7 de junho de 2013

A guerrilheira que morreu quatro vezes

A revista Retrato do Brasil encomendou a seguinte resenha: - As mortes e as mortes de Maria Augusta Thomaz, guerrilheira contra o regime militar - Renato Pompeu - Uma biografia pioneira no resgate da memória de uma grande brasileira que até agora não teve um reconhecimento à altura do que merece, eis o que nos reserva o livro “Luta Armada / ALN-Molipo – As 4 mortes de Maria Augusta Thomaz”, de autoria do jornalista goiano Renato Dias, publicada pela NM e RD Movimento, com apoio da Secretaria da Cultura da Prefeitura de Goiânia. A apresentação já indica em síntese toda a grandeza de quem foi Maria Augusta Thomaz (1947-1973), que em sua tão curta vida de 25 anos tantas coisas fez em prol de seus ideais de liberdade, solidariedade e justiça, a ponto de ter sacrificado a própria vida por puro amor ao povo, embora se possa discutir se os meios que adotou podiam resultar nos fins que ela almejava. Diz a apresentação: “Presa no Congresso da UNE-União Nacional de Estudantes, em Ibiúna (SP), no ano de 1968, a bela estudante de Filosofia Maria Augusta Thomaz sequestrou, em 1969, um avião em Buenos Aires, desviou-o para Cuba, fez treinamento de guerrilha na ilha de Fidel Castro e fundou o Molipo-Movimento de Libertação Popular. Mais, soltou bomba na Esso, atacou o Consulado da Bolívia, foi baleada, recuperou-se e acabou assassinada em 17 de maio de 1973, em Rio Verde (GO), aos 25 anos de idade. Mesmo morta, a Justiça Militar a condenou. A sua sepultura foi violada no dia 31 de julho de 1980. Os seus restos mortais desapareceram. Mulher que amava a revolução, morreu quatro vezes”. Ou seja, Maria Augusta morreu, para a família e para os estudos, quando entrou para a clandestinidade; morreu quando foi assassinada; morreu quando seus restos mortais foram violados e roubados por agentes desse mesmo regime militar, que ocultava a sua morte, e morreu finalmente quando foi feita a sua certidão de óbito. Antes de conhecer a biografada, precisamos, neste caso específico, dizer quem é o biógrafo. Renato Dias conhece na carne o sofrimento da família de Maria Augusta, que perdeu um ente querido e não pôde lhe apresentar as últimas honras. Isso aconteceu também com o jornalista goiano; seu irmão Marcos Antônio Dias Batista, adolescente e também militante contra o regime militar, desapareceu quando tinha apenas 15 anos de idade, nos anos 1970., e nunca mais foi visto ou se ouviu falar dele. A emocionalidade de sua própria situação não impediu que Renato Dias procurasse ser objetivo em suas pesquisas em jornais e livros sobre o regime militar, guerrilha urbana e rural, política estudantil; em arquivos da Justiça Militar e em entrevistas com familiares, colegas e amigos de Maria Augusta. Embora seu livro pague um tributo ao pioneirismo no tema, pois sua qualidade como biografia é algo irregular, principalmente no que se refere à reconstrução dos contextos sociais, políticos e econômicos em que transcorreu a vida de sua heroína, e no que se refere à vida pessoal da jovem militante executada por agentes da repressão, ele em todo caso nos fica devendo um trabalho mais definitivo sobre ela. É inegável, porém, que Renato Dias consegue resgatar a grandeza humana da vida de sua biografada. Maria Augusta Thomaz nasceu em 1947 na pequena cidade de Leme, no interior paulista, primogênita de um casal de classe média abonada, o pai dentista de ascendência síria que se tornou professor e a mãe uma professora de ascendência alemã. Depois, viriam três irmãos e uma irmã. Maria Augusta havia puxado a mãe e era loura de olhos verdes; ao crescer, se tornou uma moça cuja beleza chamava a atenção de todos. A família tinha casa própria, carro e telefone, um padrão de vida bastante alto naquele Brasil da passagem dos anos 1940 para os anos 1950, num país então predominantemente agrícola. Como raras crianças daquela época, Maria Augusta na infância teve velocípede, bicicleta e grande número de bonecas. Terminou em 1959 o primário em Leme com média 8,5 no 4.o ano e imediatamente passou no rigoroso exame de admissão (espécie de vestibular para o curso secundário) naquele tempo vigente no prestigiado ensino público de então. Gostava de tomar chuva e ia a pé na chuva ao cemitério local ver as gotas escorrerem por sobre uma imagem de Cristo, dizendo que estava vendo as lágrimas de Jesus. Em 1960 começou o ginásio, primeira fase do secundário de então. Sempre boa aluna, quatro anos depois iniciava o curso de normalista, do qual iria sair dali a três anos com o diploma de professora primária e com o direito de prestar vestibular para qualquer faculdade. Nesse período em que ela fez o ginásio e o normal, o País se via tumultuado pela renúncia do presidente Jânio Quadros em agosto de 1961, a oposição dos ministros militares à posse do vice-presidente João Goulart, a vitoriosa Campanha da Legalidade que pôs Goulart no poder; a efervescência das camadas populares nas lutas pelas reformas de base, e o golpe antipopular de 1.o de abril de 1964, golpe logo rebatizado de “Revolução de 31 de março”. Por outro lado, naquele início dos anos 1960 ocorria, a par de uma criativa fermentação política em diferentes países capitalistas e socialistas, também uma reformulação em escala mundial dos padrões de comportamento, em especial das relações entre os sexos, com uma progressiva emancipação, inclusive sexual, das mulheres. Maria Augusta, fã de músicas da chamada Jovem Guarda, de influência americana, não ficaria imune a essas duas vertentes de mudanças. Depois de ter namorado firme e até mesmo ter ficado noiva de um jovem de seu mesmo nível social, no conservador ambiente de Leme, ela causou um certo tumulto em sua família, ao romper o noivado e se relacionar com um surdo-mudo trabalhador numa propriedade rural e que, ainda por cima, era separado de sua esposa. Nessa situação, Maria Augusta teve de enfrentar o pai, que porém a perdoou. Sem dúvida, esse episódio indica que Maria Augusta já se sentia vinculada emocionalmente aos mais desvalidos. A outra vertente, a das mudanças políticas, logo embebeu a vida de Maria Augusta. Enquanto dava aulas no primário numa escola rural da região de Leme, foi aprovada no fim dos anos 1960 no vestibular de Filosofia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo-PUC-SP, transferiu-se para a capital do Estado, morando num pensionato, e passou a viver o ambiente opressivo imposto pelo regime militar aos estudantes universitários. A combativa União Nacional dos Estudantes-UNE de então tinha sido proibida pelas autoridades governamentais e o movimento estudantil entrou para a clandestinidade. Maria Augusta revoltou-se contra isso e ingressou no clandestino Partido Comunista Brasileiro-PCB (hoja PPS), mas logo aderiu a uma tendência mais combativa do velho Partidão, a Dissidência Comunista. No Brasil, os grandes movimentos de 1968, no começo do ano, se intensificaram com as passeatas de massa, em várias cidades do País, de protesto contra o assassínio do secundarista Édson Luís durante uma manifestação. Já no segundo semestre de 1968, Maria Augusta, como centenas de outros participantes do Congresso da UNE realizado clandestinamente em Ibiúna-SP, foi presa pelos agentes da repressão que descobriram o encontro e cercaram a propriedade rural em que ele estava sendo realizado. Como a maioria dos jovens então detidos, Maria Augusta logo foi solta, mas já estava fichada pela polícia política do regime militar. Em outubro houve a chamada Batalha da Rua Maria Antônia, onde ficavam a contestadora Faculdade de Filosofia da USP e a conservadora Universidade Mackenzie, batalha em que morreu baleado o estudante esquerdista Josué Guimarães. Paralelamente se desenvolvia a crise entre o governo militar e o Congresso Nacional, que redundaria, em 13 de dezembro de 1968, no chamado golpe dentro de golpe, o Ato Institucional n.o 5, que fechou o Congresso e restringiu duramente as liberdades públicas de manifestação, de expressão, de mobilização e de organização. Chegava ao fim a era das passeatas. No réveillon de 1968 para 1969, num apartamento do famoso Edifício Copan, na Zona Central de São Paulo, houve uma discussão entre estudantes a respeito da Ação de Libertação Nacional, organização de guerrilha urbana fundada pelo veterano líder comunista Carlos Marighella, cansado do que considerava a inútil atividade apenas política contra o regime militar preconizada pela direção do PCB. Aqueles estudantes, no apartamento de seu colega Antônio Benetazzo, ligado ao presidente da União Estadual de Estudantes-UEE-SP, José Dirceu (o mesmo ex-chefe da Casa Civil do governo Lula agora acusado no chamado processo do mensalão), incluíam Maria Augusta e seu namorado José Wilson Lessa Sabag, que fora casado com outra mulher e tinha uma filha, e levara a nova companheira para a ALN. O jovem casal concordou, com os demais, com a análise política de Marighella, segundo a qual estavam esgotadas as possibilidades da luta legal e pacifista contra o regime militar e se deveria optar pela luta armada. Outras organizações também tinham optado pela luta armada, como o Partido Comunista do Brasil-PC do B (ainda hoje existente), a Vanguarda Popular Revolucionária-VPR, a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares-VAR-Palmares. No contexto dessa conjuntura política é que se deve entender o que aconteceu naquele réveillon: sem que os demais participantes percebessem, um grupo de cinco estudantes, do qual fazia parte Maria Augusta, abandonou a festa, saíram em dois carros e roubaram duas armas curtas e três longas. E voltaram para a festa. Como Maria Augusta, todos os demais que participaram dessa ação acabaram ao longo dos anos mortos por agentes do regime militar, com exceção de Paulo de Tarso Venceslau, único sobrevivente, que depois foi ligado ao Partido dos Trabalhadores-PT, do qual saiu acusando vários dirigentes de corrupção. Esse roubo, do qual Renato Dias não dá maiores detalhes, foi o batismo de fogo de Maria Augusta na luta armada. Em seguida, ela passou, com outros doze jovens, a integrar o Grupo Tático Armado n.o 2 da ALN, conhecido como GTB. A primeira ação do GTB, em 11 de julho de 1969, foi o assalto a um salão chique de cabeleireiro da próspera Alameda Jaú, região da famosa Avenida Paulista, onde foram lançados panfletos e obtidos dinheiro (para sustentar as atividades políticas e a própria sobrevivência dos militantes clandestinos) e perucas (para serem usadas como disfarces em outras ações). Ainda em julho e agosto e até 3 de setembro, Maria Augusta participou de várias outras ações: assaltos a um supermercado no bairro paulistano de Pinheiros (levaram dinheiro), ao Centro Cultural Brasil-EUA (levaram um mimeógrafo, tipo de impressora portátil da época, e resmas de papel para impressão),ao Curso Objetivo (hoje Universidade Paulista-Unip, do qual levaram dinheiro), às instalações dos transmissores da Rádio Nacional (hoje Rádio Globo, onde transmitiram um discurso político previamente gravado, de convocação para a luta contra o regime militar), e à fábrica Berse (de onde levaram material cirúrgico para equipar uma clínica clandestina que atenderia guerrilheiros urbanos feridos em combate). Em 3 de setembro de 1969, quatro integrantes do grupo, entre eles Maria Augusta e Sabag, foram descontar um cheque roubado do Curso Objetivo, numa agência de banco no térreo do Edifício Itália, o mais alto de São Paulo, bem na Zona Central. Desconfiado do cheque, um funcionário do banco chamou um guarda, houve tiroteio, Sabag baleou o guarda, e foi baleado no braço. Os integrantes do GTB fugiram, mas o rastro de sangue levou a Polícia até o apartamento em que Sabag se havia refugiado. No novo tiroteio, morrem Sabag e o soldado da Polícia Militar João Guilherme de Brito. Outros integrantes do GTB foram presos, mas Maria Augusta conseguiu escapar. Entretanto, ela tinha deixado sua carteira de estudante, com nome e foto, num dos carros usados na ação, apreendidos pela Polícia. Em outras palavras, ela tinha de entrar na clandestinidade com outro nome e de deixar de ter contato com a família. No dia seguinte, 4 de setembro, o GTA n.o 1 da ALN, em colaboração com outros grupos, sequestrou no Rio de Janeiro o embaixador americano, Charles Burke Elbrick, talvez a ação mais famosa da guerrilha urbana no Brasil. Para não matarem o embaixador, os sequestradores exigem e conseguem a libertação de presos políticos como José Dirceu, o líder camponês comunista Gregório Bezerra e o ativista Ricardo Zaratini, embarcados para o Exterior. A 25 de setembro policiais da capital vão para Leme, à procura de Maria Augusta; frustrados, passam a grampear o telefone da casa da família e, a 28 de outubro, gravam uma ligação de Maria Augusta para a mãe e conseguem localizar o telefone de onde ela ligou, em São Paulo. Mas logo em seguida, mandada pela ALN, ela já estava clandestinamente em Buenos Aires e, a 4 de novembro de 1969 (mesmo dia em que Marighella foi assassinado pela Polícia política em São Paulo), entrou, com um grupo de companheiros também clandestinos, num avião da Varig (grande empresa brasileira de aviação da época, hoje extinta) que ia para o Chile. Em meio à viagem, armados, liderados pelo pianista Aylton Adalberto Mortari, que se tornaria o novo namorado de Maria Augusta, os jovens dominaram a tripulação e mandaram o avião seguir para Cuba. Maria Augusta, considerada uma guerrilheira altamente treinada, foi encarregada da parte mais perigosa da ação. Carregava na bolsa uma bomba de alto teor explosivo que, se caísse ao chão, explodiria e levaria o avião à destruição e todos os seus ocupantes à morte. Em Cuba, Maria Augusta e Mortari, os demais sequestradores do avião e companheiros da ALN que já estavam na ilha, como José Dirceu, foram submetidos a meses de duro treinamento militar, aprendendo tanto guerrilha urbana, na qual já tinham se iniciado, quanto guerrilha rural. Quando não estavam treinando, discutiam política. Chegaram à conclusão de que a ALN havia abandonado a luta política, propagandista e organizatória entre as grandes massas da população, isolando-se como vanguarda armada não reconhecida como liderança pelas camadas populares. Saíram da ALN e fundaram em 1970, ainda em Cuba, o Movimento de Libertação Popular-Molipo, consolidado no ano seguinte, sempre em Cuba, e do qual faziam parte, além de Maria Augusta, de Mortari e de José Dirceu, também José Roberto Arantes de Almeida (morto pelo regime militar) e Ana Corbisier, sobrevivente daquela época. No total, cerca de 30 integrantes. Mas, enquanto outros grupos que criticavam a luta exclusivamente armada a abandonaram totalmente, os integrantes do Molipo decidiram continuar a ação armada, mas procurando combiná-la com ações políticas de massas. Segundo observadores citados por Renato Dias, assim o Molipo, enquanto durou, não conseguiu sair do isolamento que tanto criticava. Como estava ocorrendo o chamado “milagre econômico” do regime militar, financiado por grandes empréstimos externos, grande parte das camadas populares estavam melhorando de vida e não se consideravam prejudicadas a tal ponto que quisessem aderir a um movimento armado Com suas ações armadas sem maior repercussão entre o povo, os guerrilheiros entraram num círculo vicioso em que a luta armada, sem eco político, se tornou o único caminho pelo qual podiam sobreviver fisicamente. No começo de 1971, Arantes e o casal Maria Augusta e Mortari retornaram ao Brasil. Em maio, assaltaram em São Paulo um cartório do Registro Civil, para obter impressos que permitissem a elaboração de documentos de identidade falsos, e uma gráfica para obterem uma impressora offset e ainda distribuíram para os estudantes da Cidade Universitária exemplares de um jornal impresso clandestinamente. Em julho, Maria Augusta, Mortari e outros, andando de carro pela Grande São Paulo, descobriram na cidade de Santo André um carro da Radiopatrulha sendo lavado num posto de gasolina. Desceram e pegaram uma metralhadora e dois revólveres. Em agosto, em vários grupos, assaltaram um posto do Ministério do Trabalho, no bairro paulistano do Ipiranga; o restaurante Bierhalle, no bairro de Moema, na época a maior cervejaria da cidade.E ao assaltar uma Radiopatrulha em São Caetano do Sul, no ABC paulista, vizinho à capital, balearam o policial Norival Ciciline A 9 de outubro de 1971, Maria Augusta participou do lançamento de uma bomba no Consulado da Bolívia, no Centro de São Paulo, a 70 metros da sede da Secretaria da Segurança Pública. A ação lembrava o assassínio, quatro anos antes, do Che Guevara em território boliviano. No mesmo mês, Maria Augusta, de arma na mão, ajudou a assaltar uma loja do bairro de Mirandópolis para, novamente, levar perucas, e o grupo realizou pichações na USP e na PUC em memória de Marighella. No fim de outubro, Maria Augusta ajudou a lançar uma bomba num escritório da Esso no terceiro andar de um prédio na rua Pedro Américo. Já em novembro, Maria Augusta e Mortari estavam numa ação no bairro popular paulistano do Jardim Miriam, na Zona Sul, e no bairro também popular da Brasilândia, da Zona Oeste, para protestos contra o aumento das tarifas de ônibus. Na Brasilândia; nessa ocasião foi morto o cabo da Polícia Militar Nelson Martinez Ponce. E o grupo fez nova pichação na USP em honra de Marighella. A 4 de novembro, Mortari saiu num carro roubado para pagar a conta d’água da casa em que morava com Maria Augusta e Arantes, no bairro da Vila Prudente, Zona Sul. Uma viatura policial identificou o carro roubado, o parou e Mortari reagiu a tiros. Foi preso e nunca mais se ouviu falar dele, é “desaparecido político”. O talão da conta d’água levou ao endereço na Vila Prudente, onde foi encontrado e morto José Roberto Arantes. Maria Augusta não estava em casa e, ao chegar à rua, soube do acontecido e escapou. Mas no dia seguinte, tinha um “ponto” (encontro marcado clandestinamente) com um companheiro de grupo; só que esse “ponto”, na rua Turiassu, Zona Oeste, era conhecido da repressão e ela e o companheiro foram baleados pelos agentes que vigiavam o local. O companheiro caiu (morreu após ser preso), mas Maria Augusta, mesmo ferida nas costas, na altura da cintura, conseguiu fugir, atirando contra os policiais. Ela conseguiu tomar um táxi e rumou para a avenida Lins de Vasconcelos, na Zona Central, tendo pagado a corrida com uma das perucas há pouco roubadas, pois havia perdido a bolsa no tiroteio. Dali um companheiro a levou a uma casa na Vila Sônia, onde foi extraída a bala. Apesar de ter perdido dois namorados mortos em combate, em um mês ele estava pronta para outra. A 5 de novembro, ela participou do assalto a uma fábrica de roupas no bairro do Brás, roupas que foram distribuídas para pessoas carentes no bairro do Sapopemba, Zona Sul. Mas, na passagem de 1971 para 1972, o Molipo tinha sido praticamente dizimado, e Maria Augusta tinha de abandonar a vida urbana para refugiar-se no interior de Goiás e tentar instaurar a guerrilha rural. Usando contatos políticos, abrigou-se com companheiros num rancho em Jataí (GO). Agentes da repressão, por meio de torturas a outros companheiros presos, conseguiram localizar o rancho em maio de 1973 e logo mataram, antes de entrar na casa, um companheiro de Maria Augusta; e, já dentro da casa, ela, que dormia, foi morta na cama. Os agentes ordenaram que moradores próximos enterrassem os corpos no terreno do próprio rancho. Meses depois, mesmo morta, ela foi condenada “à revelia” pela Justiça Militar Quando a história vazou para o jornalista Antônio Carlos Fon, então trabalhando em Goiânia, em agosto de 1980, ao chegar às covas, ele descobriu que pouco antes de sua vinda agentes da repressão tinham violado as sepulturas e sumido com os restos mortais. Só restaram uns poucos ossinhos e dentes. Maria Augusta morreu sem saber que um dos seus instrutores de guerrilha em Cuba era agente da CIA, a qual informou as atividades do Molipo às autoridades brasileiras. Essa é uma das revelações do livro de Renato Dias, que conta ainda com textos de destacados militantes contra o regime militar: apresentações de Daniel Aarão Reis Filho, Carlos Eugênio Sarmento Coelho da Paz, Ivan Seixas, prefácio de José Dirceu e posfácio de Luiz Eduardo Greenhalgh. Essa jovem que não temeu a morte é mais uma heroína do povo brasileiro.

Nenhum comentário: