21 de fevereiro de 2010

O romance da autora que não existe


Há tempo o Diário do Comércio, de S. Paulo, me encomendou a seguinte resenha:

Um romance italiano, à moda da telenovela latino-americana

A primeira coisa que chama a atenção neste romance Desesperadamente Giulia, lançado no Brasil pela Record, da escritora italiana Sveva Casati Modignani, a qual há mais de quarenta anos já vendeu mais de dez milhões de exemplares em todo o mundo de todos os seus títulos, inclusive Baunilha e Chocolate, já editado aqui (o Giulia, publicado em 1986 na Itália, lá já vendeu mais de 300 mil exemplares), é que, ao contrário do que informa a editora na segunda orelha, que tem até uma foto, sua autora não existe. É apenas o pseudônimo adotado por um casal de jornalistas de Milão, Bice Cariati e Nullo Cantaroni. O casal publica livros reportagens desde 1958 e em 1981 adotou o pseudônimo para lançar o seu primeiro romance, Ana dos olhos verdes. Desde então foi uma sucessão de best-sellers, em várias línguas.
Mas o que mais chama a atenção é a semelhança da trama do romance com a estrutura das telenovelas latino-americanas em geral e brasileiras em particular. Centrado na vida principalmente sentimental de uma escritora quarentona e bonitona, divorciada e com novo namorado, tendo um filho do ex-marido, o livro tem, no tom mais discreto das telenovelas brasileiras (em relação às mexicanas, por exemplo), todos os ingredientes que fazem sucesso numa telenovela de grande audiência.
Assim, se descrevem muito mais ações do que sentimentos. Não falta a filha que só vai descobrir seu verdadeiro pai só tarde na vida, e como em qualquer telenovela há um aborto espontâneo, um aborto provocado, um suicídio, relações homossexuais, adultérios, cirurgias de doenças graves, chantagens, o amor da adolescência que renasce décadas depois, etc., etc.. Há os personagens inteiramente bonzinhos e os personagens inteiramente malvados, mas, se os personagens bonzinhos triunfam no final, os malvados também não se saem tão mal assim, como tem sido moda nas telenovelas mais recentes.
O filósofo grego antigo Aristóteles, que lançou as bases da estética literária ocidental, escreveu que existem dois tipos de obras, além da poesia épica: a tragédia, que descreve a vida de pessoas melhores do que nós, e a comédia, que trata da vida de pessoas piores do que nós. Mas aí se trata de obras-primas. A isso teríamos de acrescentar as obras que não são primas, e que lidam com pessoas iguaizinhas a nós, como este romance Giulia e as telenovelas em geral. Não se trata de obras-primas sobre a condição humana universal e eterna, particularizada, com emoções discretas, nas dimensões nacionais e de momento, mas de relatos sobre a vida cotidiana, com suas emoções importantes só para quem as vive, e para quem se identifica com elas.
Também, do mesmo modo que nas telenovelas, neste romance o mundo está genericamente dividido entre pessoas ricas e pessoas pobres que logo se tornam também ricas, especialmente se as pobres forem boazinhas. Há uma preocupação detalhista em citar os objetos de consumo e suas marcas e grifes e descrever o prazer que seu consumo gera.; a diferença é que, no caso do romance, não parece haver o merchandising que ocorre na televisão Como numa telenovela, mesmo escrita por homens, tudo é principalmente visto por meio de uma ótica bem mais feminina do que masculina, em especial a luta ainda contemporânea das mulheres para alcançarem um grau de liberdade, por exemplo sexual, semelhante à dos homens.
Igualmente, como na maioria das telenovelas (com exceção das poucas que são de época), a trama se passa no presente imediato, mas há muitos retornos ao passado, por meio de flashbacks, que vão pouco a pouco esclarecendo situações que, apresentadas nas primeiras vezes, parecem obscuras.
Em suma, Giulia é um bom entretenimento e sua leitura não apresenta grandes exigências e tem emoções bem dosadas, e envolve por estar em suspense sempre renovado, além de refletir com razoável precisão a vida na classe média alta, seja por nascimento, seja por ascensão social. Seu apelo é especialmente atraente para as pessoas de classe média baixa que estão em busca de ascensão social, em particular mulheres.

Renato Pompeu é jornalista e escritor, autor do romance-ensaio O mundo como obra de arte criada pelo Brasil, Editora Casa Amarela.

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