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23 de dezembro de 2013
Textos que li e escrevi sobre futebol
Permitam-me apresentar-me: aos 72 anos sou jornalista desde 1960, há 53 anos, com passagens pelo jornal Folha de S. Paulo e revistas Veja e Caros Amigos – nesta ainda escrevo – e publiquei 22 livros de ficção e de não-ficção desde 1976, há 37 anos; o mais recente, o romance-ensaio “O mundo como obra de arte criada pelo Brasil”, foi lançado pela Editora Casa Amarela em 2008. Sobre futebol, publiquei três livros: o romance “A saída do primeiro tempo”, pela Editora Alfa-Ômega, em 1978, e, já no século 21, a autobiografia ficcional “Memórias de uma bola de futebol”, pela Editora Escrita, e a biografia real, ou melhor, o ensaio biográfico “Canhoteiro, o homem que driblou a glória”, pela Ediouro, um resumo da vida desse jogador do São Paulo FC, do qual não sou torcedor, e sim da AA Ponte Preta.
Como a grande maioria dos brasileiros, meu interesse pelo futebol começou na infância, na primeira metade dos anos 1940, na cidade de São Paulo, onde sempre morei, apesar de ter nascido em Campinas-SP. Meus pais não eram muito interessados em futebol – meu pai só se interessava em assistir, levando a nós, seus filhos, à final anual, sempre na capital, do Campeonato Paulista de Futebol da Segunda Divisão, acredito que para reforçar suas raízes interioranas, pois em geral eram equipes do Interior que se enfrentavam para tentar subir à Primeira Divisão. Apesar de estabelecido na capital desde a passagem dos anos 1930 para os anos 1940, meu pai manteve sempre fortes vínculos com o Interior, pois era jornalista especializado em agricultura. Mas, se não fui iniciado no futebol pelo meu pai, já o meu irmão mais velho, Sérgio, já falecido e que chegou a diretor-adjunto da revista Veja em tempos melhores dessa publicação, era futebolista praticante, coisa que nunca fui, e eu aprendi a seguir com ele, pelo rádio e pela imprensa, os jogos do Campeonato Paulista, do Torneio Rio-São Paulo, do Campeonato Brasileiro (naquela época disputado por Seleções Estaduais), da Copa do Mundo (eu tinha 8 anos na época da Copa realizada no Brasil em 1950). Levado pelo influxo da Copa, desde criança me tornei internacionalista, pois acompanhava pela imprensa, desde os anos 1940, os campeonatos na Europa, torcia pelo Porto em Portugal, pelo Fenerbahce na Turquia, pelo Malmoe na Suécia, etc. Também, a partir dos meus 9 anos, li dezenas de vezes as centenas de páginas da edição especial de A Gazeta Esportiva sobre a Copa de 1950 e foi então, ainda antes de ler livros das diversas literaturas nacionais, que passei a me interessar pelas diferentes culturas das tão variadas etnias de nosso planeta. Foi pelo futebol que cheguei a essa visão multiculturalista.
Como eu não jogava futebol, apenas atuei umas poucas vezes como goleiro e como lateral direito, mantive aceso o meu interesse por esse jogo não só acompanhando os campeonatos e torneios, mas também lendo tudo o que estava a meu alcance sobre o assunto. Me impressionaram muito, nos anos 1950, dois artigos que li na então Folha da Manhã, hoje Folha de S. Paulo; infelizmente não lembro o nome dos autores. Um deles dizia que, no futebol, os brasileiros “viam” uma sociedade não só melhor do que a realmente existente, como também a sociedade que queriam instaurar: em que todos tivessem direitos iguais e deveres iguais e em que não haveria distinções de raça, cor, ou origem social. O outro artigo era uma entrevista de um técnico europeu, segundo o qual os brasileiros não gostavam propriamente de futebol, e sim de torcer para um time de futebol. Em outras palavras, se um jogo envolvesse dois times sem maior torcida, mas de alto nível técnico, ele atrairia no Brasil muito menos atenção do que um jogo entre dois times de grande torcida de bem menor nível técnico. Levo a sério até hoje esses dois artigos e acredito mesmo que, juntando os dois, se pode desenvolver o conceito de que o povo brasileiro cultua uma “democracia hierarquizada”, segundo o qual todos devem ter direitos iguais, mas na prática os “grandes” têm mais direitos do que os “pequenos”, o que se constata pelas constantes e sistematicamente não levadas em conta falhas da arbitragem contra os “pequenos” nos jogos com os “grandes”.
Outra leitura que me impressionou bastante durante os anos 1950 foi o romance dos anos 1930 “Juventude sem Deus”, do escritor húngaro então radicado na França, Odon Horvath, sobre o clima favorável ao nazismo na juventude da Áustria dos anos 1920. Uma cena particularmente me calou fundo no espírito: um jovem, praticamente um menino, doente e acamado, pede para ser visitado por goleiro de que era fã. O goleiro, à beira do leito, narra sua experiência em jogos no Exterior. O que me ficou na lembrança é que o goleiro falava de suas dificuldades na Ilha de Malta, onde não há vegetação e os campos de futebol são empedrados. Esse ambiente nos campos de Malta me ficou na cabeça como um ambiente ao mesmo tempo acolhedor e hostil. Acolhedor porque o goleiro falava com emoção de seus jogos em Malta. Hostil porque a áspera rugosidade da pedra rasgava sua pele nos saltos mais bruscos para pegar a bola. Hoje percebo que esse ambiente a um tempo acolhedor e hostil é uma metáfora do mundo ao qual, segundo os existencialistas como Jean-Paul Sartre, tão importantes na minha adolescência em todo o mundo, somos lançados ao nascer. Ainda nos anos 1950, também me impressionou, como indicação da importância do futebol para as mulheres das camadas populares nos anos 1920, entre a colônia italiana de São Paulo, o conto “Corinthians (2) vs. Palestra (1)”, do escritor Alcântara Machado, em sua coletânea “Brás, Bexiga e Barra Funda” (1927).
Finalmente, me impressionou igualmente, nos anos 1950, um conto do jornalista esportivo Wilson Brasil, publicado no semanário “Equipe”, que ele dirigia. Era a história de dois irmãos gêmeos, um que jogava futebol muito bem e se tornou jogador profissional de um grande time, e outro que jogava muito mal, mas tinha ascendência sobre seu irmão craque. O que jogava mal convenceu o craque a pôr em prática o seguinte esquema: durante a maioria dos jogos, o craque levava seu time a vitórias, pois além de altamente técnico e goleador, o craque também era o cérebro da equipe. Nos jogos decisivos, porém, o irmão perna-de-pau jogava no lugar do craque. Jogava muito mal, desorganizava o time, impedia gols a favor, facilitava os ataques e os gols adversários, mas sem dar na vista, pois o irmão perna-de-pau simplesmente se empenhava o máximo que podia, dava o sangue, como se diz, e para a torcida aparecia simplesmente que o grande craque, apesar de se esforçar ao máximo, não estava num dia de sorte. Com isso os dois irmãos ganham fortunas nas apostas contra seus próprios times. Um conto engenhoso, como se vê.
Ainda nos anos 1950, produzi meu primeiro texto relacionado com o futebol. Eu estudava inglês na Sociedade Brasileira de Cultura Inglesa e o professor escocês Stanley Paetz encomendou uma composição com tema livre. Descrevi um jogo real entre Corinthians e Palmeiras a que eu tinha assistido. Me lembro que contei que havia o mito de que, quem ganhava na preliminar, na época disputado pelas equipes de aspirantes, ou seja, reservas (não havia substituições naquele tempo), perdia na partida entre as equipes titulares. O professor Paetz era fã do futebol brasileiro e uma vez o encontrei nas gerais do Pacaembu, num jogo Palmeiras vs. Santos que terminou 0 a 0, e ele comentou: “Marmelade”, misturando o inglês com o português.
Na passagem dos anos 1950 para os 1960, eu, perto dos vinte anos de idade, entrei no curso de Ciências Sociais da USP, em que davam aula Fernando Henrique Cardoso, Ruth Faria Cardoso e Octavio Ianni, mas não completei o curso, por ter começado no mesmo ano de 1960 a trabalhar em jornal, e principalmente por ter o regime militar destruído o curso. Me lembro que comentei com uma colega que, se a ciência social não desse uma explicação satisfatória para o interesse das pessoas pelo futebol, não poderia ser considerada uma ciência social satisfatória. Como a maioria das pessoas intelectualizadas daquela época, ela encarou com mofa o meu interesse pelo assunto. Ela encarava o futebol como uma mera “alienação”, indigna de ser levada em conta. Hoje, a quem diz que o futebol é uma “alienação”, como defende o intelectual marxista inglês Tom Eagleton, que também considera o futebol indigno de estudo, eu pergunto: “Mas por que as grandes massas escolheram o futebol, e não outra coisa qualquer, para se alienarem? E não poderíamos considerar também a literatura, a música, as artes plásticas e o cinema como outras tantas ‘alienações’ das pessoas intelectualizadas?” Aos que reclamam dos altos ganhos dos atletas mais famosos, respondo: “Os artistas de cinema mais famosos também têm altos ganhos e ninguém reclama”.
No decorrer dos anos 1960, fui lendo tudo que podia de futebol nos arquivos das empresas jornalísticas em que trabalhava e ainda, como eu ganhava bem, comprei vários livros importados que tratavam de esportes em geral e do futebol em particular. Me impressionou particularmente o que li numa enciclopédia em inglês – não lembro qual era – sobre as diferenças entre o futebol europeu e o futebol sul-americano, bem entendido, naquela época, já que hoje as coisas estão bastante mudadas. Ele dizia, com seus olhos de europeu daquele tempo, que os atacantes sul-americanos ficavam trocando a bola infindavelmente, aparentemente sem objetivo (“seemingly aimlessly”), até que de repente um deles chutava em gol e marcava, surpreendendo os adversários europeus. Eu guardei isso na cabeça, pois de modo nenhum, a mim, com meus olhos de sul-americano, me parecia que nossos jogadores tocassem a bola “aparentemente sem objetivo”. Assim, eu aprendi pelo futebol que o mesmo fato, presenciado por pessoas diferentes, dá origem a outras tantas descrições diferentes, por mais objetiva que cada pessoa busque ser.
Também li nos anos 1960, acho que na Enciclopédia Delta, em português, uma interessante explicação das origens do chamado esquema 4-2-4, assim batizado pela imprensa europeia o sistema brasileiro, desconhecido dos europeus, que levara a Seleção Brasileira a ser bicampeã mundial em 1958 e 1962. Os próprios brasileiros ainda escalavam a seleção no sistema 3-2-5 e demoraram a aceitar a nova denominação 4-2-4. Segundo a história contada na Delta, desde os anos 1920 até os anos 1950 tinha vigorado em todo o mundo o esquema WM, que podemos chamar de 2-3-3-2, com dois beques, três médios, três meias e dois atacantes. O grande organizador do jogo era o centromédio. No pós-Segunda Guerra Mundial, se observou na Europa a tendência geral de reforçar a defesa e, com isso, o melhor jogador do time, sempre o centromédio, teve de recuar para trás dos beques, originando-se o líbero. Mas, quando tentaram introduzir esse esquema no Brasil, os altivos centromédios de então, tendo à frente Brandãozinho, da Portuguesa de Desportos de São Paulo, se recusaram a recuar para a defesa, a qual julgavam um “trabalho inferior”. Disseram que, ao invés deles, deveria recuar um dos médios laterais. Os centromédios venceram: em alguns clubes recuou o médio lateral direito, em outros clubes recuou o esquerdo. Surgiu então o que se chamou de “diagonal”, e nos dois casos um lado da defesa ficava mais desguarnecido do que o outro. Esse esquema era o que ficou consagrado na escalação dos times, o 3-2-5. Mas, em meados dos anos 1950, tentando reparar aquele desequilíbrio, o técnico do Bonsucesso do Rio de Janeiro, o famoso rubroanil leopoldinense da rua Teixeira de Castro, Martim Francisco, fez recuar no seu time também o outro lateral, e o centromédio partilhar a armação de jogadas com um dos meias. Surgia o 4-2-4, que foi aperfeiçoado no São Paulo FC pelo técnico húngaro Bela Gutman, campeão paulista de 1957, e consagrado na Seleção Brasileira pelo técnico Vicente Feola, campeão mundial de 1958, mas que só foi batizado, então, pela imprensa europeia. Pois, apesar de jogar no 4-2-4, a Seleção ainda era escalada no 3-2-5: Gilmar, Djalma Santos, Bellini e Newton Santos: Zito e Orlando; Garrincha, Didi, Vavá, Pelé e Zagalo. A escalação real seria Gilmar, Djalma Santos, Bellini, Orlando e Newton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Vavá, Pelé e Zagalo. Assim, os dois primeiros títulos mundiais do Brasil se devem, em parte não negligenciável, à rebeldia dos altivos centromédios da época, segundo li na Enciclopédia Delta.
Ainda nos anos 1960, eu participei da grande equipe que fez o texto final da cobertura da Copa de 1966 pelo Jornal da Tarde de São Paulo. Recebíamos telexes de nossos enviados à Inglaterra e despachos das agências internacionais, e ainda ouvíamos pelo rádio a transmissão. Fui encarregado dos trechos referentes à torcida brasileira presente no estádio durante o jogo do Brasil com Portugal e me lembro que, no intervalo, escrevi: “Estamos todos mortos em Liverpool”, pois o primeiro tempo já definira a derrota e a desclassificação da Seleção Brasileira.
Na passagem dos anos 1960 para os anos 1970, me impressionaram os livros “O negro no futebol brasileiro”, do jornalista Mário Filho, irmão do dramaturgo, escritor e cronista Nelson Rodrigues e cujo nome foi dado ao Estádio do Maracanã, por sua contribuição como o diretor do Jornal dos Sports, e “Nos subterrâneos do futebol”, do jornalista e técnico de futebol João Saldanha, sobre sua experiência como técnico do Botafogo do Rio. O livro de Mário Filho descreve de uma forma épica como o futebol mudou drasticamente o modo dos brasileiros brancos verem os brasileiros negros e o modo dos brasileiros negros se verem a si próprios. Passou-se de seculares estereótipos negativos para a apreciação objetiva e positiva das grandes contribuições que os negros fizeram para a nossa sociedade. Isso me lembrou a importância que Pelé, por exemplo, teve para os negros do mundo inteiro e para as visões dos não-negros no mundo inteiro sobre os negros. Já do livro de Saldanha a lembrança maior que tenho é que o técnico era sempre enganado por Garrincha, que deixava amontoados de cobertas sobre sua cama na concentração, enquanto saía às ruas para namorar, sem que o técnico, em suas olhadelas pelos quartos, verificasse que o craque não estava dormindo, como parecia. Outra lembrança é de que o craque Didi, casado com a famosa Dona Guiomar, simplesmente não saía do hotel nem mesmo nas horas de folga e de passeios e compras, pela certeza que tinha que, mesmo em países distantes, como o México, por exemplo, a ciumenta Dona Guiomar ia aparecer na rua e fazer cobranças.
Nos anos 1970, meu interesse pelo futebol começou a render os seus frutos mais maduros. Munido da visão naquela época ainda polêmica de que o futebol era uma das mais importantes estâncias da vida humana, fui encarregado pela revista Veja, onde então eu trabalhava, de redigir, em conjunto com o consagrado jornalista Tão Gomes Pinto, o texto final da cobertura sobre a Copa de 1974. Com uma brilhante atuação dos repórteres de campo na Alemanha então Ocidental, Tão e eu fizemos um trabalho que, a par de extremamente informativo, aspirava a ser ao mesmo tempo artístico e ensaísta. Me lembro que escrevi que, a julgar pela indefinição do time por parte do treinador Mário Jorge Lobo Zagallo, que havia um “passeio dançarino” de vários atletas por diferentes posições, pois a escalação e o esquema tático variavam ao infinito de jogo para jogo e de treino para treino, e que o destino da Seleção vagava “da catástrofe iminente a uma fantástica perfeição absoluta: o futebol definitivo” com onze supercoringas capazes de jogar em qualquer posição durante o jogo. Um fenômeno curioso: na mesma semana em que escrevi a palavra “avantesma”, referindo-me à possibilidade para mim remota de que a Seleção fosse desclassificada já na rodada inicial, o compositor Ary Barroso deu uma entrevista, não me lembro se ao rádio ou à televisão, em que perguntava quem usaria hoje a palavra “avantesma”? Também escrevi que os torcedores temiam que a nova cabeleira afro do atacante Jairzinho “amorteça o impacto de suas cabeçadas”, e que os jogadores brasileiros apresentavam com explicação de seu mau desempenho a chuva, “como se nunca tivesse chovido no Rio e em São Paulo”.
Dois anos depois, lancei meu primeiro livro, o romance “Quatro-Olhos”, sobre a repressão no regime militar – publicado em 1976, em pleno regime militar – sem maiores referências ao futebol. Mas no ano seguinte, em outubro de 1977, fui convocado pela Veja para escrever sobre a saga de 23 anos sem títulos do Corinthians, que estava disputando a final do Paulista justamente contra a minha Ponte Preta. Publiquei, no número 475 da revista, 12 de outubro de 1977, páginas 128-130 ,o artigo “Uma arte feita pelo povo”, em que eu defendia a tese de que o futebol era um espetáculo, não um “esporte”, e que a torcida no Campeonato Paulista reproduzia as relações entre as camadas sociais de São Paulo, com o Corinthians representando o “povão”, o Palmeiras representando a “classe média de origem imigrante” e o São Paulo representando a “aristocracia oligárquica” (essas afirmações teriam de ser hoje relativizadas e nuançadas, mas na época eram bem descritivas da situação sentida pelos torcedores, tanto que o artigo ganhou o Prêmio Abril de Esportes em 1977).
A partir disso, comecei imediatamente a escrever, ainda em outubro de 1977, dois textos sobre o futebol. Um deles era um romance sobre um “espectro”, o espectro da Ponte Preta, na forma do espírito de uma preta velha e gorda, que vagava pelos ares de Campinas e tocava de leve a testa de seus habitantes, provocando pequenas alterações nas atitudes, nos pensamentos e nos comportamentos deles.
O outro texto era uma tese que eu julgava entre filosófica e científica do futebol, em que eu pretendia aplicar o formato teórico do primeiro capítulo de “O Capital” de Marx ao estudo do futebol. Quando terminei o artigo, eu pretendia levá-lo para publicação nos “Cadernos do Cebrap”, o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, então recém-fundado por Fernando Henrique Cardoso, mas uma amiga minha, Ana Maria Franco Brisola, mulher do também consagrado jornalista Dirceu Brisola, observou que, não tendo eu diploma universitário, e tendo passado ano e meio internado em hospital psiquiátrico, e ainda a visão vigente na época nos meios intelectuais em relação ao futebol como algo entre frívolo e nocivo, minha tese seria considerada uma maluquice. Ela sugeriu que, ao invés disso, eu inserisse a tese no romance como uma tese produzida por um personagem, pois a tese seria mais palatável como “ficção”. Assim nasceu o meu segundo livro e meu segundo romance, “A saída do primeiro tempo”, lançado em 1978.
A tese foi na época bem recebida por duas pessoas que combinavam a formação teórica com o interesse pelo futebol: o jornalista esportivo Juca Kfouri, formado em Ciências Sociais, e o filósofo Bento Prado Jr., torcedor do XV de Jaú e do Palmeiras e ex-goleiro, que se referiu ao meu trabalho como “uma tese hegeliana”. Eu a considero defensável até hoje tanto como tese filosófica como na qualidade de tese científica. Em linhas gerais, a tese é de que o futebol não é um esporte, mas um espetáculo dramático, que se distingue por duas razões dos demais espetáculos dramáticos, como o teatro e o cinema. Em primeiro lugar, o futebol não retrata um conflito entre personalidades, mas entre duas instituições sociais, que são, em primeiro plano, os dois times em disputa. Em segundo lugar, no futebol, não há um roteiro pré-definido, os próprios atores, os jogadores, não sabem de antemão qual o desenlace de suas ações.
Além disso, no plano simbólico, cada time em disputa no plano real pode representar um grupo social extracampo. Desse modo, o Corinthians representa o “povão”, o Celtics de Glasgow representa os “católicos” e o Barcelona representa os “habitantes de Barcelona” e, por extensão, os “catalães”. Assim a torcida acaba participando do espetáculo e o futebol ensina a seus torcedores, desde a infância – o futebol, segundo a tese, “é muito importante na socialização da criança” –, que a vida é feita de vitórias e de derrotas, mas que a instituição a que pertencemos sobrevive a tudo isso. Com isso, o público, as torcidas, acabam também fazendo parte do espetáculo e desempenhando papéis dramáticos.
Mas em todas essas situações o futebol ainda não se distingue dos demais esportes com bola, como o basquete, o rugby, o futebol americano e o beisebol, entre outros. A grande especificidade do futebol é a prioridade dada aos pés, enquanto todos os demais esportes priorizam as mãos. Ora, na passagem do século 18 para o século 19, o futebol tal como o conhecemos surgiu em paralelo com a Revolução Industrial. A partir desta, pela primeira vez na história, a massa dos seres humanos passou a trabalhar ou de pé parado diante de uma máquina, ou sentado parado a uma mesa. Durante toda a história anterior quem trabalhava se movimentava bastante, seja como lavrador, seja como criador de gado, seja como coletor de impostos in-natura.
Aqueles trabalhadores de pés imobilizados iriam ser justamente atraídos por uma atividade que movimentasse os pés – então as classes trabalhadoras passaram, segundo minha tese, a se reconhecer no futebol como classes trabalhadoras fora do local e das condições de trabalho. Por isso o futebol “deu certo” na Europa e na América do Sul, onde as classes trabalhadoras aspiraram a um maior poder político, social e cultural, e “não deu certo” nos Estados Unidos, onde as classes trabalhadoras não existem fora do local de trabalho e assim se identificam com, por exemplo, o basquete, o qual, segundo a tese, “é muito parecido com uma linha de montagem”. Já o futebol americano nos Estados Unidos, como o rugby na Grã-Bretanha, Europa e em antigos países coloniais, são esportes de camadas superiores da sociedade, especialmente universitários de elite, e servem como preparação para a guerra, especialmente para a guerra colonial. Quanto ao beisebol, em que a cada momento basicamente um único jogador é que de fato enfrenta todos os do adversário, representa a visão, corrente mesmo entre os trabalhadores americanos, do sonho americano de ascensão individual, do “um herói contra o mundo hostil que o cerca”, e que, ao subir, leva consigo os que lhe são mais próximos. Finalmente, no Japão da época da tese, anos 1970, o beisebol havia sido adotado como esporte nacional em paralelo com o fato de que o emprego no Japão era patrimonial, isto é, o trabalhador era um membro da “família extensa” que era a empresa, já que seu emprego era perpétuo e as promoções eram por idade, como numa família. Assim cada trabalhador era um “samurai” que, como um jogador de beisebol, lutava em sua tarefa isolada em nome do grupo.
Pelo menos é isso que dizia a tese. Acho que atualmente ela teria de constatar que, no Japão, a ascensão do futebol nas últimas décadas ocorreu em paralelo com o fim do emprego perpétuo e da estrutura de “família extensa” de cada empresa. Nos Estados Unidos, as dificuldades que a presente crise econômica cria para os trabalhadores em geral e para a ascensão individual em particular, ocorrem em paralelo com o aumento do interesse pelo futebol, notavelmente entre as mulheres. A ponto de que políticos conservadores quiseram proibir a prática do futebol nas escolas, sob a alegação de que é um esporte “estrangeiro, antiamericano, socialista”.
Outra atualização que teria de ser feita na tese é que, de lá para cá, decaiu bastante a noção de pertencimento a um grupo social definido, como “a classe trabalhadora”. Torcedores que não têm mais essa noção tendem a se julgarem pertencentes unicamente à torcida de seu time. Quando o time perde, não há uma instituição maior a que se apegar. O resultado são atos de violência. Ou seja, surgiram os “hooligans”.
Um ponto notável é que a tese observava que o interesse dos trabalhadores ingleses pelo futebol na segunda metade do século 19 ocorreu em paralelo com a luta pela diminuição das horas de trabalho. Isso originou a chamada “semana inglesa”, em que só se trabalha na manhã de sábado, não se trabalha na tarde de sábado. Ocorre que, na Grã-Bretanha da época, o domingo, como o sábado dos judeus, era inteiramente dedicado à devoção religiosa. Na verdade, até os anos 1960, o campeonato inglês tinha jogos somente aos sábados, nunca aos domingos. Disso a tese deduzia que os trabalhadores, impedidos de jogar e de assistir a jogos de futebol nos domingos, forçaram a folga nas tardes de sábado, para poderem se dedicar ao futebol. Esse movimento de reduzir as horas de trabalho em função do futebol se observa até hoje: durante a Copa do Mundo, a tendência em muitos países é não trabalhar nos dias, ou pelo menos nas horas, em que cada Seleção Nacional joga.
O mais importante, no entanto, é que, hoje, a partir da tese de 1978, acho que, no estudo do futebol, a constante transformação de um fenômeno em outro, a modificação do sentido de cada fenômeno conforme muda o contexto em que está inserido, é muito mais visível do que no estudo de outras realidades sociais, e prepara a mente para enfrentar mais dialeticamente essas outras realidades sociais. Por exemplo, originalmente o fato de o futebol ser jogado predominantemente com os pés não tinha nada a ver com a Revolução Industrial. O futebol era jogado nas escolas inglesas, até a passagem do século 18 para o século 19, mais com as mãos do que com os pés, como no futebol americano e no rugby até hoje. Era permitido carregar a bola com a mão e também a tentativa de tirá-la da mão do adversário que a carregava, o que originava o melê, em que vários jogadores tentavam agarrar a bola ou arrancá-la e acabavam caindo em grupo – como ocorre até hoje no futebol americano ou no rugby. Ocorre que passaram a existir escolas inglesas sem campos gramados e sim com quadras empedradas de jogos. O melê, nessas condições, era particularmente perigoso – os envolvidos acabariam lanhando a pele contra a pedra. Por isso, nessas escolas, ou foi proibido carregar a bola com a mão e também arrancá-la do adversário (uma solução adotada, na passagem do século 19 para o século 20, no desenvolvimento do basquete), ou foi proibido simplesmente tocar a bola com as mãos. Mas, transportado do contexto das escolas britânicas de elite para o contexto das camadas de trabalhadores envolvidas na Revolução Industrial, o fato da proibição das mãos no futebol mudou inteiramente de significado.
Bem, depois da publicação desse livro em 1978, continuei a ler muito sobre futebol, mas não ficção e sim livros de estudos e pesquisas sobre futebol, na maioria estrangeiros. Só mais tarde, acredito que a partir de meados dos anos 1990 (não tenho bem certeza), é que começou a sair mais frequentemente uma produção científica ou documental sobre o futebol no Brasil. Devo dizer que em momento nenhum encontrei, em obras europeias, americanas ou brasileiras sobre o futebol, nenhum motivo para reformular o centro de minha tese, o de que a preferência de determinadas sociedades por determinados esportes não se dá por acaso, mas por razões que têm a ver com a existência e a vivência sociais nessas sociedades.
Nunca consegui ter tempo, recursos financeiros, e muito menos nunca consegui me disciplinar intelectualmente, para aprofundar meus estudos sobre futebol, particularmente para enriquecer e confrontar com documentação empírica os desdobramentos do que julgo terem sido minhas constatações teóricas. Continuei lendo e escrevendo sobre futebol. Cheguei a reunir uma biblioteca respeitável de obras internacionais sobre futebol, mas tive de me desfazer dela em 1999, por motivos financeiros. Tenho lido o que posso sobre futebol pela Internet. Me impressionaram particularmente os poemas de João Cabral de Mello Neto e de Carlos Drummond de Andrade sobre futebol. Continuei e continuo até hoje escrevendo sobre futebol, principalmente como jornalista. A partir de discussões com um intelectual americano e com um intelectual australiano, pela Internet, passei a pesquisar também, recentemente, outros esportes com bola além do futebol.
Convenci-me de que o voleibol é um esporte que atrai pessoas que não apreciam conflitos sociais mais agudos (não há contato físico entre os adversários). Que o tênis é um esporte de burgueses, ou de pessoas de mentalidade burguesa, que se enfrentam individualmente sem entrar na “propriedade” do outro, ou seja, sem entrar na outra metade da quadra. E que o golfe é um esporte de grandes burgueses, pois, exatamente como um grande especulador financeiro, o golfista atua isoladamente, de acordo com seus interesses e possibilidades, sem interagir com os demais golfistas, sem enfrentá-los diretamente, mas procurando derrotá-los indiretamente. Ainda mais porque, pelo que sei, o golfe surgiu na Holanda na época em que se iniciaram naquele país as grandes especulações financeiras internacionais.
Mas procuro não cair nas armadilhas do reducionismo. Sei muito bem que tudo isso acontece no plano simbólico, não no plano real. Nem todo torcedor de time “popular” é defensor das causas populares e nem todo torcedor de time “oligárquico” é favorável às oligarquias.
Renato Pompeu é jornalista e escritor.
19 de novembro de 2013
Os autores que me formaram
Para a revista Metáfora
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Ensaio
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Das letrinhas para a vida: os autores que me formaram
como pessoa, como jornalista e como escritor
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Renato Pompeu
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Normalmente, quando um escritor fala dos livros e autores que mais o influenciaram, ele se está referindo aos que mais o marcaram propriamente como escritor, e é nesse sentido que nas escolas, por exemplo, os professores falam das “influências” na carreira de um autor. Mas o que quero primeiro aqui é falar dos autores, ou melhor, dos trechos, que marcaram propriamente a minha formação como pessoa, a minha visão do mundo, não o meu estilo ou a minha temática como ficcionista.
Desse ponto-de-vista, o autor que mais me influenciou foi um monge japonês do século 12, Kamo no Chomei, autor de um livrinho de apenas 20 páginas, “A cabana dos dez pés quadrados” (ou seja, três metros quadrados), um ensaio autobiográfico. O trecho que me marcou profundamente, já no fim do livro e da vida de Chomei, diz:
“Agora, a lua da minha vida mergulha no céu e está próxima da beira da montanha. Em breve devo rumar para a escuridão dos Três Caminhos: por que então eu me preocuparia comigo mesmo? A essência do ensinamento do Buda ao ser humano é de que não devemos ter apego a nenhum objeto. É agora para mim um pecado amar minha pequena cabana e minha ligação à sua solidão pode ser também um obstáculo para a salvação. Por que eu deveria perder mais tempo precioso em relatar prazeres tão mesquinhos?”
Para bem entender esse trecho, é preciso levar em conta que Chomei, filho de um sacerdote xintoísta, revelou desde a infância grande talento como poeta e isso lhe abriu caminho para uma vida de luxo, ociosidade e prazeres carnais na corte do imperador. Aos 50 anos de idade, no entanto, ele se converteu ao budismo e resolveu se desapegar das coisas deste mundo. Transferiu-se para uma montanha, em meio a uma remota floresta, e, num lugar isolado, construiu com as próprias mãos uma pequena cabana de um cômodo só, cujos únicos móveis eram uma esteira para dormir e uma escrivaninha para escrever, além de ganchos para pendurar uma viola e uma guitarra. Em volta da cabana, plantou uma horta e, além disso, comia os frutos da floresta. Raramente via alguém. Meditava, escrevia, tocava música.
Passou vinte anos assim e, no começo, achava que tinha efetivamente conseguido se desapegar das coisas do mundo, para só viver na espiritualidade. No entanto, como mostra a conclusão acima, ele foi aos poucos percebendo que não tinha conseguido se desapegar das coisas materiais. Afinal, ele se deu conta de que amava... a cabana, a esteira, a escrivaninha, a guitarra, a viola, a horta! Portanto, à luz da doutrina do Buda, ele era... um pecador, tanto quanto era antes quando vivia no luxo, na ociosidade e desfrutando dos prazeres da carne! Sua vida, afinal, era um fracasso! Sabendo disso, agora podemos reler o texto dele acima e meditar. (Outros trechos de seu livro, em inglês, podem ser vistos em http://www.yc.tcu.ac.jp/~kiyou/no5/P114-120.pdf).
Que lição preciosa de vida! Todos tendemos a imaginar algum significado glorioso para a nossa vida, no entanto temos de ter humildade para reconhecer que nunca alcançamos a perfeição a que almejamos.
Outro autor que influenciou a minha visão do mundo foi Ivo Andric (1892-1975), da antiga Iugoslávia, croata da Bósnia que escreveu em sérvio, vencedor do Prêmio Nobel de 1961. Diplomata do antigo Reino da Iugoslávia, por se opor ao fascismo vitorioso em seu país, na passagem dos anos 1930 para os anos 1940, ficou praticamente confinado à sua casa em Belgrado durante a Segunda Guerra Mundial, período em que escreveu sua obra-prima, o romance “A ponte sobre o Drina” (1945). O Drina é um rio da antiga Iugoslávia e essa ponte, realmente existente, inaugurada em 1566, foi destruída na Primeira Guerra Mundial. Era situada na cidade bósnia de Visegrad, perto de Sarajevo; Andric passou a infância em Visegrad, cenário de quase todas as suas obras.
A frase que marcou a minha vida é:
Agora voltemos aos tempos em que essa ponte não era nem mesmo um sonho.
Para entender essa frase, notemos que o livro é cheio de sutilezas. A história se passa toda durante o domínio otomano sobre a Bósnia e a narrativa nunca sai da ponte, ao longo de três séculos e meio: são diferentes episódios sobre personagens que passam pela ponte, param nela ou no caravançará a ela anexo. Na verdade, o livro, em sérvio, se chama “Sobre o Drina, a ponte”, ou, mais exatamente, “Na Drini, çuprija”. Em sérvio existem duas palavras para “ponte”, uma é “mesto”, uma palavra eslava castiça; a outra é “çuprija”, de origem turca. O fato de o título do romance ter uma vírgula separando palavras eslavas de uma palavra turca é intencional: a vírgula, como a Bósnia, ao mesmo tempo separa e une o Ocidente e o Oriente, ao mesmo tempo em que a vírgula é uma “ponte”. Lendo-se com cuidado, Andric, além de grande prosador, é um grande poeta; suas palavras e frases, além de denotarem realidades, também conotam emoções e valores.
Ele narra como, durante o Império otomano, crianças cristãs eram sequestradas de seus pais e de suas mães e eram educadas como muçulmanas. Baseando-se em fatos reais, Andric narra como um menino cristão que mal aprendeu a falar foi arrancado dos braços de sua mãe e foi levado por seus sequestradores muçulmanos numa travessia de barco, passando assim o Drina na altura de Visegrad e iniciando sua vida de islamita. Muitos anos depois, já sexagenário e tornado grão-vizir (primeiro-ministro) do Império turco, ele se lembra, ao atravessar novamente o Drina no mesmo ponto, que sempre sentia “uma súbita dor no coração” quando passava por ali, lembrando-se inconscientemente de que fora ali separado da mãe. Então ele decide mandar construir uma ponte naquela passagem do rio.
A ponte, criada por um arquiteto e mestre-de-obras italiano, é uma obra de arte, toda esculpida. Depois de Andric descrever toda a beleza e toda a imponência da ponte sobre o Drina, é que ele escreve a frase acima. A leitura dessa frase me fez me sentir iluminado por uma revelação: todas as obras humanas que vemos não existiram desde sempre. Houve um tempo em que não existiam sequer como sonho ou projeto, depois passaram pela fase de sonho, finalmente se concretizaram... e estão destinadas a desaparecer. É triste saber que tudo acaba, mas me sinto feliz em saber que alguns sonhos se cumprem.
Agora, pode haver, para os leitores da Metáfora, também interesse em saber que livros me influenciaram como jornalista. Quando me iniciei como jornalista, nos anos 1960, a linguagem jornalística era um tanto empolada e não se podia repetir palavra. Assim, se no texto já houvesse sido mencionado um “hospital” ou um “cemitério”, na próxima vez se tinha de falar em “nosocômio”, no primeiro caso, e “necrópole”, no segundo. Não se podia falar em “câncer”, se dizia “insidiosa moléstia”. Em reação a isso, minha geração – não se esqueçam de que eram os famosos anos 1960 – partiu para um jornalismo mais literário, chamado na época de “novo jornalismo”.
Nossos modelos eram principalmente dois escritores americanos, mais exatamente um livro de cada um deles. Um livro era “A sangue frio”, uma reportagem escrita como se fosse um romance, do escritor e jornalista Truman Capote, em que ele descrevia com detalhes uma chacina realmente ocorrida, em que toda uma família havia sido assassinada. (Além do livro, recomendo também o filme “Capote”). O outro livro era um romance escrito como se fosse uma reportagem, “O velho e o mar”, do escritor, jornalista e combatente republicano na Guerra Civil Espanhola, que ganhou o Nobel, Ernest Hemingway. É a história de um idoso pescador cubano que pesca um grande peixe em alto mar e o vai arrastando rumo à terra, enquanto tubarões vão devorando o grande peixe que ele apanhou.
Os dois livros tinham em comum o fato de serem escritos em uma linguagem empolgante; a gente não “lia” como os personagens agiam, a gente os “via” agindo, tal o caráter dinâmico, veloz e extremamente descritivo, ao mesmo tempo evocativo, dos dois textos. Foi um momento em que o jornalismo brasileiro teve ambições literárias maiores, cujo exemplo maior foi a até hoje célebre fase inicial da revista “Realidade” (onde por sinal não trabalhei), até hoje, meio século depois, um parâmetro muito importante para o jornalismo, para os jornalistas, e para os leitores.
Pode haver interesse também em saber quais livros foram importantes para mim como escritor, livros que influenciaram os meus estilos e as minhas temáticas como ficção. Lembro de particularmente três escritores que me marcaram, dois mais famosos e um menos conhecido: o brasileiro do século 19 Machado de Assis, o alemão do século 20 Thomas Mann e o húngaro, também do século 20, Odon Horvath.
De Machado me marcou particularmente a volubilidade que ele demonstra, particularmente, no romance “Dom Casmurro”, ele vai mudando de um assunto para outro, amenamente, agradavelmente, alegremente, fazendo a gente desejar participar da felicidade criativa, do gozo de que ele desfrutava ao escrever tão voluptuosamente. Já Thomas Mann, no romance “A Montanha Mágica”, me impressionou como ele leva centenas de páginas descrevendo um mundo encantado e cheio de enlevo em que tantas pessoas viviam, tão entusiasmadas, tão felizes – para no fim, em poucas palavras, em rápidas chicotadas verbais, destruir aquela beleza tão maravilhosa. Finalmente, Horvath, na novela “Juventude sem Deus”, sobre os inícios do nazismo na Áustria, me marcou pela importância dada ao futebol, já nos anos 1920. Me lembro particularmente de um seu personagem, um goleiro que narra passagens de sua vida, em especial seus jogos na Ilha de Malta, onde, segundo ele conta, os campos eram de pedra, de rocha nua, pois a ilha não tinha gramados ou mesmo árvores, tão seca e tão rochosa que era. Eu ficava pensando no goleiro esgarçando seu corpo inteiro na pequena área pedregosa, para pegar uma bola rasteira...
Renato Pompeu é jornalista e escritor, autor do romance-ensaio “O mundo como obra de arte criada pelo Brasil”, Editora Casa Amarela.
18 de abril de 2013
Como obter meus livros
Os que quiserem ter acesso a meus livros podem acessar http://loja.alfaomega.com.br/, exemplares novos a preço de mercado, e http://www.estantevirtual.com.br, exemplares usados a preço de sebo.
9 de abril de 2013
Introdução de Juca Kfouri ao romance A saída do primeiro tempo, de Renato Pompeu, de 1978
Introdução
Juca Kfouri
A “Saída do Primeiro Tempo” é um clássico da literatura futebolística nacional.
Pena que, de tão vanguardista, tenha sido lançado ainda em 1978, razão pela qual, apesar de atualíssimo, o livro seja muito menos conhecido, e badalado, do que merece e precisa ser.
Precursor de obras como as de José Miguel Wisnik (“Veneno Remédio”) e Hilário Franco Júnior (“A Dança dos Deuses”), Renato Pompeu nos conta uma literalmente fantástica história da Ponte Preta, dessas que torcedor algum pode desconhecer.
E, se não bastasse, no intervalo entre o primeiro e o segundo tempos da saga do espectro da velha Macaca, Pompeu traça uma genial, criativa, obrigatória, Teoria do Futebol, tomando de empréstimo o primeiro capítulo de “O Capital” de Karl Marx, sobre a Mercadoria e seus fetiches.
Ninguém passa impune sobre as 74 páginas do ensaio, “O Futebol, Crítica da Economia Política”.
Ninguém.
Nem que não goste, até odeie ou despreze o futebol.
E ninguém que leia seguirá vendo futebol do mesmo jeito.
Em ótima hora, porque o Século 21, a Ponte Preta e as torcidas do Corinthians e do Flamengo merecem, para não falar das demais, é claro, a obra de Pompeu é relançada, para compor uma espécie de trilogia com Wisnik e Franco, compondo um triângulo que vai muito além das bermudas, porque das chuteiras, calções e camisas que produzem esse encantamento chamado jogo de futebol, com todos os seus segredos, seus mistérios mesmo, que quanto mais revelam mais escondem, num jogo mágico de labirintos sem fim.
Porque, como Pompeu explica sabiamente, as ciências sociais têm se preocupado mais com coisas chatas do que com as lindas e maravilhosas como o Futebol, que carrega em si a tendência de ser Atividade Única do mesmo modo que se sonha com a Religião Única ou com o Partido Único.
Ora, quem já pensou que o futebol implica na existência da Mulher, pois senão os jogadores não teriam nascido?
Pompeu pensou.
Quem já refletiu sobre a complexidade da Saída do Primeiro Tempo?
Pompeu refletiu.
E sobre a vocação democrática implícita do futebol?
Além do Doutor Sócrates, só Pompeu ponderou, e antes do Magrão.
O homem brinca com a bola que é redonda como o mundo é redondo e realiza pelo futebol o desejo de todos, o de brincar com o mundo.
Pompeu brinca com as palavras, com as ideias, as teorias, e nos diverte e instiga ao tratar o óbvio com a inteligência que só os mais bem providos são capazes.
Tanto que elege João Saldanha como o maior intelectual brasileiro e ensina que o gol é a vitória da Vida sobre a Morte, o triunfo do dinamismo contra o imobilismo, já que os jogadores e a bola são móveis, e, as traves, imóveis.
Não, não contarei mais.
Chega de estragar prazeres.
Pena que o velho alemão não poderá desfrutá-los como você.
Opinião de Felipe Dias Carrilho sobre o romance "A saída do primeiro tempo", de Renato Pompeu, de 1978
Em 06/09/2012 16:34, Felipe Carrilho < felipe.carrilho@gmail.com > escreveu:
Olá, Renato Pompeu,
Segue o meu texto no corpo do e-mail. Avise-me, por favor, dos acontecimentos referentes à nova publicação.
Um abraço,
Felipe.
Felipe Carrilho
Produto da sociedade inglesa do
século 19, o futebol adentrou o Brasil com estatuto de
passatempo aristocrático. Restrito aos clubes amadores, foi
então exaltado pelos nossos intelectuais enquanto elemento
constitutivo de virtudes como a disciplina e a higiene corporal.
A sua popularização,
porém, veio acompanhada de tensões sociais. À
medida que se mostrava acessível aos trabalhadores e aos
negros – há pouco ainda submetidos à escravidão
–, o futebol se tornou alvo de críticas por parte da
intelectualidade. Foi árduo, portanto, o percurso histórico
que garantiu direitos trabalhistas aos jogadores, na década de
1930, e que depois transformou o Brasil no “país do
futebol”, com as conquistas das Copas de 1958, 62 e 70.
No final dos anos 1970, enquanto a
maior parte dos nossos cientistas sociais ignorava o futebol como
objeto de análise acadêmica e o movimento democrático
tendia a rotulá-lo de “ópio do povo”, Renato
Pompeu, então um jovem jornalista, publicava um livro
inovador.
A Saída do Primeiro Tempo
é um romance cujo tema central é o futebol nas suas
diversas implicações, históricas, econômicas
e sociais. Por meio de imagens insólitas, o leitor é
conduzido aos descaminhos do “espectro da Ponte Preta”,
personagem central, e símbolo da chama contestadora que por
vezes acomete o coração dos moradores de Campinas,
alterando a sua percepção do mundo.
Narrativa de tom onírico,
com forte apelo sensorial, encontra no cotidiano conservador da
cidade paulista a amostragem ideal para dimensionar o potencial
transformador do futebol. Na esteira dessas possibilidades, um
intelectual, espécie de alter ego do autor, elabora uma
tese filosófica sobre esse esporte, impressionante na acuidade
da análise e na beleza e humor da estética literária.
Muitas das proposições
acadêmicas atuais sobre o futebol que vêm a público
com sabor de novidade já haviam sido, ao menos, prenunciadas
por Renato Pompeu neste romance. Ler A Saída do Primeiro
Tempo, portanto, além de
uma atividade imensamente prazerosa, é um exercício
obrigatório para quem deseja entender melhor o fenômeno
do futebol, no Brasil e no mundo.
--
Felipe Dias Carrilho
Historiador e autor do livro Futebol, uma janela para o Brasil -
As relações entre o futebol e a sociedade brasileira, assina também a coluna Jogo de Classe do site Escrevinhador.
De Maria Rita Kehl, sobre "Quatro-Olhos", romance de 1976 de Renato Pompeu
'Os dois livros de Quatro Olhos
Maria Rita Kehl
A dedicatória do autor na primeira folha de meu exemplar de Quatro Olhos é de 1977, ano em que conheci Renato Pompeu na redação da revista Veja. Recomecei a leitura, 35 anos depois, temerosa de que o livro pudesse ter envelhecido. Nada disso: a passagem do tempo só fez ampliar o alcance, literário e crítico, do primeiro romance de Pompeu.
Um livro dentro de outro livro: assim o autor construiu sua narrativa estilhaçada, a partir da tentativa do personagem-narrador de recuperar os originais do texto que teria escrito ao longo de treze anos, entre a adolescência e a juventude, e que perdera “em circunstâncias que não me convém deixar esclarecidas”. Por conta da perda irrecuperável – pode-se reescrever uma história, mas dificilmente se reproduz uma página no estilo em que fora escrita – a narrativa vai e volta entre dois tempos passados. Há o passado mais remoto em que o livro foi escrito, desde a adolescência do narrador até o período em que viveu à sombra da esposa, grã-fina e militante, até que ela desaparecesse a fugir da polícia e ele perdesse, junto com o pouco juízo que tinha, os originais do tal livro. Era uma época em que se perdiam originais em papel, não em pen-drive. Esse período é todo atravessado por trechos do livro perdido, que o narrador tenta recuperar de memória.
A julgar pelos trechos recordados pelo narrador, o rascunho perdido poderia ter realizado o sonho flaubertiano de escrever “um livro sobre nada”. O que pode parecer no mínimo extemporâneo, dada a urgência que a época impunha de se escrever duras denúncias da situação política. A fina ironia de Pompeu deixa o leitor confuso. Seria o personagem-narrador, autor do livro perdido, um típico “alienado” que preferia ignorar os acontecimentos que traumatizaram o país na década de 1970? Pelo menos era assim que o julgavam a esposa e seus amigos engajados. A leitura de Quatro Olhos revela, aos poucos e com rara sensibilidade, o modo como o autor tece a trama sutil entre a esfera do poder (pouco compreensível para o narrador) e os acontecimentos mais miúdos da vida cotidiana. Enquanto o livro perdido parecia querer recuperar fragmentos de percepções e sensações não contaminadas pela barbárie política – uma réstia de sol num pedaço de muro, uma flor no canteiro central da avenida, grãos de areia esquecidos num chinelo de praia – o segundo livro relata, como que à revelia do narrador, a brutalidade que contaminou a vida cotidiana, desfez o sentido de tudo e acabou por enlouquecer nosso anti-herói. É no hospício que ele encontra, enfim, um pouco de sanidade, de contato humano e de solidariedade espontânea, em contraposição ao sem sentido da vida lá fora.
Depois da alta, ao descobrir que a realidade brasileira já lhe roubara duas mulheres, o narrador decide o que deve fazer: recomeçar a escrever o livro. O que promove um giro completo na mente do leitor: será este Quatro olhos que ele tem em mãos aquele livro que seu personagem, ao final, pretende recuperar?
Proposta egocêntrica: discussão sobre meus livros
Proponho instaurar no blog um fórum de debates sobre meus 22 livros publicados, de 1976 a 2008. Praticamente todos são encontrados no sebo internético www.estantevirtual.com.br, a preços irrisórios. Disponho de 5 exemplares do mais recente, o romance-ensaio "O mundo como obra de arte criada pelo Brasil". Quem quiser, de graça, pode mandar o endereço postal para rrpompeu@uol.com.br. Os primeiros cinco serão atendidos.
12 de novembro de 2011
Carta sobre transtornos mentais
Enviei a seguinte carta à revista Retrato do Brasil:
O trabalho do repórter Tomás Chiaverini sobre os tratamentos de transtornos mentais está bastante adequado e é um marco na luta pelo avanço na discussão pública do assunto. No que se refere a mim, no entanto, houve alguns pequenos equívocos. Na verdade, quando estive internado durante um ano e meio em 1974-75 no começo eu saía diariamente para trabalhar e mais tarde, quando fui transferido para outra clínica em outra cidade bem distante, é que eu comecei a comparecer à sede da empresa uma vez por semana, quando a reportagem informa justamente o contrário. Estive internado pela última vez no ano 2000 e não em 2005, como consta da matéria. Minha última alucinação foi em 1980, e não em 2000, como está dito na reportagem. Nunca recebi qualquer diagnóstico, muito menos de esquizofrenia; eu é que pessoalmente me reconheço em alguns sintomas desse transtorno tais como se encontram no código internacional. Não estive internado em hospitais psiquiátricos clássicos, onde médicos e outros profissionais se distinguem dos pacientes já ao usarem jalecos brancos. Estive internado em comunidades terapêuticas, onde os médicos e os outros profissionais só se distinguem dos pacientes por terem acesso exclusivo a medicamentos. De resto, todos eram iguais em direitos e deveres, tendo eu exercido, por exemplo, a função de atendente. Agora, os Caps atuais me parecem que não são tão avançados quanto os locais em que estive internado nos anos 1970. Os pacientes ricos continuam tendo acesso a comunidades terapêuticas adequadas; a maioria dos pacientes pobres continua não recebendo uma boa assistência. Verifico que eu próprio estava mal informado. Eu não sabia nada sobre “lar abrigado” e “residência terapêutica”, mas pelo que entendi são locais de internação bastante semelhantes, mas menos avançados, do que as comunidades terapêuticas em que estive internado. Assim, retiro a crítica à proibição da internação por mais de quinze dias. No entanto, a maior parte da população está tão mal informada quanto eu estava, tanto que a família do cidadão que depois provocou a chacina do Realengo procurou tratamento para ele, mas não conseguiu.
Renato Pompeu
O trabalho do repórter Tomás Chiaverini sobre os tratamentos de transtornos mentais está bastante adequado e é um marco na luta pelo avanço na discussão pública do assunto. No que se refere a mim, no entanto, houve alguns pequenos equívocos. Na verdade, quando estive internado durante um ano e meio em 1974-75 no começo eu saía diariamente para trabalhar e mais tarde, quando fui transferido para outra clínica em outra cidade bem distante, é que eu comecei a comparecer à sede da empresa uma vez por semana, quando a reportagem informa justamente o contrário. Estive internado pela última vez no ano 2000 e não em 2005, como consta da matéria. Minha última alucinação foi em 1980, e não em 2000, como está dito na reportagem. Nunca recebi qualquer diagnóstico, muito menos de esquizofrenia; eu é que pessoalmente me reconheço em alguns sintomas desse transtorno tais como se encontram no código internacional. Não estive internado em hospitais psiquiátricos clássicos, onde médicos e outros profissionais se distinguem dos pacientes já ao usarem jalecos brancos. Estive internado em comunidades terapêuticas, onde os médicos e os outros profissionais só se distinguem dos pacientes por terem acesso exclusivo a medicamentos. De resto, todos eram iguais em direitos e deveres, tendo eu exercido, por exemplo, a função de atendente. Agora, os Caps atuais me parecem que não são tão avançados quanto os locais em que estive internado nos anos 1970. Os pacientes ricos continuam tendo acesso a comunidades terapêuticas adequadas; a maioria dos pacientes pobres continua não recebendo uma boa assistência. Verifico que eu próprio estava mal informado. Eu não sabia nada sobre “lar abrigado” e “residência terapêutica”, mas pelo que entendi são locais de internação bastante semelhantes, mas menos avançados, do que as comunidades terapêuticas em que estive internado. Assim, retiro a crítica à proibição da internação por mais de quinze dias. No entanto, a maior parte da população está tão mal informada quanto eu estava, tanto que a família do cidadão que depois provocou a chacina do Realengo procurou tratamento para ele, mas não conseguiu.
Renato Pompeu
18 de outubro de 2011
Os 70 anos de Renato Pompeu
Estou completando 70 anos e haverá uma comemoração, com exposição de meus livros, dia 29 de outubro corrente, sábado, a partir das 13 horas, no Benina Bar, rua Girassol 164, na Vila Madalena, em São Paulo. Quem quiser ir, queira mandar mensagem de confirmação para rrpompeu@uol.com.br
5 de novembro de 2010
Um balanço de 50 anos de jornalismo
O último capítulo destas lembranças
“Eu sou do tempo que as camisas dos jogadores não tinham números”
Depois de completar 50 anos de jornalismo profissional, estou pondo fim a estas memórias. Como disse no primeiro artigo da série, nunca exerci cargos de chefia, a não ser durante algumas semanas, e assim não fiquei sabendo de muita coisa das decisões editoriais, mesmo nos órgãos em que trabalhei. Já contei aqui todos os casos de manipulação de notícias de que tive conhecimento, embora imagine que muitos mais tenham ocorrido em praticamente todas as publicações de que fui funcionário ou colaborador. Nada mais tenho de relevância a contar aos leitores.
Fazendo um balanço de minhas experiências, chego à conclusão de que nenhum dos atuais modelos de jornalismo vigentes no mundo me parece satisfatório, no Brasil, nos Estados Unidos, na Europa, em Cuba ou na Coréia do Norte. Lembro sempre do lema americano de que a liberdade de imprensa é a liberdade de cada proprietário de impressora. Ou seja, ou a liberdade é de um grupo privado, ou é a de um órgão estatal. Sonho com o que Marx aponta na “Crítica ao programa de Gotha”, de 1875: a propriedade pública, a propriedade pela sociedade, a propriedade de cada um e de todos, e não a propriedade de uns poucos ou estatal. Todos os cidadãos e cidadãs seriam donos de tudo e teriam direito a participar das decisões em todas as atividades sociais. Me parece que isso é tornado materialmente possível pelos modernos meios eletrônicos, como a Internet.
Fico em dúvida se a liberdade de expressão deve ser absoluta, como nos Estados Unidos, em que racistas, partidários de guerras de conquista, etc., têm plena liberdade de divulgar suas posições odiosas.
Além disso, se é possível vislumbrar na Internet a possibilidade material da concretização do direito de todos e de cada um de prestar informações, não consigo vislumbrar uma possibilidade de materializar as condições de fazer a informação de cada um ficar em pé de igualdade com todos os outros prestadores de informações no que se refere a atingir o público.
Sinto que devo uma palavra aos jovens: vale a pena ser jornalista? A resposta depende de cada caso e de cada situação concreta. Finalmente, acho que devo também uma posição sobre a exigência de diploma em jornalismo para ser jornalista. Não posso ser a favor dessa exigência, pois eu mesmo só tenho diploma do secundário. Como disse, luto por uma sociedade em que todos possam ser jornalistas. Mas, aos jovens que me perguntam, na situação concreta da sociedade atual, se vale a pena fazer o curso de jornalismo, respondo que sim, dependendo se o curso é bom ou não. Não há necessidade de diploma para administrar empresas, mas os formados em administração estão mais preparados para enfrentar o mercado.
“Eu sou do tempo que as camisas dos jogadores não tinham números”
Depois de completar 50 anos de jornalismo profissional, estou pondo fim a estas memórias. Como disse no primeiro artigo da série, nunca exerci cargos de chefia, a não ser durante algumas semanas, e assim não fiquei sabendo de muita coisa das decisões editoriais, mesmo nos órgãos em que trabalhei. Já contei aqui todos os casos de manipulação de notícias de que tive conhecimento, embora imagine que muitos mais tenham ocorrido em praticamente todas as publicações de que fui funcionário ou colaborador. Nada mais tenho de relevância a contar aos leitores.
Fazendo um balanço de minhas experiências, chego à conclusão de que nenhum dos atuais modelos de jornalismo vigentes no mundo me parece satisfatório, no Brasil, nos Estados Unidos, na Europa, em Cuba ou na Coréia do Norte. Lembro sempre do lema americano de que a liberdade de imprensa é a liberdade de cada proprietário de impressora. Ou seja, ou a liberdade é de um grupo privado, ou é a de um órgão estatal. Sonho com o que Marx aponta na “Crítica ao programa de Gotha”, de 1875: a propriedade pública, a propriedade pela sociedade, a propriedade de cada um e de todos, e não a propriedade de uns poucos ou estatal. Todos os cidadãos e cidadãs seriam donos de tudo e teriam direito a participar das decisões em todas as atividades sociais. Me parece que isso é tornado materialmente possível pelos modernos meios eletrônicos, como a Internet.
Fico em dúvida se a liberdade de expressão deve ser absoluta, como nos Estados Unidos, em que racistas, partidários de guerras de conquista, etc., têm plena liberdade de divulgar suas posições odiosas.
Além disso, se é possível vislumbrar na Internet a possibilidade material da concretização do direito de todos e de cada um de prestar informações, não consigo vislumbrar uma possibilidade de materializar as condições de fazer a informação de cada um ficar em pé de igualdade com todos os outros prestadores de informações no que se refere a atingir o público.
Sinto que devo uma palavra aos jovens: vale a pena ser jornalista? A resposta depende de cada caso e de cada situação concreta. Finalmente, acho que devo também uma posição sobre a exigência de diploma em jornalismo para ser jornalista. Não posso ser a favor dessa exigência, pois eu mesmo só tenho diploma do secundário. Como disse, luto por uma sociedade em que todos possam ser jornalistas. Mas, aos jovens que me perguntam, na situação concreta da sociedade atual, se vale a pena fazer o curso de jornalismo, respondo que sim, dependendo se o curso é bom ou não. Não há necessidade de diploma para administrar empresas, mas os formados em administração estão mais preparados para enfrentar o mercado.
25 de outubro de 2010
50 anos de jornalismo
Em março último, a revista Caros Amigos publicou o seguinte artigo:
Ca156memorias
Memórias de um jornalista não investigativo
Meio século de alegrias e frustrações
“Eu sou do tempo que se dizia que jornal servia para embrulhar peixe”
Renato Pompeu
Estou completando este mês 50 anos de jornalismo profissional, que iniciei entrando por concurso em 1960 na “Folha da Manhã”, hoje “Folha de S. Paulo”. Continuo enfrentando a profissão como a iniciei: alegre por prestar um serviço público e frustrado por não conseguir, por limites pessoais e externos, prestar plenamente esse serviço.
Aprendi muito nessas décadas todas. Em primeiro lugar, aprendi que um jornalista não precisa saber nada, precisa apenas saber quem sabe. O jornalista, ao contrário dos intelectuais, não tem de divulgar seus conhecimentos, e sim de divulgar o conhecimento de terceiros, sempre relatando que se baseia em fontes, embora possa não identificar essas fontes. Essas fontes podem ser testemunhas, especialistas ou pesquisas e outras documentações. O que o jornalista precisa saber é realmente como conseguir chegar às fontes em cada assunto específico, e distinguir entre as fontes boas e más.
Uma segunda constatação que fiz é que a especialização em alguma problemática, seja Esportes ou Polícia, ou seja qual for, pode ser mais prejudicial do que benéfica. Um jornalista sempre depende de suas fontes e, se insistir ficar anos a fio cobrindo o mesmo campo, pode ficar prisioneiro de suas fontes. Ele não pode correr o risco de desagradar cada uma de suas fontes, publicando uma informação importante que a fonte não quer ver divulgada, por exemplo, pois nesse caso a fonte deixará de prestar novas informações. Por isso, ao longo de minha carreira, sempre procurei passar sucessivamente de um campo de cobertura para outro. A tal ponto que, quando me perguntam, “Afinal, você é jornalista especializado em quê?”, sempre respondo: “Sou jornalista especializado em jornalismo”.
Outra coisa que aprendi foi que cada jornalista tem as fontes que merece. Se o jornalista for um ser intelectualizado que procura ser isento, ele terá como fontes seres intelectualizados que procuram ser isentos. Se o jornalista for conservador, terá conservadores como fontes. Se o jornalista for esquerdista porra louca, terá esquerdistas porras loucas como fontes. Dize-me quem são tuas fontes, e dir-te-ei quem és. Ou melhor, dize-me quem és e dir-te-ei quem são as tuas fontes.
Finalmente, aprendi que existe um outro jogo de espelhamentos como esse entre os jornalistas e suas fontes: é a identificação dos integrantes de uma redação bem sucedida com o seu público. A composição social, política e cultural de uma redação bem sucedida vai ao mesmo tempo criando um público de composição social, política e cultural semelhante, e vice-versa, as exigências do público vão alterando a composição da redação que serve àquele público. Disse Marx, referindo-se a livros, “Cada obra cria o seu próprio público”. Disse meu falecido irmão, jornalista Sérgio Pompeu: “O jornalista precisa ter um vínculo com seu público”, do contrário sua obra cairá no vazio, ou mesmo será recebida com hostilidade. Dize-me se você gosta de me ler e dir-te-ei que você é parecido-parecida comigo.
Ca156memorias
Memórias de um jornalista não investigativo
Meio século de alegrias e frustrações
“Eu sou do tempo que se dizia que jornal servia para embrulhar peixe”
Renato Pompeu
Estou completando este mês 50 anos de jornalismo profissional, que iniciei entrando por concurso em 1960 na “Folha da Manhã”, hoje “Folha de S. Paulo”. Continuo enfrentando a profissão como a iniciei: alegre por prestar um serviço público e frustrado por não conseguir, por limites pessoais e externos, prestar plenamente esse serviço.
Aprendi muito nessas décadas todas. Em primeiro lugar, aprendi que um jornalista não precisa saber nada, precisa apenas saber quem sabe. O jornalista, ao contrário dos intelectuais, não tem de divulgar seus conhecimentos, e sim de divulgar o conhecimento de terceiros, sempre relatando que se baseia em fontes, embora possa não identificar essas fontes. Essas fontes podem ser testemunhas, especialistas ou pesquisas e outras documentações. O que o jornalista precisa saber é realmente como conseguir chegar às fontes em cada assunto específico, e distinguir entre as fontes boas e más.
Uma segunda constatação que fiz é que a especialização em alguma problemática, seja Esportes ou Polícia, ou seja qual for, pode ser mais prejudicial do que benéfica. Um jornalista sempre depende de suas fontes e, se insistir ficar anos a fio cobrindo o mesmo campo, pode ficar prisioneiro de suas fontes. Ele não pode correr o risco de desagradar cada uma de suas fontes, publicando uma informação importante que a fonte não quer ver divulgada, por exemplo, pois nesse caso a fonte deixará de prestar novas informações. Por isso, ao longo de minha carreira, sempre procurei passar sucessivamente de um campo de cobertura para outro. A tal ponto que, quando me perguntam, “Afinal, você é jornalista especializado em quê?”, sempre respondo: “Sou jornalista especializado em jornalismo”.
Outra coisa que aprendi foi que cada jornalista tem as fontes que merece. Se o jornalista for um ser intelectualizado que procura ser isento, ele terá como fontes seres intelectualizados que procuram ser isentos. Se o jornalista for conservador, terá conservadores como fontes. Se o jornalista for esquerdista porra louca, terá esquerdistas porras loucas como fontes. Dize-me quem são tuas fontes, e dir-te-ei quem és. Ou melhor, dize-me quem és e dir-te-ei quem são as tuas fontes.
Finalmente, aprendi que existe um outro jogo de espelhamentos como esse entre os jornalistas e suas fontes: é a identificação dos integrantes de uma redação bem sucedida com o seu público. A composição social, política e cultural de uma redação bem sucedida vai ao mesmo tempo criando um público de composição social, política e cultural semelhante, e vice-versa, as exigências do público vão alterando a composição da redação que serve àquele público. Disse Marx, referindo-se a livros, “Cada obra cria o seu próprio público”. Disse meu falecido irmão, jornalista Sérgio Pompeu: “O jornalista precisa ter um vínculo com seu público”, do contrário sua obra cairá no vazio, ou mesmo será recebida com hostilidade. Dize-me se você gosta de me ler e dir-te-ei que você é parecido-parecida comigo.
22 de janeiro de 2010
Minha resenha sobre Nelson Rodrigues no Diário do Comércio
Hoje, sexta-feira, 22 de janeiro, saiu no suplemento DC Cultura do Diário do Comércio, de São Paulo, uma resenha minha sobre uma coletânea de crônicas de Nelson Rodrigues, da série publicada no jornal Última Hora nos anos 1950, "A vida como ela é", coletânea editada pela Agir. O que eu digo é que a coletânea narra "a vida como ela era" naquele tempo.
24 de outubro de 2009
Reflexões de aniversário
Estou completando hoje 68 anos de idade, e no ano que vem devo completar 50 anos de jornalismo profissional. Vi muitos sonhos de minha juventude serem derrubados com o Muro de Berlim vinte anos atrás, mas esses sonhos renascem com a perspectiva de lutarmos por um governo mundial, eleito por todos os adultos do planeta, mantida a autonomia dos governos nacionais, como se mantém na União Europeia, e para que esse governo tenha a função de regular os fluxos de investimentos e de mão-de-obra, estabelecendo um salário mínimo mundial, um salário máximo mundial, direitos trabalhistas em escala mundial, bem como a extensão das liberdades democráticas em escala mundial, e a intervenção em caso de conflitos armados. O que vocês acham? - Renato Pompeu
15 de outubro de 2009
Você pergunta e o Renatão responde - a primeira é sobre o MST
Você pode enviar, pelo comentários, qualquer pergunta, que o Renatão tentará responder. A primeira pergunta, enviada pelo correio eletrônico, é de Carlos Chammas, médico em Cruzeiro-SP. Ele pede para eu fazer um comentário sobre o MST. Sobre essa questão, digo o seguinte: aqueles que fazem críticas ao MST, por exemplo, pelo fato de muitos assentados viverem em condições piores do que as dos acampados; sobre muitos assentados venderem suas terras e irem para outros acampamentos; sobre muitos sem-terra cometerem outras irregularidades, como o desmatamento ilegal; sobre a pequena agricultura de subsistência ser um anacronismo no século 21 - tudo bem, vocês podem ter razão em muitos casos. Mas qual a alternativa que propõem a essas centenas de milhares ou mesmo milhões de pessoas? Ficar tudo como está e proibir o MST? Deixar que o livre mercado resolva a questão da sobrevivência digna dos seres humanos? Se forem estas duas últimas as respostas, continuo apoiando firmemente o MST, com todas as suas dificuldades.
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