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5 de junho de 2013

Anarquismo no Brasil

Trabalho meu de História - Renato Ribeiro Pompeu - R.A. 1052390 - HISTÓRIA SOCIAL DO ANARQUISMO NO BRASIL - Centro Universitário Claretiano - Curso de História – 2.o ano - Curso de Extensão - Polo de São Paulo - 2011 Passado menos de um século do auge do anarquismo operário no Brasil, o que resta de memória dessa vasta movimentação, que em 1917 e 1919 chegou a duas das três únicas greves gerais na cidade de São Paulo (sendo a terceira a do Abono de Natal, hoje conhecido como 13.o salário, em 1962), está nos arquivos e em algumas iniciativas no mundo acadêmico. Para falar a verdade, o próprio 13.o salário é tido pelas atuais gerações de trabalhadores como algo dado e óbvio, sem a lembrança de que foram necessárias lutas até sangrentas durante décadas para concretizá-lo como direito de todos os assalariados. E os hoje esquecidos anarquistas contribuíram para a conquista de um marco muito mais importante, para os trabalhadores atuais, do que uma questão de salários: foram os anarquistas que forjaram no Brasil recém-saído da escravidão a noção de que o trabalho confere dignidade aos seres humanos. Os anarquistas organizaram o orgulho de pertencer à classe operária, fomentaram uma cultura operária brasileira, por meio de livros, jornais, revistas, saraus, sessões musicais, peças de teatro – tudo escrito e desempenhado pelos próprios trabalhadores. Particularmente, mulheres anarquistas foram as primeiras, no Brasil, a defenderem a independência de cada mulher, não só no que se refere ao trabalho e ao direito de escolher quando terá filhos, mas também no que se relaciona à própria liberdade sexual. Ironicamente, os direitos que os anarquistas defendiam, a uma vida e um salário dignos, à limpeza pública, ao sanitarismo, à educação e à saúde, à liberdade de expressão, hoje desfrutados por uma grande parcela (longe de serem todos) dos trabalhadores brasileiros, são na atualidade, na prática, garantidos pelo Estado, tão abominado pelos anarquistas. Mesmo porque o poder do Estado burguês no País hoje é largamente exercido por sindicalistas e outros operários que, no entanto, não guardam memória de fato, nem histórica nem afetiva, de que seus benefícios são oriundos das lutas, dos sofrimentos e dos sonhos de trabalhadores hoje obscuros que lutaram durante décadas por uma sociedade sem classes, sem exploradores e sem explorados, sem oprimidos e sem opressores, autogovernada por todos os seus membros, sem um Estado que paire coercitivamente sobre essa sociedade. Todos esses direitos, no entanto, estão hoje sob ameaça por mais uma incontrolável crise estrutural do capitalismo mundial. Mais e mais trabalhadores, em todo o planeta, estão perdendo o emprego, ou tiveram seus salários e benefícios sociais drasticamente reduzidos, em empregos a cada dia mais precários e insalubres. Por isso, e por muitos outros motivos, é importante cultivar a história social e fazer nascer a memória do que pensaram, do que fizeram e do que pensaram trabalhadores e trabalhadoras hoje de lembrança tão obscurecida. Pois sua noção de que a exploração não devia ser só amenizada, mas extinta – como era o objetivo dos antigos anarquistas –, está começando a entrar de novo na ordem do dia dos trabalhadores, embora os sentimentos de revolta estejam sendo mais aproveitados por populistas de direita do que por esquerdistas, cuja ala mais radical é a dos anarquistas.

7 de abril de 2012

Livros de filosofia e outros

Há poucos meses a revista Caros Amigos publicou o seguinte artigo meu:



Ca176ideias



Ideias de Botequim



Marilena Chauí

ajuda a filosofar



Renato Pompeu



Os que querem se iniciar na filosofia, ou relembrar o que já estudaram, podem recorrer a uma coleção de livretos lançada pela Martins Fontes, dirigida por Marilena Chauí e Juvenal Savian Filho. Já foram lançados dez volumes; no primeiro, “Boas-vindas à filosofia”, Marilena Chauí discute as diferentes definições do filosofar, e chama a atenção para como pensar organizadamente é ao mesmo tempo prazeroso e produtivo. No segundo volume, Savian trata da “Argumentação: a ferramenta do filosofar”, uma introdução à arte de pensar com coerência. “Corpo e mente”, o terceiro volume, de Silvana de Souza Ramos, debate o que é ser humano a partir das explicações de dois filósofos franceses, René Descartes, do século 17, e  Maurice Merleau-Ponty, do século 20. Os mistérios de “O tempo”, no quarto volume, são abordados por Fernando Rey Puente, que discute até que ponto a passagem do tempo é um fenômeno “objetivo” e até que ponto é uma experiência “subjetiva”. Os volumes seguintes tratam de “O ser vivo”, “Percepção e imaginação”, “A liberdade” e “Deus”. Já o volume nove trata da “Lógica” e nele Abílio Rodrigues parte da lógica tradicional para em seguida fazer uma sua crítica e introduzir o leitor e a leitora nas chamadas “lógicas não-clássicas”. Finalmente, no volume dez, Olgária Matos discorre sobre “A história”, tal como foi conceituada desde a Grécia antiga até a era contemporânea, passando pela modernidade.

Com o fracasso dos movimentos marxistas ortodoxos, vem renascendo neste começo do século 21 o interesse pelo anarquismo, e uma maneira agradável e proveitosa de conhecer mais profundamente o assunto é a leitura de  “Contos anarquistas”, estórias escritas ao longo das décadas por autores brasileiros ou aqui radicados, entre 1890 e 1935, selecionadas por Arnoni Prado, Foot Hardman e Claudia Leal., obra lançada também pela Martins Fontes. Entre os autores, alguns famosos incluem Gigi Damiani, Astrojildo Pereira (que depois se tornou comunista), José Oiticica e Everardo Dias, sendo de notar que há contos em castelhano e em italiano, publicados no Brasil tendo por alvo os imigrantes. São contos sobre a militância, sobre o Estado burguês e a ordem burguesa, além de sobre a moral anarquista e a miséria urbana.

Uma seleção de textos do mais famoso e do mais competente, na imprensa, crítico do regime militar, está incluída no volume “O melhor de Stanislaw Ponte Preta”, o imortal autor do Festival de Besteiras que Assola o País, o célebre Febeapá, lançado pela José Olympio, e da Tia Zulmira e do Primo Altamirando. A seleção é do crítico Valdemar Cavalcanti, e as ilustrações são de outro ícone do carioquismo, Jaguar. Note-se que Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo de Sérgio Porto, não chegou a conhecer o pior do regime militar, pois morreu em setembro de 1968, antes do Ato 5 e da censura, mas o seu é o melhor retrato, senão dos fatos objetivos, pelo menos da vivência subjetiva das pessoas durante o regime militar.

A primeira e uma das principais vítimas do regime militar é objeto de uma exaustiva, mas bem legível, biografia de mais de 700 páginas, o livro “João Goulart – Uma Biografia”, de Jorge Ferreira, professor da Universidade Federal Fluminense, publicada pela Civilização Brasileira. Trata-se do estudo mais completo, e um dos mais isentos, realizado até agora sobre a vida e a carreira política de Jango, que, muito mais do que simplesmente o presidente deposto pelos militares, aparece como encarnação das aspirações e das insuficiências das camadas populares do Brasil entre o fim da Segunda Guerra Mundial e o golpe, período de muitas esperanças e de muitas frustrações. Particularmente importante é o fato de que boa parte dos problemas daquela época, e das soluções que foram propostas, as chamadas reformas de base, está bem viva ainda hoje.

Uma nova concepção de história surgiu nos últimos anos nos países avançados, a abordagem multimilenar, globalizante, envolvendo ainda as relações dos seres humanos com a natureza. Se chega em certos livros recentes a partir do Big Bang. Assim, quatro anos após a publicação original na Inglaterra, chega ao Brasil o livro “A história do homem – Uma introdução a 150 mil anos de história da humanidade”, do pesquisador Cyril Aydon, lançamento da Record. Além de tratar desde os inícios do ser humano atual na África, há 1.500 séculos, a obra também abandona o eurocentrismo tradicional da historiografia, dando a ênfase merecida às demais regiões e às demais culturas.

Em suma, todas obras dignas de leitura atenta.


18 de março de 2012

A herança do anarquismo


Mais um trabalho de História, sobre o anarquismo:

Renato Ribeiro Pompeu
R.A. 1052390


HISTÓRIA SOCIAL DO
ANARQUISMO NO BRASIL



Centro Universitário Claretiano
Curso de História – 2.o ano
Curso de Extensão
Polo de São Paulo












2011
Passado menos de um século do auge do anarquismo operário no Brasil, o que resta de memória dessa vasta movimentação, que em 1917 e 1919 chegou a duas das três únicas greves gerais na cidade de São Paulo (sendo a terceira a do Abono de Natal, hoje conhecido como 13.o salário, em 1962), está nos arquivos e em algumas iniciativas no mundo acadêmico. Para falar a verdade, o próprio 13.o salário é tido pelas atuais gerações de trabalhadores como algo dado e óbvio, sem a lembrança de que foram necessárias lutas até sangrentas durante décadas para concretizá-lo como direito de todos os assalariados.
E os hoje esquecidos anarquistas contribuíram para a conquista de um marco muito mais importante, para os trabalhadores atuais, do que uma questão de salários: foram os anarquistas que forjaram no Brasil recém-saído da escravidão a noção de que o trabalho  confere dignidade aos seres humanos. Os anarquistas organizaram o orgulho de pertencer à classe operária, fomentaram uma cultura operária brasileira, por meio de livros, jornais, revistas, saraus, sessões musicais, peças de teatro – tudo escrito e desempenhado pelos próprios trabalhadores. Particularmente, mulheres anarquistas foram as primeiras, no Brasil, a defenderem a independência de cada mulher, não só no que se refere ao trabalho e ao direito de escolher quando terá filhos, mas também no que se relaciona à própria liberdade sexual.
Ironicamente, os direitos que os anarquistas defendiam, a uma vida e um salário dignos, à limpeza pública, ao sanitarismo, à educação e à saúde, à liberdade de expressão, hoje desfrutados por uma grande parcela (longe de serem todos) dos trabalhadores brasileiros, são na atualidade, na prática, garantidos pelo Estado, tão abominado pelos anarquistas. Mesmo porque o poder do Estado burguês no País hoje é largamente exercido por sindicalistas e outros operários que, no entanto, não guardam memória de fato, nem histórica nem afetiva, de que seus benefícios são oriundos das lutas, dos sofrimentos e dos sonhos de trabalhadores hoje obscuros que lutaram durante décadas por uma sociedade sem classes, sem exploradores e sem explorados, sem oprimidos e sem opressores, autogovernada por todos os seus membros, sem um Estado que paire coercitivamente sobre essa sociedade.
Todos esses direitos, no entanto, estão hoje sob ameaça por mais uma incontrolável crise estrutural do capitalismo mundial. Mais e mais trabalhadores, em todo o planeta, estão perdendo o emprego, ou tiveram seus salários e benefícios sociais drasticamente reduzidos, em empregos a cada dia mais precários e insalubres. Por isso, e por muitos outros motivos, é importante cultivar a história social e fazer nascer a memória do que pensaram, do que fizeram e do que pensaram trabalhadores e trabalhadoras hoje de lembrança tão obscurecida. Pois sua noção de que a exploração não devia ser só amenizada, mas extinta – como era o objetivo dos antigos anarquistas –, está começando a entrar de novo na ordem do dia dos trabalhadores, embora os sentimentos de revolta estejam sendo mais aproveitados por populistas de direita do que por esquerdistas, cuja ala mais radical é a dos anarquistas.

18 de novembro de 2010

Livros variados

A revista Caros Amigos publicou há poucos meses o seguinte artigo:


Regime militar, anarquia, cultura viva, culturas mortas, Mahler....


Um dos lançamentos recentes mais importantes é o livro “Cale-se – A saga de Vannuchi Leme, A USP como aldeia gaulesa, O show proibido de Gilberto Gil”, editado por A Girafa, em que o jornalista Caio Túlio Costa, um dos responsáveis pela renovação da “Folha de S. Paulo” nos anos 1980 e que atualmente dirige o Portal Ig, descreve o movimento estudantil paulista de resistência ao regime militar nos anos 1970; quadros dos grupos políticos estudantis de então estão até hoje atuantes no PT e no PSDB. Os pontos altos do livro são a missa de sétimo dia em 1973 pela morte do estudante Alexandre Vannucchi Leme, assassinado por agentes do regime militar, missa que foi a primeira grande manifestação de massa em São Paulo desde as passeatas de 1968, e o show “Cálice”, de Gilberto Gil, que chegou a ser proibido pelas autoridades da época. Mas o livro tem muito mais coisas, como a primeira descrição da execução, por agentes do regime militar, do também estudante Ronald Mouth Queiróz, e um histórico de grupos políticos como a Ação Libertadora Nacional e a Ação Popular, além de um balanço, três décadas depois, do que aconteceu com os participantes daquelas movimentações. Não perca.

Pela Garimpo saiu o livro “Anarquia e cristianismo”, do sociólogo e teólogo protestante francês Jacques Ellul (1912-1994), segundo o qual “o cristianismo carrega em si uma predisposição à insubmissão, à dissidência e até mesmo à recusa de todo tipo de hierarquia... inclusive interna”. Ellul refere-se, naturalmente, ao cristianismo dos primeiros séculos, já que, “ao longo da história, principalmente a partir do século 19, o cristianismo passou a ser, de maneira geral, identificado com o conservadorismo político e social. Mas nem sempre foi assim. Em sua gênese, a Igreja Cristã se distinguia de grande parte dos demais movimentos de fundamento religioso por sua ousadia e seu inconformismo diante do poder e de toda a opressão que ele representava”.

Já a obra “Ponto de Cultura – o Brasil de baixo para cima”, do historiador Célio Turino, publicado pela Anita Garibaldi, é assim apresentada pelo cientista político Emir Sader: “Quando o ministro Gilberto Gil convidou Célio Turino para desenvolver um programa de democratização e acesso à cultura, mal se podia imaginar as extraordinárias iniciativas, que cruzam o Brasil de um ponto a outro, do sertão ao mar, da Amazônia às pampas. Neste belíssimo livro – não resisto a usar as palavras belo, beleza, a melhor forma de defini-lo – Célio mostra como sua trajetória se confunde com a busca de políticas culturais democráticas e populares para o Brasil (....). Venha, na leitura deste livro, a conhecer o Brasil, o Brasil silenciado, o Brasil que era convidado antes apenas para assistir ao país inventado pelas elites brancas do sul e que agora vai forjando os espaços e os tempos da sua emancipação”. Vemos em suma como, em literalmente centenas de Pontos de Cultura por todo o País, se manifestam, dos índios da Amazônia aos mestiços de Campinas-SP, passando pelos negros da Bahia, as riquíssimas diversidades culturais brasileiras, durante séculos não só combatidas como mais miseravelmente desprezadas pelas elites ditas brancas.

Seria muito útil combinar a leitura do livro de Turino com a do volume “A história da destruição cultural da América Latina – Da conquista à globalização”, lançado pela Editora Nova Fronteira, de autoria do pesquisador venezuelano Fernando Báez, celebrizado por sua obra “História universal da destruição dos livros”. Báez relata: “Além do roubo de matérias=primas, descobri que mais enfurecida e descarada foi a destruição cultural, ou etnocídio; cada assassínio proporcionava desculpas para aniquilar com mais força os símbolos das vítimas; cada novo tormento exigia uma transculturação mais acelerada”.

Este ano se comemoram 150 anos do nascimento do compositor austríaco Gustav Mahler e no ano que vem se lembrarão os 100 anos de sua morte. A propósito dessas importantes datas, a Autêntica lança no Brasil o lindo livro do psiquiatra, psicanalista e crítico cultural argentino Arnoldo Liberman, “Gustav Mahler – Um coração angustiado – Uma biografia em quatro movimentos”. Mahler, um dos maiores músicos de todos os tempos, sofreu por ser judeu na Boêmia em que nasceu; por ter natural da Boêmia na Áustria em que cresceu; por ser natural da Áustria-Hungria na Alemanha em que se estabeleceu – numa época em que o russo Tchaikovski, por exemplo, era considerado um compositor “menor”, por não ser de origem alemã. O livro informa e emociona.