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6 de fevereiro de 2014

Modernell, notícia e fábula

Do Diário do Comércio de São Paulo - Renato Modernell, a fábula como notícia e a notícia como fábula - Renato Pompeu - O consagrado escritor, jornalista e professor universitário gaúcho Renato Modernell, 59 anos, radicado em São Paulo há quatro décadas, virou notícia e fábula ao mesmo tempo, ao ter acabado de lançar uma ficção, “Gird, o quarto mago”, edição do autor, e a não-ficção “A notícia como fábula – Realidade e ficção se confundem na mídia”, pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Summus Editorial. Virou notícia por causa da encantadora e mágica fábula que escreveu sobre o persa Gird, o quarto mago após os Três Reis Magos que acompanharam o nascimento de Jesus e que vai acompanhar a Paixão de Cristo. A partir da ideia de que, na Pérsia de mais de dois mil anos atrás, começou a acontecer a calamidade de o fogo esquentar cada vez menos até se tornar fogo frio, alarmando a população, Modernell cria com muita segurança e precisão um mundo mais do que surrealista, em que acontecem as coisas mais insólitas e absurdas, mas com uma lógica implacável e uma tranquilidade olímpica mesmo nas descrições mais inusitadas e fantásticas. É a narrativa em estado puro, pois paira suspensa e em rigoroso suspense com total independência em relação ao chamado mundo real. Ele cria um mundo imaginário e imaginoso, maravilhoso no sentido filosófico do tema, em que se vão sucedendo cenas regidas por leis naturais e relações sociais totalmente desenvolvidas pela fecunda fabulação do autor. Tal é a capacidade criativa de Modernell que a sua narração de situações irreais parece irrepreensivelmente verossímil. O sentimento que desperta no leitor, quando pincela cada cena e cada fala, é o de que não há dúvida de que, se isso pudesse realmente acontecer, aconteceria do modo como está sendo descrito. Não se trata, como se poderia cogitar, de que Modernell tenha sucumbido à presente voga mística da ficção mundial. Nem de que ele tenha pagado um tributo aos novos tempos. Trata-se, isso sim, de uma espetacular façanha de fabulosidade. Com muito engenho, ele na verdade cria, para além do antigo realismo mágico da literatura latino-americana e para além do sectarismo religioso dos grandes best-sellers internacionais da atualidade, uma espécie de racionalismo mágico, ou lógica mística. A tal ponto Modernell nos envolve com sua fala mansa que em momento algum nos surpreendemos ou nos chocamos com a sucessão de milagres que ele descreve. Com simplicidade que chega à candidez, desfilam acontecimentos mágicos como um sonho ou como um conto de fadas, que abordam questões tão complexas como o desenvolvimento e o exercício da sexualidade e a salvação da alma de cada um. Resumindo, confrontados com “Gird”, estamos diante de um virtuoso exercício de virtualidade, em que, rigorosamente, Modernell vai além do surrealismo e da chamada escrita automática. Aqui o escritor não escreve o que lhe vem à cabeça, o que vem de seu subconsciente e de seu inconsciente. Ao invés de ser resultado de uma imediaticidade instantânea, o livro é resultado de uma laboriosa, cuidadosamente arquitetada, criação de uma nova realidade, sólida como um bloco de tijolos, apesar de totalmente imaginária. Já em “A notícia como fábula”, originalmente uma tese de mestrado na Universidade de São Paulo, Modernell inverte totalmente a situação e discute, por meio de um cotejamento entre textos jornalísticos, a difícil relação dos seres humanos com a realidade que se presume existir fora do pensamento de cada um. Por trás do debate sobre as relações entre a notícia de um jornal ou revista e o “fato” que teria ocorrido e dado origem à notícia, por trás do problema de que a notícia publicada no jornal ou revista é apenas uma versão, inevitavelmente falha, daquele acontecimento, sendo o jornalista apenas alguém que, como todo mundo, viu apenas parcialmente o que ocorreu, está uma discussão tão antiga quanto a humanidade: até que ponto um ser humano pode realmente “observar” o mundo externo? Com apresentação do bem conhecido jornalista José Carlos Marão, experimentado repórter da famosa revista que tinha o significativo nome de “Realidade”, o ensaio de Modernell lembra uma antiga constatação do jornalista Paulo Pompeu, já falecido, que, com mais de meio século de jornalismo diário, chegou à conclusão de que só se pode acreditar numa notícia de jornal se não temos mais nenhuma fonte sobre o mesmo tema. Se tivermos outra fonte, saberemos que as coisas não foram bem assim. Mas isso é uma situação inelutável da condição humana: toda comunicação de um “fato” é parcial – apenas o jornalista, como comunicador profissional, procura reduzir ao máximo essa carga de subjetividade. Enfim, Modernell encarna tanto a notícia como a fábula, em suas duas novas obras.

28 de novembro de 2013

A ficção de uma psicanalista

Da Carta Capital - Narrativa fragmentada conta toda uma história - Renato Pompeu - Embora possam chamar atenção pelo fato de a autora ser psicanalista, as ficções da paulistana Sylvia Loeb, nestes tempos em que a literatura parece se dividir entre a ficção que visa mais o mercado do que a arte, praticada por escritores profissionais assessorados por equipes especializadas em pesquisas sobre os gostos do público-alvo e sobre os temas de maior interesse no momento, e a ficção com ambições mais eruditas, praticada em geral por mestres e doutores em letras, se inserem nas tradições maiores da narrativa em estado puro. Ou seja, ela é herdeira dos grandes escritores, reconhecidos como tais, fossem quais fossem suas profissões no que podemos chamar de mundo profano em relação a essa instituição sagrada que é a arte. Consagrada em 2007 por “Contos do divã – Pulsão da morte e outras histórias” e em 2010 por “Amores e tropeços”, este também de contos, Sylvia Loeb agora lança “Heitor”, pela Terceiro Nome, sem nomear o gênero a que se filia o livro. Mas, embora ele seja apresentado quase como um ensaio sobre a maldade, pela também psicanalista Naomi Jaffe, o que se pode dizer, parafraseando o modo (“romance:contos”) pelo qual o grande escritor Ivan Angelo apresentou o seu excepcional livro “A Festa”, nos anos 1970, é que “Heitor” é uma “novela:fragmentos”. Ou, mais exatamente, uma sucessão sem ordem cronológica de narrações fragmentadas, incluindo fragmentos ficcionais, notícias de jornais, etc., que, porém, forma uma história. Pois, ao final do livro, o leitor consegue construir, ou reconstruir, em conjunto com a autora, uma narrativa com começo, meio e fim. Assim, enriquecido com todos os recursos estilísticos desenvolvidos a partir da modernidade e da pós-modernidade, “Heitor” é tanto mais enriquecido por permitir ao leitor a plena fruição daquilo que é uma narrativa em estado puro, uma história, enfim, o que é o fundamento clássico da já milenar tradição da grande literatura. Isso ao mesmo tempo em que, em dia com a contemporaneidade, o livro permite a cada leitor construir, ou reconstruir, a história à sua maneira. Por exemplo, pode construir ou reconstruir a narrativa a partir do ponto-de-vista do personagem que escolher, entre Heitor, sua mulher, seu filho, sua filha, ou sua empregada. O mais curioso é que, com seu requinte de grande psicanalista, Naomi Jaffe chama a atenção para o fato de que Sylvia Loeb foge aos estereótipos mais vulgarizados do que sejam a teoria e a prática psicanalistas, vulgarização oriunda da incapacidade da grande maioria dos psicanalistas dos Estados Unidos em entender os dois principais pensadores da história da psicanálise, o austríaco Sigmund Freud e o francês Jacques Lacan, e difundida pela ficção e pelo cinema americanos. Ou seja, Naomi Jaffe quis dizer que Sylvia Loeb não reduz o comportamento de Heitor a seus “traumas” na infância. Mas, assim como Machado de Assis não deve ser tratado como jornalista e alto funcionário público, nem Fernando Pessoa deve ser tratado como correspondente comercial, Sylvia Loeb deve, sim, ser tratada como ficcionista talentosa e, mais do que isso, como ficcionista consumada, muito merecidamente também já consagrada por seus livros anteriores. E que neste “Heitor” atinge a maturidade de uma narrativa de mais longo curso do que seus contos dos livros anteriores. Como boa narrativa, “Heitor” trata, sim, da infância de alguns personagens, nomeadamente o personagem-título e seus filhos.

7 de abril de 2012

Livros de filosofia e outros

Há poucos meses a revista Caros Amigos publicou o seguinte artigo meu:



Ca176ideias



Ideias de Botequim



Marilena Chauí

ajuda a filosofar



Renato Pompeu



Os que querem se iniciar na filosofia, ou relembrar o que já estudaram, podem recorrer a uma coleção de livretos lançada pela Martins Fontes, dirigida por Marilena Chauí e Juvenal Savian Filho. Já foram lançados dez volumes; no primeiro, “Boas-vindas à filosofia”, Marilena Chauí discute as diferentes definições do filosofar, e chama a atenção para como pensar organizadamente é ao mesmo tempo prazeroso e produtivo. No segundo volume, Savian trata da “Argumentação: a ferramenta do filosofar”, uma introdução à arte de pensar com coerência. “Corpo e mente”, o terceiro volume, de Silvana de Souza Ramos, debate o que é ser humano a partir das explicações de dois filósofos franceses, René Descartes, do século 17, e  Maurice Merleau-Ponty, do século 20. Os mistérios de “O tempo”, no quarto volume, são abordados por Fernando Rey Puente, que discute até que ponto a passagem do tempo é um fenômeno “objetivo” e até que ponto é uma experiência “subjetiva”. Os volumes seguintes tratam de “O ser vivo”, “Percepção e imaginação”, “A liberdade” e “Deus”. Já o volume nove trata da “Lógica” e nele Abílio Rodrigues parte da lógica tradicional para em seguida fazer uma sua crítica e introduzir o leitor e a leitora nas chamadas “lógicas não-clássicas”. Finalmente, no volume dez, Olgária Matos discorre sobre “A história”, tal como foi conceituada desde a Grécia antiga até a era contemporânea, passando pela modernidade.

Com o fracasso dos movimentos marxistas ortodoxos, vem renascendo neste começo do século 21 o interesse pelo anarquismo, e uma maneira agradável e proveitosa de conhecer mais profundamente o assunto é a leitura de  “Contos anarquistas”, estórias escritas ao longo das décadas por autores brasileiros ou aqui radicados, entre 1890 e 1935, selecionadas por Arnoni Prado, Foot Hardman e Claudia Leal., obra lançada também pela Martins Fontes. Entre os autores, alguns famosos incluem Gigi Damiani, Astrojildo Pereira (que depois se tornou comunista), José Oiticica e Everardo Dias, sendo de notar que há contos em castelhano e em italiano, publicados no Brasil tendo por alvo os imigrantes. São contos sobre a militância, sobre o Estado burguês e a ordem burguesa, além de sobre a moral anarquista e a miséria urbana.

Uma seleção de textos do mais famoso e do mais competente, na imprensa, crítico do regime militar, está incluída no volume “O melhor de Stanislaw Ponte Preta”, o imortal autor do Festival de Besteiras que Assola o País, o célebre Febeapá, lançado pela José Olympio, e da Tia Zulmira e do Primo Altamirando. A seleção é do crítico Valdemar Cavalcanti, e as ilustrações são de outro ícone do carioquismo, Jaguar. Note-se que Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo de Sérgio Porto, não chegou a conhecer o pior do regime militar, pois morreu em setembro de 1968, antes do Ato 5 e da censura, mas o seu é o melhor retrato, senão dos fatos objetivos, pelo menos da vivência subjetiva das pessoas durante o regime militar.

A primeira e uma das principais vítimas do regime militar é objeto de uma exaustiva, mas bem legível, biografia de mais de 700 páginas, o livro “João Goulart – Uma Biografia”, de Jorge Ferreira, professor da Universidade Federal Fluminense, publicada pela Civilização Brasileira. Trata-se do estudo mais completo, e um dos mais isentos, realizado até agora sobre a vida e a carreira política de Jango, que, muito mais do que simplesmente o presidente deposto pelos militares, aparece como encarnação das aspirações e das insuficiências das camadas populares do Brasil entre o fim da Segunda Guerra Mundial e o golpe, período de muitas esperanças e de muitas frustrações. Particularmente importante é o fato de que boa parte dos problemas daquela época, e das soluções que foram propostas, as chamadas reformas de base, está bem viva ainda hoje.

Uma nova concepção de história surgiu nos últimos anos nos países avançados, a abordagem multimilenar, globalizante, envolvendo ainda as relações dos seres humanos com a natureza. Se chega em certos livros recentes a partir do Big Bang. Assim, quatro anos após a publicação original na Inglaterra, chega ao Brasil o livro “A história do homem – Uma introdução a 150 mil anos de história da humanidade”, do pesquisador Cyril Aydon, lançamento da Record. Além de tratar desde os inícios do ser humano atual na África, há 1.500 séculos, a obra também abandona o eurocentrismo tradicional da historiografia, dando a ênfase merecida às demais regiões e às demais culturas.

Em suma, todas obras dignas de leitura atenta.


7 de outubro de 2011

As sombrias previsões da escritora Margaret Atwood

Recentemente o Diário do Comércio, de São Paulo, me encomendou a seguinte resenha:

A “distopia” de Margaret Atwood



Renato Pompeu



Desde o século 16, no Ocidente, escritores produziram várias utopias, em que descreviam situações ideais, sociedades humanas fictícias, localizadas no futuro ou em regiões remotas, em que não havia miséria nem maldades, nem abusos nem exploração de seres humanos por seres humanos. Foi só a partir do século 20, com sua sucessão de horrores em massa, que surgiram as chamadas “distopias”, ou seja, utopias ao contrário, que descreviam sociedades humanas no futuro ou em lugares remotos, em que prevaleciam a maldade, o controle absoluto das mentes, a miséria e a infelicidade, as torturas.

No começo, a inspiração das distopias eram os regimes totalitários que povoaram o século 20 e os escritores imaginavam sociedades ainda mais totalitárias, como “1984”, do britânico George Orwell, ou “O admirável mundo novo”, do também britânico Aldous Huxley. Em Orwell, o totalitarismo se estendia ao controle das mentes; em Huxley, ao controle biológico dos nascimentos.

Depois, entre novas distopias, no pós-Segunda Guerra Mundial, se destacavam as que se situavam após uma guerra nuclear, com os sobreviventes humanos constituindo uma população rarefeita, às vezes reduzidas a uma pessoa só, ou a poucas outras pessoas.Em seguida vieram as distopias baseadas em catástrofes ecológicas, em desastres ambientais. Mas o romance da escritora canadense Margaret Atwood, “O ano do dilúvio”, que acaba de ser lançado no Brasil pela Rocco , dois anos após o lançamento em inglês, descreve um mundo desolado e hostil a seres humanos que se localiza no futuro após catástrofes genéticas.

Num mundo que leva ao exagero características do mundo atual, a humanidade está dividida em três grupos: os poucos que vivem em condomínios de luxo realizando experiências de bioengenharia, os muitos que vivem na miséria absoluta fora dessas verdadeiras redomas luxuosas, e os ambientalistas que combatem o consumismo desenfreado. Um vírus desconhecido mata quase todos os seres humanos, e animais “experimentais” criados pela engenharia genética tomam conta do mundo, como os mistos de leão e de carneiro e os porcos dotados de cérebros humanos, além de ovelhas de pelos multicoloridos.

A história é narrada sob os pontos de vista de duas mulheres que escaparam da nova praga. Margaret Atwood tem sido chamada de escritora de ficção científica, mas ela prefere descrever o gênero que pratica como “ficção especulativa”. Com efeito, nesse seu novo livro, ela não lida apenas com ciência, mas desenvolve tramas relacionadas com exacerbações de tendências sociais e culturais do atual mundo global, bem como com suas vertentes econômicas, religiosas e políticas.

De fato, embora Margaret Atwood, atualmente com 72 anos de idade, tenha escrito dezenas de livros de vários gêneros, inclusive para crianças, a sua marca desde pelo menos os anos 1980 tem sido realmente a ficção especulativa. Trata-se do seguinte – ela constata um aspecto mais ou menos anômalo da sociedade atual, como o fundamentalismo religioso ou a eventual falta de maior cuidado com as consequências dos avanços tecnológicos. Em seguida, a escritora imagina uma situação no futuro em que essa anomalia se agiganta e toma conta do mundo. Ela já descreveu, por exemplo, os Estados Unidos do futuro como estando dominados pelos fanáticos cristãos de extrema direita, ou, em “Oryx e Crake”, de 2003, o mundo que existiria após uma catástrofe genética. Assim, ela realiza um trabalho semelhante aos que especulam, por exemplo, sobre os futuros impactos das mudanças climáticas.

“O ano do dilúvio” chegou a ser apresentado como uma continuação de “Oryx e Crake”, pois também se passa após uma catástrofe genética, e de fato há personagens em comum entre os dois livros, mas cada um pode ser lido independentemente do outro. Margaret Atwood é particularmente destra em descrever ambientes naturais, seja intocados, seja destruídos pela ação humana. Afinal, ela é filha de um entomologista, e o pai a fazia passar seis meses de cada ano na mata virgem da Província de Ontario, onde ele observava insetos, e os restantes seis meses na cidade grande.

Começou como poeta que criticava os artificialismos da vida moderna. Formada em três universidades, a canadense de Ontario e as americanas de Radcliffe e Harvard, ela publicou, além de seus poemas, mais de dez romances, dois volumes de crítica literária, livros infantis, livros de contos; é ativa colaboradora em jornais e revistas, militante de causas feministas e políticas, sempre com um sentido de manter as liberdades individuais e a independência diante de governos e de grandes conglomerados econômicos.

Em diversos livros, tanto de ficção como de não-ficção, ela manifesta preocupação com tendências antidemocráticas nos poderosos Estados Unidos, tão próximos de seu Canadá. Duas de suas frases famosas são: “Cuidado ao pedir justiça, pois a justiça pode ser imposta a você” e “Uma palavra depois de uma palavra depois de uma palavra é poder”. No novo livro, ela nos chama a atenção sobre o que pode ocorrer se os seres humanos continuarem irresponsáveis ecológica e geneticamente.

13 de junho de 2011

Entrevistas da Paris Review, pela Companhia das Letras

Recentemente o Diário do Comércio de São Paulo me encomendou a seguinte resenha:




Falam Hemingway, Borges,


Faulkner... na “Paris Review”



Renato Pompeu



Lançada em 1953 em Paris, mas em inglês, por jovens americanos ali radicados, a revista cultural “Paris Review” consagrou-se já no primeiro número por lançar um modelo de entrevistas em profundidade, a cada edição trimestral, de um escritor importante, como Ernest Hemingway, Jorge Luis Borges ou William Faulkner, num estilo que só teria algum tipo de eco distante no Brasil bem mais de uma década depois, nas páginas de “O Pasquim”, e que até hoje não tem contrapartida em nosso país. Agora, finalmente, saíram catorze dessas entrevistas em português, pela Companhia das Letras, no volume 1 de “As entrevistas da Paris Review”, inclusive as de Hemingway, Borges e Faulkner. Todas as entrevistas são importantes, interessantes e reveladoras, tanto das concepções literárias quanto das visões pessoais dos autores – e, sem dúvida, é uma obra que deve ser lida com proveito por todos os amantes da boa literatura.

Algumas observações se impõem a respeito da edição da Cia. das Letras. Embora se informe que se trata do volume 1, não se informa de quantos volumes vai constar a coleção completa, nem quais seriam os demais autores cujas entrevistas vão ser publicadas em português. De todo modo, em inglês todas as entrevistas estão disponíveis no site http://www.theparisreview.org/interviews. Além disso, os catorze autores do volume 1 em português não estão todos incluídos entre os dezesseis autores que constam do volume 1 editado em inglês, sem que haja informações aos leitores e leitoras do Brasil a respeito de quem selecionou as entrevistas, muito menos quais os critérios usados para a escolha.

E ainda mais: se da edição brasileira constam nomes bem conhecidos como Faulkner, Borges, Hemingway, Billy Wilder (cineasta que foi considerado escritor por ser também grande roteirista), W.H. Auden, Primo Levi, Amos Oz, Manuel Puig, Louis-Ferdinand Céline, Doris Lessing e Truman Capote, constam também nomes menos conhecidos no Brasil, como Javier Marías, Ian McEwan e Paul Auster. Do volume 1 em inglês constam, em comum com a edição brasileira, apenas Capote, Hemingway, Borges e Wilder, mas há igualmente outros nomes bem familiares ao público culto brasileiro, como Dorothy Parker, T.S. Eliot, Saul Bellow, Kurt Vonnegut, James M. Cain, Rebecca West, Elizabeth Bishop, a par de outros menos conhecidos, como Robert Stone, Robert Gottlieb, Richard Price, Jack Gilbert e Joan Didion.

Procurada por telefone pelo DC Cultura, a Companhia das Letras informou por escrito: “Sobre o livro ‘As entrevistas da Paris Review - vol. 1’, a editora esclarece que as entrevistas foram escolhidas pelo conselho editorial dentre todas as presentes na coleção em 4 partes publicada nos EUA. Foram selecionadas aquelas que resistem ao teste do tempo e cujos autores são conhecidos no Brasil, ao mesmo tempo mantendo o cuidado de equilibrar nomes clássicos e contemporâneos. O texto usado como base para tradução foi os dos livros americanos, que é rigorosamente igual ao publicado originalmente pela Paris Review. Haverá um segundo volume da coletânea, previsto para 2012, todavia não podemos divulgar quais autores farão parte dela porque o processo de escolha ainda não foi finalizado.”

Evidentemente, esses esclarecimentos deveriam ter constado do volume agora posto à venda, para que todos os seus leitores e leitoras ficassem devidamente informados, e não só os leitores do DC Cultura. Deve-se assinalar que os nomes dos membros do conselho editorial não figuram nem nessa nota da editora, nem nas informações encontradas no livro. Dos autores constantes do volume de entrevistas da “Paris Review” agora publicado pela Companhia das Letras, tiveram livros anteriormente por ela editados W.H. Auden, Jorge Luis Borges, Primo Levi, Amos Oz, Javier Marías, Ian McEwan, Paul Auster, Louis-Ferdinand Céline, Doris Lessing e Truman Capote, ou seja, a maioria; só não foram publicados pela própria editora Billy Wilder, Ernest Hemingway, William Faulkner e Manuel Puig,.

Em 1988, a Companhia das Letras publicou o livro “Os escritores 1 – As históricas entrevistas da Paris Review”, com entrevistas de E. M. Forster, Louis-Ferdinand Céline, Ezra Pound, T. S. Eliot, Dorothy Parker, John dos Passos, Evelyn Waugh, Jorge Luis Borges, William Faulkner, Saul Bellow, Isaac Bashevis Singer, Georges Simenon, John Cheever, Gore Vidal, Milan Kundera, William Burroughs e Nadine Gordimer. No ano seguinte, ela publicou o volume 2, com entrevistas de H. Miller, E. Hemingway, W. Carlos Williams, J. Cocteau, G. Garcia Marquez, P. Roth e outros. Nos casos de Céline, Borges, Faulkner, Hemingway teriam sido reeditadas as traduções?

Novamente procurada, por telefone e por mensagem na Internet, a Companhia das Letras informou, por escrito:

“Todos os editores fazem parte do conselho editorial. Nosso quadro de editores atualmente é composto por: Luiz Schwarcz, Maria Emilia Bender, Matinas Suzuki, André Conti, Thyago Nogueira, Marta Garcia, Júlia Schwarcz e Leandro Sarmatz. A alta incidência de entrevistas selecionadas cujos autores constam em nosso catálogo se explica simplesmente porque grande parte dos entrevistados da ‘Paris Review’ já foi publicada pela Companhia das Letras, já que a linha editorial é semelhante. De fato publicamos dois volumes de entrevistas na década de 80, mas todas as traduções são novas, feitas por Sérgio Alcides e Christian Schwartz”.

Esclarece ainda a editora que não figura mais em seu catálogo o poeta W.H. Auden (o livro de poemas está esgotado há muitos anos).

De todo modo a leitura do volume 1 de “As entrevistas da Paris Review” é plenamente recomendável.

31 de março de 2011

Saul Bellow e seu romance preferido

Há tempo a revista Carta Capital me encomendou a seguinte nota:

O preferido de


Saul Bellow



Mais de meio século depois de seu lançamento original em 1959, sai finalmente no Brasil o romance de maior sucesso nos EUA, e o preferido do próprio autor, de Saul Bellow (1915-2005), americano nascido no Canadá filho de judeus russos, Nobel de 1976. Trata-se de “Henderson, o Rei da Chuva”, em bem cuidada tradução de José Geraldo Couto, pela Companhia das Letras. Para o leitor brasileiro, mais próximo dos deserdados da terra do que o leitor americano, o livro pode chocar pela facilidade com que o personagem-título, um típico americano rico, um tanto brusco de maneiras, um tanto superficial e grosseiro, um tanto infeliz com o vazio existencial de sua vida, se torna candidato a rei de uma tribo africana, por suas façanhas de “civilizado”. Para o leitor americano, são fascinantes os debates do prático Henderson com o filosófico rei africano educado no Ocidente, e o romance nos EUA foi consagrado pelo misto de humor, aventura e profundidade. A notar, entretanto, que o rei africano só é apresentado como influente no aperfeiçoamento comportamental de Henderson por ser, afinal, um africano formado no Ocidente. É o livro de um virtuose da prosa, misto de entretenimento e de alta vulgarização filosófica. Não fica claro, entretanto, se Bellow jamais conversou pessoalmente com um “nativo” na África. – RENATO POMPEU

24 de março de 2011

Calidoscópio para obter emprego

Recentemente a revista Carta Capital me encomendou a seguinte resenha:

Perec lembra


Ravel e Chico



Quem gosta de ficção experimental vai gostar de “A arte e a maneira de abordar seu chefe para pedir um aumento”, lançamento de 1968 do francês Georges Perec, agora em edição da Companhia das Letras. Lembrando o “Bolero” de Ravel e “Construção”, de Chico Buarque, e a lata do fermento em pó Royal, Perec segue um organograma, em que após cada frase ele escolhe entre continuações pré-programadas, que se repetem em diferentes combinações. Apesar de baseado em bifurcações, o texto é linear e não propõe alternativas ao leitor – quem opta é o próprio autor. Como o tradutor, o famoso escritor Bernardo Carvalho, optou por traduzir “milliard” por “milhar”, embora os dicionários recomendem “bilhão”.

12 de fevereiro de 2011

Resenha sobre Marina Colasanti

Recentemente o Diário do Comércio de São Paulo me encomendou a seguinte resenha:

Literalmente fabulosos, os


contos de Marina Colasanti



Renato Pompeu



Esses “Contos de amor rasgados”, da escritora Marina Colasanti, italiana radicada no Rio e que há décadas encanta as letras brasileiras com poemas e textos em prosa altamente imaginativos, lançados pela Record, são literalmente fabulosos, no sentido de que são fábulas em que os personagens são seres humanos, fábulas maravilhosas cheias de magias e metamorfoses.

Fogem assim ao padrão usual do gênero, que para os adultos costuma ser de um realismo bem imitativo da vida cotidiana. Marina Colasanti parte da apresentação de pessoas comuns e da descrição de ambientes bem conhecidos de todos, para desenhar situações absolutamente fantásticas, em que seres humanos dialogam com coisas e com animais, ou se transformam nesses outros seres, voam, entre a ficção mística, mais do que científica, e os contos de fadas.

Por outro lado, inusitada é também a forma perfeitamente trabalhada dessas elaborações. São cerca de cem contos em pouco mais de duzentas páginas, isto é, são contos curtos intensamente densos; alguns são verdadeiros aforismos, na forma consagrada pelo pensador francês Pascal, do século 17, e pelo pensador alemão Nietzsche, do século 19 – a essas alturas de profundidade e de imaginação chegam essas obras de Marina Colasanti.

Mais do que prosa poética, Marina Colasanti pratica aqui verdadeiros poemas, destilados como se fossem gotas de perfume, ou goles do leite da mulher amada, ou cálices de um licor inebriante. São na maioria histórias de amor que bradam ternura e encanto, ou vão enrodilhando o leitor ou a leitora num ronronar aveludado, até que de repente o remate surpreende, encanta ou assusta.

“Perdida estava a meta da morfose”, diz o título de um dos minicontos, e isso poderia servir de epígrafe à obra toda, pois invariavelmente a meta de cada personagem é fugidia e escorre entre os dedos como água ou areia. Todos os contos são metamorfoses, de diferentes maneiras, às vezes efetivadas, às vezes só imaginadas.

Por trás das metamorfoses, por trás das mudanças, está sempre o tempo, o principal personagem de Marina Colasanti nesses contos de amor bem rasgado. Aqui podemos especular: se não houvesse mudanças, se tudo ficasse sempre eternamente igual, se poderia conceber a existência do tempo? Afinal, o tempo é uma característica imanente à natureza – ou é uma simples maneira de avaliarmos a sucessão de mudanças que observamos no mundo à nossa volta? Os contos chegam a inverter a linha do tempo: um personagem nasce velho e vai remoçando na medida em que os anos passam, da idade madura passa à juventude, até morrer como bebê. O tempo nesse livro é como se fosse um Ano Velho vestido de fralda, ou um Ano Novo de cajado na mão.

A autora é mágica. Começa um conto assim: “Comprou a esposa numa liquidação”. Seria uma alegoria, ou ela está narrando um fato verossímil? Afinal, comprar esposas não é novidade, mas... numa liquidação? A interpretação mais rasteira é de que algum homem comprou uma boneca inflável – mas Marina Colasanti não faz esse tipo um tanto simplório de ficção – pelo contrário, tem o requinte de um Da Vinci ou um Michelangelo. Ela está narrando pelo prazer de narrar, pelo prazer de expressas frases bem bordadas, de altas estesias sonoras, e de conteúdos também macios.

Dá nova vida a situações clássicas cristalizadas pelo tempo do imaginário, como a história do sapo que vira príncipe, em seu texto virtuosamente metamorfoseado..

Notem-se as tonalidades do final de outro conto: “Agarrou-se náufraga na alça”. Prosa poética? Não, poesia diagramada na página como se fosse prosa. O livro está assim cheio de frases belas como os vestidos do Reino das Águas Claras de Monteiro Lobato, costurados com fios de água enfiados na agulha.

Em suma, Marina Colasanti escreve como o americano Jackson Pollock pintava. Assim como o criador da “action painting” parecia jogar ao acaso as tintas sobre o chão, ela parece jogar ao acaso situações que, em mãos menos experientes e menos cuidadosas, pareceriam sem pé nem cabeça. Ela pode ser considerada a criadora da “action writing”.

12 de dezembro de 2010

Meus contos preferidos

Há algum tempo o Diário do Comércio de São Paulo me encomendou o seguinte artigo;

Dez dos melhores contos da literatura
ocidental, escolhidos por um resenhista

Renato Pompeu

Eu poderia dizer que o conto que mais me impressionou, em já mais de seis décadas de leituras contínuas e exaustivas, seria “O alienista”, de Machado de Assis, de 1882. Seria de bom tom um resenhista profissional apontar como o seu preferido o conto mais significativo jamais produzido em português e um dos contos mais significativos jamais produzidos na literatura mundial. Trata-se ao mesmo tempo de uma obra literária e de um ensaio filosófico sobre a impossibilidade de distinguir entre sanidade mental e doença mental.
Mas confesso que “O alienista”, o melhor trabalho, de ficção ou não, jamais publicado no mundo sobre a loucura, e que sempre vai ser, enquanto os seres humanos existirem, de interesse permanente e sempre atual, é a minha segunda preferência em português. A primeira é “O jardineiro Timóteo”, publicado em 1920 no livro “Negrinha”, de Monteiro Lobato, na sua obra para adultos um autor bem menos dotado do que Machado. Porém, embora não a releia há mais de 50 anos, sempre me encanta essa triste e belíssima história de lindas flores caipiras ameaçadas por “flores da cidade”.
Também há mais de 50 anos não releio o conto policial “As mãos do sr. Ottermole”, do inglês Thomas Burke, publicado originalmente em 1929 e filmado por Alfred Hitchcock em 1957. Mas recordo cada detalhe dessa que é uma das mais perfeitas histórias policiais de todos os tempos. Trata-se de uma série de homicídios por estrangulamento, com os cadáveres das vítimas achados em calçadas de ruas de Londres, em que desde o início o autor vai revelando todas as pistas que identificam o criminoso, mas só na penúltima frase, para surpresa mesmo dos leitores mais atentos, é que a identidade do assassino é revelada. Tudo foi rigorosamente calculado pelo autor para levar inevitavelmente ao desenlace final, mas o leitor, da primeira vez que lê o conto, não percebe essa preparação.
Incluo mais contos policiais: qualquer um com o detetive particular belga Hercule Poirot, criação, com suas “pequenas células cinzentas”, da escritora inglesa Agatha Christie, de 1921, ou qualquer um do também detetive particular, de incerta origem europeia-oriental, Nero Wolfe, superobeso que odiava qualquer movimento físico e que resolvia os crimes sem sair da poltrona, criação do escritor americano Rex Stout, de 1934.
Falando em americanos, de 1868 é “A felicidade do acampamento de garimpeiros”, de Bret Harte, sobre um bebê que nasce num acampamento de garimpeiros na Califórnia, filho de uma índia, a única mulher e que servia em todos os sentidos aos violentos e sempre bêbados homens do local, e de pai desconhecido. Ela morre no parto e aquele bando de desordeiros se vê às voltas com a necessidade de educar a criança.
Já “Bola de sebo”, do francês Guy de Maupassant, de 1880, é a mais comovente história sobre prostituição que jamais vi – e desconfio mesmo que se baseia num fato real. A personagem-título, que tem esse apelido por ser encantadoramente gordinha, se vê às voltas com o seguinte problema: deve prestar ou não seus serviços profissionais a um oficial alemão, na França ocupada durante a Guerra Franco-Prussiana? A resposta desmascara a hipocrisia dos chamados bem-pensantes.
De 1747 é “Zadig, ou O destino – história oriental”, do francês Voltaire, muito mais conhecido como filósofo do que como ficcionista. É uma sátira social e política e também uma história policial que se passa na antiga Babilônia.
“O barril de amontillado”, de 1846, do americano Edgar Allan Poe, é a história de uma vingança cruel, metodicamente preparada, narrada de um modo patologicamente frio e sem nenhum sentimento que não o prazer da vingança. Quem pretende se vingar convida seu desafeto, “fazendo as pazes”, para degustar um rum especial.
Deixei para o fim o conto de que mais gosto, “O diabo que queria ser bom”, de um obscuro autor russo de que não lembro o nome. O diabo pede conselhos a um padre sobre como ser bondoso – mas faz trapalhadas, como, aconselhado a ajudar os outros, ajuda um suicida a se afogar. Deixei para o fim porque não lembro quem escreveu.

25 de novembro de 2010

Contistas importantes

O Diário do Comércio de São Paulo me encomendou há tempo o seguinte artigo:

A lista de contistas cuja obra aspira à eternidade, indubitavelmente, entre os brasileiros, inclui o grande Guimarães Rosa (1908-1967) e a genial Clarice Lispector (1920-1977), além de Rubem Fonseca (nascido em 1925) e João Antônio (1937-1996) e, por último, mas não menos importante, Lima Barreto (1881-1922). Na literatura ocidental, foram importantes criadores de contos os alemães E.T.A. Hoffmann (1776-1822) e Heinrich Kleist (1777-1811), o francês Prosper Mérimée (1803-1870) e o russo Anton Tchekhov (1860-1904)., que, ao lado do americano Poe e do francês Maupassant, conformaram o conto moderno.
Não que não tenha havido, na Antiguidade ocidental, histórias curtas, cuja tradição na verdade remonta ao Velho Testamento. Na Idade Média, tivemos o “Decâmeron”, do italiano Boccaccio (1313-1375) e os “Contos da Cantuária”, do inglês Chaucer (1340-1400).
O contista mais criativo talvez de toda a história e certamente de todo o século 20 foi o judeu tcheco que escreveu em alemão Franz Kafka (1883-1924). Nos fins do século 19 e particularmente no século 20, consagraram-se contistas de língua inglesa, principalmente americanos, como o inglês Charles Dickens (1812-1870), os americanos Henry James (1843-1916), que se radicou na Inglaterra, e O. Henry (1862-1910) o inglês D. H. Lawrence (1885-1930), a neozelandesa Katherine Mansfield (1888-1923), os americanos Ernest Hemingway (1899-1961), J. D. Salinger (1919-2010), Charles Bukowski (1920-1994) e John Updike (1932-2009).
Não se pode esquecer o imortal italiano Primo Levi (1910-1987), autor dos magistrais contos-meditações de “O sistema periódico”. (R.P.)

21 de novembro de 2010

O escritor que escreve sobre si mesmo e se apresenta como grande amante

A revista Carta Capital, há pouco tempo, me encomendou o seguinte artigo:

Coetzee, um Autorretrato

O escritor sulafricano radicado na Austrália, J.M. Coetzee, 70 anos, Nobel de 2003, é famoso por sua militância – contra o apartheid na África do Sul, contra a guerra do Vietnã nos EUA e pelos direitos dos animais na Austrália – e pelo seu caráter arredio: mantém-se distante da mídia. No entanto, em seu romance “Verão – Cenas da vida na província”, agora lançado pela Companhia das Letras, ele se compraz em descrever a vida de um certo Coetzee, apresentado como um bem sucedido amante, quando adulto na Cidade do Cabo e em lugares mais remotos da África do Sul, nos anos 1970. É continuação de romances anteriores sobre a infância e juventude desse seu alter ego. A principal diferença é que o Coetzee do livro já morreu. – RENATO POMPEU

14 de novembro de 2010

Romance sobre a tragédia dos Bálcãs

A revista Carta Capital há poucos meses me encomendou a seguinte resenha:


Kadaré e a angústia



No angustiado romance “O acidente”, agora publicado no Brasil pela Companhia das Letras, dois anos depois da edição francesa, o escritor albanês radicado na França Ismail Kadaré, 74 anos, famoso por “Abril despedaçado”, mistura a temática imemorial do amor mesclado de ternura e agressividade com a temática imediata das recentes guerras nos Bálcãs. O romance abre com um acidente de carro em que morreu um casal de albaneses e procura retraçar a trajetória daquele homem e daquela mulher desde que se conheceram até o momento de sua morte, em meio aos horrores dos conflitos étnicos. Kadaré, que estudou sob o regime comunista em Tirana e em Moscou, começou publicando poesia, mas em 1963 passou a publicar romances em seu país, dos quais dois foram proibidos pelas autoridades comunistas: “O monstro” (1965) e “O palácio dos sonhos” (1980). Ele se considerava, não um “dissidente”, mas um “resistente” e, em meio à crise final do comunismo, se asilou na França em 1990. Agora, em “O acidente” traduzido diretamente do albanês por Bernardo Joffily, ele apresenta uma trama fascinante e aterrorizante entremeada de massacres físicos entre etnias e dos talvez igualmente assustadores massacres psicológicos entre amantes, uma trama trabalhada e retrabalhada artisticamente para ir se revelando aos poucos, como se fosse um espelho aos pedaços. Às angústias próprias da trama, se junta a inquietação do leitor, que lê sofregamente para entender, afinal, o que aconteceu. Assim, a leitura em si chega a ser angustiante, a par dos acontecimentos relatados. – RENATO POMPEU

11 de novembro de 2010

Os contos de uma psicanalista

O Diário do Comércio publicou há algum tempo a seguinte resenha:


As duas vertentes da delicadeza e do melindre, por Sylvia Loeb


Em seu novo livro de contos-poemas, “Amores e tropeços”, lançado pela Editora 3nome, a paulistana Sylvia Loeb, que é de formação psicanalista, mas está consagrada como ficcionista de linguagem altamente elaborada, à altura de seus temas profundamente humanísticos, consegue reunir numa única criação tanto o duplo conceito do termo “delicado”, como a dupla noção do vocábulo “melindroso”. Seus textos sobre o amor e seus tropeços, textos profundamente carnais, como o amor mais sensual, e textos ao mesmo tempo intensamente espiritualizados, como o amor mais enlevado, são delicados, tanto no sentido de que uma carícia é delicada, como no sentido de que um paciente em situação crítica se encontra em estado delicado. Esses textos também são melindrosos nos dois sentidos dessa palavra: no de que uma mulher formosa e encantadora é “melindrosa”, e no sentido de que um episódio embaraçoso, ou um estado terminal, é “melindroso”.

Por exemplo, o primeiro conto, de título “Amor! Meu amor!”, diz tudo em pouquíssimas palavras: “Socorro! O amor que tenho não dá para dois, me ajude a salvar nosso amor, ela implora”. Vamos no deter inicialmente em considerações sobre o título. O primeiro “Amor!” poderia ser ao mesmo tempo em si uma invocação e/ou uma menção ao sentimento em geral e em si do amor, como pode ser um chamado dirigido à pessoa amada; já o “Meu amor!” tanto pode ser uma referência ao sentimento da própria pessoa, como um apelo à pessoa amada por ela. No entanto, no texto propriamente dito do conto-poema, “Socorro!” é indubitavelmente um apelo à outra pessoa.

Já “O amor que tenho” é uma referência delicada a um assunto melindroso: tanto pode significar “o sentimento que me imbui” como “a minha sexualidade”, que “não dá para dois”. Isto é, de uma maneira delicada e melindrosa, em todos os sentidos dos dois termos, se denota que tanto “o sentimento que me imbui” como “a minha sexualidade” não gozam de plena autonomia e de plena autossuficiência, muito menos são capazes de sustentar uma relação a dois, Pois o que poderíamos chamar de “o meu amor que só dá para mim” tanto pode ser um egoísmo como um sentimento por outra pessoa que não desperta a reciprocidade dessa outra pessoa; indo mais longe, pode acontecer de que “o meu amor que só dá para mim não é suficiente nem para mim”. Em termos mais carnais, a castidade, ou a masturbação, não são uma felicidade tão plena quanto o amor sexual a dois.

Quanto a “me ajude” indica que a pessoa que faz o apelo está consciente de que tem uma necessidade a preencher, e mais ainda, de que não pode preencher essa necessidade sozinha, precisa da ajuda de outra pessoa, e de uma outra pessoa específica, não de qualquer outra pessoa, pois a pessoa que apela se está dirigindo ao seu “amor”, no caso, à pessoa que ela ama. E qual a carência a ser preenchida? A necessidade de “salvar nosso amor”, diz-se em seguida.

Como “salvar nosso amor”? Aqui não se trata, longe disso, só do “amor que tenho”, trata-se isto sim do “nosso amor” – ou seja, de um amor recíproco, de um amor compartilhado pelos dois, tanto pela pessoa indicada pelo “me”, isto é, “eu”, como a pessoa indicada pelo “me ajude”, isto é, “você”. Ou seja: “Você e eu temos de salvar nosso amor”. E como é que se pode “salvar nosso amor”? Somente o exercendo. Mas aqui, ao contrário do que diz o título do conto-poema, não se trata apenas de “amor”, trata-se também, como diz o título do livro, de um “tropeço”: o fato de que a história termina em “ela implora” indica que a outra pessoa está recalcitrante, não quer “salvar o nosso amor”, ou hesita em fazer isso.

Será que o que foi dito convence a outra pessoa? A autora deixa isso em suspenso, e em suspense. Em todo caso, em que situação é que uma pessoa pode literalmente “tropeçar” na outra? Por meio do encontro de suas pernas com o corpo da outra pessoa, nos diria o senso comum. Sylvia Loeb está longe de se limitar ao senso comum: mais do que uma psicanálise, ela, como ficcionista, faz toda uma psicologia da espiritualidade, que é também corporal, de cada personagem. Seus contos são assim: flagrantes da eternidade, instantâneos que revelam toda uma vida.

7 de setembro de 2010

A audácia de Bivar

Há algum tempo o Diário do Comércio de São Paulo me encomendou a seguinte resenha:

A audácia estilística dos contos de Antonio Bivar

A característica mais atraente destes “Contos atrevidos”, do ficcionista e dramaturgo Antonio Bivar, volume publicado pela Prumo, é a prazerosa desenvoltura com que o autor desempenha a alegria do livre criar só criar, audazmente ignorando, com o atrevimento assinalado no título, os cânones consagrados do gênero.
Com efeito, desde os contistas do século 19 Edgar Allan Poe, americano; Guy de Maupassant, francês, e Anton Tchekhov, russo, a receita do conto bem-sucedido vinha sendo a de que a pequena obra-prima tinha de ser um todo perfeito fechado em si mesmo, com cada frase e mesmo cada palavra, desde o início, preparando o final como um desenlace inelutável.
Com Bivar é diferente. Cada conto, trate de uma jovem que, diferentemente dos jovens de seu círculo, não se dispõe a portar no corpo uma tatuagem, ou de uma jovem que prefere portar todas as tatuagens do mundo e todos os piercings em seu corpo, e nenhuma idéia na cabeça, é como um calidoscópio que abre para várias possibilidades, das quais o autor, com alegre arbitrariedade, escolhe uma, ao deus-dará, com uma alegria e uma felicidade que chegam a ser quase irresponsáveis.
Ele faz, por exemplo, a irmã da famosa escritora do começo do século 20, Virginia Woolf, irmã que forma um casal de pintores com seu marido, evocar paisagens brasileiras num dos contos e até o casal conversar sobre Lampião e Maria Bonita, sem esclarecer se se está baseando em fatos reais ou na sua pura e desenfreada imaginação.
É plena a liberdade de forma e de conteúdo dos contos, algumas vezes de uma leveza que porém é plenamente sustentada, com todo o conto armado para a simples palavra final desencadear uma completa surpresa, como a mera menção da idade de um personagem, que choca de chofre quem lê. Além disso, Bivar também se destaca, nesses contos, pela contemporaneidade.
Este presente cronológico, que nos chega como presentes presenteados, tem sido pouco explorado pelos ficcionistas, que historicamente preferem reportar-se ao universo de décadas atrás. Bivar, na quase totalidade dos contos deste livro, prefere situar-se na voragem das vivências dos dias atuais, inspirando-se tanto num açaí numa tigela quanto numa “trash de butique”, isto é, numa pessoa jovem que, cheia de tatuagens e piercings, passa a vida passeando pelas galerias de um centro comercial.
Não faltam outras figuras tipicamente contemporâneas, como a mulher executiva que, embora se relacione com um homem só, prefere morar sozinha e apenas o encontra para o sexo sem amor, ou a mulata “gostosíssima” que surge como um relâmpago no universo da moda como uma celebridade, para sumir em seguida numa voraz dobra do tempo.
A velocidade com que Bivar narra seus contos, uma velocidade rigorosamente calidoscópica, por vezes deixa o leitor deliciosamente desnorteado. Por exemplo, nas sucessões prolongadas de diálogos, em que se cria o efeito de vertigem de, a certa altura, não se saber mais quem está falando, se é um dos dialogantes ou o outro. Isso, que seria marca de defeito num estreante, surge nas mãos experientes e hábeis de Bivar como um efeito deliberado, que é afinal de contas tanto teatral como realista, pois nas discussões da vida real um se vê de repente defendendo a posição do outro, à qual antes procurava desqualificar.
Outros efeitos surpreendentes de Bivar são de que, num conto, o leitor vai se preparando, com certeza absoluta, para se deparar com uma piada, e no final se vê assustadamente comovido com um pungente drama nada piegas. Outras vezes, também com crescente certeza, o leitor se prepara para um desenlace trágico – e no fim percebe que, afinal, estava lidando apenas com uma anedota. Pois o atrevido Bivar foi criando esses contos como bem entendeu, sem dar atenção a cânones e convenções, preocupado apenas em deixar fluir a sucessão de palavras encantadas e de situações maravilhosas. Isso se empregarmos a palavra “encanto” no seu sentido mágico e o termo “maravilha” no seu sentido filosófico. Tudo, nesses contos, brilha como novidade.

6 de setembro de 2010

Um clássico pós-moderno

Recentemente a revista Carta Capital me encomendou a seguinte resenha:

O “2666” de Bolaños, clássico pós-moderno

Uma Europa cansada, uma América Latina bárbara, um epitáfio da segunda metade do século 20 no Ocidente – é isso o que retrata o primeiro clássico da ficção pós-moderna. Sete anos após a morte de seu autor, o bem conhecido escritor chileno Roberto Bolaño (1953-2003), seis anos após sua publicação póstuma em castelhano, de 1.100 páginas, e dois anos após o seu lançamento em inglês, de cerca de 900 páginas, e um ano após a edição portuguesa da Quetzal, sai finalmente no Brasil, pela Companhia das Letras, em mais de 850 paginas, o monumental romance “2666”, aclamado como o primeiro clássico mundial do século 21 pelo Círculo Nacional dos Críticos de Livros dos Estados Unidos, que lhe consagrou seu Prêmio de Ficção em 2008. Bolaño nasceu filho de um motorista de caminhão e pugilista e de uma professora do fundamental. Sua família mudou para o México por ocasião do golpe que derrubou e matou o presidente Salvador Allende, em 1973. Bolaño se estabeleceu na Espanha, após a redemocratização desse país, e lá se tornou um poeta cujas obras não tiveram maior repercussão. Por volta dos 40 anos, porém, nos anos 1990, começou a publicar importantes romances que o tornaram famoso no mundo de fala hispânica e internacionalmente, como “Os detetives selvagens” e “Noturno do Chile”, já traduzidos em português. Ao morrer, o escritor deixou diversos textos inéditos e o primeiro a ter sido publicado pelos seus herdeiros foi “2666”, programado inicialmente pelo autor para ser editado como uma série em cinco volumes. Sua família, no entanto, resolveu incluir num livro só toda a série, embora uma das cinco partes ainda tivesse sido deixada incompleta pelo escritor. Em nenhum momento do livro aparece o número do título, mas se especula que é uma referência ao Livro do Êxodo do Antigo Testamento, já que, segundo a tradição judaica, o Êxodo dos judeus que saíram do Egito teria ocorrido no ano 2666 de seu calendário, que, ainda de acordo com a tradição judaica, se iniciou no momento da Criação. As cinco partes, que se passam em diferentes países do mundo – um reflexo da globalização – se organizam em torno de três eixos principais: o vazio da vivência cultural e existencial da intelectualidade universitária européia pós-moderna, que se limita a catalogar e inventariar as poucas obras realmente criativas que surgiram na segunda metade do século 20, retrato de uma Europa cansada, descrente e cínica, apesar de seu auge de conforto material; as centenas de assassínios misteriosos de mulheres na fictícia cidade mexicana de Santa Teresa, inspirada na cidade real de Ciudad Juárez, perto da fronteira com os Estados Unidos, onde ocorreram esses crimes, retrato de uma América Latina que ainda mal saiu da barbárie, e as peripécias igualmente selvagens da Frente Oriental da Segunda Guerra Mundial, ou seja, a guerra entre a Alemanha Nazista e a União Soviética. O livro tem mais valor como riquíssima documentação social do que efetivamente como obra de arte, já que é basicamente um inventário, com muita informação e pouca emoção. Como a cultura pós-moderna já foi chamada de “cultura de inventário”, o livro já é o grande clássico da pós-modernidade, pois a cultura de nossos tempos está nele imortalizada. – RENATO POMPEU

3 de fevereiro de 2010

Dalton Trevisan, epígono de si próprio

Recentemente a revista Carta Capital me encomendou a seguinte resenha:

O epígono de si mesmo

O novo livro do escritor paranaense Dalton Trevisan, um dos mais famosos contistas do País, “Violetas e pavões”, editado pela Record, deve ser lido como a obra de um epígono... do próprio Dalton Trevisan. Para quem nunca leu Trevisan, os contos surpreenderão pelo insólito da forma e do conteúdo. Uma linguagem trabalhada para ser ao mesmo tempo coloquial, concisa e chocante e um universo “normal na sua anormalidade” atingem como uma novidade, a de uma, digamos, brutalidade amena e tranquila, o leitor que nunca leu esse autor. Ali estão escatologias sexuais escandalizantes, hediondos crimes gratuitos, sossegadas mentalidades torpes, narradas neutra e assepticamente como fatos comuns e mesmo ordinários (em todos os sentidos do termo) de um cotidiano a rigor modorrento que, mesmo sendo bárbaro, nos é familiar. Mas, para quem já leu obras-primas como “O vampiro de Curitiba” e outros grandes trabalhos de Dalton Trevisan, as violetas e pavões soarão como imitações e mesmo pastiches, por um escritor menor, de um escritor maior. – RENATO POMPEU

31 de janeiro de 2010

A ficção do polemista Diogo Mainardi

A resenha a seguir foi encomendada há tempo pelo Diário do Comércio, de São Paulo:

Mainardi, um artista em progresso


Aproveitando o embalo da venda de 40 mil exemplares, desde dezembro de 2004, do livro de crônicas A tapas e pontapés, do jornalista, escritor e roteirista de cinema Diogo Mainardi, 44 anos, colunista da revista Veja, a editora Record está relançando todas as quatro obras de ficção do autor, o que permite avaliar sua evolução como artista.
O livro de estréia, Malthus (1989), apresentado na própria edição como romance, novela, noveleta e catalogado como conto, é uma imaginosa história, de linguagem vivaz e agradável, cujo fio condutor são as sucessivas mudanças de residência de Loyola y Loyola, um cidadão que vive de vender os móveis da casa onde mora, pertencentes a outras pessoas, e que casa com a filha do capitão de um navio em que mora temporariamente. O livro valeu a Mainardi, aos 28 anos, o Prêmio Jabuti, em 1990. A obra tem o andamento de uma história em quadrinhos, lembra a escrita automática do surrealismo, as comédias de pastelão do cinema mudo, o cinema da nouvelle vague francesa, ou seja, é bastante complexa estruturalmente e bem contemporânea. Como acontece com muitos estreantes, é um livro que depende, para ser plenamente aproveitado, de referências externas – são numerosas as referências à cultura greco-romana, à cultura renascentista, à hagiologia católica romana, etc. etc. – e de um código que deve ser decifrado, acessível somente para iniciados. Também há diálogos longos, em que o leitor a certa altura deixa de saber quem está falando; e Mainardi usa as formas “Procrustes”, ao invés de Procrusto; “monastério”, ao invés de mosteiro, e Joana de “Castilha”, ao invés de Joana de Castela.
O segundo romance de Mainardi, Arquipélago (1992), exige ainda mais do leitor para ser bem aproveitado. Trata-se de uma ficção filosófica, uma espécie de anti-utopia ou distopia, sobre sobreviventes de uma inundação causada pelo rompimento da barragem de Ilha Solteira (SP), que se abrigam na abóbada de uma igreja, única coisa que permanece acima das águas no horizonte visível, e que tentam, sem êxito, criar uma nova sociedade. O texto é bastante requintado, mas exige conhecimento profundo de filosofia para ser bem compreendido. Além disso, o autor usa termos eruditos pouco usuais, como “viso” (no sentido de “fisionomia”), “improviso” (como adjetivo, no sentido de “improvisado”, “imprevisto”) e “vorticoso” (no sentido de “vertiginoso”).
No seu terceiro romance, Polígono das Secas (1995), que na verdade poderia ser considerado uma novela-ensaio, Mainardi mostra uma grande evolução, no sentido de que a obra não depende de referências externas para ser plenamente aproveitada. Trata-se de uma sucessão de episódios, sem um entrecho propriamente dramático, sobre sertanejos nordestinos, cada um deles apresentado, não como “antes de tudo um forte”, ao contrário do que escreveu Euclides da Cunha, mas como bárbaro, supersticioso e incapaz de raciocínio lógico. Sucedem-se as torturas, mutilações, assassínios, crendices e o espalhamento propositado de doenças contagiosas. A obra, que fica entre a ficção de terror e o grand guignol francês, demonstra um grande esforço de pesquisa sobre o Nordeste, cujas paisagens naturais e sociais são descritas com precisão. Pelo lado ensaístico, há uma crítica aos famosos romances regionalistas nordestinos – e mesmo à obra de Guimarães Rosa –, no sentido de que teriam assimilado a tosca visão-de-mundo dos sertanejos, ao invés de criticá-la do ponto-de-vista da chamada alta cultura. O estilo é frio, impiedoso, sem emoção e sem esperança, mas está longe de ser desagradável. O livro se realiza mais como documentação social do que como grande estética.
Também mais documental do que estético, mais informativo do que belo, mais satírico do que romanesco, mais picaresco do que dramático, é o último romance do autor, Contra o Brasil (1998). Trata-se igualmente de uma narrativa ensaística, em que o lado narrativo enfoca a passagem do personagem principal, Pimenta Bueno, pelas terras dos índios Nambiquara, um dos mais “primitivos” do planeta (o mais “primitivo” é o povo de Andamã, ilha indiana, que é o único a não controlar o fogo), e o lado ensaístico é composto de uma série de citações de autores estrangeiros que visitaram o Brasil, do século 16 ao século 20. Entre eles estão nomes famosos como o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss e os poetas Giuseppe Ungaretti, italiano, e Joseph Brodsky, russo, e que invariavelmente denunciam as mazelas brasileiras – a escravidão, a contribuição quase nula para as artes e as ciências universais, as torturas, a corrupção, etc. etc. – numa documentação impressionante sobre os males do país e as limitações da nossa cultura. Infelizmente, a maior parte da documentação cobre os séculos 16 a 19 ou os Nambiquara, pouco se falando do século 20. Não se fala, por exemplo, do Estado Novo ou do regime militar. Nesse romance, é de notar que, desta vez, ao contrário de Malthus, os falantes dos diálogos estão muito bem identificados, com seus nomes invariavelmente vindo antes de suas falas, como num texto de teatro. O romance é uma espécie de Macunaíma em que os heróis não são louvados, e sim atacados, por não terem nenhum caráter.
Uma observação a ser feita é que o povo brasileiro ainda está em formação, pois a escravidão impediu a sua constituição e ainda há seqüelas disso, e é cedo para dizer se seu impacto sobre o mundo vai ser negativo ou positivo. Na verdade, embora tenha como alvo o povo todo, as citações de Mainardi atacam mais as elites e os povos “primitivos” do que os brasileiros em geral, além do que quase não se referem a épocas mais recentes.
Desde 1999, quando começou sua coluna na Veja, Mainardi nunca mais publicou um romance. Fica nos devendo ainda uma obra mais plenamente realizada, mais artística, mais à altura de seu talento e de sua cultura.

Renato Pompeu é jornalista e escritor, autor do ensaio biográfico Canhoteiro, o Homem que Driblou a Glória (Ediouro) e do romance-ensaio O Mundo Como Obra de Arte Criada pelo Brasil, lançado pela Editora Casa Amarela.