena. .
Xinran, famosa pelo livro As boas mulheres da China,voltou à pátria em 2005 e 2006, preocupada em ouvir as histórias de vida de pessoas que viveram esses desastres e mais preocupada ainda porque as pessoas, na própria China, não falam desse passado calamitoso. A história oficial não o anota e os próprios pais e avós não contaram suas vidas aos filhos e netos, que por sua vez só querem saber das novidades do mercado.
Assim, em diferentes regiões da China, ouvimos a mulher orgulhosa por ter, há meio século, ajudado a construir cidades no deserto de Góbi, um dos desastres do Grande Salto para a Frente; o alto quadro comunista que sobreviveu a todos os expurgos simplesmente porque sabia jogar majongue (espécie de dominó chinês) com as mesmas regras que Mao Zedong conhecia, e a curandeira beneficiada pela Revolução Cultural: por ter a saúde pública entrado em colapso, tanto “revolucionários” como “contrarrevolucionários” recorriam a suas mezinhas. Afinal, valeu a pena.

28 de janeiro de 2010

Sociologia da Igreja Católica no Brasil

Recentemente a revista Carta Capital me encomendou a seguinte resenha:

A Igreja Católica na República Velha: avanço e não recuo

Renato Pompeu

Vinte e um anos após seu lançamento pela Bertrand Brasil, a Cia. das Letras republica um clássico brasileiro da sociologia religiosa: “A elite eclesiástica brasileira – 1890-1930”, do sociólogo da USP Sergio Miceli, famoso por ter introduzido temas que eram tabus nas ciências sociais brasileiras, como os programas de televisão; o papel de eminentes intelectuais, como Carlos Drummond de Andrade e Graciliano Ramos, na institucionalização do Estado Novo. Antes de Miceli se ter debruçado sobre os arquivos da Igreja Católica e as biografias de prelados, como o cardeal Joaquim Arcoverde e dom Duarte Leopoldo, atuantes durante as quatro décadas da República Velha, esse período era considerado como de estagnação do catolicismo no Brasil. Afinal, tinha sido rompida a união da Igreja com o Estado e ela só voltaria a ser privilegiada pelo Estado após a Revolução de 1930. Miceli, no entanto, com vasta documentação à mão, mostra como esse período foi de revigoramento do catolicismo entre nós, primeiro, pela retomada do controle do Vaticano sobre a Igreja no Brasil, antes influenciada de perto pelos interesses do Estado imperial. Depois, pela retomada do patrimônio eclesiástico, antes em grande parte de posse do Estado; pela fundação de numerosos seminários, estagnados no século 19. Enfim, pelo desenvolvimento do ensino confessional, com a Igreja predominando no primário e secundário. O sociólogo mostra ainda como as hierarquias eclesiásticas souberam ter um papel estratégico nas ligações com as oligarquias regionais, deixando claro como as relações estamentais podem ser mais importantes do que as lutas de classes na conformação da sociedade e da história.