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7 de junho de 2013

A guerrilheira que morreu quatro vezes

A revista Retrato do Brasil encomendou a seguinte resenha: - As mortes e as mortes de Maria Augusta Thomaz, guerrilheira contra o regime militar - Renato Pompeu - Uma biografia pioneira no resgate da memória de uma grande brasileira que até agora não teve um reconhecimento à altura do que merece, eis o que nos reserva o livro “Luta Armada / ALN-Molipo – As 4 mortes de Maria Augusta Thomaz”, de autoria do jornalista goiano Renato Dias, publicada pela NM e RD Movimento, com apoio da Secretaria da Cultura da Prefeitura de Goiânia. A apresentação já indica em síntese toda a grandeza de quem foi Maria Augusta Thomaz (1947-1973), que em sua tão curta vida de 25 anos tantas coisas fez em prol de seus ideais de liberdade, solidariedade e justiça, a ponto de ter sacrificado a própria vida por puro amor ao povo, embora se possa discutir se os meios que adotou podiam resultar nos fins que ela almejava. Diz a apresentação: “Presa no Congresso da UNE-União Nacional de Estudantes, em Ibiúna (SP), no ano de 1968, a bela estudante de Filosofia Maria Augusta Thomaz sequestrou, em 1969, um avião em Buenos Aires, desviou-o para Cuba, fez treinamento de guerrilha na ilha de Fidel Castro e fundou o Molipo-Movimento de Libertação Popular. Mais, soltou bomba na Esso, atacou o Consulado da Bolívia, foi baleada, recuperou-se e acabou assassinada em 17 de maio de 1973, em Rio Verde (GO), aos 25 anos de idade. Mesmo morta, a Justiça Militar a condenou. A sua sepultura foi violada no dia 31 de julho de 1980. Os seus restos mortais desapareceram. Mulher que amava a revolução, morreu quatro vezes”. Ou seja, Maria Augusta morreu, para a família e para os estudos, quando entrou para a clandestinidade; morreu quando foi assassinada; morreu quando seus restos mortais foram violados e roubados por agentes desse mesmo regime militar, que ocultava a sua morte, e morreu finalmente quando foi feita a sua certidão de óbito. Antes de conhecer a biografada, precisamos, neste caso específico, dizer quem é o biógrafo. Renato Dias conhece na carne o sofrimento da família de Maria Augusta, que perdeu um ente querido e não pôde lhe apresentar as últimas honras. Isso aconteceu também com o jornalista goiano; seu irmão Marcos Antônio Dias Batista, adolescente e também militante contra o regime militar, desapareceu quando tinha apenas 15 anos de idade, nos anos 1970., e nunca mais foi visto ou se ouviu falar dele. A emocionalidade de sua própria situação não impediu que Renato Dias procurasse ser objetivo em suas pesquisas em jornais e livros sobre o regime militar, guerrilha urbana e rural, política estudantil; em arquivos da Justiça Militar e em entrevistas com familiares, colegas e amigos de Maria Augusta. Embora seu livro pague um tributo ao pioneirismo no tema, pois sua qualidade como biografia é algo irregular, principalmente no que se refere à reconstrução dos contextos sociais, políticos e econômicos em que transcorreu a vida de sua heroína, e no que se refere à vida pessoal da jovem militante executada por agentes da repressão, ele em todo caso nos fica devendo um trabalho mais definitivo sobre ela. É inegável, porém, que Renato Dias consegue resgatar a grandeza humana da vida de sua biografada. Maria Augusta Thomaz nasceu em 1947 na pequena cidade de Leme, no interior paulista, primogênita de um casal de classe média abonada, o pai dentista de ascendência síria que se tornou professor e a mãe uma professora de ascendência alemã. Depois, viriam três irmãos e uma irmã. Maria Augusta havia puxado a mãe e era loura de olhos verdes; ao crescer, se tornou uma moça cuja beleza chamava a atenção de todos. A família tinha casa própria, carro e telefone, um padrão de vida bastante alto naquele Brasil da passagem dos anos 1940 para os anos 1950, num país então predominantemente agrícola. Como raras crianças daquela época, Maria Augusta na infância teve velocípede, bicicleta e grande número de bonecas. Terminou em 1959 o primário em Leme com média 8,5 no 4.o ano e imediatamente passou no rigoroso exame de admissão (espécie de vestibular para o curso secundário) naquele tempo vigente no prestigiado ensino público de então. Gostava de tomar chuva e ia a pé na chuva ao cemitério local ver as gotas escorrerem por sobre uma imagem de Cristo, dizendo que estava vendo as lágrimas de Jesus. Em 1960 começou o ginásio, primeira fase do secundário de então. Sempre boa aluna, quatro anos depois iniciava o curso de normalista, do qual iria sair dali a três anos com o diploma de professora primária e com o direito de prestar vestibular para qualquer faculdade. Nesse período em que ela fez o ginásio e o normal, o País se via tumultuado pela renúncia do presidente Jânio Quadros em agosto de 1961, a oposição dos ministros militares à posse do vice-presidente João Goulart, a vitoriosa Campanha da Legalidade que pôs Goulart no poder; a efervescência das camadas populares nas lutas pelas reformas de base, e o golpe antipopular de 1.o de abril de 1964, golpe logo rebatizado de “Revolução de 31 de março”. Por outro lado, naquele início dos anos 1960 ocorria, a par de uma criativa fermentação política em diferentes países capitalistas e socialistas, também uma reformulação em escala mundial dos padrões de comportamento, em especial das relações entre os sexos, com uma progressiva emancipação, inclusive sexual, das mulheres. Maria Augusta, fã de músicas da chamada Jovem Guarda, de influência americana, não ficaria imune a essas duas vertentes de mudanças. Depois de ter namorado firme e até mesmo ter ficado noiva de um jovem de seu mesmo nível social, no conservador ambiente de Leme, ela causou um certo tumulto em sua família, ao romper o noivado e se relacionar com um surdo-mudo trabalhador numa propriedade rural e que, ainda por cima, era separado de sua esposa. Nessa situação, Maria Augusta teve de enfrentar o pai, que porém a perdoou. Sem dúvida, esse episódio indica que Maria Augusta já se sentia vinculada emocionalmente aos mais desvalidos. A outra vertente, a das mudanças políticas, logo embebeu a vida de Maria Augusta. Enquanto dava aulas no primário numa escola rural da região de Leme, foi aprovada no fim dos anos 1960 no vestibular de Filosofia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo-PUC-SP, transferiu-se para a capital do Estado, morando num pensionato, e passou a viver o ambiente opressivo imposto pelo regime militar aos estudantes universitários. A combativa União Nacional dos Estudantes-UNE de então tinha sido proibida pelas autoridades governamentais e o movimento estudantil entrou para a clandestinidade. Maria Augusta revoltou-se contra isso e ingressou no clandestino Partido Comunista Brasileiro-PCB (hoja PPS), mas logo aderiu a uma tendência mais combativa do velho Partidão, a Dissidência Comunista. No Brasil, os grandes movimentos de 1968, no começo do ano, se intensificaram com as passeatas de massa, em várias cidades do País, de protesto contra o assassínio do secundarista Édson Luís durante uma manifestação. Já no segundo semestre de 1968, Maria Augusta, como centenas de outros participantes do Congresso da UNE realizado clandestinamente em Ibiúna-SP, foi presa pelos agentes da repressão que descobriram o encontro e cercaram a propriedade rural em que ele estava sendo realizado. Como a maioria dos jovens então detidos, Maria Augusta logo foi solta, mas já estava fichada pela polícia política do regime militar. Em outubro houve a chamada Batalha da Rua Maria Antônia, onde ficavam a contestadora Faculdade de Filosofia da USP e a conservadora Universidade Mackenzie, batalha em que morreu baleado o estudante esquerdista Josué Guimarães. Paralelamente se desenvolvia a crise entre o governo militar e o Congresso Nacional, que redundaria, em 13 de dezembro de 1968, no chamado golpe dentro de golpe, o Ato Institucional n.o 5, que fechou o Congresso e restringiu duramente as liberdades públicas de manifestação, de expressão, de mobilização e de organização. Chegava ao fim a era das passeatas. No réveillon de 1968 para 1969, num apartamento do famoso Edifício Copan, na Zona Central de São Paulo, houve uma discussão entre estudantes a respeito da Ação de Libertação Nacional, organização de guerrilha urbana fundada pelo veterano líder comunista Carlos Marighella, cansado do que considerava a inútil atividade apenas política contra o regime militar preconizada pela direção do PCB. Aqueles estudantes, no apartamento de seu colega Antônio Benetazzo, ligado ao presidente da União Estadual de Estudantes-UEE-SP, José Dirceu (o mesmo ex-chefe da Casa Civil do governo Lula agora acusado no chamado processo do mensalão), incluíam Maria Augusta e seu namorado José Wilson Lessa Sabag, que fora casado com outra mulher e tinha uma filha, e levara a nova companheira para a ALN. O jovem casal concordou, com os demais, com a análise política de Marighella, segundo a qual estavam esgotadas as possibilidades da luta legal e pacifista contra o regime militar e se deveria optar pela luta armada. Outras organizações também tinham optado pela luta armada, como o Partido Comunista do Brasil-PC do B (ainda hoje existente), a Vanguarda Popular Revolucionária-VPR, a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares-VAR-Palmares. No contexto dessa conjuntura política é que se deve entender o que aconteceu naquele réveillon: sem que os demais participantes percebessem, um grupo de cinco estudantes, do qual fazia parte Maria Augusta, abandonou a festa, saíram em dois carros e roubaram duas armas curtas e três longas. E voltaram para a festa. Como Maria Augusta, todos os demais que participaram dessa ação acabaram ao longo dos anos mortos por agentes do regime militar, com exceção de Paulo de Tarso Venceslau, único sobrevivente, que depois foi ligado ao Partido dos Trabalhadores-PT, do qual saiu acusando vários dirigentes de corrupção. Esse roubo, do qual Renato Dias não dá maiores detalhes, foi o batismo de fogo de Maria Augusta na luta armada. Em seguida, ela passou, com outros doze jovens, a integrar o Grupo Tático Armado n.o 2 da ALN, conhecido como GTB. A primeira ação do GTB, em 11 de julho de 1969, foi o assalto a um salão chique de cabeleireiro da próspera Alameda Jaú, região da famosa Avenida Paulista, onde foram lançados panfletos e obtidos dinheiro (para sustentar as atividades políticas e a própria sobrevivência dos militantes clandestinos) e perucas (para serem usadas como disfarces em outras ações). Ainda em julho e agosto e até 3 de setembro, Maria Augusta participou de várias outras ações: assaltos a um supermercado no bairro paulistano de Pinheiros (levaram dinheiro), ao Centro Cultural Brasil-EUA (levaram um mimeógrafo, tipo de impressora portátil da época, e resmas de papel para impressão),ao Curso Objetivo (hoje Universidade Paulista-Unip, do qual levaram dinheiro), às instalações dos transmissores da Rádio Nacional (hoje Rádio Globo, onde transmitiram um discurso político previamente gravado, de convocação para a luta contra o regime militar), e à fábrica Berse (de onde levaram material cirúrgico para equipar uma clínica clandestina que atenderia guerrilheiros urbanos feridos em combate). Em 3 de setembro de 1969, quatro integrantes do grupo, entre eles Maria Augusta e Sabag, foram descontar um cheque roubado do Curso Objetivo, numa agência de banco no térreo do Edifício Itália, o mais alto de São Paulo, bem na Zona Central. Desconfiado do cheque, um funcionário do banco chamou um guarda, houve tiroteio, Sabag baleou o guarda, e foi baleado no braço. Os integrantes do GTB fugiram, mas o rastro de sangue levou a Polícia até o apartamento em que Sabag se havia refugiado. No novo tiroteio, morrem Sabag e o soldado da Polícia Militar João Guilherme de Brito. Outros integrantes do GTB foram presos, mas Maria Augusta conseguiu escapar. Entretanto, ela tinha deixado sua carteira de estudante, com nome e foto, num dos carros usados na ação, apreendidos pela Polícia. Em outras palavras, ela tinha de entrar na clandestinidade com outro nome e de deixar de ter contato com a família. No dia seguinte, 4 de setembro, o GTA n.o 1 da ALN, em colaboração com outros grupos, sequestrou no Rio de Janeiro o embaixador americano, Charles Burke Elbrick, talvez a ação mais famosa da guerrilha urbana no Brasil. Para não matarem o embaixador, os sequestradores exigem e conseguem a libertação de presos políticos como José Dirceu, o líder camponês comunista Gregório Bezerra e o ativista Ricardo Zaratini, embarcados para o Exterior. A 25 de setembro policiais da capital vão para Leme, à procura de Maria Augusta; frustrados, passam a grampear o telefone da casa da família e, a 28 de outubro, gravam uma ligação de Maria Augusta para a mãe e conseguem localizar o telefone de onde ela ligou, em São Paulo. Mas logo em seguida, mandada pela ALN, ela já estava clandestinamente em Buenos Aires e, a 4 de novembro de 1969 (mesmo dia em que Marighella foi assassinado pela Polícia política em São Paulo), entrou, com um grupo de companheiros também clandestinos, num avião da Varig (grande empresa brasileira de aviação da época, hoje extinta) que ia para o Chile. Em meio à viagem, armados, liderados pelo pianista Aylton Adalberto Mortari, que se tornaria o novo namorado de Maria Augusta, os jovens dominaram a tripulação e mandaram o avião seguir para Cuba. Maria Augusta, considerada uma guerrilheira altamente treinada, foi encarregada da parte mais perigosa da ação. Carregava na bolsa uma bomba de alto teor explosivo que, se caísse ao chão, explodiria e levaria o avião à destruição e todos os seus ocupantes à morte. Em Cuba, Maria Augusta e Mortari, os demais sequestradores do avião e companheiros da ALN que já estavam na ilha, como José Dirceu, foram submetidos a meses de duro treinamento militar, aprendendo tanto guerrilha urbana, na qual já tinham se iniciado, quanto guerrilha rural. Quando não estavam treinando, discutiam política. Chegaram à conclusão de que a ALN havia abandonado a luta política, propagandista e organizatória entre as grandes massas da população, isolando-se como vanguarda armada não reconhecida como liderança pelas camadas populares. Saíram da ALN e fundaram em 1970, ainda em Cuba, o Movimento de Libertação Popular-Molipo, consolidado no ano seguinte, sempre em Cuba, e do qual faziam parte, além de Maria Augusta, de Mortari e de José Dirceu, também José Roberto Arantes de Almeida (morto pelo regime militar) e Ana Corbisier, sobrevivente daquela época. No total, cerca de 30 integrantes. Mas, enquanto outros grupos que criticavam a luta exclusivamente armada a abandonaram totalmente, os integrantes do Molipo decidiram continuar a ação armada, mas procurando combiná-la com ações políticas de massas. Segundo observadores citados por Renato Dias, assim o Molipo, enquanto durou, não conseguiu sair do isolamento que tanto criticava. Como estava ocorrendo o chamado “milagre econômico” do regime militar, financiado por grandes empréstimos externos, grande parte das camadas populares estavam melhorando de vida e não se consideravam prejudicadas a tal ponto que quisessem aderir a um movimento armado Com suas ações armadas sem maior repercussão entre o povo, os guerrilheiros entraram num círculo vicioso em que a luta armada, sem eco político, se tornou o único caminho pelo qual podiam sobreviver fisicamente. No começo de 1971, Arantes e o casal Maria Augusta e Mortari retornaram ao Brasil. Em maio, assaltaram em São Paulo um cartório do Registro Civil, para obter impressos que permitissem a elaboração de documentos de identidade falsos, e uma gráfica para obterem uma impressora offset e ainda distribuíram para os estudantes da Cidade Universitária exemplares de um jornal impresso clandestinamente. Em julho, Maria Augusta, Mortari e outros, andando de carro pela Grande São Paulo, descobriram na cidade de Santo André um carro da Radiopatrulha sendo lavado num posto de gasolina. Desceram e pegaram uma metralhadora e dois revólveres. Em agosto, em vários grupos, assaltaram um posto do Ministério do Trabalho, no bairro paulistano do Ipiranga; o restaurante Bierhalle, no bairro de Moema, na época a maior cervejaria da cidade.E ao assaltar uma Radiopatrulha em São Caetano do Sul, no ABC paulista, vizinho à capital, balearam o policial Norival Ciciline A 9 de outubro de 1971, Maria Augusta participou do lançamento de uma bomba no Consulado da Bolívia, no Centro de São Paulo, a 70 metros da sede da Secretaria da Segurança Pública. A ação lembrava o assassínio, quatro anos antes, do Che Guevara em território boliviano. No mesmo mês, Maria Augusta, de arma na mão, ajudou a assaltar uma loja do bairro de Mirandópolis para, novamente, levar perucas, e o grupo realizou pichações na USP e na PUC em memória de Marighella. No fim de outubro, Maria Augusta ajudou a lançar uma bomba num escritório da Esso no terceiro andar de um prédio na rua Pedro Américo. Já em novembro, Maria Augusta e Mortari estavam numa ação no bairro popular paulistano do Jardim Miriam, na Zona Sul, e no bairro também popular da Brasilândia, da Zona Oeste, para protestos contra o aumento das tarifas de ônibus. Na Brasilândia; nessa ocasião foi morto o cabo da Polícia Militar Nelson Martinez Ponce. E o grupo fez nova pichação na USP em honra de Marighella. A 4 de novembro, Mortari saiu num carro roubado para pagar a conta d’água da casa em que morava com Maria Augusta e Arantes, no bairro da Vila Prudente, Zona Sul. Uma viatura policial identificou o carro roubado, o parou e Mortari reagiu a tiros. Foi preso e nunca mais se ouviu falar dele, é “desaparecido político”. O talão da conta d’água levou ao endereço na Vila Prudente, onde foi encontrado e morto José Roberto Arantes. Maria Augusta não estava em casa e, ao chegar à rua, soube do acontecido e escapou. Mas no dia seguinte, tinha um “ponto” (encontro marcado clandestinamente) com um companheiro de grupo; só que esse “ponto”, na rua Turiassu, Zona Oeste, era conhecido da repressão e ela e o companheiro foram baleados pelos agentes que vigiavam o local. O companheiro caiu (morreu após ser preso), mas Maria Augusta, mesmo ferida nas costas, na altura da cintura, conseguiu fugir, atirando contra os policiais. Ela conseguiu tomar um táxi e rumou para a avenida Lins de Vasconcelos, na Zona Central, tendo pagado a corrida com uma das perucas há pouco roubadas, pois havia perdido a bolsa no tiroteio. Dali um companheiro a levou a uma casa na Vila Sônia, onde foi extraída a bala. Apesar de ter perdido dois namorados mortos em combate, em um mês ele estava pronta para outra. A 5 de novembro, ela participou do assalto a uma fábrica de roupas no bairro do Brás, roupas que foram distribuídas para pessoas carentes no bairro do Sapopemba, Zona Sul. Mas, na passagem de 1971 para 1972, o Molipo tinha sido praticamente dizimado, e Maria Augusta tinha de abandonar a vida urbana para refugiar-se no interior de Goiás e tentar instaurar a guerrilha rural. Usando contatos políticos, abrigou-se com companheiros num rancho em Jataí (GO). Agentes da repressão, por meio de torturas a outros companheiros presos, conseguiram localizar o rancho em maio de 1973 e logo mataram, antes de entrar na casa, um companheiro de Maria Augusta; e, já dentro da casa, ela, que dormia, foi morta na cama. Os agentes ordenaram que moradores próximos enterrassem os corpos no terreno do próprio rancho. Meses depois, mesmo morta, ela foi condenada “à revelia” pela Justiça Militar Quando a história vazou para o jornalista Antônio Carlos Fon, então trabalhando em Goiânia, em agosto de 1980, ao chegar às covas, ele descobriu que pouco antes de sua vinda agentes da repressão tinham violado as sepulturas e sumido com os restos mortais. Só restaram uns poucos ossinhos e dentes. Maria Augusta morreu sem saber que um dos seus instrutores de guerrilha em Cuba era agente da CIA, a qual informou as atividades do Molipo às autoridades brasileiras. Essa é uma das revelações do livro de Renato Dias, que conta ainda com textos de destacados militantes contra o regime militar: apresentações de Daniel Aarão Reis Filho, Carlos Eugênio Sarmento Coelho da Paz, Ivan Seixas, prefácio de José Dirceu e posfácio de Luiz Eduardo Greenhalgh. Essa jovem que não temeu a morte é mais uma heroína do povo brasileiro.

14 de abril de 2013

[Agência Pública] EUA fizeram lobby pró-censur​a durante governo militar

[Agência Pública] (livre reprodução desde que citada a fonte) Inbox x EUA FIZERAM LOBBY PRÓ-CENSURA DURANTE GOVERNO MILITAR 09.04.13 Por Natalia Viana#WikiLeaksPlusDIlustração de Elifas Andreato em Movimento, edição 154 de 12 de junho de 1974. Fonte Livro Movimento, uma reportagem Embaixada pediu a repórter da TV americana para ouvir Roberto Marinho e Nascimento Brito, diretor do Jornal do Brasil, vozes menos criticas à censura oficial [+][-][*] 5 2 0 Em 1973 o governo do general Emílio Garrastazu Médici entrava em seu quarto ano, consolidando a presença da chama “linha dura” militar no governo. A censura à imprensa se estruturou e se oficializou, abarcando todos os principais veículos de imprensa do país. Sob Médici, a maioria das redações recebiam bilhetinhos apócrifos ou ligações quase diárias de membros da Polícia Federal – a força encarregada de controlar a censura – com a relação de temas que não poderiam ser abordados: desde relatos de tortura e prisões políticas até reportagens sobre a precária situação dos trens, a pobreza no país ou escandalosos casos de corrupção. Outras, como Veja e o Pasquim, tinham que enviar seu conteúdo para a censura prévia. O Estado de S. Paulo convivia com um censor plantado dentro da redação, lendo todos os textos para decidir o que podia e o que não podia ser publicado. Para os Estados Unidos, porém, país que propagandeava a democracia como resposta à “ameaça comunista”, nada disso importava. Pelo contrário: documentos constantes no PlusD, do WikiLeaks, mostram que a diplomacia americana chegou a defender a censura do regime militar brasileiro perante um jornalista da poderosa rede de TV americana CBS. “O cônsul geral de São Paulo relata que o correspondente da CBS na América Latina, George Nathanson, está em São Paulo, fazendo um vídeo sobre a censura à imprensa brasileira. A ideia de realizar essa história foi incitada pelo artigo do New York Times de 21 de feveriro sobre esse assunto”, escreveu o então embaixador dos EUA no Brasil, William Rountree, que ficou no posto entre 1970 e 1973. O correspondente estava filmando na redação do Estado de São Paulo e, segundo ele, a reportagem corria muito bem. Mas a embaixada tinha outra ideia de como a censura deveria ser retratada. “Durante um almoço com Nathanson na semana passado, o Oficial para Relações Públicas [da embaixada] sugeriu que Nathanson tentasse obter todos os lados da história da censura no Brasil”, descreve o documento de 9 de março de 1973, marcado “para uso oficial limitado”. “Além de apenas falar com fontes da mídia veementemente opostos e afetados pela censura presente, o oficial de relações públicas mencionou que seria útil a Nathanson falar com figuras como o conselheiro presidencial Coronel Otávio Costa [chefe da assessoria de Relações Públicas da Presidência] e outros oficiais do governo, bem como representantes da mídia como Roberto Marinho, do Globo, e Nascimento Brito, do jornal do Brasil, que veem a questão da censura de maneira diferente da família Mesquita, do Estado”. Em seguida o embaixador, satisfeito, afirma que o jornalista acatou a sugestão e “expressou interesse nesta abordagem para fazer uma cobertura balanceada”. EXISTE COBERTURA BALANCEADA SOBRE CENSURA? O aparato censório do regime militar foi construído sob as asas do Ato Institucional no. 5. Logo após sua decretação, em 13 de dezembro de 1968, o general Silvio Correia de Andrade, delegado da Policia Federal em São Paulo, declarou em entrevista coletiva: “Podem dizer que foi instaurado o arrocho à imprensa escrita, falada e televisada por parte do Contel, sob minha fiscalização direta. Os jornais estão sob censura no que diz respeito a greves, passeatas, comícios, agitação estudantil e qualquer tipo de ataque às autoridades”. A PF seria responsável por calar a imprensa; no ano seguinte, dezenas de delegados destacados para esse fim receberam uma extensa lista de normas. Eles deviam vetar notícias “falsas” ou sensacionalistas, testemunhos em “off” (com fontes anônimas), comentários de pessoas atingidas pelos atos institucionais ou ligadas a entidades estudantis dissolvidas. Também eram proibidas notícias sobre todo tipo de repressão: cassações de mandatos, suspensão de direitos políticos, prisões, tortura. Em 1971 o ministro da justiça Alfredo Buzaid aumentou a lista, proibindo também notícias “sensacionalistas” que prejudicassem a imagem do Brasil no exterior, notícias que colocassem em perigo a política econômica do governo, e até mesmo a “divulgação alarmista” de “movimentos subversivos” em países estrangeiros. Segundo levantamento do jornalista Élio Gaspari, entre 1972 e 1975 o Jornal do Brasil recebeu 270 ordens enviadas por telefone ou por escrito pelos policiais da PF. Apenas em 1973 – ano em que os diplomatas americanos queriam suavizar a cobertura da CBS sobre a censura brasileira – o pesquisador Paolo Marconi – consultando diversos veículos como Folha de S. Paulo, Rádio e TV Bandeirantes, em São Paulo, e Rádio e TV, em Salvador – contabilizou um total de 143 ordens enviadas pela PF. A maioria dos veículos praticava, então, a auto-censura, descartando os temas proibidos. É o caso da Globo de Roberto Marinho e do Jornal do Brasil de Nascimento Brito, apontados pelo embaixador como menos críticos à censura oficial. Os veículos que mostravam alguma resistência tinham edições inteiras apreendidas ou eram submetidos à censura prévia – caso do Jornal da Tarde e da Revista Veja, então comandada por Mino Carta, que eram visitados por censores ou obrigados a mandar as edições antes de publicadas para a sede da PF em Brasília. Convivendo diariamente com um censor da PF, o Estado de S. Paulo teve 1136 reportagens censuradas entre março de 73 e janeiro de 75. Foram vetadas matérias sobre a Petrobrás, a questão indígena, a política de saúde pública, corrupção no ensino e até mesmo racismo no futebol. Por sua vez, semanários pequenos e mais independentes como Opinião, baseado no Rio de Janeiro, e Movimento, de São Paulo, tiveram jornalistas presos, edições apreendidas e seus diretores interrogados inúmeras vezes. Daí o caráter “econômico” da censura, que foi responsável pelo desmantelamento, por asfixia financeira, de jornais de extrema qualidade e linhas editoriais progressistas – provocando um impacto que até hoje influencia o cenário da imprensa brasileira. Publicações independentes como Opinião, Ex, Movimento e Pasquim tiveram edições inteiras apreendidas, e tiveram que fechar as portas sob o peso da censura. Só o jornal Movimento teve 40% de todo o seu conteúdo censurado – mais de 3 mil artigos, mais de 4,5 milhões de palavras. OS AMERICANOS SABIAM, CLARO Nada disso era novidade para o Departamento de Estado chefiado por Henry Kissinger – o mesmo que criticou a lei de acesso à informação americana afirmando “antes da lei eu costumava dizer em reuniões, ‘o que é ilegal nós fazemos imediatamente; o que é inconstitucional leva mais tempo’, mas desde a lei eu tenho medo de dizer coisas assim”. Na verdade, os diplomatas americanos mantinham contato próximo com jornalistas brasileiros, acompanhando de perto as consequências da censura. Assim, em 23 de março de 1973 – mesmo mês em que a embaixada defendia a censura junto ao correspondente da CBS – o cônsul de São Paulo, Frederick Chapin, relatou uma longa conversacom o dono do Estadão, Julio Mesquita, sobre a censura ao jornal. Embora o general Ernesto Geisel tivesse assumido com o compromisso de promover a “distensão política”, com a restauração dos direitos civis, nas duas semanas anteriores a tesoura da censura havia cortado seis matérias do Estadão, que as substituíra por cartas e receitas culinárias. Ao mesmo tempo, relata Chapin, Julio Mesquita enviara telegramas a todos os congressistas, e o Estadão publicou uma nota avisando que quem quisesse saber por que conteúdos desimportantes estavam aparecendo no jornal poderia ligar para a redação – receberam 167 ligações. “Julio Mesquita disse que a forte pressão que ele estava exercendo no governo para relaxar a censura estava fazendo efeito”, relatou Chapin, já que o Estadão chegara a publicar histórias – incluindo uma sobre censura – que não teriam passado. “Julio disse que pretendia continuar a pressionar o governo na questão da censura”. Ainda assim, os censores só sairiam do Estadão dois anos depois. Sob o embaixador John Crimmins, que assumiu o posto após Rountree, a embaixada dos EUA manteve uma “postura de não pôr as mãos” no tema da censura, segundo palavras do próprio. Mas continuava acompanhando de perto o despropósito da censura, conversando diretamente com editores e publishers. É o que mostra um documento do Rio de Janeiro, datado de 13 de maio de 1974, detalhando a situação do jornal Opinião. Em conversa com o então cônsul geral Clarence Boonstra, o empresário Fernando Gasparian, do Opinião, contava sobre os cortes mais recentes: uma entrevista com o então candidato a presidência francesa, François Mitterand, e com o cardeal Dom Paulo Evaristo Arns. Nesse momento, a censura exigia novamente que o jornal fosse enviado a Brasília, antes de ser publicado, até quarta-feira de cada semana. “Gasparian estava ‘chocado e desanimado’ com os últimos acontecimentos”, relata Chapin, e decidiu ir a Brasília para investigar o motivo dos últimos cortes com o diretor-geral da PF, o coronel Moacyr Coelho. O coronel, que Gasparian descrevia como “deprimido e vacilante”, lhe disse que a censura havia sido decidida “em altas instâncias do Ministério da Justiça” e que havia outros jornais sob maior pressão, escreve Boonstra. “Ele voltou achando que ‘alguma coisa aconteceu dentro do alto escalão do governo para forçá-los a voltar às antigas restrições’. Gasparian disse que ouviu rumores em Brasília que os militares linha-dura não estavam felizes com os passos do regime em direção à liberalização e haviam demandado ‘apertar’ o controle da imprensa e de outras áreas”, diz o despacho diplomático. A partir de 1975, a censura se tornou mais seletiva e a censura prévia foi sendo retirada aos poucos. Não foi um processo decisivo, tendo idas e vindas de acordo com as pressões do momento, como mostram as conversas constamente relatadas pelos diplomatas americanos. Em 4 de abril daquele ano, a embaixada em Brasília enviou a Washington um relato sobre a apreensão do jornal Pasquim, do Rio de Janeiro, pela PF, ocorrida logo depois do veículo ter tido a censura prévia encerrada, e a uma edição comemorativa especialmente robusta. Chamando-o de “tabloide satírico semanal de centro-esquerda” Crimmins relata que, durante 5 anos, o semanário fora obrigado a enviar para Brasília duas a três vezes mais material do que necessário – texto, charges e fotos – para ser cortado. “De acordo com [Millôr] Fernandes e outras fontes bem informadas da imprensa, o alvo real da apreensão do Pasquim era um editorial forte de Fernandes detalhando os problemas do jornal com a censura. Esses problemas incluíam: uma queda brusca de leitores (Fernandes afirma que houve uma queda de 200 mil para 100 mil em circulação nos seis primeiros meses de censura; alguns observadores acreditam que o cálculo atual seja de 50 mil) e assédio da equipe do Pasquim quando a censura teve início (ex. interrogatório policial da maioria deles e prisão de dez editores por dois meses, seguida da sua libertação e o arquivamento subsequente do inquérito). Fernandes também argumentava [no editorial] que o fim da censura prévia não significa que a imprensa livre brasileira possa imprimir o que quer e lembrava aos leitores que muitos dos jornais brasileiros ainda estavam sujeitos à censura”. O comunicado encerrava dizendo que a apreensão “foi um enorme golpe em termos financeiros”, já que o Pasquim dependia de vendas em banca. A Veja de Mino Carta A diplomacia americana também acompanhou de perto o périplo da revista Veja, fundada e editada por Mino Carta durante a ditadura militar e submetida a dois tipos de censura prévia ao longo dos anos: no geral, o censor da PF ia até a redação, no prédio da editora Abril; mas em algumas ocasiões o material tinha que ser enviado a Brasília dias antes da publicação. Em maio de 1974, foi a vez do consulado de São Paulo informar sobre a censura a Veja. O primeiro despacho, do dia 10, é assinado pelo cônsul-geral Frederick Chapin. “Uma empreitada de censura ameaça a continuação de Veja, respeitada revista semanal”, descreve o cônsul A nova ordem exigia que todo conteúdo da revista fosse enviado a Brasília na quarta-feira, inviabilizando a cobertura de fatos “quentes”. Mino Carta – a quem Chapin chama de “um dos jornalistas mais hábeis e mais conhecidos” do país – contava que a nova ordem era uma represália, em especial, por uma charge de Millôr Fernandes mostrando um homem sendo torturado, sobre a legenda “nada consta”. “Essa semana, quando Mino soube do endurecimento, ele ligou para o general Golbery, que foi ‘evasivo e hipócrita’. O general Golbery mencionou especificamente alguma insatisfação sobre a charge de Millôr Fernandes”. Decepcionado, já que tanto Golbery quanto o ministro da justiça de Geisel, Armando Falcão, haviam se manifestado contra a censura, mas estariam cedendo aos militares “linha dura”, Mino Carta ameaçava deixar a Veja. “Carta disse que não quer ter mais nada a ver com Golbery e Falcão porque ‘seria como lidar com office boys’”, relata Chapin. “Essas ordens, ele adicionou, vieram do ministro do Exército Dale Coutinho, um representante do ‘sistema’, ou como ele chama, ‘o capo máfia’ que ele [Mino Carta] acredita que controla o país’”, relata o despacho enviado a Washington. “O cumprimento das novas regras vai efetivamente matar a Veja, segundo Carta”, escreve o cônsul, que finaliza o documento narrando que, para o jornalista, “o propósito do endurecimento não é destruir Veja, mas colocar a revista e a editora Abril ‘de joelhos”. Roberto Civita, vice-presidente e filho do dono da editora Abril, viajaria para Brasília em busca de um acordo – que também foi acompanhado de perto pelos americanos. Em 28 de maio, outro despacho do consulado de São Paulo, relata que a ordem fora revertida. Como narrou Victor Civita ao americano, “[Dale] Coutinho se recusou a ver Roberto, que então ligou para Golbery e para o ministro Falcão”. A redação, portanto, voltaria a receber a visita de censores. O próprio Golbery e Falcão haviam servido como “fiadores” do acordo entre os censores e Veja. “Victor estava otimista sobre as relações futuras com a administração Geisel”, relatou Chapin. O dono da Abril afirmou: “eu só tenho três ou quatro amigos no governo agora, mas em um ano ou mais eu vou conhecer bem 10 ou 12 deles”. No entanto, a paz não duraria muito, reflexo da queda de braço interna à administração Geisel. Em agosto de 1975, a ordem de enviar o material para Brasília voltou – e foi prontamente relatada o Departamento de Estado dos EUA. O estopim fora uma edição recente de um discurso de Geisel, que Veja via como um sinal de que a distensão estava morta. Hernani Donado, Relações Públicas da revista, conversou com os diplomatas. “Donato disse que a linha dura ficou irritada pelos elogios de Veja ao general Golbery (….) Golbery ligou pessoalmente para Mino Carta e pediu que ele parasse com as histórias: ‘toda palavra boa que você fala sobre mim é uma palavra ruim sobre os oponentes da distensão’”. Segundo o embaixador Crimmins, Hernani Donato também acreditava que censores de Brasília “não confiavam totalmente” nos seus subordinados de São Paulo, e sentiam “que eles podem ter se tornado muito próximos de jornalistas locais”. Em 27 de agosto, diplomatas da embaixada voltaram a almoçar com Victor Civita para discutir o assunto. “Ele contou que lhe foi dito para ser muito cuidadoso porque o governo tinha o poder de ‘colocá-lo de joelhos’ quando quisesse”.

5 de fevereiro de 2013

Comissão da Verdade de SP investiga ação da Fiesp e do Consulado dos EUA na repressão do regime militar

Foi divulgado na Web o seguinte comunicado: A Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva” convida para uma audiência pública na qual irá apresentar documentos oficiais da ditadura militar, encontrados no Arquivo Público do Estado de São Paulo, onde há indícios de relações entre membros da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) e do Consulado dos Estados Unidos com os órgãos de repressão da ditadura militar (1964-1985). A audiência ocorrerá no dia 18 de fevereiro de 2013, a partir das 14 horas, no Auditório Paulo Kobayashi na Assembleia Legislativa de São Paulo.

7 de abril de 2012

Livros de filosofia e outros

Há poucos meses a revista Caros Amigos publicou o seguinte artigo meu:



Ca176ideias



Ideias de Botequim



Marilena Chauí

ajuda a filosofar



Renato Pompeu



Os que querem se iniciar na filosofia, ou relembrar o que já estudaram, podem recorrer a uma coleção de livretos lançada pela Martins Fontes, dirigida por Marilena Chauí e Juvenal Savian Filho. Já foram lançados dez volumes; no primeiro, “Boas-vindas à filosofia”, Marilena Chauí discute as diferentes definições do filosofar, e chama a atenção para como pensar organizadamente é ao mesmo tempo prazeroso e produtivo. No segundo volume, Savian trata da “Argumentação: a ferramenta do filosofar”, uma introdução à arte de pensar com coerência. “Corpo e mente”, o terceiro volume, de Silvana de Souza Ramos, debate o que é ser humano a partir das explicações de dois filósofos franceses, René Descartes, do século 17, e  Maurice Merleau-Ponty, do século 20. Os mistérios de “O tempo”, no quarto volume, são abordados por Fernando Rey Puente, que discute até que ponto a passagem do tempo é um fenômeno “objetivo” e até que ponto é uma experiência “subjetiva”. Os volumes seguintes tratam de “O ser vivo”, “Percepção e imaginação”, “A liberdade” e “Deus”. Já o volume nove trata da “Lógica” e nele Abílio Rodrigues parte da lógica tradicional para em seguida fazer uma sua crítica e introduzir o leitor e a leitora nas chamadas “lógicas não-clássicas”. Finalmente, no volume dez, Olgária Matos discorre sobre “A história”, tal como foi conceituada desde a Grécia antiga até a era contemporânea, passando pela modernidade.

Com o fracasso dos movimentos marxistas ortodoxos, vem renascendo neste começo do século 21 o interesse pelo anarquismo, e uma maneira agradável e proveitosa de conhecer mais profundamente o assunto é a leitura de  “Contos anarquistas”, estórias escritas ao longo das décadas por autores brasileiros ou aqui radicados, entre 1890 e 1935, selecionadas por Arnoni Prado, Foot Hardman e Claudia Leal., obra lançada também pela Martins Fontes. Entre os autores, alguns famosos incluem Gigi Damiani, Astrojildo Pereira (que depois se tornou comunista), José Oiticica e Everardo Dias, sendo de notar que há contos em castelhano e em italiano, publicados no Brasil tendo por alvo os imigrantes. São contos sobre a militância, sobre o Estado burguês e a ordem burguesa, além de sobre a moral anarquista e a miséria urbana.

Uma seleção de textos do mais famoso e do mais competente, na imprensa, crítico do regime militar, está incluída no volume “O melhor de Stanislaw Ponte Preta”, o imortal autor do Festival de Besteiras que Assola o País, o célebre Febeapá, lançado pela José Olympio, e da Tia Zulmira e do Primo Altamirando. A seleção é do crítico Valdemar Cavalcanti, e as ilustrações são de outro ícone do carioquismo, Jaguar. Note-se que Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo de Sérgio Porto, não chegou a conhecer o pior do regime militar, pois morreu em setembro de 1968, antes do Ato 5 e da censura, mas o seu é o melhor retrato, senão dos fatos objetivos, pelo menos da vivência subjetiva das pessoas durante o regime militar.

A primeira e uma das principais vítimas do regime militar é objeto de uma exaustiva, mas bem legível, biografia de mais de 700 páginas, o livro “João Goulart – Uma Biografia”, de Jorge Ferreira, professor da Universidade Federal Fluminense, publicada pela Civilização Brasileira. Trata-se do estudo mais completo, e um dos mais isentos, realizado até agora sobre a vida e a carreira política de Jango, que, muito mais do que simplesmente o presidente deposto pelos militares, aparece como encarnação das aspirações e das insuficiências das camadas populares do Brasil entre o fim da Segunda Guerra Mundial e o golpe, período de muitas esperanças e de muitas frustrações. Particularmente importante é o fato de que boa parte dos problemas daquela época, e das soluções que foram propostas, as chamadas reformas de base, está bem viva ainda hoje.

Uma nova concepção de história surgiu nos últimos anos nos países avançados, a abordagem multimilenar, globalizante, envolvendo ainda as relações dos seres humanos com a natureza. Se chega em certos livros recentes a partir do Big Bang. Assim, quatro anos após a publicação original na Inglaterra, chega ao Brasil o livro “A história do homem – Uma introdução a 150 mil anos de história da humanidade”, do pesquisador Cyril Aydon, lançamento da Record. Além de tratar desde os inícios do ser humano atual na África, há 1.500 séculos, a obra também abandona o eurocentrismo tradicional da historiografia, dando a ênfase merecida às demais regiões e às demais culturas.

Em suma, todas obras dignas de leitura atenta.


24 de outubro de 2009

Miséria em meio a jóias em Limeira homenageia regime militar

Em Limeira-SP, 280 mil habitantes, não há só indústrias, citricultura e cana. A cidade é conhecida pelos especialistas de todo o mundo por suas jóias folheadas. As empresas de jóias se localizam de preferência na avenida Marechal Arthur da Costa e Silva, que homenageia um dos presidentes do regime militar. Nessa avenida, segundo o jornal Gazeta de Limeira, http://www.gazetadelimeira.com.br/Noticia.asp?ID=29242, se abrigam, em postos de gasolina abandonados, em meio aos estabelecimentos de luxo, grande número daqueles que o jornal chama de "andarilhos" e são mais conhecidos como "moradores de rua" ou "sem teto". Melhor homenagem o regime militar não poderia ter. Mas é inadmissível que os mecanismos sociais de concentração de riquezas em mãos de poucos e de exclusão social de muitos não tenham encontrado contrapesos maiores no atual regime democrático.