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22 de dezembro de 2013

Estruturalismo continua atual na literatura

Do Diário do Comércio de São Paulo - O estruturalismo continua atual, passados 40 anos - Renato Pompeu - Sai agora, pela Editora Unesp, uma nova edição do livro “Análise estrutural de romances brasileiros”, cujo original é de 1973, de autoria do consagrado escritor, poeta, crítico e professor de Literatura mineiro Affonso Romano de Sant’Anna, radicado no Rio de Janeiro e que já deu aulas nos Estados Unidos. Trata-se de uma sucessão de ensaios altamente sofisticados e de leitura muito exigente, que inclui estudos sobre sete importantes romances brasileiros, de José de Alencar a Clarice Lispector, passando por Joaquim Manuel de Macedo, Aluísio Azevedo, Machado de Assis e Graciliano Ramos. Como o título indica, as análises dos romances se filiam ao chamado estruturalismo, corrente de pensamento que surgiu na linguística, na passagem do século 19 para o século 20, pelas mãos do pesquisador suíço Ferdinand de Saussure, e que preconizava que cada componente, por exemplo, de um idioma, só tinha sentido próprio se estivesse relacionado a outros componentes do mesmo “sistema”, ou “estrutura”. Essa corrente de pensamento atingiu o auge nos anos 1960 e 1970, por influência sobretudo de dois pesquisadores franceses, o antropólogo Claude Lévi-Strauss e o psicanalista Jacques Lacan, e se estendeu ampla e profundamente por todas os estudos humanos, incluindo a literatura. Hoje, por muita gente, o estruturalismo é considerado “datado”, mas, se a trilha aberta por Lévi-Strauss não tem sido seguida por muitos antropólogos contemporâneos, o fato é que, em primeiro lugar, a obra propriamente de sua autoria continua sendo estudada com proveito, embora não a de muitos de seus seguidores mais ingênuos. Em segundo lugar, a psicanálise de Lacan transcendeu o destino do estruturalismo em sentido estreito e se mantém viva e atuante, sendo em geral considerada a corrente psicanalítica mais avançada na atualidade. Quanto a Sant’Anna, é preciso notar, logo de início, que ele se demonstra, nesse livro, um estruturalista nada ingênuo; pelo contrário, partilha em alto grau da perenidade dos estudos de Saussure e de Lévi-Strauss. Em que consiste a ingenuidade da grande maioria dos estruturalistas? Trata-se de que, como a corrente estruturalista procura, na chamada totalidade do seu objeto de estudo, correlações entre seus componentes, muitos estruturalistas se limitam a correspondências binárias, na maioria dos casos, entre um componente e outro componente, e, mais raramente, entre um componente e o todo do sistema. Quando, na verdade, o método, aplicado com o rigor usado por seus mestres, como Saussure e Lévi-Strauss, e também por Sant’Anna, encontra, além de correspondências binárias, também correlações ternárias, entre quatro ou mais elementos, multilaterais, num jogo complexo e intricado. Outro aspecto da ingenuidade de muitos estruturalistas é a fixidez das “estruturas” que encontram, que julgam invariáveis. Nessa armadilham não caíram, nem Saussure, nem Lévi-Strauss, nem Sant’Anna. Finalmente, até mesmo Lévi-Strauss, mas não Saussure, nem Sant’Anna, namorou a terceira ingenuidade do estruturalismo, a de que, por trás da multiplicidade das manifestações humanas no tempo, no espaço e em cada sociedade ou grupo, existem estruturas psíquicas universais; isso, a rigor, talvez não seja uma ingenuidade, mas está longe de ter sido comprovado, mesmo porque a pesquisa empírica capaz de comprovar ou desmentir definitivamente essa conceituação teórica está apenas em seus inícios. O resultado dessas ingenuidades é que muitos estudos literários estruturalistas não sobrevivem hoje, porque estavam em busca de “estruturas profundas” que estariam por trás de todas as produções literárias humanas. Por exemplo, ficou famosa a tese de que, em todas as fábulas populares, em todas as histórias folclóricas, havia uma pessoa no papel de “herói” que passava, invariável e universalmente, sempre por “três provas”, antes de se consagrar, tese que continuou teimosamente sendo defendida depois que críticos apontaram histórias em que o “herói” passava por duas, quatro, ou outras tantas provas. Sant’Anna não cai na armadilha dessas ingenuidades. Ele encontra estruturas diferentes conforme a obra que analisa, mais simples em Alencar, mais complexas em Machado, e não as trata como invariáveis ao longo de cada obra analisada. Mais do que isso, sobrevive galhardamente a um ensaio crítico de ninguém menos do que o grande pesquisador Antonio Candido, incluído nesta edição, com uma resposta de Sant’Anna, ao estudo deste sobre o romance “O cortiço”, de Aluísio Azevedo. Trata-se de uma polêmica elegante e compensadora, não só para o leitor, como também para os dois lados.

19 de novembro de 2013

Os autores que me formaram

Para a revista Metáfora - Ensaio - Das letrinhas para a vida: os autores que me formaram como pessoa, como jornalista e como escritor - Renato Pompeu - Normalmente, quando um escritor fala dos livros e autores que mais o influenciaram, ele se está referindo aos que mais o marcaram propriamente como escritor, e é nesse sentido que nas escolas, por exemplo, os professores falam das “influências” na carreira de um autor. Mas o que quero primeiro aqui é falar dos autores, ou melhor, dos trechos, que marcaram propriamente a minha formação como pessoa, a minha visão do mundo, não o meu estilo ou a minha temática como ficcionista. Desse ponto-de-vista, o autor que mais me influenciou foi um monge japonês do século 12, Kamo no Chomei, autor de um livrinho de apenas 20 páginas, “A cabana dos dez pés quadrados” (ou seja, três metros quadrados), um ensaio autobiográfico. O trecho que me marcou profundamente, já no fim do livro e da vida de Chomei, diz: “Agora, a lua da minha vida mergulha no céu e está próxima da beira da montanha. Em breve devo rumar para a escuridão dos Três Caminhos: por que então eu me preocuparia comigo mesmo? A essência do ensinamento do Buda ao ser humano é de que não devemos ter apego a nenhum objeto. É agora para mim um pecado amar minha pequena cabana e minha ligação à sua solidão pode ser também um obstáculo para a salvação. Por que eu deveria perder mais tempo precioso em relatar prazeres tão mesquinhos?” Para bem entender esse trecho, é preciso levar em conta que Chomei, filho de um sacerdote xintoísta, revelou desde a infância grande talento como poeta e isso lhe abriu caminho para uma vida de luxo, ociosidade e prazeres carnais na corte do imperador. Aos 50 anos de idade, no entanto, ele se converteu ao budismo e resolveu se desapegar das coisas deste mundo. Transferiu-se para uma montanha, em meio a uma remota floresta, e, num lugar isolado, construiu com as próprias mãos uma pequena cabana de um cômodo só, cujos únicos móveis eram uma esteira para dormir e uma escrivaninha para escrever, além de ganchos para pendurar uma viola e uma guitarra. Em volta da cabana, plantou uma horta e, além disso, comia os frutos da floresta. Raramente via alguém. Meditava, escrevia, tocava música. Passou vinte anos assim e, no começo, achava que tinha efetivamente conseguido se desapegar das coisas do mundo, para só viver na espiritualidade. No entanto, como mostra a conclusão acima, ele foi aos poucos percebendo que não tinha conseguido se desapegar das coisas materiais. Afinal, ele se deu conta de que amava... a cabana, a esteira, a escrivaninha, a guitarra, a viola, a horta! Portanto, à luz da doutrina do Buda, ele era... um pecador, tanto quanto era antes quando vivia no luxo, na ociosidade e desfrutando dos prazeres da carne! Sua vida, afinal, era um fracasso! Sabendo disso, agora podemos reler o texto dele acima e meditar. (Outros trechos de seu livro, em inglês, podem ser vistos em http://www.yc.tcu.ac.jp/~kiyou/no5/P114-120.pdf). Que lição preciosa de vida! Todos tendemos a imaginar algum significado glorioso para a nossa vida, no entanto temos de ter humildade para reconhecer que nunca alcançamos a perfeição a que almejamos. Outro autor que influenciou a minha visão do mundo foi Ivo Andric (1892-1975), da antiga Iugoslávia, croata da Bósnia que escreveu em sérvio, vencedor do Prêmio Nobel de 1961. Diplomata do antigo Reino da Iugoslávia, por se opor ao fascismo vitorioso em seu país, na passagem dos anos 1930 para os anos 1940, ficou praticamente confinado à sua casa em Belgrado durante a Segunda Guerra Mundial, período em que escreveu sua obra-prima, o romance “A ponte sobre o Drina” (1945). O Drina é um rio da antiga Iugoslávia e essa ponte, realmente existente, inaugurada em 1566, foi destruída na Primeira Guerra Mundial. Era situada na cidade bósnia de Visegrad, perto de Sarajevo; Andric passou a infância em Visegrad, cenário de quase todas as suas obras. A frase que marcou a minha vida é: Agora voltemos aos tempos em que essa ponte não era nem mesmo um sonho. Para entender essa frase, notemos que o livro é cheio de sutilezas. A história se passa toda durante o domínio otomano sobre a Bósnia e a narrativa nunca sai da ponte, ao longo de três séculos e meio: são diferentes episódios sobre personagens que passam pela ponte, param nela ou no caravançará a ela anexo. Na verdade, o livro, em sérvio, se chama “Sobre o Drina, a ponte”, ou, mais exatamente, “Na Drini, çuprija”. Em sérvio existem duas palavras para “ponte”, uma é “mesto”, uma palavra eslava castiça; a outra é “çuprija”, de origem turca. O fato de o título do romance ter uma vírgula separando palavras eslavas de uma palavra turca é intencional: a vírgula, como a Bósnia, ao mesmo tempo separa e une o Ocidente e o Oriente, ao mesmo tempo em que a vírgula é uma “ponte”. Lendo-se com cuidado, Andric, além de grande prosador, é um grande poeta; suas palavras e frases, além de denotarem realidades, também conotam emoções e valores. Ele narra como, durante o Império otomano, crianças cristãs eram sequestradas de seus pais e de suas mães e eram educadas como muçulmanas. Baseando-se em fatos reais, Andric narra como um menino cristão que mal aprendeu a falar foi arrancado dos braços de sua mãe e foi levado por seus sequestradores muçulmanos numa travessia de barco, passando assim o Drina na altura de Visegrad e iniciando sua vida de islamita. Muitos anos depois, já sexagenário e tornado grão-vizir (primeiro-ministro) do Império turco, ele se lembra, ao atravessar novamente o Drina no mesmo ponto, que sempre sentia “uma súbita dor no coração” quando passava por ali, lembrando-se inconscientemente de que fora ali separado da mãe. Então ele decide mandar construir uma ponte naquela passagem do rio. A ponte, criada por um arquiteto e mestre-de-obras italiano, é uma obra de arte, toda esculpida. Depois de Andric descrever toda a beleza e toda a imponência da ponte sobre o Drina, é que ele escreve a frase acima. A leitura dessa frase me fez me sentir iluminado por uma revelação: todas as obras humanas que vemos não existiram desde sempre. Houve um tempo em que não existiam sequer como sonho ou projeto, depois passaram pela fase de sonho, finalmente se concretizaram... e estão destinadas a desaparecer. É triste saber que tudo acaba, mas me sinto feliz em saber que alguns sonhos se cumprem. Agora, pode haver, para os leitores da Metáfora, também interesse em saber que livros me influenciaram como jornalista. Quando me iniciei como jornalista, nos anos 1960, a linguagem jornalística era um tanto empolada e não se podia repetir palavra. Assim, se no texto já houvesse sido mencionado um “hospital” ou um “cemitério”, na próxima vez se tinha de falar em “nosocômio”, no primeiro caso, e “necrópole”, no segundo. Não se podia falar em “câncer”, se dizia “insidiosa moléstia”. Em reação a isso, minha geração – não se esqueçam de que eram os famosos anos 1960 – partiu para um jornalismo mais literário, chamado na época de “novo jornalismo”. Nossos modelos eram principalmente dois escritores americanos, mais exatamente um livro de cada um deles. Um livro era “A sangue frio”, uma reportagem escrita como se fosse um romance, do escritor e jornalista Truman Capote, em que ele descrevia com detalhes uma chacina realmente ocorrida, em que toda uma família havia sido assassinada. (Além do livro, recomendo também o filme “Capote”). O outro livro era um romance escrito como se fosse uma reportagem, “O velho e o mar”, do escritor, jornalista e combatente republicano na Guerra Civil Espanhola, que ganhou o Nobel, Ernest Hemingway. É a história de um idoso pescador cubano que pesca um grande peixe em alto mar e o vai arrastando rumo à terra, enquanto tubarões vão devorando o grande peixe que ele apanhou. Os dois livros tinham em comum o fato de serem escritos em uma linguagem empolgante; a gente não “lia” como os personagens agiam, a gente os “via” agindo, tal o caráter dinâmico, veloz e extremamente descritivo, ao mesmo tempo evocativo, dos dois textos. Foi um momento em que o jornalismo brasileiro teve ambições literárias maiores, cujo exemplo maior foi a até hoje célebre fase inicial da revista “Realidade” (onde por sinal não trabalhei), até hoje, meio século depois, um parâmetro muito importante para o jornalismo, para os jornalistas, e para os leitores. Pode haver interesse também em saber quais livros foram importantes para mim como escritor, livros que influenciaram os meus estilos e as minhas temáticas como ficção. Lembro de particularmente três escritores que me marcaram, dois mais famosos e um menos conhecido: o brasileiro do século 19 Machado de Assis, o alemão do século 20 Thomas Mann e o húngaro, também do século 20, Odon Horvath. De Machado me marcou particularmente a volubilidade que ele demonstra, particularmente, no romance “Dom Casmurro”, ele vai mudando de um assunto para outro, amenamente, agradavelmente, alegremente, fazendo a gente desejar participar da felicidade criativa, do gozo de que ele desfrutava ao escrever tão voluptuosamente. Já Thomas Mann, no romance “A Montanha Mágica”, me impressionou como ele leva centenas de páginas descrevendo um mundo encantado e cheio de enlevo em que tantas pessoas viviam, tão entusiasmadas, tão felizes – para no fim, em poucas palavras, em rápidas chicotadas verbais, destruir aquela beleza tão maravilhosa. Finalmente, Horvath, na novela “Juventude sem Deus”, sobre os inícios do nazismo na Áustria, me marcou pela importância dada ao futebol, já nos anos 1920. Me lembro particularmente de um seu personagem, um goleiro que narra passagens de sua vida, em especial seus jogos na Ilha de Malta, onde, segundo ele conta, os campos eram de pedra, de rocha nua, pois a ilha não tinha gramados ou mesmo árvores, tão seca e tão rochosa que era. Eu ficava pensando no goleiro esgarçando seu corpo inteiro na pequena área pedregosa, para pegar uma bola rasteira... Renato Pompeu é jornalista e escritor, autor do romance-ensaio “O mundo como obra de arte criada pelo Brasil”, Editora Casa Amarela.

30 de junho de 2012

A crise e a arte

Uma coisa que chama a atenção é a falta de repercussão nas obras artísticas da atual crise econômica mundial. Nos anos 1930, para falar apenas dos Estados Unidos, em reação à crise de então, surgiram obras como o filme "Tempos modernos", de Charles Chaplin; os filmes do Gordo e o Magro, com Stan Laurel e Oliver Hardy; os romances "Vinhas da ira", de John Steinbeck, e "Mas não se mata cavalo?", de Horace McCoy; grandes cantores e grandes canções, tudo transformado em clássicos. A atual crise só tem gerado alguns documentários e semidocumentários.

31 de março de 2012

A arte e as artes das crônicas de Ivan Ângelo


Há alguns meses, o Diário do Comércio de São Paulo publicou a seguinte resenha:


As crônicas de Ivan Angelo,
pequenas  joias de papel

Renato Pompeu

São 48 crônicas publicadas na revista “Veja São Paulo”, a bem conhecida “Vejinha”, mais uma até agora inédita e outra que saiu no jornal “O Tempo”, de Belo Horizonte, mas acima de tudo são 50 obras-primas, verdadeiras estatuetas de sons e significados, esculpidas com mão de quem é mestre e com coração de quem ama a humanidade e o humanismo. Afinal, são crônicas de Ivan Angelo, aos 75 anos um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos, editadas em “Certos homens”, livro lançado esta semana pela Arquipélago, dentro da Coleção Arte da Crônica.
Tenha como tema o antigo hábito do footing (na praça principal da cidade, as moças ficavam circulando no centro da praça, num sentido, e os rapazes formavam um anel externo, circulando no sentido oposto, o que possibilitava troca de olhares, acenos e outros gestos e expressões), ou se ponha a discutir por que as roupas das mulheres não têm bolsos, Ivan Angelo resgata as melhores tradições da crônica, um gênero tipicamente brasileiro que teve entre seus cultores grandes nomes como Machado de Assis, romancista como Ivan Angelo, e Carlos Drummond de Andrade, mineiro como Angelo.
Aqui devemos notar o que representa a crônica na literatura brasileira, muito longe de ser um gênero menor como nem chega a ser em outras literaturas. No século 19, quando ainda se estava em meio à criação da nação brasileira, num país atrasado, dominado pela escravidão e outras misérias, se tinha como modelo a então jovem modernidade europeia, num continente em que, especialmente na França, a crônica tinha surgido na imprensa como crônica de amenidades, disponibilizadas pelo acelerado desenvolvimento capitalista de então. Eram textos sobre as festas, os casamentos, as fofocas de sociedade, as novidades das Galerias LaFayette, as primeiras lojas de departamentos da história.
Ao ser transposto para o Brasil, o novo gênero, mais jornalístico do que literário, criou dificuldades para os escritores nacionais. Como falar amenidades sobre um país que não as tinha, em que imperavam as violências e as brutalidades da escravidão e das sequelas do colonialismo? A solução foi falar amenamente de coisas que não eram amenas, e assim Machado de Assis, por exemplo, falou amenamente do duro trabalho dos operários nas pedreiras do Arsenal de Marinha, João do Rio falou amenamente da violência nas ruas cariocas. Mas o principal, em termos de literatura, foi a criação de uma linguagem própria da crônica, uma estruturação interna que a foi logo diferenciando, de um lado, em relação ao tradicional artigo jornalístico; de outro, em relação ao conto.
Com o tempo, mudou o Brasil e mudou a crônica. Na medida em que o Brasil se foi modernizando, em especial a partir dos anos 1950, passaram a existir temas mais amenos na sociedade nacional. Surgiu então a crônica plenamente literária, na pena encantada de Rubem Braga e outros cultores. A essa altura a crônica estava perfeitamente consolidada como gênero tipicamente brasileiro. Nos anos do regime militar, voltou a crônica a tratar amenamente  de situações não amenas, como nas obras de Stanislaw Ponte Preta e do próprio Drummond. Nas últimas décadas desde a restauração da democracia, e nos últimos anos de relativa prosperidade econômica, voltaram a predominar os temas amenos – mas neste livro agora lançado Ivan Angelo também tem crônicas que falam agradavelmente de coisas desagradáveis, como as vicissitudes de nossa política tão corrompida e as peripécias da violência tão presente em nosso cotidiano.
O mais importante, no entanto, é a nobreza, a perfeição com que Ivan Angelo trata a sua escrita, o gênero crônica e, acima de tudo, os seus leitores e leitoras. Cada crônica sua, seja sobre o homem que anuncia que “precisa ir embora”, seja sobre a figura do carroceiro, é uma pequena joia de papel, lapidada com cuidados de artista minimalista. São obras de arte em miniatura, e é notável como Ivan Angelo consegue criar em cada crônica uma pincelada irretocável de cotidiano, em que ao mesmo tempo não falta nada e nem sobra nada. É uma perfeição ao mesmo tempo de joalheiro e de arquiteto.
Mineiro de Barbacena, Ivan Angelo radicou-se em Belo Horizonte, onde se consagrou como jornalista e logo como ficcionista, com os livros “Homem sofrendo no quarto”, de 1959, e “Duas faces”, de 1961, de contos. Desde 1965 mora em São Paulo e se consagrou como romancista com “A festa”, em 1975, e “A casa de vidro”, em 1979. Ganhou mais de uma vez o Prêmio Jabuti e o da Associação Paulista de Críticos de Arte, e foi consagrado pelo Ministério da Cultura entre os autores das 125 obras mais importantes das letras brasileiras. Seus maiores prêmios, no entanto, são o deleite e a reflexão que provoca em seus leitores e leitoras, como nessas crônicas primorosas embrulhadas em papel para presente de Natal.

19 de março de 2012

Novo livro de Roth


Recentemente o Diário do Comércio de São Paulo publicou a seguinte resenha de minha autoria:

A paralisia infantil,
segundo Philip Roth

Renato Pompeu

O consagrado escritor americano Philip Roth, que completa 79 anos em março, volta à sua região natal e à sua pré-adolescência em sua mais recente novela, “Nêmesis”, publicada em 2010 tanto nos Estados Unidos como no Brasil (aqui, pela Companhia das Letras). Roth nasceu em Newark, no Estado de Nova Jersey, vizinho a Nova York, em 1933, e a ação se passa num bairro dessa cidade, Weequahic, em 1944, quando o autor, então morador nesse bairro,  tinha 11 anos.
Trata-se, de um lado, das vicissitudes de um jovem de 23 anos, de físico atlético, professor de Educação Física, que no entanto tinha sido recusado, em plena Segunda Guerra Mundial, quando se apresentou para prestar o serviço militar, por ser míope. E, de outro, de um surto de poliomielite, a então temida paralisia infantil, que atingiu tantas crianças no mundo inteiro, antes do lançamento, nas décadas seguintes, das vacinas Salk e Sabin, que debelaram a doença.
No verão de 1944, em meio a um forte calor, o jovem está encarregado das atividades recreativas no playground do bairro. Embora o trabalho pareça longe de proporcionar glórias com que o jovem professor, tão atlético, pensava anteriormente se cobrir durante a guerra, ele procurou exercer aquelas atividades recreativas com o mesmo empenho com que, em tese, um soldado deve dedicar à defesa da Pátria.
Entretanto, ocorre, atingindo particularmente seus jovens discípulos, um surto (fictício) de pólio semelhante ao violento surto real da doença que havia ocorrido na cidade em 1916, por coincidência em meio à Primeira Guerra Mundial. Muitos pupilos do professor de Educação Física e coordenador de atividades recreativas acabam morrendo e são pungentes as descrições das pompas fúnebres, dos encontros do professor com os pais e de seus esforços para consolar as crianças sobreviventes.
Mas a situação se agrava quando os pais das crianças atingidas, em seu desespero, passam a acusar o professor de responsável pelo surto, por supostas insuficiências de suas práticas de higiene coletiva, e por ele deixar, por exemplo, as crianças correrem por aí “como animais”. Finalmente, ele desiste de lutar e foge para outro emprego, num acampamento de verão na zona rural.
Nêmesis, cujo nome foi escolhido para o livro, é a deusa grega da vingança, ou, mais exatamente, ela encarna a punição, pelos deuses, contra os seres humanos que pretendem atingir a perfeição divina. Ela é filha de Nyx, a Noite, e é uma das raras divindades antigas que, ao invés de personificar uma força da natureza, ou um fenômeno natural, encarna uma força moral. É como se o jovem professor e animador acabasse castigado por ter ousado sonhar com a perfeição em sua dedicação ao seu trabalho.
É importante notar que, no novo livro, Roth de um lado abandona as exaustivas descrições sexuais de suas obras imediatamente anteriores, em favor de uma trama cheia de angústias e cheia de peripécias, e de outro volta à sua preocupação inicial de cultivar uma forma requintada, tal como demonstrou em seu primeiro romance que o consagrou aos 26 anos de idade: “Adeus, Columbus”. Então, ele foi saudado logo na estreia, em 1959, como “virtuose”, por ninguém menos do que o grande escritor Saul Bellow, e como tendo alcançado uma “força tonal” que a maioria dos grandes escritores só consegue na maturidade. Se esse sucesso de crítica veio logo na estreia, o sucesso de público viria dez anos depois, com “O complexo de Portnoy” (uma tradução mais literal seria “A queixa de Portnoy”), de 1969, em que ele relata as frustrações, particularmente sexuais, de um jovem judeu típico em Newark. Neste livro, Roth não teve preocupações com a forma tão grandes quanto no seu primeiro trabalho, mas de fato se empenhou em fazer, o mais das vezes, o leitor rir, até mesmo às gargalhadas, e umas poucas vezes, em fazer o leitor se comover com o drama do homem levado a se masturbar compulsivamente para reagir contra o domínio sufocante de um protótipo da famosa “mãe judia”.
Seguiram-se uma série de livros tendo como temática a vida, particularmente a vida sexual, de um profissional liberal judeu da Costa Leste dos Estados Unidas, em especial um escritor, todas obras tidas como reproduzindo diferentes fatos e aspectos da vida pessoal de Roth. Mas também há uma obra sobre uma protestante do Meio-Oeste, outra de sátira ao presidente Richard Nixon e uma sobre a eleição fictícia do herói aviador Charles Lindbergh, o primeiro a atravessar o Atlântico Norte sem escalas, para presidente dos EUA, instaurando um regime antissemita (Lindbergh chegou a simpatizar com o nazismo). Agora, de novo Roth foge de sua temática habitual, para encanto dos leitores fãs de sua antiga perfeição formal requintada.

7 de outubro de 2011

As sombrias previsões da escritora Margaret Atwood

Recentemente o Diário do Comércio, de São Paulo, me encomendou a seguinte resenha:

A “distopia” de Margaret Atwood



Renato Pompeu



Desde o século 16, no Ocidente, escritores produziram várias utopias, em que descreviam situações ideais, sociedades humanas fictícias, localizadas no futuro ou em regiões remotas, em que não havia miséria nem maldades, nem abusos nem exploração de seres humanos por seres humanos. Foi só a partir do século 20, com sua sucessão de horrores em massa, que surgiram as chamadas “distopias”, ou seja, utopias ao contrário, que descreviam sociedades humanas no futuro ou em lugares remotos, em que prevaleciam a maldade, o controle absoluto das mentes, a miséria e a infelicidade, as torturas.

No começo, a inspiração das distopias eram os regimes totalitários que povoaram o século 20 e os escritores imaginavam sociedades ainda mais totalitárias, como “1984”, do britânico George Orwell, ou “O admirável mundo novo”, do também britânico Aldous Huxley. Em Orwell, o totalitarismo se estendia ao controle das mentes; em Huxley, ao controle biológico dos nascimentos.

Depois, entre novas distopias, no pós-Segunda Guerra Mundial, se destacavam as que se situavam após uma guerra nuclear, com os sobreviventes humanos constituindo uma população rarefeita, às vezes reduzidas a uma pessoa só, ou a poucas outras pessoas.Em seguida vieram as distopias baseadas em catástrofes ecológicas, em desastres ambientais. Mas o romance da escritora canadense Margaret Atwood, “O ano do dilúvio”, que acaba de ser lançado no Brasil pela Rocco , dois anos após o lançamento em inglês, descreve um mundo desolado e hostil a seres humanos que se localiza no futuro após catástrofes genéticas.

Num mundo que leva ao exagero características do mundo atual, a humanidade está dividida em três grupos: os poucos que vivem em condomínios de luxo realizando experiências de bioengenharia, os muitos que vivem na miséria absoluta fora dessas verdadeiras redomas luxuosas, e os ambientalistas que combatem o consumismo desenfreado. Um vírus desconhecido mata quase todos os seres humanos, e animais “experimentais” criados pela engenharia genética tomam conta do mundo, como os mistos de leão e de carneiro e os porcos dotados de cérebros humanos, além de ovelhas de pelos multicoloridos.

A história é narrada sob os pontos de vista de duas mulheres que escaparam da nova praga. Margaret Atwood tem sido chamada de escritora de ficção científica, mas ela prefere descrever o gênero que pratica como “ficção especulativa”. Com efeito, nesse seu novo livro, ela não lida apenas com ciência, mas desenvolve tramas relacionadas com exacerbações de tendências sociais e culturais do atual mundo global, bem como com suas vertentes econômicas, religiosas e políticas.

De fato, embora Margaret Atwood, atualmente com 72 anos de idade, tenha escrito dezenas de livros de vários gêneros, inclusive para crianças, a sua marca desde pelo menos os anos 1980 tem sido realmente a ficção especulativa. Trata-se do seguinte – ela constata um aspecto mais ou menos anômalo da sociedade atual, como o fundamentalismo religioso ou a eventual falta de maior cuidado com as consequências dos avanços tecnológicos. Em seguida, a escritora imagina uma situação no futuro em que essa anomalia se agiganta e toma conta do mundo. Ela já descreveu, por exemplo, os Estados Unidos do futuro como estando dominados pelos fanáticos cristãos de extrema direita, ou, em “Oryx e Crake”, de 2003, o mundo que existiria após uma catástrofe genética. Assim, ela realiza um trabalho semelhante aos que especulam, por exemplo, sobre os futuros impactos das mudanças climáticas.

“O ano do dilúvio” chegou a ser apresentado como uma continuação de “Oryx e Crake”, pois também se passa após uma catástrofe genética, e de fato há personagens em comum entre os dois livros, mas cada um pode ser lido independentemente do outro. Margaret Atwood é particularmente destra em descrever ambientes naturais, seja intocados, seja destruídos pela ação humana. Afinal, ela é filha de um entomologista, e o pai a fazia passar seis meses de cada ano na mata virgem da Província de Ontario, onde ele observava insetos, e os restantes seis meses na cidade grande.

Começou como poeta que criticava os artificialismos da vida moderna. Formada em três universidades, a canadense de Ontario e as americanas de Radcliffe e Harvard, ela publicou, além de seus poemas, mais de dez romances, dois volumes de crítica literária, livros infantis, livros de contos; é ativa colaboradora em jornais e revistas, militante de causas feministas e políticas, sempre com um sentido de manter as liberdades individuais e a independência diante de governos e de grandes conglomerados econômicos.

Em diversos livros, tanto de ficção como de não-ficção, ela manifesta preocupação com tendências antidemocráticas nos poderosos Estados Unidos, tão próximos de seu Canadá. Duas de suas frases famosas são: “Cuidado ao pedir justiça, pois a justiça pode ser imposta a você” e “Uma palavra depois de uma palavra depois de uma palavra é poder”. No novo livro, ela nos chama a atenção sobre o que pode ocorrer se os seres humanos continuarem irresponsáveis ecológica e geneticamente.

13 de junho de 2011

Entrevistas da Paris Review, pela Companhia das Letras

Recentemente o Diário do Comércio de São Paulo me encomendou a seguinte resenha:




Falam Hemingway, Borges,


Faulkner... na “Paris Review”



Renato Pompeu



Lançada em 1953 em Paris, mas em inglês, por jovens americanos ali radicados, a revista cultural “Paris Review” consagrou-se já no primeiro número por lançar um modelo de entrevistas em profundidade, a cada edição trimestral, de um escritor importante, como Ernest Hemingway, Jorge Luis Borges ou William Faulkner, num estilo que só teria algum tipo de eco distante no Brasil bem mais de uma década depois, nas páginas de “O Pasquim”, e que até hoje não tem contrapartida em nosso país. Agora, finalmente, saíram catorze dessas entrevistas em português, pela Companhia das Letras, no volume 1 de “As entrevistas da Paris Review”, inclusive as de Hemingway, Borges e Faulkner. Todas as entrevistas são importantes, interessantes e reveladoras, tanto das concepções literárias quanto das visões pessoais dos autores – e, sem dúvida, é uma obra que deve ser lida com proveito por todos os amantes da boa literatura.

Algumas observações se impõem a respeito da edição da Cia. das Letras. Embora se informe que se trata do volume 1, não se informa de quantos volumes vai constar a coleção completa, nem quais seriam os demais autores cujas entrevistas vão ser publicadas em português. De todo modo, em inglês todas as entrevistas estão disponíveis no site http://www.theparisreview.org/interviews. Além disso, os catorze autores do volume 1 em português não estão todos incluídos entre os dezesseis autores que constam do volume 1 editado em inglês, sem que haja informações aos leitores e leitoras do Brasil a respeito de quem selecionou as entrevistas, muito menos quais os critérios usados para a escolha.

E ainda mais: se da edição brasileira constam nomes bem conhecidos como Faulkner, Borges, Hemingway, Billy Wilder (cineasta que foi considerado escritor por ser também grande roteirista), W.H. Auden, Primo Levi, Amos Oz, Manuel Puig, Louis-Ferdinand Céline, Doris Lessing e Truman Capote, constam também nomes menos conhecidos no Brasil, como Javier Marías, Ian McEwan e Paul Auster. Do volume 1 em inglês constam, em comum com a edição brasileira, apenas Capote, Hemingway, Borges e Wilder, mas há igualmente outros nomes bem familiares ao público culto brasileiro, como Dorothy Parker, T.S. Eliot, Saul Bellow, Kurt Vonnegut, James M. Cain, Rebecca West, Elizabeth Bishop, a par de outros menos conhecidos, como Robert Stone, Robert Gottlieb, Richard Price, Jack Gilbert e Joan Didion.

Procurada por telefone pelo DC Cultura, a Companhia das Letras informou por escrito: “Sobre o livro ‘As entrevistas da Paris Review - vol. 1’, a editora esclarece que as entrevistas foram escolhidas pelo conselho editorial dentre todas as presentes na coleção em 4 partes publicada nos EUA. Foram selecionadas aquelas que resistem ao teste do tempo e cujos autores são conhecidos no Brasil, ao mesmo tempo mantendo o cuidado de equilibrar nomes clássicos e contemporâneos. O texto usado como base para tradução foi os dos livros americanos, que é rigorosamente igual ao publicado originalmente pela Paris Review. Haverá um segundo volume da coletânea, previsto para 2012, todavia não podemos divulgar quais autores farão parte dela porque o processo de escolha ainda não foi finalizado.”

Evidentemente, esses esclarecimentos deveriam ter constado do volume agora posto à venda, para que todos os seus leitores e leitoras ficassem devidamente informados, e não só os leitores do DC Cultura. Deve-se assinalar que os nomes dos membros do conselho editorial não figuram nem nessa nota da editora, nem nas informações encontradas no livro. Dos autores constantes do volume de entrevistas da “Paris Review” agora publicado pela Companhia das Letras, tiveram livros anteriormente por ela editados W.H. Auden, Jorge Luis Borges, Primo Levi, Amos Oz, Javier Marías, Ian McEwan, Paul Auster, Louis-Ferdinand Céline, Doris Lessing e Truman Capote, ou seja, a maioria; só não foram publicados pela própria editora Billy Wilder, Ernest Hemingway, William Faulkner e Manuel Puig,.

Em 1988, a Companhia das Letras publicou o livro “Os escritores 1 – As históricas entrevistas da Paris Review”, com entrevistas de E. M. Forster, Louis-Ferdinand Céline, Ezra Pound, T. S. Eliot, Dorothy Parker, John dos Passos, Evelyn Waugh, Jorge Luis Borges, William Faulkner, Saul Bellow, Isaac Bashevis Singer, Georges Simenon, John Cheever, Gore Vidal, Milan Kundera, William Burroughs e Nadine Gordimer. No ano seguinte, ela publicou o volume 2, com entrevistas de H. Miller, E. Hemingway, W. Carlos Williams, J. Cocteau, G. Garcia Marquez, P. Roth e outros. Nos casos de Céline, Borges, Faulkner, Hemingway teriam sido reeditadas as traduções?

Novamente procurada, por telefone e por mensagem na Internet, a Companhia das Letras informou, por escrito:

“Todos os editores fazem parte do conselho editorial. Nosso quadro de editores atualmente é composto por: Luiz Schwarcz, Maria Emilia Bender, Matinas Suzuki, André Conti, Thyago Nogueira, Marta Garcia, Júlia Schwarcz e Leandro Sarmatz. A alta incidência de entrevistas selecionadas cujos autores constam em nosso catálogo se explica simplesmente porque grande parte dos entrevistados da ‘Paris Review’ já foi publicada pela Companhia das Letras, já que a linha editorial é semelhante. De fato publicamos dois volumes de entrevistas na década de 80, mas todas as traduções são novas, feitas por Sérgio Alcides e Christian Schwartz”.

Esclarece ainda a editora que não figura mais em seu catálogo o poeta W.H. Auden (o livro de poemas está esgotado há muitos anos).

De todo modo a leitura do volume 1 de “As entrevistas da Paris Review” é plenamente recomendável.

31 de março de 2011

Saul Bellow e seu romance preferido

Há tempo a revista Carta Capital me encomendou a seguinte nota:

O preferido de


Saul Bellow



Mais de meio século depois de seu lançamento original em 1959, sai finalmente no Brasil o romance de maior sucesso nos EUA, e o preferido do próprio autor, de Saul Bellow (1915-2005), americano nascido no Canadá filho de judeus russos, Nobel de 1976. Trata-se de “Henderson, o Rei da Chuva”, em bem cuidada tradução de José Geraldo Couto, pela Companhia das Letras. Para o leitor brasileiro, mais próximo dos deserdados da terra do que o leitor americano, o livro pode chocar pela facilidade com que o personagem-título, um típico americano rico, um tanto brusco de maneiras, um tanto superficial e grosseiro, um tanto infeliz com o vazio existencial de sua vida, se torna candidato a rei de uma tribo africana, por suas façanhas de “civilizado”. Para o leitor americano, são fascinantes os debates do prático Henderson com o filosófico rei africano educado no Ocidente, e o romance nos EUA foi consagrado pelo misto de humor, aventura e profundidade. A notar, entretanto, que o rei africano só é apresentado como influente no aperfeiçoamento comportamental de Henderson por ser, afinal, um africano formado no Ocidente. É o livro de um virtuose da prosa, misto de entretenimento e de alta vulgarização filosófica. Não fica claro, entretanto, se Bellow jamais conversou pessoalmente com um “nativo” na África. – RENATO POMPEU

24 de março de 2011

Calidoscópio para obter emprego

Recentemente a revista Carta Capital me encomendou a seguinte resenha:

Perec lembra


Ravel e Chico



Quem gosta de ficção experimental vai gostar de “A arte e a maneira de abordar seu chefe para pedir um aumento”, lançamento de 1968 do francês Georges Perec, agora em edição da Companhia das Letras. Lembrando o “Bolero” de Ravel e “Construção”, de Chico Buarque, e a lata do fermento em pó Royal, Perec segue um organograma, em que após cada frase ele escolhe entre continuações pré-programadas, que se repetem em diferentes combinações. Apesar de baseado em bifurcações, o texto é linear e não propõe alternativas ao leitor – quem opta é o próprio autor. Como o tradutor, o famoso escritor Bernardo Carvalho, optou por traduzir “milliard” por “milhar”, embora os dicionários recomendem “bilhão”.

12 de fevereiro de 2011

Resenha sobre Marina Colasanti

Recentemente o Diário do Comércio de São Paulo me encomendou a seguinte resenha:

Literalmente fabulosos, os


contos de Marina Colasanti



Renato Pompeu



Esses “Contos de amor rasgados”, da escritora Marina Colasanti, italiana radicada no Rio e que há décadas encanta as letras brasileiras com poemas e textos em prosa altamente imaginativos, lançados pela Record, são literalmente fabulosos, no sentido de que são fábulas em que os personagens são seres humanos, fábulas maravilhosas cheias de magias e metamorfoses.

Fogem assim ao padrão usual do gênero, que para os adultos costuma ser de um realismo bem imitativo da vida cotidiana. Marina Colasanti parte da apresentação de pessoas comuns e da descrição de ambientes bem conhecidos de todos, para desenhar situações absolutamente fantásticas, em que seres humanos dialogam com coisas e com animais, ou se transformam nesses outros seres, voam, entre a ficção mística, mais do que científica, e os contos de fadas.

Por outro lado, inusitada é também a forma perfeitamente trabalhada dessas elaborações. São cerca de cem contos em pouco mais de duzentas páginas, isto é, são contos curtos intensamente densos; alguns são verdadeiros aforismos, na forma consagrada pelo pensador francês Pascal, do século 17, e pelo pensador alemão Nietzsche, do século 19 – a essas alturas de profundidade e de imaginação chegam essas obras de Marina Colasanti.

Mais do que prosa poética, Marina Colasanti pratica aqui verdadeiros poemas, destilados como se fossem gotas de perfume, ou goles do leite da mulher amada, ou cálices de um licor inebriante. São na maioria histórias de amor que bradam ternura e encanto, ou vão enrodilhando o leitor ou a leitora num ronronar aveludado, até que de repente o remate surpreende, encanta ou assusta.

“Perdida estava a meta da morfose”, diz o título de um dos minicontos, e isso poderia servir de epígrafe à obra toda, pois invariavelmente a meta de cada personagem é fugidia e escorre entre os dedos como água ou areia. Todos os contos são metamorfoses, de diferentes maneiras, às vezes efetivadas, às vezes só imaginadas.

Por trás das metamorfoses, por trás das mudanças, está sempre o tempo, o principal personagem de Marina Colasanti nesses contos de amor bem rasgado. Aqui podemos especular: se não houvesse mudanças, se tudo ficasse sempre eternamente igual, se poderia conceber a existência do tempo? Afinal, o tempo é uma característica imanente à natureza – ou é uma simples maneira de avaliarmos a sucessão de mudanças que observamos no mundo à nossa volta? Os contos chegam a inverter a linha do tempo: um personagem nasce velho e vai remoçando na medida em que os anos passam, da idade madura passa à juventude, até morrer como bebê. O tempo nesse livro é como se fosse um Ano Velho vestido de fralda, ou um Ano Novo de cajado na mão.

A autora é mágica. Começa um conto assim: “Comprou a esposa numa liquidação”. Seria uma alegoria, ou ela está narrando um fato verossímil? Afinal, comprar esposas não é novidade, mas... numa liquidação? A interpretação mais rasteira é de que algum homem comprou uma boneca inflável – mas Marina Colasanti não faz esse tipo um tanto simplório de ficção – pelo contrário, tem o requinte de um Da Vinci ou um Michelangelo. Ela está narrando pelo prazer de narrar, pelo prazer de expressas frases bem bordadas, de altas estesias sonoras, e de conteúdos também macios.

Dá nova vida a situações clássicas cristalizadas pelo tempo do imaginário, como a história do sapo que vira príncipe, em seu texto virtuosamente metamorfoseado..

Notem-se as tonalidades do final de outro conto: “Agarrou-se náufraga na alça”. Prosa poética? Não, poesia diagramada na página como se fosse prosa. O livro está assim cheio de frases belas como os vestidos do Reino das Águas Claras de Monteiro Lobato, costurados com fios de água enfiados na agulha.

Em suma, Marina Colasanti escreve como o americano Jackson Pollock pintava. Assim como o criador da “action painting” parecia jogar ao acaso as tintas sobre o chão, ela parece jogar ao acaso situações que, em mãos menos experientes e menos cuidadosas, pareceriam sem pé nem cabeça. Ela pode ser considerada a criadora da “action writing”.

8 de fevereiro de 2011

Inventário colorido

Há alguns meses o Diário do Comércio de São Paulo me encomendou a seguinte resenha:

Os contos coloridos


de Neiva Pitta Kadota



Renato Pompeu



Se “O silêncio não é azul”, como diz o título desse livro de contos de Neiva Pitta Kadota, professora de Literatura na Fundação Armando Álvares Penteado, a famosa e requintada Faap, livro publicado pela LCTE Editora, não há dúvida de que as narrativas nele contidas são cheias de cores cintilantes. E isso não apenas nas descrições enlevadas de ruas e ambientes, embora às vezes desolados. Mas principalmente a partir do brilho emanado do calor humano e das nuanças psicológicas sutis que povoam os contos. Isso ao lado das inusitadas mudanças de tom, quando o final surpreendente de cada trama transtorna o patamar de emoções a que nos estávamos acostumando.

A autora usa com mestria o recurso de ir criando uma expectativa em que o leitor vê crescer em sua mente a certeza absoluta de que o enredo vai seguir um determinado caminho, insinuado por pequenas pistas que ela vai deixando sem alarde, para em seguida, num golpe final que causa um frisson ao mesmo tempo intenso e delicado, mudar totalmente o panorama de significados.

Seja nos atemorizando com o que pode acontecer quando uma menina inocente vai desavisadamente passear com seu cão num bairro que conhece pouco, ou quando uma mulher toma conta de sua mãe doente – situação que parece aconchegante mas que pode se tornar dramática -, ou ainda quando um marido é humilhado pela esposa e pela filha, Neiva Pitta Kadota sempre nos apresenta um universo ameno e tranquilo que de repente se.torna angustiante, até o desenlace pelo qual ansiávamos se vir deliciosamente frustrado.

Outras histórias começam também com um cotidiano “normal”, como o do homem que está na expectativa de uma consulta médica e que pega um recorte de jornal com uma entrevista antiga de um amigo do falecido filósofo francês Michel Foucault, ou o da empregadinha que tosse enquanto varre o terraço, ou o da mulher que, da janela de seu apartamento, contempla à noite os pontos luminosos nos prédios que avista, luminosidades indicativas de que as pessoas estão assistindo a uma telenovela. Mas logo evoluem para um pesadelo que tem um final que, se nem sempre é desolador, desperta invariavelmente uma emoção de solidariedade com o sofrimento humano.

Às vezes, é um encontro numa livraria que desperta esperanças e devaneios, às vezes é a cor de um vestido que aquece o coração e faz sentir um prelúdio de aquecimento da pele. Também acontece de uma mulher escrever o seu primeiro livro, desconfiar que seu amigo e confidente literário não vai gostar dele – e surpreender-se, como nós, com o que acontece depois que entrega a ele a sua obra. E mais: uma outra mulher, preocupada com as rasteiras despesas do cotidiano, fica contente por poder contar com os préstimos de uma vizinha próspera, até que enxerga o que não quer ver.

Há um casal de amantes que anseia por uma noite de amor, interrompida porém por batidas na porta. Outro conto explora a melancolia do “bullying” nas escolas, o sentimento de impotência que o bulir dos outros engendra, a ânsia de onipotência que se segue, para responder aos estragos no ego. E ainda outro conto explora o cotidiano repetitivo da vida “na firma”, cotidiano que pode se tornar literalmente infernal.

O retorno à pequena cidade natal, ou o vasculhar de uns guardados antigos, também revelam que, por trás de lembranças cálidas, pode haver segredos terríveis. As tristes ilusões da velhice também são tema da paleta de palavras de Neiva Pitta Kadota. Outro tema é o cotidiano ao mesmo tempo cinzento e rubro de um pronto-socorro da rede pública de saúde.

Um casamento em crise parece um beco sem saída. Um amor encruado de escritório só irrompe quando é tarde demais. Neiva Pitta Kadota faz um inventário colorido das impossibilidades e, ao final, o silêncio de repente se torna azul.

31 de janeiro de 2011

Romance "Fogo Morto": considerações

Por encomenda do Diário do Comércio, fiz recentemente a seguinte resenha:

“Fogo Morto” está vivinho da silva




Renato Pompeu



Quase setenta anos após seu lançamento em 1943, o romance “Fogo Morto”, do paraibano José Lins do Rego (1901-1957), continua sendo uma das presenças mais poderosas da literatura brasileira, a rigor uma das poucas obras-primas produzidas pelas letras nacionais. E continua sendo de interesse permanente dos leitores, como prova o fato de a edição recém-lançada pela José Olympio ser a sua 68.a edição, ou seja, mais de uma edição por ano desde o lançamento.

Injustamente apontado nos livros didáticos e mesmo na crítica literária como “clássico do regionalismo nordestino”, esse romance sobre os decadentes engenhos do açúcar, que cediam o passo às usinas no começo do século 20, na verdade segue o conselho de alguém bem mais sábio do que os autores desses livros e dessas críticas, o grande escritor russo Lev Tolstoi: “Canta a tua aldeia e serás universal”.

Com efeito, “Fogo Morto” só pode ser considerado “regional” pelo etnocentrismo que julga ser o eixo Rio-São Paulo o umbigo do Brasil. Por que o simples fato de ter o Nordeste como tema torna um romance “regionalista” e não “universal”? Na verdade, o romance de Lins do Rego tem como tema a condição humana universal e eterna, encarnada nas suas eternas problemáticas do sexo, da morte e da loucura, particularizada, com emoção discreta, nas suas dimensões singulares de espaço geográfico e tempo.

A própria estrutura de “Fogo Morto” já apresenta a complexidade digna de uma obra clássica, ao entrelaçar três temáticas, a centrada no mestre seleiro José Amaro, que procura manter sua independência embora more e trabalhe dentro de um engenho; a que tem como personagem principal o senhor de engenho coronel Lula de Holanda, às voltas com a decadência de seu latifúndio tecnologicamente a cada dia mais defasado, e a que privilegia o aventureiro capitão Vitorino Papa-Rabo, um misto de Dom Quixote e de Sancho Pança que tem como cenário a lavoura do açúcar.

Aliás, a lavoura do açúcar é um cenário muito mais nobre, esteticamente, do que, por exemplo, a lavoura do café do Rio e de São Paulo, que nunca deu origem a uma obra-prima como esse romance de Lins do Rego. Afinal, Mário Donato, um escritor que não poderia ser mais genuinamente paulista, autor dos romances “Madrugada de Sangue” e “Presença de Anita”, defendeu com denodo a tese de que o açúcar, no Nordeste, de tradição secular, tinha realmente criado uma sociedade que podia ser pano de fundo para um romance que tem seus lados épicos, pois aquela sociedade, com suas classes e estamentos, tinha realmente criado uma rica cultura própria.

O mesmo, segundo Donato, não teria acontecido com a lavoura do café, comandada por arrivistas mais preocupados com as cotações em Londres do que com a vivência cotidiana na sociedade que não chegou a ser composta com seus escravos e depois com seus colonos, pois os proprietários passavam a maior parte do tempo em São Paulo e Santos, cuidando de seus negócios, do que nas fazendas. O que é mais “regional” ou mais “universal”? O romance “Sinhá Moça”, de Maria Dezzone Pacheco – ou o romance “A Carne”, de Júlio Ribeiro, duas obras bem paulistas, ou “Fogo Morto”? Sem dúvida, o autor paraibano leva a palma.

As grandes paixões, no sentido original da palavra, que indica sofrimento, como a Paixão de Cristo, do ser humano, o sexo, a morte e a loucura, é que são os verdadeiros temas centrais do romance de Lins do Rego. Essas instâncias vitais, esses elãs, essas vertigens que acompanham, ou melhor, perseguem os seres humanos desde eras imemoriais, aparecem encarnadas nos grandes verdes, até onde a vista alcança, do Nordeste açucareiro, com suas plantações de cana rodeadas pela mata, nos cheiros e gostos doces evocados pelo açúcar, nos calores das fervuras do melaço – e nas multidões de cores das peles e dos olhos mais claros e mais escuros dos diferentes personagens que povoam de vida, de muitas dores e de parcas alegrias, aquelas lonjuras verdejantes. Quem conhece “Fogo Morto” tem a oportunidade de fruí-lo novamente, com o compungido prazer cheio de solenidade que a obra desperta. Quem não conhece, tem a oportunidade de estar diante de uma experiência única e irrepetível, uma maravilha.

www.renatopompeu.blogspot.com

12 de dezembro de 2010

Meus contos preferidos

Há algum tempo o Diário do Comércio de São Paulo me encomendou o seguinte artigo;

Dez dos melhores contos da literatura
ocidental, escolhidos por um resenhista

Renato Pompeu

Eu poderia dizer que o conto que mais me impressionou, em já mais de seis décadas de leituras contínuas e exaustivas, seria “O alienista”, de Machado de Assis, de 1882. Seria de bom tom um resenhista profissional apontar como o seu preferido o conto mais significativo jamais produzido em português e um dos contos mais significativos jamais produzidos na literatura mundial. Trata-se ao mesmo tempo de uma obra literária e de um ensaio filosófico sobre a impossibilidade de distinguir entre sanidade mental e doença mental.
Mas confesso que “O alienista”, o melhor trabalho, de ficção ou não, jamais publicado no mundo sobre a loucura, e que sempre vai ser, enquanto os seres humanos existirem, de interesse permanente e sempre atual, é a minha segunda preferência em português. A primeira é “O jardineiro Timóteo”, publicado em 1920 no livro “Negrinha”, de Monteiro Lobato, na sua obra para adultos um autor bem menos dotado do que Machado. Porém, embora não a releia há mais de 50 anos, sempre me encanta essa triste e belíssima história de lindas flores caipiras ameaçadas por “flores da cidade”.
Também há mais de 50 anos não releio o conto policial “As mãos do sr. Ottermole”, do inglês Thomas Burke, publicado originalmente em 1929 e filmado por Alfred Hitchcock em 1957. Mas recordo cada detalhe dessa que é uma das mais perfeitas histórias policiais de todos os tempos. Trata-se de uma série de homicídios por estrangulamento, com os cadáveres das vítimas achados em calçadas de ruas de Londres, em que desde o início o autor vai revelando todas as pistas que identificam o criminoso, mas só na penúltima frase, para surpresa mesmo dos leitores mais atentos, é que a identidade do assassino é revelada. Tudo foi rigorosamente calculado pelo autor para levar inevitavelmente ao desenlace final, mas o leitor, da primeira vez que lê o conto, não percebe essa preparação.
Incluo mais contos policiais: qualquer um com o detetive particular belga Hercule Poirot, criação, com suas “pequenas células cinzentas”, da escritora inglesa Agatha Christie, de 1921, ou qualquer um do também detetive particular, de incerta origem europeia-oriental, Nero Wolfe, superobeso que odiava qualquer movimento físico e que resolvia os crimes sem sair da poltrona, criação do escritor americano Rex Stout, de 1934.
Falando em americanos, de 1868 é “A felicidade do acampamento de garimpeiros”, de Bret Harte, sobre um bebê que nasce num acampamento de garimpeiros na Califórnia, filho de uma índia, a única mulher e que servia em todos os sentidos aos violentos e sempre bêbados homens do local, e de pai desconhecido. Ela morre no parto e aquele bando de desordeiros se vê às voltas com a necessidade de educar a criança.
Já “Bola de sebo”, do francês Guy de Maupassant, de 1880, é a mais comovente história sobre prostituição que jamais vi – e desconfio mesmo que se baseia num fato real. A personagem-título, que tem esse apelido por ser encantadoramente gordinha, se vê às voltas com o seguinte problema: deve prestar ou não seus serviços profissionais a um oficial alemão, na França ocupada durante a Guerra Franco-Prussiana? A resposta desmascara a hipocrisia dos chamados bem-pensantes.
De 1747 é “Zadig, ou O destino – história oriental”, do francês Voltaire, muito mais conhecido como filósofo do que como ficcionista. É uma sátira social e política e também uma história policial que se passa na antiga Babilônia.
“O barril de amontillado”, de 1846, do americano Edgar Allan Poe, é a história de uma vingança cruel, metodicamente preparada, narrada de um modo patologicamente frio e sem nenhum sentimento que não o prazer da vingança. Quem pretende se vingar convida seu desafeto, “fazendo as pazes”, para degustar um rum especial.
Deixei para o fim o conto de que mais gosto, “O diabo que queria ser bom”, de um obscuro autor russo de que não lembro o nome. O diabo pede conselhos a um padre sobre como ser bondoso – mas faz trapalhadas, como, aconselhado a ajudar os outros, ajuda um suicida a se afogar. Deixei para o fim porque não lembro quem escreveu.

25 de novembro de 2010

Contistas importantes

O Diário do Comércio de São Paulo me encomendou há tempo o seguinte artigo:

A lista de contistas cuja obra aspira à eternidade, indubitavelmente, entre os brasileiros, inclui o grande Guimarães Rosa (1908-1967) e a genial Clarice Lispector (1920-1977), além de Rubem Fonseca (nascido em 1925) e João Antônio (1937-1996) e, por último, mas não menos importante, Lima Barreto (1881-1922). Na literatura ocidental, foram importantes criadores de contos os alemães E.T.A. Hoffmann (1776-1822) e Heinrich Kleist (1777-1811), o francês Prosper Mérimée (1803-1870) e o russo Anton Tchekhov (1860-1904)., que, ao lado do americano Poe e do francês Maupassant, conformaram o conto moderno.
Não que não tenha havido, na Antiguidade ocidental, histórias curtas, cuja tradição na verdade remonta ao Velho Testamento. Na Idade Média, tivemos o “Decâmeron”, do italiano Boccaccio (1313-1375) e os “Contos da Cantuária”, do inglês Chaucer (1340-1400).
O contista mais criativo talvez de toda a história e certamente de todo o século 20 foi o judeu tcheco que escreveu em alemão Franz Kafka (1883-1924). Nos fins do século 19 e particularmente no século 20, consagraram-se contistas de língua inglesa, principalmente americanos, como o inglês Charles Dickens (1812-1870), os americanos Henry James (1843-1916), que se radicou na Inglaterra, e O. Henry (1862-1910) o inglês D. H. Lawrence (1885-1930), a neozelandesa Katherine Mansfield (1888-1923), os americanos Ernest Hemingway (1899-1961), J. D. Salinger (1919-2010), Charles Bukowski (1920-1994) e John Updike (1932-2009).
Não se pode esquecer o imortal italiano Primo Levi (1910-1987), autor dos magistrais contos-meditações de “O sistema periódico”. (R.P.)

21 de novembro de 2010

O escritor que escreve sobre si mesmo e se apresenta como grande amante

A revista Carta Capital, há pouco tempo, me encomendou o seguinte artigo:

Coetzee, um Autorretrato

O escritor sulafricano radicado na Austrália, J.M. Coetzee, 70 anos, Nobel de 2003, é famoso por sua militância – contra o apartheid na África do Sul, contra a guerra do Vietnã nos EUA e pelos direitos dos animais na Austrália – e pelo seu caráter arredio: mantém-se distante da mídia. No entanto, em seu romance “Verão – Cenas da vida na província”, agora lançado pela Companhia das Letras, ele se compraz em descrever a vida de um certo Coetzee, apresentado como um bem sucedido amante, quando adulto na Cidade do Cabo e em lugares mais remotos da África do Sul, nos anos 1970. É continuação de romances anteriores sobre a infância e juventude desse seu alter ego. A principal diferença é que o Coetzee do livro já morreu. – RENATO POMPEU

14 de novembro de 2010

Romance sobre a tragédia dos Bálcãs

A revista Carta Capital há poucos meses me encomendou a seguinte resenha:


Kadaré e a angústia



No angustiado romance “O acidente”, agora publicado no Brasil pela Companhia das Letras, dois anos depois da edição francesa, o escritor albanês radicado na França Ismail Kadaré, 74 anos, famoso por “Abril despedaçado”, mistura a temática imemorial do amor mesclado de ternura e agressividade com a temática imediata das recentes guerras nos Bálcãs. O romance abre com um acidente de carro em que morreu um casal de albaneses e procura retraçar a trajetória daquele homem e daquela mulher desde que se conheceram até o momento de sua morte, em meio aos horrores dos conflitos étnicos. Kadaré, que estudou sob o regime comunista em Tirana e em Moscou, começou publicando poesia, mas em 1963 passou a publicar romances em seu país, dos quais dois foram proibidos pelas autoridades comunistas: “O monstro” (1965) e “O palácio dos sonhos” (1980). Ele se considerava, não um “dissidente”, mas um “resistente” e, em meio à crise final do comunismo, se asilou na França em 1990. Agora, em “O acidente” traduzido diretamente do albanês por Bernardo Joffily, ele apresenta uma trama fascinante e aterrorizante entremeada de massacres físicos entre etnias e dos talvez igualmente assustadores massacres psicológicos entre amantes, uma trama trabalhada e retrabalhada artisticamente para ir se revelando aos poucos, como se fosse um espelho aos pedaços. Às angústias próprias da trama, se junta a inquietação do leitor, que lê sofregamente para entender, afinal, o que aconteceu. Assim, a leitura em si chega a ser angustiante, a par dos acontecimentos relatados. – RENATO POMPEU