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7 de abril de 2012

Livros de filosofia e outros

Há poucos meses a revista Caros Amigos publicou o seguinte artigo meu:



Ca176ideias



Ideias de Botequim



Marilena Chauí

ajuda a filosofar



Renato Pompeu



Os que querem se iniciar na filosofia, ou relembrar o que já estudaram, podem recorrer a uma coleção de livretos lançada pela Martins Fontes, dirigida por Marilena Chauí e Juvenal Savian Filho. Já foram lançados dez volumes; no primeiro, “Boas-vindas à filosofia”, Marilena Chauí discute as diferentes definições do filosofar, e chama a atenção para como pensar organizadamente é ao mesmo tempo prazeroso e produtivo. No segundo volume, Savian trata da “Argumentação: a ferramenta do filosofar”, uma introdução à arte de pensar com coerência. “Corpo e mente”, o terceiro volume, de Silvana de Souza Ramos, debate o que é ser humano a partir das explicações de dois filósofos franceses, René Descartes, do século 17, e  Maurice Merleau-Ponty, do século 20. Os mistérios de “O tempo”, no quarto volume, são abordados por Fernando Rey Puente, que discute até que ponto a passagem do tempo é um fenômeno “objetivo” e até que ponto é uma experiência “subjetiva”. Os volumes seguintes tratam de “O ser vivo”, “Percepção e imaginação”, “A liberdade” e “Deus”. Já o volume nove trata da “Lógica” e nele Abílio Rodrigues parte da lógica tradicional para em seguida fazer uma sua crítica e introduzir o leitor e a leitora nas chamadas “lógicas não-clássicas”. Finalmente, no volume dez, Olgária Matos discorre sobre “A história”, tal como foi conceituada desde a Grécia antiga até a era contemporânea, passando pela modernidade.

Com o fracasso dos movimentos marxistas ortodoxos, vem renascendo neste começo do século 21 o interesse pelo anarquismo, e uma maneira agradável e proveitosa de conhecer mais profundamente o assunto é a leitura de  “Contos anarquistas”, estórias escritas ao longo das décadas por autores brasileiros ou aqui radicados, entre 1890 e 1935, selecionadas por Arnoni Prado, Foot Hardman e Claudia Leal., obra lançada também pela Martins Fontes. Entre os autores, alguns famosos incluem Gigi Damiani, Astrojildo Pereira (que depois se tornou comunista), José Oiticica e Everardo Dias, sendo de notar que há contos em castelhano e em italiano, publicados no Brasil tendo por alvo os imigrantes. São contos sobre a militância, sobre o Estado burguês e a ordem burguesa, além de sobre a moral anarquista e a miséria urbana.

Uma seleção de textos do mais famoso e do mais competente, na imprensa, crítico do regime militar, está incluída no volume “O melhor de Stanislaw Ponte Preta”, o imortal autor do Festival de Besteiras que Assola o País, o célebre Febeapá, lançado pela José Olympio, e da Tia Zulmira e do Primo Altamirando. A seleção é do crítico Valdemar Cavalcanti, e as ilustrações são de outro ícone do carioquismo, Jaguar. Note-se que Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo de Sérgio Porto, não chegou a conhecer o pior do regime militar, pois morreu em setembro de 1968, antes do Ato 5 e da censura, mas o seu é o melhor retrato, senão dos fatos objetivos, pelo menos da vivência subjetiva das pessoas durante o regime militar.

A primeira e uma das principais vítimas do regime militar é objeto de uma exaustiva, mas bem legível, biografia de mais de 700 páginas, o livro “João Goulart – Uma Biografia”, de Jorge Ferreira, professor da Universidade Federal Fluminense, publicada pela Civilização Brasileira. Trata-se do estudo mais completo, e um dos mais isentos, realizado até agora sobre a vida e a carreira política de Jango, que, muito mais do que simplesmente o presidente deposto pelos militares, aparece como encarnação das aspirações e das insuficiências das camadas populares do Brasil entre o fim da Segunda Guerra Mundial e o golpe, período de muitas esperanças e de muitas frustrações. Particularmente importante é o fato de que boa parte dos problemas daquela época, e das soluções que foram propostas, as chamadas reformas de base, está bem viva ainda hoje.

Uma nova concepção de história surgiu nos últimos anos nos países avançados, a abordagem multimilenar, globalizante, envolvendo ainda as relações dos seres humanos com a natureza. Se chega em certos livros recentes a partir do Big Bang. Assim, quatro anos após a publicação original na Inglaterra, chega ao Brasil o livro “A história do homem – Uma introdução a 150 mil anos de história da humanidade”, do pesquisador Cyril Aydon, lançamento da Record. Além de tratar desde os inícios do ser humano atual na África, há 1.500 séculos, a obra também abandona o eurocentrismo tradicional da historiografia, dando a ênfase merecida às demais regiões e às demais culturas.

Em suma, todas obras dignas de leitura atenta.


24 de setembro de 2010

A história se repete, desta vez se espera como farsa e não como tragédia

Tendo em minha vida passado pelas campanhas da mídia contra Getúlio, Juscelino, Jango e agora contra Lula e Dilma, com a mídia sempre procurando mobilizar setores militares, como agora, em que o Clube Militar realizou um debate sobre liberdade de imprensa, estou consciente de que na sociedade brasileira há décadas se enfrentam dois grandes grupos, um que representa os poderes tradicionais das camadas altas e seus aliados de classe média, outro que representa novos atores políticos das camadas médias e baixas e seus aliados. Pela esquerda sempre surgem posições vanguardistas de crítica a esse segundo grupo que representa as camadas populares, com as vanguardas atacando o que julga serem concessões que esses novos atores políticos fazem aos poderes dominantes. Sabe-se como terminaram em tragédia as ofensivas contra Getúlio (suicídio), Juscelino (eleição do Jânio) e Jango (golpe de 64). O que temos de esperar é que, agora, como disse Hegel e Marx glosou, a história não se repita como tragédia, sim como farsa. De todo modo o confronto maior vai continuar, e as vanguardas de esquerda vão continuar criticando por fora esse confronto.