9 de julho de 2010

A resenha-prêmio

Com considerável atraso, pela dificuldade em encontrar o livro, segue aqui a resenha com que foi premiada, na promoção do blog, a seguidora Lívia Alcântara:

Um livro menos famoso da
mais famosa antropóloga

Renato Pompeu

Este livro “Sexo e temperamento”, da mais famosa antropóloga de todos os tempos, a americana Margaret Mead (1901-1978), lançado em português em 1969, pela Perspectiva (o original em inglês é de 1935, e a tradução correta do título seria “Sexo e temperamento em três sociedades primitivas”), não é das obras mais conhecidas da autora, mas sem dúvida é um dos mais bem documentados, dos mais significativos e dos mais importantes trabalhos já publicados sobre a relação entre biologia e sociedade.
Mead, recém-formada em antropologia na Faculdade Barnard, consagrou-se bem jovem, aos 27 anos, com a publicação de um livro sobre a puberdade entre os nativos de Samoa, ilha do Pacífico que é uma possessão americana. O livro argumentava que as complicações da adolescência, tão flagrantes no cotidiano dos Estados Unidos, não existiam entre os samoanos, em cuja sociedade os adultos eram tolerantes com as adolescentes, aceitando que elas desenvolvessem livremente, por exemplo, a sexualidade. O livro teve enorme impacto ao fazer as jovens americanas perceberem que uma sexualidade mais livre era possível e não traria os problemas com que os adultos repressores ameaçavam as adolescentes.
A antropóloga, assim, teve um papel crucial na progressiva liberação sexual que ocorreria no Ocidente nas décadas seguintes à publicação de seu livro. Depois que ela morreu, no entanto, outros estudiosos da sociedade dos samoanos puseram em dúvida a correção das observações de Mead.
Não a chamaram de desonesta, simplesmente disseram que, como não sabia samoano, foi enganada pelas jovens samoanas que sabiam inglês, que garantiram para ela que eram felizes, viviam sem estresse e não eram reprimidas, quando na verdade a sociedade de Samoa é tão repressora contra os adolescentes quanto qualquer outra. A controvérsia continua, pois há antropólogos que defendem a tese de que a visão de Mead está mais próxima da realidade de Samoa do que a de seus críticos, que teriam sido desorientados por seu apego ao conservadorismo dos costumes.
“Sexo e temperamento”, porém, que nunca foi atacado, vai mais longe na discussão sobre os papéis respectivos da biologia e da cultura na definição do comportamento em sociedade. Nele, Mead estuda três tribos da Nova Guiné, outra ilha do Pacífico, bem maior que Samoa e que na época estava dividida entre a Grã-Bretanha e os Países-Baixos e hoje está dividida entre o país independente da Papua-Nova Guiné (a parte ex-britânica) e a Indonésia (a parte ex-holandesa).
Comparando com a sociedade ocidental, patriarcado em que os homens são mais agressivos e as mulheres mais carinhosas, diferenciação que é atribuída à biologia de cada sexo, Mead constatou na Nova Guiné que “o ideal Arapesh é o homem dócil e suscetível, casado com uma mulher dócil e suscetível; o ideal Mundugumor é o homem violento e agressivo, casado com uma mulher também violenta e agressiva”, enquanto, entre os Tchambuli, é “a mulher o parceiro dirigente, dominador e impessoal, e o homem a pessoa menos responsável e emocionalmente dependente”.
A antropóloga escreve, notadamente, como conclusão: “Se aquelas atitudes temperamentais que tradicionalmente reputamos femininas – tais como passividade, suscetibilidade e disposição de acalentar crianças – podem tão facilmente ser erigidas como padrão masculino numa tribo, e na outra ser prescritas para a maioria das mulheres, assim como para a maioria dos homens, não nos resta mais a menor base para considerar tais aspectos de comportamento como ligados ao sexo. E esta conclusão torna-se ainda mais forte quando observamos a verdadeira inversão entre os Tchambuli, da posição de dominância dos dois sexos, a despeito da existência de instituições patrilineares formais”.
O que podemos dizer é que Mead expõe em “Sexo e temperamento” argumentos poderosos para reforçar a tese de que, mais do que a biologia, é a cultura que molda o comportamento das pessoas em sociedade. Mas, mais do que isso, podemos descobrir, na multifacetada sociedade globalizada que temos hoje, grupos e subgrupos em que ora predominam os homens, ora predominam as mulheres, ora mulheres e homens estão em pé de igualdade, ora se fomenta a agressividade, ora se fomenta a docilidade – em suma, temos na sociedade ocidental de hoje, e em muitas não ocidentais, todos os modelos estudados pela antropóloga americana. E Mead teve um papel fundamental nas transformações culturais que levaram a essas transformações comportamentais.
Ainda mais notável é o fato de que a antropóloga localiza, em cada sociedade que estudou os “inadaptados”, isto é, as pessoas que não se conformam com os papéis que lhes foram reservados, “o indivíduo para quem as ênfases mais importantes de sua sociedade parecem absurdas, irreais, insustentáveis ou completamente erradas”. Esses não tinham lugar em qualquer sociedade estudada por Mead e eram relegados a uma vida difícil, como não tinham lugar em qualquer outra sociedade jamais existente. Mas, cada vez mais, esses inadaptados estão encontrando o seu lugar na sociedade ocidental de hoje, composta, cada vez mais, de conglomerados de diferentes e numerosas tribos.

7 comentários:

Remindo disse...

Dúvida que qualquer mãe americana de classe média teve alguma vez lido algo da antropóloga Margaret Mead. A única causa da liberdade sexual foi a descoberta da pílula. O único medo de todo mundo sempre foi a gravidez.

Lívia Alcântara disse...

Comentário muito pertinente e engraçado Remindo.

Renato, valeu a pena esperar,ficou ótima.

Renato Pompeu disse...

Fico contente que a Lívia tenha gostado, afinal ela esperou tanto tempo. Quanto ao Remindo, ele com certeza não sabe que o livro de Mead sobre Samoa foi um bestseller. Já a liberação sexual não teve uma causa única e começou muito antes da pílula - começou quando as mulheres deixaram de ser economicamente dependentes dos homens, a partir de meados do século 19. A gravidez estava longe de ser o único problema, pois o simples adultério ou a iniciação sexual antes do casamento já fragilizavam a situação da mulher.
Além de Mead ter sido um bestseller, coisa que Marx nunca foi, dizer que ela não teve importância na liberação sexual é o mesmo que dizer que Marx não teve importância para o movimento de esquerda, já que a esmagadora maioria dos milhões que participaram do movimento jamais leu Marx.

Anônimo disse...

Excelente texto, parabéns! me ajudou bastante!

Thalyta Oliveira disse...

Muito bom, eu particularmente gostei bastante.

Unknown disse...

Sensacional!

Feliciana Sabrina da Cruz disse...

Excelente!