10 de outubro de 2013

Contos (ou lendas) de Moçambique

Para o Diário do Comércio de São Paulo - Contos (ou lendas) que vêm de Moçambique - Renato Pompeu - Os contos, ou melhor, as mágicas histórias do livro “Estórias Abensonhadas”, do escritor moçambicano Mia Couto, lançado no Brasil pela Companhia das Letras, são uma boa oportunidade para os leitores brasileiros conhecerem melhor esse grande autor africano, bem como formarem uma ideia melhor da rica cultura do povo de Moçambique. O livro chega ao Brasil quase duas décadas depois de seu lançamento original em 1996, e foi escrito por Mia Couto nos dois anos anteriores, a partir de 1994, quando chegaram ao fim quarenta anos de guerra em Moçambique, primeiro pela independência em relação a Portugal, depois na forma de guerra civil. O livro respira lembranças da guerra tão próxima no tempo e tão presente no espaço, como no conto “Nas águas do tempo”, em que o avô contador de histórias pede ao neto que vá para o outro lado do rio, para encontrar os fantasmas da guerra. O universo de Mia Couto tem sido comparado ao realismo mágico do escritor colombiano Gabriel García Márquez e a espiritualidade primitivista do escritor brasileiro Guimarães Rosa. Mia Couto parece bastante preparado para narrar histórias de seu país. António Emílio Leite Couto, conhecido desde a infância como Mia, nasceu em 1955, em Beira, a segunda cidade em importância de Moçambique, logo depois de Maputo, a capital. Era filho de um administrador de ferrovia que também escrevia poemas e dirigia um jornal. Foi estudar medicina em Lourenço Marques, nome colonial, usado sob o domínio português, de Maputo, mas interrompeu os estudos em 1975, para participar da reconstrução do país que havia recém-conquistado a sua independência. Tornou-se jornalista e, aos 22 anos, em 1977, chegou a chefe da agência moçambicana de informações. Na passagem dos anos 1970 para os anos 1980, dirigiu o semanário “Tempo” e o jornal “Notícias”. Retornando aos estudos, formou-se em biologia em 1989 e se tornou professor na Universidade Edmundo Mondlane. Publica poemas desde 1983 e prosa desde 1986, entre contos, romances e uma incursão pelo romance policial. De um lado, Mia Couto tenta dar uma forma a uma cultura nacional moçambicana, um empreendimento que nas suas mãos se torna paradoxal, pois ele quer ao mesmo tempo criar e refletir como cultura tipicamente moçambicana o que na verdade é uma realidade multicultural. Aos diferentes povos propriamente africanos de Moçambique, que falam formas de banto e de suaíli, se acrescentam, no amálgama ou cadinho moçambicano, populações árabes e indianas, estas principalmente de Goa, antigamente colônia portuguesa. De outro lado, ele procura dar voz aos habitantes mais miseráveis de Moçambique, um dos países mais pobres do mundo. Como jornalista e diretor da agência nacional de informações, afinal de contas, Mia Couto conheceu de perto as populações paupérrimas de seu vasto país. Seu realismo mágico não foi uma opção puramente estética: ele descobriu que, aqueles que não têm nada, têm ainda a sua imaginação, e, se vivem numa realidade de miséria, também, espiritualmente, vivem num mundo rico de fantasias, de espíritos e de espiritualidade. Assim, seus personagens podem, por exemplo, como no conto “O cego Estrelinho”, distinguir vários tipos de silêncio e de escuridão, ou, também, uma senhora pode falar com estátuas. Em relação à técnica literária, o grande feito de Mia Couto foi fundir o português culto com a oralidade africana, criando belos efeitos sonoros e semânticos por meio do aportuguesamento de expressões bantas e suaílis. Ao final, a edição de “Estorias abensonhadas” tem um glossário explicativo de palavras como “canganhiçar” (ludibriar), “nenecar” (carregar um bebê às costas, embalar, fazer adormecer). Lendo esse livro, não estamos apenas fruindo as belezas da cultura moçambicana. Estamos também assistindo ao nascimento de uma cultura nacional, de uma nacionalidade nova.

Um comentário:

Aronson disse...

Vou sair correndo e comprar,amo todos que ele é comparado, que sorte ter surgido mais um!!!!!! viva Moçambique!!!!!!